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Google investe US$ 75 milhões na A24 para desenvolver ferramentas de IA para filmes

Acordo com a DeepMind prevê tecnologias para planejamento e produção, mas impede o uso do catálogo do estúdio no treinamento de modelos.

por Daniel Soto
26/06/2026 às 19h59
em Tecnologia
Google - Gazeta Mercantil

O Google investirá aproximadamente US$ 75 milhões, equivalentes a cerca de R$ 388 milhões, no estúdio independente A24 como parte de uma parceria de pesquisa voltada ao desenvolvimento de ferramentas de inteligência artificial para o cinema. O acordo, anunciado nesta semana, conectará pesquisadores da Google DeepMind a cineastas, produtores e profissionais do estúdio para testar novas tecnologias em situações reais de produção.

O investimento representa a primeira participação societária do Google em um estúdio cinematográfico, segundo informações divulgadas pelo The Wall Street Journal. As empresas não revelaram oficialmente o valor da operação, nem o percentual que ficará sob controle da companhia de tecnologia.

A parceria entre Google e A24 será plurianual e não exclusiva. Isso significa que o estúdio poderá manter acordos com outras empresas de tecnologia, enquanto o Google poderá desenvolver projetos semelhantes com diferentes produtoras e grupos de entretenimento.

O contrato também não autoriza o Google a acessar o catálogo de filmes e séries da A24 para treinar modelos de inteligência artificial. Obras como Tudo em Todo Lugar ao Mesmo Tempo, Moonlight, Midsommar, Guerra Civil e Backrooms não farão parte de uma base de treinamento automática criada a partir do acordo.

A proposta declarada pelas empresas é desenvolver ferramentas capazes de auxiliar profissionais durante o planejamento, a produção e a distribuição de obras audiovisuais, mantendo cineastas e equipes criativas no controle das decisões.

Primeira ferramenta deverá gerar storyboards

Um dos primeiros projetos previstos na parceria entre Google e A24 é uma ferramenta destinada à criação de storyboards, sequências de imagens utilizadas para planejar enquadramentos, movimentos de câmera, cenários e a ordem das cenas antes do início das filmagens.

O sistema deverá permitir que diretores e produtores testem visualmente diferentes possibilidades durante a pré-produção. A ferramenta poderá transformar orientações textuais, desenhos preliminares e referências visuais em representações das cenas que serão filmadas.

A iniciativa está sendo conduzida pela A24 Labs, divisão tecnológica criada pelo estúdio e liderada por Scott Belsky, ex-executivo da Adobe. A equipe reúne aproximadamente 20 profissionais dedicados ao desenvolvimento de recursos digitais para cinema e entretenimento.

Segundo Belsky, a intenção não é simplesmente utilizar inteligência artificial para reduzir orçamentos. A estratégia procura colocar ferramentas experimentais nas mãos de cineastas, para que os próprios profissionais indiquem quais recursos são úteis e quais ameaçam interferir indevidamente no processo criativo.

A criação de storyboards por inteligência artificial, entretanto, deverá ampliar o debate sobre os efeitos da automação sobre ilustradores e artistas especializados. Tradicionalmente, esses profissionais trabalham ao lado de diretores para traduzir roteiros e orientações em imagens capazes de guiar as equipes de produção.

A A24 sustenta que a ferramenta será desenvolvida com acompanhamento de profissionais do cinema e não funcionará como um mecanismo autônomo de substituição de equipes.

DeepMind terá contato direto com produções

A Google DeepMind fornecerá à A24 acesso a pesquisadores, modelos e infraestrutura computacional. Em contrapartida, profissionais do estúdio participarão da avaliação das tecnologias e fornecerão orientações sobre necessidades concretas do processo cinematográfico.

O modelo de colaboração permite que pesquisadores observem como as ferramentas funcionam fora dos laboratórios. Cineastas poderão apontar falhas de continuidade, limitações de controle, problemas de linguagem visual e riscos de resultados incompatíveis com a proposta artística de uma produção.

A estratégia difere do lançamento de uma plataforma genérica para o público. Em vez de entregar um produto concluído, Google e A24 pretendem desenvolver os sistemas por meio de testes realizados com artistas, diretores, produtores e técnicos.

A DeepMind afirma que a tecnologia deve ampliar as possibilidades narrativas, e não determinar como uma história será construída. O laboratório considera que a participação direta dos criadores pode reduzir a distância entre os modelos desenvolvidos por engenheiros e as demandas dos profissionais do setor audiovisual.

O acordo poderá abranger diferentes projetos ao longo dos próximos anos. As empresas, porém, não informaram quais filmes utilizarão as ferramentas nem apresentaram um calendário para o lançamento comercial das tecnologias.

Também não está definido se os produtos criados pela parceria serão utilizados apenas pela A24 ou disponibilizados futuramente a outros estúdios e produtoras.

Catálogo da A24 fica fora do treinamento dos modelos

Um dos pontos centrais do acordo é a exclusão do catálogo da A24 das bases utilizadas para treinamento de inteligência artificial.

O Google não receberá autorização automática para alimentar seus modelos com filmes, séries, roteiros, materiais de bastidores ou arquivos de produção pertencentes ao estúdio.

A restrição diferencia o negócio de acordos de licenciamento de conteúdo, nos quais empresas de inteligência artificial pagam para utilizar obras protegidas por direitos autorais na formação de seus sistemas.

Na parceria entre Google e A24, o principal ativo oferecido pelo estúdio é o conhecimento de seus profissionais sobre os processos de criação e produção. A DeepMind terá acesso a avaliações, testes e orientações, mas não à biblioteca completa da companhia.

A separação procura responder a uma das principais críticas dirigidas às empresas de inteligência artificial: o uso de textos, imagens, músicas e vídeos protegidos sem autorização ou remuneração clara aos titulares.

Estúdios, escritores, artistas visuais, gravadoras e veículos de comunicação mantêm disputas judiciais e comerciais com desenvolvedores de IA sobre propriedade intelectual, transparência e compensação pelo uso de obras.

Ao limitar o acesso ao catálogo, a A24 tenta preservar seus direitos e reduzir o risco de que personagens, estilos visuais ou elementos de seus filmes sejam reproduzidos por modelos sem supervisão.

Google busca espaço na transformação de Hollywood

O investimento aproxima o Google de uma indústria que passa por mudanças profundas em razão da inteligência artificial generativa.

Modelos de vídeo já conseguem produzir cenas a partir de comandos escritos, alterar iluminação, modificar objetos, recriar movimentos e gerar personagens digitais. Outras tecnologias automatizam etapas de edição, dublagem, tradução, efeitos visuais e pós-produção.

Para o Google, a parceria com a A24 oferece acesso a profissionais reconhecidos pela linguagem autoral e pela capacidade de produzir filmes de forte repercussão cultural com estruturas menores do que as utilizadas pelos grandes estúdios de Hollywood.

A colaboração também pode ajudar a companhia a ampliar a credibilidade de seus produtos entre cineastas. Ferramentas de vídeo generativo ainda são vistas com resistência por parte do setor devido ao risco de perda de empregos, apropriação de obras e redução da participação humana.

A DeepMind desenvolve o Veo, família de modelos de geração de vídeo do Google. Apesar de a empresa não ter indicado quais tecnologias serão utilizadas na A24, o conhecimento acumulado com esses sistemas deverá servir de base para parte das pesquisas.

O objetivo empresarial é construir ferramentas aplicáveis a produções profissionais, um mercado que pode gerar receitas por meio de licenças, infraestrutura em nuvem e serviços especializados.

A24 ganha acesso a pesquisa e capacidade computacional

Para a A24, o acordo oferece acesso a uma infraestrutura que seria cara e complexa de desenvolver internamente.

O treinamento e a operação de modelos avançados exigem grandes volumes de dados, centros de processamento, chips especializados e equipes de pesquisa. Mesmo um estúdio avaliado em bilhões de dólares teria dificuldade para competir diretamente com os investimentos realizados por grandes empresas de tecnologia.

A colaboração permite que a A24 experimente ferramentas de IA sem precisar construir toda a infraestrutura necessária. O estúdio poderá concentrar esforços na aplicação prática das tecnologias e no desenvolvimento de métodos adequados à produção cinematográfica.

O investimento de aproximadamente US$ 75 milhões também reforça a posição financeira da companhia. Em 2024, a A24 recebeu um aporte de valor semelhante da Thrive Capital, em uma rodada que avaliou o estúdio em cerca de US$ 3,5 bilhões.

A nova operação não teve avaliação divulgada. O investimento, contudo, mostra que o Google atribui valor estratégico à combinação entre a capacidade tecnológica da DeepMind e o conhecimento criativo acumulado pela A24.

O estúdio expandiu sua atuação nos últimos anos, elevou os orçamentos de algumas produções e passou a desenvolver projetos com maior potencial comercial, sem abandonar o posicionamento associado ao cinema independente.

Acordo provoca resistência entre artistas e público

A entrada da A24 no desenvolvimento de inteligência artificial gerou críticas entre parte de seus seguidores e profissionais do audiovisual.

O estúdio construiu sua reputação apoiado em cineastas autorais, narrativas experimentais e produções vistas como alternativas aos modelos tradicionais de Hollywood. Para críticos da parceria, a aproximação com uma das maiores empresas de tecnologia do mundo entra em conflito com essa imagem.

Também há preocupação com o impacto sobre funções que poderão ser parcialmente automatizadas. Artistas de storyboard, ilustradores, montadores, profissionais de efeitos visuais e equipes de pré-produção estão entre os grupos que acompanham a evolução dessas ferramentas.

A redução do tempo necessário para determinadas tarefas pode diminuir custos e permitir que produções menores realizem projetos mais ambiciosos. O mesmo processo, porém, pode reduzir a demanda por trabalho humano ou pressionar salários e prazos.

A A24 afirma que pretende participar diretamente da definição das tecnologias, em vez de receber ferramentas prontas e concebidas sem a participação dos artistas.

A companhia argumenta que os profissionais do cinema precisam ocupar espaço no desenvolvimento dos sistemas para influenciar limites, recursos, atribuição de créditos e formas de utilização.

Cinema tenta separar assistência técnica de autoria

A discussão central em Hollywood não se limita à presença ou ausência de inteligência artificial. A indústria tenta estabelecer uma diferença entre ferramentas que auxiliam profissionais e sistemas que assumem funções consideradas essenciais à autoria de uma obra.

Recursos digitais já são utilizados há décadas em efeitos visuais, correção de cores, edição, animação e reconstrução de imagens. A inteligência artificial amplia essa capacidade ao gerar materiais novos com menor intervenção direta.

Uma ferramenta pode, por exemplo, corrigir a iluminação de uma cena ou remover um elemento indesejado. Em aplicações mais avançadas, pode criar um cenário inteiro, reproduzir a voz de um artista ou gerar uma sequência sem gravação convencional.

Quanto maior a participação do sistema, mais complexas se tornam as discussões sobre autoria, remuneração, consentimento e responsabilidade.

A parceria entre Google e A24 será observada justamente pela forma como estabelecerá esses limites. A utilização das ferramentas em produções reais poderá revelar situações que não aparecem durante testes controlados.

Oscar mantém IA permitida, mas exige autoria humana

A Academia de Artes e Ciências Cinematográficas não proibiu de maneira geral a utilização de inteligência artificial em filmes candidatos ao Oscar.

As regras da 99ª edição estabelecem que ferramentas de IA generativa, por si só, não ajudam nem prejudicam a possibilidade de uma indicação. A avaliação deverá considerar em que medida seres humanos permaneceram no centro da autoria criativa.

A Academia também poderá solicitar informações adicionais às produções quando houver dúvidas sobre a utilização dos sistemas e a participação humana.

Nas categorias de roteiro original e adaptado, as regras são mais específicas: o roteiro precisa ter autoria humana e apresentar crédito formal de roteirista.

A abordagem permite que filmes utilizem inteligência artificial em efeitos, planejamento, edição e outras etapas técnicas, mas preserva a avaliação do trabalho humano como elemento central das premiações.

Para a A24, que possui histórico de filmes premiados e indicados, a conformidade com essas regras será importante na definição das ferramentas usadas em futuras produções.

Netflix e Disney também avançaram sobre a IA

A parceria entre Google e A24 faz parte de um movimento mais amplo das empresas de entretenimento em direção à inteligência artificial.

Em março de 2026, a Netflix adquiriu a InterPositive, empresa de tecnologia cinematográfica fundada por Ben Affleck. A startup desenvolveu sistemas para corrigir problemas de continuidade, iluminação e composição sem exigir necessariamente novas filmagens.

A operação mostrou que plataformas de streaming estão dispostas a incorporar diretamente equipes e tecnologias de IA às suas estruturas de produção.

A Disney também firmou uma parceria de licenciamento com a OpenAI relacionada ao Sora, ferramenta de geração de vídeos. O acordo perdeu sua principal aplicação prática após a empresa decidir encerrar o produto.

Esses movimentos indicam que os grupos de entretenimento buscam diferentes modelos de relacionamento com as empresas tecnológicas. Alguns acordos envolvem licenciamento de personagens e propriedades intelectuais; outros, aquisição de startups ou desenvolvimento conjunto de ferramentas.

No caso da A24, a prioridade declarada é a pesquisa aplicada ao processo de criação, sem autorização para o treinamento de modelos com o catálogo do estúdio.

Parceria coloca controle criativo no centro da disputa

O resultado da colaboração dependerá menos do valor investido e mais da forma como as ferramentas serão utilizadas dentro das produções.

Caso os sistemas ampliem a capacidade dos profissionais sem reduzir sua autonomia, a parceria poderá criar novos padrões para planejamento, efeitos e pós-produção. Se as tecnologias forem utilizadas principalmente para substituir equipes e reduzir custos, a reação negativa do setor tende a aumentar.

Google e A24 terão de demonstrar como serão protegidos os direitos autorais, os empregos, os créditos e o consentimento dos participantes.

O desenvolvimento de uma ferramenta de storyboard será o primeiro teste concreto dessa estratégia. A aplicação poderá acelerar a visualização de cenas, mas também atingirá diretamente uma atividade tradicionalmente realizada por artistas especializados.

A parceria coloca duas forças distintas no mesmo projeto: a capacidade computacional de uma das maiores empresas de tecnologia do mundo e a reputação criativa de um dos estúdios mais influentes do cinema independente.

A maneira como Google e A24 equilibrarão inovação, eficiência e autoria humana poderá estabelecer um precedente para novos acordos entre empresas de inteligência artificial e Hollywood.

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