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Guerra com Irã derruba aprovação de Trump a 34%, pior nível do mandato

Pesquisa Reuters/Ipsos mostra que apenas 24% dos americanos consideram que o conflito compensou seus custos, enquanto 63% duvidam que a trégua com Teerã produza uma paz duradoura.

por Eduardo Toscano - Correspondente Internacional
23/06/2026 às 22h00 - Atualizado em 16/07/2026 às 19h34
em Mundo,Destaque,Notícias
Donald Trumo - Gazeta Mercantil

A aprovação do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, caiu para 34% e voltou ao menor nível de seu segundo mandato, segundo pesquisa Reuters/Ipsos divulgada nesta terça-feira, 23 de junho. Realizado em todo o território americano após o acordo preliminar de trégua com o Irã, o levantamento indica que o desgaste foi impulsionado pela percepção de que a guerra teve custos elevados, agravou a pressão sobre os preços e produziu resultados estratégicos limitados para Washington.

O índice iguala o piso registrado em abril e representa uma queda expressiva em relação aos 47% de aprovação observados no início do atual mandato. A deterioração ocorre a pouco mais de quatro meses das eleições legislativas de 3 de novembro, quando o Partido Republicano tentará preservar suas estreitas maiorias na Câmara dos Representantes e no Senado.

A pesquisa mostra que apenas 24% dos americanos consideram que a guerra com o Irã valeu os custos envolvidos. Metade dos entrevistados afirmou que o conflito não compensou, enquanto os demais disseram não ter certeza.

A avaliação sobre o resultado geopolítico também é desfavorável ao governo. Somente 23% acreditam que os Estados Unidos ficaram em posição mais forte diante do Irã após a guerra. Outros 35% avaliam que o país saiu enfraquecido, enquanto o restante considera que a situação permaneceu semelhante ou não soube responder.

Maioria dos americanos vê pouco ganho estratégico na guerra

Os números indicam que a administração Trump ainda não conseguiu convencer a maior parte da população de que a ofensiva militar produziu ganhos proporcionais às despesas econômicas, às perdas humanas e à instabilidade gerada no mercado internacional de energia.

A guerra começou em 28 de fevereiro, após ataques realizados por Estados Unidos e Israel contra alvos iranianos. Teerã respondeu com ofensivas que atingiram instalações energéticas de aliados americanos no Oriente Médio e interromperam parte relevante do transporte de petróleo e gás pelo estreito de Ormuz.

O corredor marítimo concentra aproximadamente um quinto do comércio mundial de energia. A paralisação das rotas provocou uma escalada das cotações do petróleo, pressionou os preços dos combustíveis nos Estados Unidos e ampliou a preocupação com a inflação global.

Embora o acordo preliminar assinado em junho tenha reduzido os preços internacionais do petróleo, a gasolina ainda permanece, para a maioria dos consumidores americanos, consideravelmente mais cara do que antes do início dos ataques.

Esse impacto ajuda a explicar por que a aprovação de Trump sobre o custo de vida caiu para 22%, um dos menores níveis de sua presidência. A inflação e o aumento dos combustíveis atingem diretamente o orçamento das famílias e reduzem o efeito político positivo que a Casa Branca esperava obter com a trégua.

Trégua de 60 dias não reduz desconfiança sobre Teerã

Donald Trump e o presidente iraniano, Masoud Pezeshkian, assinaram em 17 de junho um entendimento preliminar destinado a encerrar as hostilidades, reabrir o estreito de Ormuz e criar uma janela de 60 dias para novas negociações.

O acordo prevê a retomada do transporte de petróleo e gás, a suspensão temporária de parte das sanções impostas pelos Estados Unidos e a liberação de ativos iranianos mantidos no exterior. Também foi apresentada a possibilidade de criação de um fundo de US$ 300 bilhões para a reconstrução do Irã.

Apesar da redução imediata das tensões nos mercados, 63% dos americanos consideram improvável que o entendimento resulte em uma paz duradoura. Apenas 18% acreditam que o acordo poderá estabilizar de forma permanente as relações entre Washington e Teerã.

O ceticismo atravessa as divisões partidárias. Cerca de metade dos republicanos e oito em cada dez democratas avaliam que a trégua não deverá produzir uma solução definitiva. Entre os eleitores republicanos, 34% veem possibilidade de paz duradoura, proporção que cai para 10% entre os democratas.

A desconfiança reflete a fragilidade do entendimento e as divergências públicas entre os dois governos sobre pontos centrais. Estados Unidos e Irã apresentaram versões distintas sobre inspeções nucleares, ativos congelados, regras para a navegação no estreito de Ormuz e o alcance das obrigações assumidas durante as negociações.

Programa nuclear permanece fora do acordo inicial

O entendimento preliminar não estabelece limites definitivos para o programa nuclear iraniano. O tema deverá ser negociado durante o prazo de 60 dias aberto pelo acordo, período no qual Washington e Teerã tentarão definir mecanismos de fiscalização e restrições ao enriquecimento de urânio.

Trump afirmou que o Irã teria concordado com inspeções internacionais por prazo indeterminado em suas instalações nucleares. O governo iraniano, no entanto, declarou que não assumiu esse compromisso e que o programa nuclear não foi discutido de forma conclusiva nas primeiras rodadas de negociação.

As divergências ampliam as dúvidas sobre a execução do acordo. Sem uma interpretação comum sobre os compromissos assumidos, qualquer incidente militar, violação marítima ou desacordo diplomático poderá interromper a trégua.

Também permanece sem solução a discussão sobre a cobrança de taxas para a passagem de navios pelo estreito de Ormuz. O entendimento determina que o Irã permita o trânsito livre durante 60 dias, mas autoridades iranianas indicaram que poderão avaliar a imposição de tarifas após esse período.

O governo americano sustenta que a circulação deverá permanecer livre de cobranças em um eventual acordo definitivo. Para Washington e seus aliados do Golfo, qualquer sistema de tarifas controlado por Teerã poderia ampliar a influência iraniana sobre o abastecimento energético mundial.

Custo de vida pesa sobre aprovação de Trump

A guerra com o Irã se somou a problemas domésticos que já pressionavam a popularidade do presidente. Trump venceu a eleição de 2024 prometendo reduzir a inflação, conter os gastos das famílias e evitar o envolvimento dos Estados Unidos em conflitos externos prolongados.

A elevação dos preços da energia enfraqueceu essa agenda. O aumento da gasolina produz efeitos em cadeia sobre transporte, alimentos, serviços e mercadorias, além de atingir de forma mais intensa regiões rurais e famílias que dependem do automóvel.

A aprovação de Trump na condução do custo de vida está em 22%, abaixo do índice geral de 34%. O dado mostra que a economia permanece como uma das principais vulnerabilidades do governo, mesmo após o recuo recente do petróleo.

O acordo com Teerã poderá aliviar parte dessa pressão caso a circulação pelo estreito de Ormuz seja normalizada e os preços internacionais continuem em queda. A melhora, entretanto, dependerá da velocidade com que a redução das cotações será transferida para as bombas de combustível e para outros componentes da inflação.

A Casa Branca também enfrenta o desafio de demonstrar que a flexibilização temporária das sanções não permitirá ao Irã recompor sua capacidade militar ou acelerar seu programa nuclear. Essa disputa deverá ocupar o centro das negociações durante os próximos dois meses.

Política migratória registra menor aprovação do mandato

O desgaste de Donald Trump não se limita à guerra e ao custo de vida. A pesquisa Reuters/Ipsos mostrou que 37% dos americanos aprovam a condução da política de imigração, menor índice do atual mandato e três pontos percentuais abaixo do levantamento anterior.

O governo intensificou as ações de deportação de imigrantes em situação irregular, uma das principais promessas da campanha republicana. A execução dessa política, porém, passou a enfrentar questionamentos judiciais, protestos e críticas após confrontos envolvendo ativistas favoráveis aos imigrantes.

A queda na aprovação sobre imigração é relevante porque o tema sempre esteve entre os pontos mais fortes da plataforma política de Trump. A perda de apoio nessa área reduz a capacidade do presidente de compensar o desgaste econômico com pautas ligadas à segurança das fronteiras.

A combinação de inflação, guerra, imigração e desconfiança sobre a trégua cria um ambiente mais difícil para os candidatos republicanos nas eleições legislativas. Embora Trump não esteja na cédula, sua aprovação tende a influenciar a mobilização das bases dos dois partidos.

Independentes ampliam vantagem democrata para eleições legislativas

Entre os eleitores independentes registrados, somente 17% afirmaram que votariam no candidato republicano de seu distrito caso a eleição fosse realizada agora. Outros 34% escolheriam o democrata.

Os independentes costumam ter papel decisivo em disputas equilibradas, especialmente nos distritos suburbanos e nos Estados onde as margens eleitorais são reduzidas. A diferença apontada pela pesquisa poderá aumentar a pressão sobre parlamentares republicanos para se distanciarem de decisões impopulares da Casa Branca.

O desconforto já apareceu no Congresso. Nesta terça-feira, o Senado aprovou por 50 votos a 48 uma resolução que orienta o presidente a interromper a ação militar americana contra o Irã.

Quatro senadores republicanos se juntaram à maioria dos democratas. A medida já havia sido aprovada na Câmara por 215 votos a 208, também com o apoio de quatro parlamentares republicanos.

Foi a primeira vez que as duas Casas do Congresso aprovaram uma resolução baseada na Lei de Poderes de Guerra de 1973 para determinar a retirada das Forças Armadas americanas de hostilidades. O governo considera a iniciativa inconstitucional e sem efeito vinculante, interpretação que poderá ser discutida nos tribunais.

Mesmo que a resolução tenha resultado predominantemente simbólico, a votação representa um sinal institucional de resistência à condução da guerra. Até recentemente, Trump contava com apoio quase integral da bancada republicana no Congresso.

Pesquisa ouviu 1.262 adultos nos Estados Unidos

A pesquisa Reuters/Ipsos foi realizada durante cinco dias e encerrada na segunda-feira, 22 de junho. O levantamento reuniu respostas de 1.262 adultos residentes nos Estados Unidos e apresenta margem de erro de três pontos percentuais, para mais ou para menos.

Como ocorre em toda pesquisa de opinião, os percentuais representam uma fotografia do momento e podem variar dentro da margem de erro. Ainda assim, a repetição do piso de 34% confirma que a aprovação de Trump permanece próxima do nível mais baixo de seu segundo mandato.

O resultado também indica que o anúncio da trégua não foi suficiente para reverter imediatamente o desgaste provocado pela guerra. A queda do petróleo beneficia a administração, mas a população ainda percebe efeitos concretos do conflito sobre o preço da gasolina e sobre o custo de vida.

A capacidade de recuperação do presidente dependerá da manutenção da trégua, da redução efetiva dos combustíveis e de avanços nas negociações nucleares. Um rompimento do acordo ou uma nova interrupção do estreito de Ormuz poderá reativar a pressão inflacionária e aprofundar o desgaste político.

Queda de Trump aumenta pressão sobre republicanos antes de novembro

A aprovação de Trump em 34% transforma a política externa em um risco eleitoral adicional para o Partido Republicano. O presidente construiu parte de sua identidade política com a promessa de evitar guerras longas, controlar a inflação e negociar acordos favoráveis aos interesses americanos.

A pesquisa mostra que a maioria da população ainda não identifica esses resultados no conflito com o Irã. Apenas uma minoria vê os Estados Unidos em posição mais forte, enquanto metade considera que os custos da guerra não foram compensados.

O governo tentará usar a reabertura do estreito de Ormuz, a queda do petróleo e o início das negociações nucleares como evidências de avanço diplomático. A oposição deverá concentrar sua estratégia nos custos do conflito, no impacto sobre a inflação e na falta de autorização legislativa para as operações militares.

Com o Congresso dividido, as negociações com Teerã em andamento e uma trégua cercada por divergências, o Irã deverá continuar no centro da agenda política americana. Para Trump, o desafio será converter um acordo ainda provisório em redução de preços, estabilidade regional e recuperação de apoio antes das eleições legislativas de novembro.

Tags: aprovação de TrumpDonald Trumpeleições americanasEstados Unidosestreito de Ormuzguerra com Irãinflação nos Estados UnidosiráMundopesquisa Reuters IpsosTeerã

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