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Hugo Motta defende Lei da Reciprocidade após EUA imporem tarifa de 25% ao Brasil

por Júlia Campos - Repórter de Política
17/07/2026 às 10h25
em Política,Destaque,Notícias
Hugo Motta Defende Lei Da Reciprocidade Após Eua Imporem Tarifa De 25% Ao Brasil - Gazeta Mercantil - Política

Presidente da Câmara classifica medida americana como unilateral, alerta para riscos a empregos e setores produtivos e reforça pressão para que o governo brasileiro prepare uma resposta comercial

O presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos-PB), defendeu na quinta-feira, 16 de julho, em Brasília, que o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) utilize a Lei da Reciprocidade Econômica para responder à tarifa adicional de 25% imposta pelos Estados Unidos sobre produtos brasileiros. A sobretaxa, determinada pelo governo do presidente Donald Trump após uma investigação comercial conduzida pelo Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos, o USTR, entrará em vigor em 22 de julho e amplia a tensão econômica e diplomática entre os dois países.

Em nota, Motta afirmou que o Congresso Nacional apoia o diálogo entre países soberanos, mas rejeita o uso de barreiras comerciais como mecanismo de ingerência ou pressão política. Para o presidente da Câmara, a Lei da Reciprocidade Econômica oferece ao Poder Executivo um instrumento legítimo para proteger exportadores, empregos e setores considerados estratégicos para a economia brasileira.

“Medidas unilaterais e protecionistas como essas prejudicam a economia, ameaçam empregos e penalizam setores produtivos estratégicos que geram renda e desenvolvimento no país”, declarou Motta.

O deputado acrescentou que não haveria justificativa técnica ou comercial capaz de legitimar o aumento das tarifas. Segundo ele, a decisão representa uma agressão ao livre-comércio e à soberania brasileira.

A manifestação coloca a Câmara dos Deputados entre as instituições que defendem uma reação coordenada do Brasil, embora a adoção de contramedidas dependa formalmente do governo federal. A Lei da Reciprocidade Econômica autoriza o Executivo a suspender concessões comerciais, rever obrigações e impor medidas proporcionais contra países ou blocos econômicos que adotem restrições consideradas prejudiciais à competitividade brasileira.

Tarifa adicional começa a valer em 22 de julho

A tarifa de 25% foi formalizada pelo USTR em 15 de julho e será aplicada às mercadorias brasileiras que entrarem para consumo nos Estados Unidos a partir das 0h01 do dia 22, pelo horário da Costa Leste americana.

A decisão foi tomada com base na Seção 301 da Lei de Comércio dos Estados Unidos, de 1974. O dispositivo permite que o governo americano imponha tarifas ou outras restrições comerciais quando conclui que práticas adotadas por outro país são injustificáveis, discriminatórias ou prejudiciais ao comércio dos Estados Unidos.

O ato do USTR estabelece a cobrança adicional de 25% sobre uma parcela ampla das importações originárias do Brasil, mas prevê uma extensa relação de exceções. Produtos submetidos a tarifas específicas da Seção 232, materiais informativos, doações, bagagens acompanhadas e mercadorias consideradas essenciais ao abastecimento americano ficaram fora da nova cobrança.

Entre as exceções mencionadas pelo governo dos Estados Unidos estão carne bovina, suco de laranja, aeronaves, peças aeronáuticas, produtos energéticos, minério de ferro, determinados produtos farmacêuticos, algumas categorias de madeira e tipos específicos de café.

A existência das exceções reduz a exposição de segmentos relevantes das exportações brasileiras, mas não elimina os efeitos da tarifa de 25% sobre indústrias com participação significativa no mercado americano. Empresas sem margem suficiente para absorver a cobrança poderão perder competitividade, renegociar contratos, reduzir embarques ou buscar destinos alternativos.

A tarifa também pode ser parcialmente repassada aos compradores americanos. Esse processo tende a elevar preços de insumos e produtos finais nos Estados Unidos, especialmente em cadeias nas quais o Brasil possui participação relevante ou oferece mercadorias que não podem ser substituídas rapidamente por fornecedores de outros países.

Lei da Reciprocidade não produz retaliação automática

A defesa feita por Hugo Motta não significa que a Lei da Reciprocidade Econômica será aplicada imediatamente. A legislação estabelece instrumentos para uma eventual reação brasileira, mas condiciona sua utilização a análises técnicas, consultas e decisões do Poder Executivo.

Sancionada em abril de 2025, a Lei nº 15.122 criou critérios para que o Brasil suspenda concessões comerciais, compromissos de investimentos e determinadas obrigações relacionadas à propriedade intelectual quando medidas unilaterais estrangeiras prejudicarem a competitividade internacional do país.

A Lei da Reciprocidade Econômica permite, por exemplo, que o governo aumente tarifas de importação sobre produtos de determinado país, suspenda concessões comerciais ou limite temporariamente obrigações ligadas à propriedade intelectual.

O alcance da legislação também inclui mecanismos que podem atingir remessas de royalties, direitos autorais, patentes e outras formas de remuneração associadas a ativos intelectuais. Essas medidas, porém, são consideradas alternativas de maior complexidade jurídica e econômica.

Antes da adoção de uma contramedida, o governo deve avaliar o impacto da restrição estrangeira, ouvir setores afetados e buscar uma solução diplomática. A Lei da Reciprocidade Econômica determina que a resposta seja, sempre que possível, proporcional ao prejuízo causado e estruturada de maneira a reduzir custos para empresas e consumidores brasileiros.

A regulamentação da lei criou o Comitê Interministerial de Negociação e Contramedidas Econômicas e Comerciais. O colegiado reúne áreas do governo responsáveis por comércio exterior, diplomacia, economia e planejamento das possíveis respostas.

Cabe ao comitê examinar medidas adotadas por outros países, coordenar negociações e deliberar sobre a aplicação de contramedidas. A estrutura permite que o Brasil prepare uma reação sem necessariamente interromper as tratativas diplomáticas.

Governo brasileiro vinha negociando antes do anúncio

Antes da confirmação da tarifa de 25%, representantes do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, do Ministério das Relações Exteriores e da Presidência da República realizaram sucessivas reuniões com o representante comercial dos Estados Unidos, Jamieson Greer.

Na quinta reunião de alto nível entre as equipes, realizada em 14 de julho, o governo brasileiro reiterou que considerava injustificadas as conclusões da investigação americana e defendeu a continuidade das negociações.

O Brasil sustentou que nenhuma das razões apresentadas pelo USTR justificava a imposição da tarifa. O governo também argumentou que a sobretaxa dificultaria a construção de um acordo bilateral equilibrado e poderia provocar prejuízos para empresas dos dois países.

Apesar das conversas, o USTR concluiu que as tratativas não haviam resolvido satisfatoriamente as preocupações americanas. O governo Trump decidiu, então, impor a tarifa de 25% com uma lista de exceções definida após consultas públicas e audiências realizadas nos Estados Unidos.

Ao defender a Lei da Reciprocidade Econômica, Hugo Motta amplia a pressão institucional para que o Executivo brasileiro mantenha a negociação, mas também prepare medidas capazes de responder à decisão americana caso não haja acordo antes de 22 de julho.

USTR cita Pix, tarifas, etanol e propriedade intelectual

A investigação contra o Brasil foi aberta em julho de 2025 e examinou seis grupos de políticas e práticas brasileiras: comércio digital e serviços de pagamento eletrônico, tarifas preferenciais, combate à corrupção, proteção da propriedade intelectual, acesso ao mercado de etanol e fiscalização contra o desmatamento ilegal.

No comércio digital, o USTR criticou decisões de tribunais brasileiros envolvendo empresas americanas de tecnologia. O órgão também afirmou que políticas brasileiras favoreceriam o Pix em detrimento de serviços privados de pagamento eletrônico operados por companhias dos Estados Unidos.

O sistema foi classificado pelo governo americano como um concorrente beneficiado por políticas públicas. O Banco Central e o governo brasileiro sustentam que o Pix integra a infraestrutura financeira nacional, oferece acesso gratuito a pessoas físicas e ampliou a concorrência no mercado de pagamentos.

Na área tarifária, o USTR questionou acordos pelos quais o Brasil concede tratamento preferencial a determinados produtos provenientes do México e da Índia. Na avaliação americana, essas condições colocariam exportadores dos Estados Unidos em desvantagem.

A investigação também criticou a política brasileira para importações de etanol. Os Estados Unidos afirmam que o Brasil abandonou um tratamento tarifário anteriormente considerado equilibrado e reduziu o acesso do etanol americano ao mercado nacional.

Em propriedade intelectual, o USTR apontou demora na análise de patentes, dificuldades no combate a produtos falsificados e inconsistências em políticas contra a pirataria. O órgão ainda apresentou questionamentos sobre a fiscalização ambiental e a aplicação das leis brasileiras de combate ao desmatamento ilegal.

O governo brasileiro contesta as conclusões e afirma que as práticas mencionadas não justificam uma tarifa de 25%. A posição de Brasília é que eventuais divergências deveriam ser tratadas em negociações técnicas ou nos mecanismos multilaterais de comércio.

Estados Unidos mantêm superávit no comércio com o Brasil

Os números do comércio bilateral mostram que os Estados Unidos registraram superávit na troca de mercadorias com o Brasil em 2025. Dados do próprio USTR indicam que a corrente comercial de bens entre os dois países alcançou US$ 94,3 bilhões no ano passado.

As exportações americanas para o mercado brasileiro somaram US$ 54,4 bilhões, enquanto as importações de produtos do Brasil totalizaram US$ 39,9 bilhões. O resultado representou um superávit de US$ 14,4 bilhões para os Estados Unidos.

Os dados indicam que a tarifa de 25% não foi apresentada como uma medida para corrigir um déficit comercial bilateral. A justificativa formal adotada pelo governo Trump está relacionada às políticas brasileiras classificadas pelo USTR como prejudiciais aos interesses de empresas, trabalhadores e produtores americanos.

Para o Brasil, a composição desse intercâmbio também aumenta a complexidade de uma eventual resposta. Os Estados Unidos são fornecedores de máquinas, equipamentos, produtos químicos, combustíveis, componentes industriais e bens de alta tecnologia utilizados pela economia brasileira.

A aplicação indiscriminada da Lei da Reciprocidade Econômica poderia aumentar custos para indústrias brasileiras que dependem desses produtos. Por essa razão, uma possível reação deverá considerar quais mercadorias americanas podem ser atingidas sem provocar inflação, desabastecimento ou perda de competitividade no mercado interno.

Exportadores avaliam contratos, margens e rotas alternativas

A proximidade da entrada em vigor da tarifa de 25% obriga empresas exportadoras a revisar contratos, preços e estratégias logísticas. O impacto será diferente de acordo com a dependência de cada setor em relação ao mercado americano e com o nível de concorrência internacional.

Companhias com produção direcionada aos Estados Unidos poderão enfrentar maior dificuldade para redirecionar mercadorias. Em produtos padronizados, compradores americanos podem substituir fornecedores brasileiros por concorrentes de outros países. Em segmentos especializados, a substituição tende a ser mais lenta e a cobrança poderá ser dividida entre exportadores, importadores e consumidores.

A tarifa de 25% também pode afetar decisões de investimento. Empresas expostas ao mercado dos Estados Unidos tendem a adotar maior cautela na ampliação da capacidade produtiva até que haja clareza sobre a duração da medida e sobre uma possível resposta baseada na Lei da Reciprocidade Econômica.

A volatilidade cambial pode compensar parcialmente a perda de competitividade provocada pela tarifa, mas uma desvalorização do real também elevaria o custo de insumos importados e aumentaria pressões inflacionárias. O efeito líquido dependerá do setor, da estrutura de custos e da capacidade de negociação de cada empresa.

Outro risco está na escalada de medidas. Caso o Brasil utilize a Lei da Reciprocidade Econômica e os Estados Unidos ampliem as restrições, a disputa poderá alcançar investimentos, serviços, propriedade intelectual e cadeias produtivas integradas.

Congresso aumenta pressão por resposta coordenada

A posição de Hugo Motta reforça o apoio político à utilização da Lei da Reciprocidade Econômica, mas preserva espaço para a diplomacia. O presidente da Câmara afirmou que o Parlamento acompanhará os desdobramentos e atuará com responsabilidade e firmeza na defesa dos interesses do país.

A manifestação também sinaliza que uma eventual reação do governo Lula poderá contar com respaldo da presidência da Câmara, inclusive em medidas que dependam de diálogo com o Congresso.

A Lei da Reciprocidade Econômica foi aprovada com ampla articulação parlamentar justamente para oferecer ao Brasil um mecanismo de resposta a barreiras impostas por parceiros comerciais. Sua utilização contra os Estados Unidos, entretanto, representaria o teste mais relevante da legislação desde sua sanção.

O governo terá de equilibrar a pressão política por uma reação com os efeitos econômicos de eventuais contramedidas. Setores exportadores defendem proteção contra perdas, enquanto empresas importadoras e cadeias industriais dependentes de insumos americanos tendem a pedir cautela na definição dos produtos que poderão ser atingidos.

A decisão também deverá considerar compromissos assumidos pelo Brasil na Organização Mundial do Comércio e em acordos internacionais. Contramedidas sem fundamentação técnica suficiente podem gerar questionamentos jurídicos e aprofundar a disputa.

Tarifa de 25% leva relação Brasil-EUA a nova fase de pressão institucional

A entrada de Hugo Motta no debate eleva o tarifaço dos Estados Unidos de uma divergência comercial para uma disputa com repercussão direta entre os Poderes brasileiros. Governo e Congresso passam a convergir na defesa da soberania econômica, embora ainda não esteja definido como a Lei da Reciprocidade Econômica será utilizada.

Até 22 de julho, a prioridade do governo brasileiro será tentar ampliar as exceções, evitar novas sobretaxas e preservar canais de negociação com Washington. Paralelamente, o comitê responsável pelas contramedidas deverá avaliar os setores expostos e os possíveis instrumentos de resposta.

A tarifa de 25% inaugura uma nova etapa na relação comercial entre Brasil e Estados Unidos. A forma como a Lei da Reciprocidade Econômica será conduzida determinará se o impasse permanecerá concentrado na diplomacia ou avançará para uma disputa tarifária de maior alcance, com efeitos sobre exportadores, investimentos, empregos e cadeias produtivas dos dois países.

Tags: Brasil e Estados UnidosCâmara dos Deputadoscomércio exteriorDonald Trumpexportações brasileirasHugo Mottalei da reciprocidade econômicaLulaPolíticatarifaço dos EUAUSTR

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