O Ibovespa pode avançar cerca de 10% durante o mês das eleições presidenciais de 2026 caso o mercado brasileiro repita o comportamento registrado em disputas anteriores. A projeção vem do JPMorgan, que identifica na definição do primeiro turno, marcado para 4 de outubro, um possível ponto de inflexão para as ações após meses de desempenho inferior ao de outros países emergentes. A equipe de estratégia do banco calcula que o Ibovespa acumula uma defasagem de 24% frente aos mercados emergentes desde abril, movimento que se alinha a um padrão recorrente de enfraquecimento nos seis meses que antecedem o pleito e recuperação quando o número de cenários políticos começa a se reduzir.
A análise não configura uma previsão automática de valorização. O próprio JPMorgan condiciona uma eventual recuperação do Ibovespa à evolução das contas públicas, à trajetória da Selic, ao comportamento do investidor estrangeiro e às propostas econômicas que os candidatos apresentarem ao longo da campanha.
O índice encerrou o pregão de 21 de julho aos 173.325,65 pontos. Nesse patamar, o Ibovespa ficava cerca de 12,75% abaixo do recorde nominal de fechamento de 198.657,33 pontos, alcançado em 14 de abril. A distância de mais de 25 mil pontos evidencia a dimensão da correção enfrentada pela Bolsa desde o pico do ano.
Redução do prêmio de incerteza impulsiona o mercado
A tese do JPMorgan parte da forma como o mercado costuma precificar eleições presidenciais. Nos meses anteriores ao primeiro turno, investidores precisam avaliar uma combinação ampla de candidaturas, alianças partidárias, propostas fiscais e possibilidades de composição do Congresso. A quantidade de cenários eleva a volatilidade e aumenta o retorno exigido para manter recursos em ativos brasileiros.
Após a primeira votação, a disputa tende a ficar restrita a dois nomes. A redução das alternativas permite comparar programas econômicos com maior precisão e estimar o impacto potencial sobre o Ibovespa caso cada grupo político assuma o poder. É nesse momento que parte do prêmio de risco pode ser retirada dos preços das ações.
O primeiro turno das eleições de 2026 está marcado para 4 de outubro. Caso nenhum candidato alcance a maioria absoluta dos votos válidos, o segundo turno será realizado em 25 de outubro. Segundo o JPMorgan, uma valorização próxima de 10% ao longo do mês eleitoral seria compatível com os movimentos registrados em pleitos anteriores. A recuperação do Ibovespa, nesse cenário, poderia começar depois da primeira votação, independentemente de qual candidatura apareça na liderança. O fator determinante seria a diminuição da incerteza, e não necessariamente a preferência do mercado por um nome específico.
Corrida presidencial segue competitiva, aponta banco
O banco considera que a disputa presidencial continuará competitiva até a fase final da campanha. A pesquisa Genial/Quaest divulgada em 15 de julho mostrou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva com 40% das intenções de voto em um cenário estimulado de primeiro turno. Flávio Bolsonaro apareceu com 28%, seguido por Ronaldo Caiado, com 4%, Renan Santos, com 3%, e Romeu Zema, com 2%.
Em uma simulação de segundo turno, Lula registrou 45%, ante 37% de Flávio Bolsonaro. A diferença foi de oito pontos percentuais. O levantamento ouviu presencialmente 2.004 eleitores em 120 municípios entre 10 e 13 de julho, com margem de erro máxima de dois pontos percentuais e nível de confiança de 95%.
A vantagem registrada pela Quaest é superior à média de aproximadamente 3,5 pontos mencionada na compilação de pesquisas utilizada pelo JPMorgan. O banco acompanha os levantamentos para ajustar suas projeções para o Ibovespa, e a diferença pode decorrer das datas de coleta, da seleção dos institutos e das metodologias consideradas. Apesar do avanço de Lula na pesquisa mais recente, a campanha ainda não entrou em sua fase oficial mais intensa. Convenções partidárias, alianças regionais, propaganda eleitoral e debates podem alterar as intenções de voto até outubro. O JPMorgan também considera improvável, no estágio atual, o surgimento de uma terceira candidatura com força suficiente para romper a polarização.
Índice devolveu parte da alta do início do ano
O mercado acionário brasileiro atravessou duas fases distintas em 2026. No início do ano, o Ibovespa avançou com a entrada de recursos estrangeiros, a melhora dos resultados empresariais e as expectativas de início de um ciclo de redução dos juros. O movimento levou o índice a sucessivos recordes e culminou nos 198.657,33 pontos registrados em abril.
A partir daí, a deterioração das expectativas fiscais, o aumento das tensões geopolíticas e a aproximação das eleições reduziram o apetite por risco. Mesmo após a correção, o Ibovespa encerrou o primeiro semestre com alta de 6,76%, aos 172.024 pontos. A valorização acumulada, contudo, ficou concentrada no início do ano e não impediu a defasagem em relação a outros mercados emergentes.
Esse comportamento ajuda a explicar a leitura do JPMorgan. Para o banco, as ações brasileiras passaram a negociar com desconto maior, criando espaço para reação caso os riscos políticos e fiscais diminuam. O desconto, por si só, não garante valorização do Ibovespa. Empresas consideradas baratas podem permanecer pressionadas durante longos períodos quando o ambiente econômico se deteriora ou o custo do capital aumenta.
Risco fiscal é a principal ameaça ao rali
A política fiscal ocupa posição central na análise do banco. O JPMorgan alerta que medidas de estímulo adotadas antes da eleição podem gerar gastos permanentes ou reduzir receitas estruturais a partir de 2027. Iniciativas apresentadas como temporárias podem se transformar em compromissos de longo prazo sem financiamento suficiente.
Esse risco afeta diretamente os preços dos ativos. Quando cresce a percepção de que a dívida pública seguirá uma trajetória insustentável, investidores exigem juros maiores para financiar o governo. A curva de juros sobe, o real pode perder valor e o custo de capital das empresas aumenta. O Ibovespa também sofre porque os fluxos futuros de caixa das companhias passam a valer menos quando são descontados por taxas mais elevadas.
O Relatório Focus de 17 de julho mostra que as instituições consultadas pelo Banco Central projetavam déficit primário equivalente a 0,50% do Produto Interno Bruto em 2026. A estimativa para a dívida líquida do setor público estava em 69,82% do PIB. Para 2027, a mediana apontava déficit primário de 0,40% do PIB e dívida líquida de 73,40%. Esses números ajudam a explicar por que a redução da incerteza eleitoral poderá não ser suficiente para sustentar uma alta prolongada do Ibovespa. O mercado também precisará avaliar como o próximo governo pretende controlar despesas, elevar receitas e estabilizar a dívida.
JPMorgan projeta Selic a 13,75% e PIB de 2% em 2026
A trajetória dos juros é outro elemento relevante para uma eventual recuperação das ações. O JPMorgan prevê dois cortes adicionais de 0,25 ponto percentual até setembro, o que levaria a Selic dos atuais 14,25% para 13,75% ao ano. A estimativa é um pouco mais favorável que a mediana do mercado. No Focus de 17 de julho, as instituições financeiras projetavam Selic de 14% no encerramento de 2026.
A diferença é pequena em termos absolutos, mas relevante para empresas sensíveis ao crédito. Varejistas, construtoras, incorporadoras e companhias endividadas tendem a responder mais intensamente às mudanças nas taxas. A inflação, entretanto, limita o espaço do Banco Central. O Focus apontava IPCA de 5,15% em 2026, acima do limite superior da meta. Para 2027, a projeção estava em 4,20%. Na reunião de junho, o Comitê de Política Monetária reduziu a Selic para 14,25%, mas reforçou que o ambiente exige cautela. O Copom citou inflação acima da meta, incertezas fiscais e os efeitos das tensões no Oriente Médio sobre commodities e preços. Caso o conflito internacional pressione novamente o petróleo e a inflação, o Banco Central poderá desacelerar ou interromper os cortes esperados pelo JPMorgan, o que afetaria diretamente a trajetória do Ibovespa.
A economia brasileira apresentou um desempenho mais forte que o previsto no primeiro trimestre. O Produto Interno Bruto cresceu 1,1% em relação aos últimos três meses de 2025, segundo o IBGE. Na comparação com o primeiro trimestre do ano passado, a expansão foi de 1,8%. No acumulado de quatro trimestres, a economia cresceu 2%. A agropecuária avançou 2%, a indústria cresceu 1% e os serviços tiveram alta de 0,5%. A formação bruta de capital fixo, medida que acompanha os investimentos, aumentou 3,5% na comparação trimestral.
Diante desse desempenho, o JPMorgan elevou sua projeção de crescimento do PIB em 2026 de 1,8% para 2%. A nova estimativa está praticamente alinhada ao mercado. O Focus apontava expansão de 1,99% para o ano. O banco espera, porém, que a economia perca velocidade no segundo semestre. Parte do estímulo fiscal e parafiscal deverá se dissipar, enquanto os juros elevados continuarão restringindo o crédito, o consumo e os investimentos. Para o Ibovespa, esse cenário produz efeitos diferentes. Uma atividade mais forte favorece os lucros, mas também pode manter a inflação pressionada e reduzir o espaço para cortes da Selic.
Lucros sustentam preços e estrangeiros voltam a comprar ações
O JPMorgan avalia que a valorização do Ibovespa em 2026 foi sustentada principalmente pelo crescimento dos lucros corporativos, e não por uma expansão generalizada dos múltiplos de valuation. Isso significa que os preços das ações não subiram apenas porque investidores aceitaram pagar mais pelas empresas em relação ao seu lucro por ação. Parte expressiva do movimento foi respaldada pela melhora efetiva dos resultados trimestrais.
A distinção é relevante em um período eleitoral. Quando os lucros crescem, as companhias conseguem preservar parte de seu valor mesmo diante do aumento da volatilidade política. A reação dependerá, contudo, do setor e do grau de exposição à economia brasileira. Empresas exportadoras e produtoras de commodities são influenciadas pelo dólar, pela China e pelos preços internacionais. Bancos respondem à inadimplência, à atividade econômica e à curva de juros. Companhias de consumo, construção e varejo dependem mais diretamente do crédito e da renda das famílias. A temporada de resultados do segundo trimestre deverá indicar se os fundamentos permaneceram fortes durante a correção do Ibovespa.
O retorno do capital estrangeiro aparece como outro possível vetor para o índice. O JPMorgan destacou a entrada de R$ 1,5 bilhão em um único pregão e um saldo positivo de R$ 2,4 bilhões no mês até a data do relatório. Os valores ainda são modestos diante do tamanho do mercado, mas indicam uma retomada gradual do interesse internacional depois da saída de recursos observada em parte do segundo trimestre.
A presença dos estrangeiros é decisiva para a liquidez da Bolsa brasileira. Em 2025, investidores não residentes movimentaram mais de R$ 2,8 trilhões em ações na B3 e responderam por 62% das negociações desse mercado. Vale (VALE3), Petrobras (PETR4), Itaú Unibanco (ITUB4), Banco do Brasil (BBAS3) e B3 (B3SA3) estiveram entre os papéis mais negociados por esse grupo. Uma nova entrada de recursos pode favorecer principalmente as empresas de maior peso no Ibovespa. A continuidade do fluxo dependerá do cenário político interno, dos juros dos Estados Unidos, do dólar e do desempenho de outros países emergentes.
Defasagem de 24% abre espaço para reação do Ibovespa
A estimativa de valorização de 10% precisa ser interpretada como um cenário histórico, não como uma garantia. Eleições anteriores ocorreram sob condições econômicas diferentes. Em 2026, o Brasil combina juros elevados, inflação acima da meta, pressões fiscais e um ambiente internacional marcado por conflitos e disputas comerciais.
O calendário eleitoral poderá reduzir uma parte da incerteza, mas também poderá criar novos riscos. Uma campanha marcada por propostas de aumento permanente de despesas ou intervenções em empresas estatais tende a pressionar o Ibovespa. Compromissos claros com estabilidade fiscal, previsibilidade regulatória e controle da dívida podem produzir o efeito oposto.
O primeiro turno será apenas uma etapa desse processo. Depois dele, o mercado ainda precisará avaliar o resultado final, a composição do Congresso e a capacidade do novo governo de transformar propostas em medidas concretas. A defasagem acumulada desde abril abre espaço matemático para uma reação do Ibovespa. O tamanho e a duração desse movimento dependerão menos do padrão estatístico das eleições anteriores e mais da política econômica que emergir das urnas.







