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JBS (JBSS32) tem prejuízo de US$ 102 milhões no 2T26 apesar de receita recorde

Faturamento cresce 14%, para US$ 23,9 bilhões, mas itens extraordinários e a pressão sobre a operação de carne bovina nos Estados Unidos levam a companhia ao vermelho; lucro ajustado permanece positivo em US$ 218 milhões.

por João Souza
11/08/2026 às 11h28
em Empresas
Jbs - Gazeta Mercantil

Divulgação

A JBS (JBSS32) encerrou o segundo trimestre de 2026 com prejuízo líquido atribuível aos acionistas de US$ 102 milhões, revertendo o lucro de US$ 528 milhões registrado no mesmo período do ano passado. O resultado negativo contrasta com a evolução da receita, que avançou 14% na comparação anual e alcançou o recorde trimestral de US$ 23,9 bilhões, mostrando uma companhia que continua aumentando as vendas, mas atravessa um período de maior pressão sobre a rentabilidade.

A mudança do lucro para o prejuízo foi influenciada por despesas que a companhia classifica como não recorrentes, entre elas custos associados à recompra de títulos de dívida, acordos antitruste e ajustes relacionados à aquisição da Mantiqueira. Excluídos esses efeitos, a JBS calculou lucro líquido ajustado de US$ 218 milhões, equivalente a US$ 0,20 por ação.

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O balanço divulgado nesta segunda-feira (10) também evidencia a pressão sobre as margens. Pelo critério IFRS, utilizado pela JBS como principal referência em sua divulgação financeira, o Ebitda ajustado ficou ao redor de US$ 1,43 bilhão, abaixo do desempenho excepcional registrado um ano antes. Pelo critério USGAAP, adotado como informação suplementar pela companhia, o indicador ficou próximo de US$ 1,26 bilhão, com margem de 5,3%.

A diferença entre os dois números decorre dos critérios contábeis utilizados e é relevante para a leitura do balanço. A JBS passou a aprofundar sua divulgação segundo padrões utilizados pelo mercado norte-americano depois da reorganização societária e da dupla listagem, mantendo suas demonstrações financeiras consolidadas em IFRS e apresentando métricas adicionais em USGAAP. A companhia havia informado à Securities and Exchange Commission (SEC) que o segundo trimestre de 2026 marcaria o início da apresentação voluntária de relatórios trimestrais no formato 10-Q.

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Receita recorde não impede prejuízo no trimestre

O faturamento de US$ 23,9 bilhões representa o maior nível trimestral já alcançado pela JBS e ficou acima das expectativas de mercado. O crescimento ocorreu em um momento no qual a plataforma global e diversificada da companhia permite que negócios com melhor desempenho compensem parcialmente dificuldades enfrentadas em segmentos específicos.

A receita, entretanto, não se converteu na mesma proporção em resultado operacional. Pelo IFRS, o Ebitda ajustado ficou em aproximadamente US$ 1,43 bilhão, queda de 18,5% na comparação anual, com margem de 6%, ante 8,4% no segundo trimestre de 2025. O resultado ficou próximo da expectativa dos analistas consultados pela LSEG.

A comparação anual também parte de uma base particularmente forte. O segundo trimestre de 2025 havia sido um período de rentabilidade excepcional para a companhia, especialmente em negócios de aves, o que torna mais difícil repetir as margens naquele patamar.

Na comparação com o primeiro trimestre deste ano, porém, a trajetória foi de recuperação operacional. A JBS havia registrado Ebitda ajustado IFRS de US$ 1,13 bilhão entre janeiro e março, período em que a operação de bovinos nos Estados Unidos e a Pilgrim’s Pride enfrentaram pressões relevantes.

Itens extraordinários somam centenas de milhões de dólares

A diferença entre o prejuízo contábil de US$ 102 milhões e o lucro ajustado de US$ 218 milhões está relacionada principalmente aos efeitos extraordinários contabilizados durante o trimestre.

Entre os principais ajustes aparecem US$ 172 milhões em prêmios, juros e outros custos ligados às ofertas de recompra de bonds e Certificados de Recebíveis do Agronegócio (CRA). A companhia vem realizando operações de gestão de passivos com o objetivo de alongar vencimentos, reorganizar sua estrutura de capital e aproveitar oportunidades no mercado internacional de dívida.

Outros US$ 133 milhões foram associados a acordos relacionados a processos antitruste, enquanto aproximadamente US$ 81 milhões decorreram do cálculo final do ganho reconhecido na aquisição da Mantiqueira.

Esses itens ajudam a explicar por que o resultado ajustado permaneceu positivo mesmo com a JBS apresentando prejuízo líquido atribuído aos acionistas. A distinção é importante porque o número contábil reflete todos os efeitos reconhecidos no período, enquanto a administração utiliza métricas ajustadas para demonstrar o desempenho que considera mais representativo das operações recorrentes.

Carne bovina nos Estados Unidos continua pressionando margens

A operação de carne bovina na América do Norte permanece como um dos maiores desafios da companhia em 2026.

A indústria norte-americana enfrenta uma oferta reduzida de gado, resultado de um ciclo pecuário que elevou os preços dos animais disponíveis para abate e comprimiu a diferença entre o custo da matéria-prima e os preços obtidos pela carne processada.

O problema já havia ficado evidente no primeiro trimestre, quando a JBS Beef North America registrou margem Ebitda negativa de 3,7%. Na divulgação daquele período, a própria companhia apontou o ciclo do gado como uma das principais pressões sobre o resultado consolidado.

Esse ambiente continuou afetando a rentabilidade no segundo trimestre, mesmo com a JBS registrando crescimento de receita. A escassez de animais nos Estados Unidos permanece um fator estrutural para o setor e exige que frigoríficos administrem custos maiores até que a recomposição do rebanho produza oferta suficiente para aliviar as margens.

Resultado melhora em relação ao primeiro trimestre

Apesar da queda na comparação anual, a administração chama atenção para a recuperação observada entre o primeiro e o segundo trimestre de 2026.

O Ebitda ajustado pelo IFRS passou de aproximadamente US$ 1,13 bilhão nos três primeiros meses do ano para cerca de US$ 1,43 bilhão no segundo trimestre, sinalizando melhora sequencial na rentabilidade consolidada.

Essa evolução ajuda a separar dois movimentos distintos. Em relação a 2025, a JBS ainda enfrenta uma base de comparação elevada e margens inferiores; em relação ao início de 2026, entretanto, diferentes operações apresentaram recuperação.

A diversificação por proteínas e regiões continua sendo um dos principais mecanismos utilizados pela companhia para reduzir a volatilidade. JBS Brasil, Seara, Pilgrim’s Pride, suínos nos Estados Unidos e Austrália possuem ciclos diferentes daquele enfrentado atualmente pela carne bovina norte-americana.

Essa estrutura não elimina as pressões de um segmento relevante, mas reduz a dependência da companhia de um único mercado e permite que resultados melhores em determinadas regiões absorvam parte das perdas ou margens menores em outras.

Fluxo de caixa livre volta ao campo positivo

Outro indicador acompanhado pelo mercado apresentou melhora no trimestre.

A JBS gerou fluxo de caixa livre positivo de US$ 130 milhões, revertendo o consumo de aproximadamente US$ 55 milhões registrado no segundo trimestre de 2025.

A evolução esteve ligada principalmente à administração do capital de giro. Houve melhora de aproximadamente US$ 600 milhões em recebíveis, influenciada pelo maior desconto de contas a receber e por adiantamentos realizados por clientes chineses relacionados às exportações brasileiras.

O saldo de fornecedores também contribuiu, com impacto de cerca de US$ 390 milhões, segundo os dados apresentados pela companhia.

A geração de caixa é particularmente relevante neste momento porque a JBS mantém uma agenda de investimentos e expansão internacional ao mesmo tempo em que administra um nível de endividamento superior ao observado no início do ano.

Alavancagem sobe para 3,1 vezes

A alavancagem líquida encerrou junho em 3,10 vezes, calculada pela relação entre dívida líquida e Ebitda ajustado dos últimos 12 meses.

No fim de março, o indicador estava em aproximadamente 2,8 vezes, conforme o balanço do primeiro trimestre. A elevação coloca a companhia ligeiramente acima do patamar que considera adequado como objetivo financeiro de longo prazo.

O crescimento da alavancagem ocorre em um contexto no qual o Ebitda acumulado foi pressionado pelo ciclo desfavorável do gado norte-americano e por uma base de comparação elevada em algumas operações.

Por outro lado, o perfil da dívida continua alongado. Ao final do segundo trimestre, o prazo médio informado era de aproximadamente 15,3 anos, com custo médio de 5,7% ao ano, característica que reduz a concentração de vencimentos no curto prazo.

A duração elevada da dívida se tornou um componente importante da estratégia financeira da JBS nos últimos anos, permitindo que a empresa mantenha maior previsibilidade mesmo em períodos de volatilidade operacional.

Liquidez sobe para US$ 7,7 bilhões

Em agosto, a JBS elevou sua linha de crédito rotativo de US$ 3,5 bilhões para US$ 4,2 bilhões, movimento que levou a liquidez total disponível para aproximadamente US$ 7,7 bilhões.

A ampliação funciona como uma reserva adicional de financiamento e aumenta a capacidade da companhia de atravessar períodos de maior necessidade de capital sem depender exclusivamente de novas emissões no mercado.

No primeiro trimestre, a empresa já apresentava uma estrutura de dívida de longo prazo e vinha realizando operações para reorganizar vencimentos. Em março, por exemplo, a JBS precificou uma emissão de US$ 2 bilhões em notas com vencimento em 2037, dentro de uma estratégia mais ampla de administração do passivo.

Parte dos custos extraordinários registrados no segundo trimestre está diretamente relacionada a esse processo, especialmente às ofertas de recompra de títulos existentes.

Na prática, a empresa incorre em uma despesa imediata para modificar sua estrutura de dívida, enquanto busca benefícios financeiros relacionados a vencimentos, custos ou flexibilidade futura.

Lucro ajustado fica em US$ 218 milhões

Ao retirar os principais eventos não recorrentes, a JBS encerrou o trimestre com lucro líquido ajustado de US$ 218 milhões.

O lucro ajustado por ação ficou em US$ 0,20, enquanto o resultado contábil atribuído aos acionistas correspondeu a perda de US$ 0,10 por ação. No segundo trimestre de 2025, o lucro por ação havia sido de US$ 0,48.

A diferença reforça a importância de analisar os dois números em conjunto. O prejuízo líquido é o resultado reconhecido nas demonstrações financeiras e incorpora integralmente os eventos registrados durante o período, enquanto o resultado ajustado permite observar como a companhia teria se comportado sem determinados efeitos classificados pela administração como extraordinários.

O mercado, contudo, não ignora completamente os ajustes. Despesas com acordos judiciais ou reorganização de dívida produzem saída econômica real, ainda que não sejam consideradas recorrentes, e por isso precisam ser incorporadas à avaliação da capacidade de geração de valor ao longo do tempo.

Balanço antecede mudança no comando global

O resultado também foi divulgado no mesmo dia em que a JBS anunciou uma mudança importante em sua liderança.

Wesley Batista Filho, atualmente CEO da JBS USA, assumirá o cargo de CEO Global em janeiro de 2027, substituindo Gilberto Tomazoni, que dirige a companhia desde 2018. Tomazoni passará a atuar como vice-chairman do Conselho de Administração e senior advisor.

A transição ocorre em um momento no qual a companhia combina expansão de receita com desafios de rentabilidade em parte de suas operações e acelera investimentos em novas geografias e proteínas.

Wesley Batista Filho assumirá, portanto, uma empresa com faturamento em patamar recorde, elevada diversificação internacional e liquidez robusta, mas que também precisa enfrentar o ciclo adverso da carne bovina norte-americana e manter disciplina financeira depois do aumento recente da alavancagem.

O segundo trimestre resume essa combinação: a JBS vendeu mais do que em qualquer outro trimestre de sua história, gerou caixa e melhorou operacionalmente em relação ao início do ano, mas custos extraordinários e margens menores levaram o resultado final para um prejuízo de US$ 102 milhões.

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