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Lula e Trump: encontro em Washington pode redefinir papel do Brasil no cenário global

por Júlia Campos
09/02/2026 às 19h13
em Política
Lula Afirma Ter Conversado Com Filho Sobre Suspeitas Na Cpmi Do Inss

Lula e Trump: encontro diplomático entre Brasil e EUA definirá rumos do multilateralismo global

O encontro marcado entre Lula e Trump em março tem potencial para redefinir estratégias diplomáticas entre Brasil e Estados Unidos, reacendendo o debate sobre o papel do multilateralismo em um cenário global cada vez mais polarizado. Durante cerimônia no Instituto Butantan, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou não ter “interesse em briga” com o líder norte-americano, mas destacou que pretende defender a soberania brasileira e a retomada da cooperação internacional baseada em regras institucionais.

“Não quero briga com ele, eu não sou doido”, declarou Lula de forma bem-humorada, fazendo referência ao estilo agressivo de Donald Trump. A fala ocorreu em tom de leve ironia, mas refletiu a preocupação do governo brasileiro em equilibrar diálogo e firmeza diplomática numa conjuntura de instabilidades econômicas e retóricas nacionalistas.

Leia também: Lula e Flávio vivem semana de altos e baixos com escala 6×1 e decisão dos EUA sobre facções.

Encontro estratégico no radar da diplomacia brasileira

O encontro entre Lula e Trump será realizado em março, logo após uma sequência de viagens presidenciais pela Ásia. A expectativa, segundo fontes próximas ao Itamaraty, é que a cúpula bilateral busque alinhamento em temas como comércio, transição energética e governança global. O presidente brasileiro pretende usar a oportunidade para reforçar que o Brasil não se subordina a nenhuma potência e busca relações equilibradas — tanto com os Estados Unidos quanto com a China.

Lula enfatizou que “o multilateralismo, depois da Segunda Guerra Mundial, foi responsável por períodos de convivência pacífica” e criticou o avanço de políticas unilaterais que reforçam desigualdades entre nações. A fala se alinha à estratégia do Palácio do Planalto de aproximar o Brasil dos fóruns internacionais como ONU, G20 e BRICS, fortalecendo a imagem de mediador entre economias em desenvolvimento e potências tradicionais.

Leia também: PMEs no Brasil sofrem com falta de planejamento e foco no presente.

Um histórico de encontros e entendimentos

A reunião marcada em Washington será o terceiro encontro presencial entre Lula e Trump. O primeiro ocorreu em Nova York, durante a Assembleia-Geral da ONU, ocasião em que ambos trocaram cumprimentos protocolares e abordaram a necessidade de revisar barreiras comerciais. O segundo se deu na cúpula da ASEAN, em outubro, quando houve avanços na discussão sobre tarifas impostas a produtos brasileiros.

A retomada desse diálogo direto reflete o esforço diplomático de Brasília em manter canais abertos com as principais economias do mundo, ao mesmo tempo em que busca reduzir tensões comerciais que afetam exportações nacionais. A nova reunião deve consolidar acordos setoriais e abrir espaço para cooperação em tecnologia verde e inovação industrial.

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“Briga do Brasil é pela narrativa”

Lula tem usado expressões simbólicas para ilustrar sua visão sobre disputas políticas internacionais. Ao brincar dizendo que “vai que brigo e ganho, o que é que eu vou fazer?”, o presidente remeteu ao estilo retórico de liderança carismática, característica marcante em seus discursos. Nesse contexto, a “briga” mencionada por ele representa mais uma disputa de narrativas do que um confronto direto.

O governo entende que o embate político entre Lula e Trump transcende o campo pessoal e espelha visões antagônicas sobre o papel do Estado e das instituições globais. De um lado, o populismo econômico e a retórica nacionalista de Trump; de outro, a defesa do multilateralismo e da solidariedade internacional que marcam o discurso lulista.

Multilateralismo como eixo da política externa

Desde seu retorno ao Planalto, Lula vem tentando reposicionar o Brasil como protagonista nas discussões sobre governança global. A defesa do multilateralismo e da cooperação Sul-Sul figura como eixo central dessa estratégia. O encontro com Trump é visto como mais uma etapa desse reposicionamento, em meio a um cenário de reconfiguração das alianças internacionais.

Para o presidente, o desafio é equilibrar o diálogo com as potências ocidentais sem abrir mão de pautas estratégicas como a proteção da Amazônia, o desenvolvimento sustentável e a ampliação de mercados para produtos brasileiros. A presença brasileira em fóruns multilaterais busca expandir a capacidade de influência política e comercial, reforçando o papel do país como interlocutor de pautas globais.

Impactos econômicos esperados

Do ponto de vista econômico, espera-se que o encontro entre Lula e Trump traga discussões sobre tarifas de importação e sobre o comércio de produtos agrícolas e energéticos. O governo brasileiro busca ampliar o acesso de commodities nacionais ao mercado norte-americano, enquanto Washington mira oportunidades de investimento em infraestrutura e energia limpa.

Essa agenda comum tende a ser debatida sob uma ótica pragmática. Segundo economistas próximos ao governo, o Brasil pretende “vender estabilidade política e abertura regulatória”, retomando a confiança externa no país após ciclos de instabilidade cambial e política. A aproximação com Washington, no entanto, deve ser conduzida sem ruptura do diálogo com Pequim — uma estratégia que visa equilibrar interesses geopolíticos e comerciais.

Um jogo de narrativas no palco global

O tom simbólico que cerca o encontro Lula e Trump é também um reflexo do jogo de narrativas que domina a cena internacional. De um lado, a tentativa de reaproximar o Brasil da diplomacia tradicional; de outro, a reafirmação norte-americana de seus interesses estratégicos na América Latina.

Nos bastidores, diplomatas reconhecem que o estilo de Trump — assertivo e por vezes provocativo — contrasta com a retórica conciliadora de Lula. Ainda assim, há expectativa de que a conversa avance em temas de interesse mútuo, como a reforma da Organização Mundial do Comércio (OMC), a resposta global às mudanças climáticas e a infraestrutura regional.

Expectativa por resultados concretos

Na prática, o sucesso do encontro dependerá da capacidade das equipes técnicas de transformar o diálogo político em resultados concretos. Brasília busca, por exemplo, novas oportunidades para exportação de biocombustíveis e cooperação na área de vacinação e biotecnologia, áreas em que o Brasil, via Instituto Butantan, possui papel de destaque.

Paralelamente, o lado norte-americano deve propor a ampliação de investimentos privados em setores estratégicos. Analistas acreditam que um entendimento entre Lula e Trump poderá gerar um novo ciclo de aproximação econômica, abrindo portas para um eventual acordo de facilitação comercial.

Diplomacia em alta tensão: o estilo Trump e a resposta de Lula

Mesmo com o tom diplomático, o Planalto reconhece que a imprevisibilidade de Donald Trump impõe riscos à estabilidade das negociações. O líder republicano é conhecido por adotar discursos duros e políticas protecionistas, o que exige cautela da diplomacia brasileira.

Lula, por sua vez, aposta em combinar humor e pragmatismo político. Ao dizer que não “quer briga”, o presidente indica que pretende preservar o diálogo, mas sem abdicar da autonomia nacional. O discurso humanista e a experiência em mediação internacional são as principais cartas do governo brasileiro nesse tabuleiro diplomático.

Rumo a uma nova geopolítica latino-americana

Especialistas apontam que o encontro entre Lula e Trump pode redefinir o papel do Brasil na geopolítica latino-americana. O alinhamento com Washington, se concretizado, pode servir como contrapeso à influência chinesa na região, consolidando o país como ator estratégico nas relações Norte-Sul.

Ao enfatizar a importância das instituições multilaterais e do respeito à soberania, Lula tenta construir uma diplomacia de equilíbrio — nem submissão ao Ocidente, nem dependência da Ásia. A reunião de março, portanto, pode se transformar em divisor de águas para o reposicionamento global do Brasil.

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