PMEs no Brasil revelam falta de planejamento e foco excessivo no presente, aponta estudo
O comportamento dos pequenos e médios negócios voltou ao centro do debate econômico após a divulgação de um levantamento nacional que revela tendências, fragilidades e oportunidades entre os empreendedores. O estudo conduzido pela Visa identifica perfis distintos de gestão e evidencia um ponto sensível: grande parte das PMEs no Brasil ainda opera com forte dependência do improviso, priorizando demandas urgentes e deixando de lado o planejamento estratégico de longo prazo.
O diagnóstico resulta de entrevistas com cerca de duas mil empresas de pequeno e médio porte, excluindo microempreendedores individuais. O conjunto analisado representa mais de 22 milhões de CNPJs ativos no país. As conclusões reforçam que, embora a maioria dos empresários tenha visão de continuidade, parte expressiva ainda enfrenta dificuldades estruturais para evoluir em gestão, organização financeira e capacidade competitiva.
O principal perfil identificado, chamado de “condutores do improviso”, abrange 32% das PMEs no Brasil e sintetiza um traço comum no ambiente empreendedor: resolver os problemas do presente com pouco preparo para o futuro. O comportamento tem reflexos diretos na saúde financeira, na inovação e na capacidade de crescimento das empresas.
Um retrato atualizado do empreendedor brasileiro
Os dados mostram que 77% dos entrevistados veem seus negócios como projetos de longo prazo. Esse percentual revela otimismo, mas contrasta com o fato de que apenas 57% acreditam estar, de fato, no caminho adequado para garantir a sobrevivência ao longo dos anos. A distância entre intenção e prática reforça o papel do planejamento estruturado, ainda pouco difundido entre as PMEs no Brasil.
A pesquisa dividiu os empreendedores em quatro grandes grupos, definidos por atitudes, comportamentos e nível de organização. A segmentação permite compreender como diferentes perfis tomam decisões, lidam com finanças e desenvolvem estratégias.
O primeiro grupo — os condutores do improviso — domina o cenário. São empresários que concentram esforços na solução imediata das demandas, enfrentam crises de caixa frequentes e têm dificuldade em estabelecer práticas formais de gestão. Embora sejam resilientes, operam em constante vulnerabilidade.
O segundo grupo reúne os realizadores pragmáticos, equivalentes a 25% do universo. Esses empreendedores prezam pela organização e pela estabilidade operacional. Apesar de apresentarem boa estrutura administrativa, revelam aversão à inovação, o que limita avanços e reduz capacidade de adaptação.
O terceiro conjunto representa 24% das PMEs no Brasil e corresponde aos intuitivos, empreendedores que aprendem fazendo, testam ideias constantemente e demonstram maior abertura ao uso de tecnologia. Mesmo com espírito experimental, muitos ainda deixam lacunas na organização financeira.
O quarto e menor grupo, com 19%, é definido como desbravadores de gestão. São empresários com dificuldade para organizar processos e documentações, mas conscientes de suas limitações e abertos à aprendizagem. Trata-se de um perfil com potencial de evolução, especialmente quando inserido em programas de apoio e capacitação.
Desafios financeiros persistem e travam o crescimento
A vida financeira das PMEs no Brasil ainda é marcada por fragilidades estruturais. A pesquisa indica que 57% dos empreendedores misturam contas pessoais e empresariais — um dos comportamentos mais prejudiciais para o controle de caixa e para o acesso a crédito. Entre os que realizam essa mistura, 35% alternam movimentações entre contas PF e PJ, e 22% utilizam a conta física como principal centro financeiro da empresa.
Essa confusão contábil afeta decisões estratégicas, dificulta o planejamento tributário e cria barreiras para comprovação de renda e faturamento. Instituições financeiras exigem clareza e estabilidade para concessão de crédito mais barato, e a mistura de contas encarece empréstimos e reduz limites operacionais.
Outro ponto crítico identificado é a dificuldade de formar reserva financeira. Para 53% dos entrevistados, manter um colchão de segurança é um desafio, resultado de margens estreitas e ciclos de receita instáveis. A ausência de reserva amplifica os riscos do improviso e aumenta a dependência de empréstimos de curto prazo, geralmente com juros mais altos.
O estudo também revela que 50% dos empreendedores têm dificuldade para otimizar compras e localizar fornecedores competitivos. A ausência de processos formais de cotação e comparação de preços resulta em custos mais elevados e reduz capacidade de negociação.
O desejo de crescer existe, mas esbarra na realidade operacional
Embora a maioria das PMEs no Brasil manifeste intenção de expansão, o cenário prático revela obstáculos. Segundo a pesquisa, 75% buscam crescer no curto e médio prazo. Entre empresas com faturamento acima de R$ 1 milhão, esse percentual sobe para 80%. Além disso, 73% querem aumentar vendas, indicador que reforça aspirações de escala e melhora de resultado.
No entanto, apenas 30% dos entrevistados afirmam que desejam, de fato, aumentar o tamanho da empresa. A maior parte, 54%, prefere manter o porte atual e concentrar-se em estabilidade. Esse comportamento está relacionado ao risco percebido, à dificuldade de acesso a crédito, à incerteza econômica e ao custo operacional elevado.
As diferenças geracionais são evidentes. Empreendedores da Geração Z demonstram maior apetite por crescimento, representando 30% do grupo que deseja ampliar operações. Já os Baby Boomers lideram o percentual dos que preferem manter o tamanho atual do negócio, com 69%. A estratégia conservadora entre os mais velhos reflete experiências acumuladas, mas também pode limitar o avanço das PMEs no Brasil em setores de alta competição.
Disputa entre bancos tradicionais e fintechs revela mudanças de comportamento
A escolha por serviços financeiros revela transformações importantes. O estudo indica que 24% dos empreendedores utilizam contas tradicionais, enquanto 5% preferem contas exclusivamente digitais. A distribuição, porém, varia conforme a faixa etária.
Entre os jovens da Geração Z, 21% já consideram fintechs como instituições principais, sendo o grupo mais aberto às soluções digitais. Entre os Millennials, esse número cai para 16%, e entre os Baby Boomers chega a apenas 8%.
A predominância dos bancos tradicionais entre os empreendedores mais velhos é marcante: 87% dos Baby Boomers preferem instituições tradicionais, seguidos por 69% dos Millennials e 64% da Geração Z. Essa diferença influencia diretamente o acesso a crédito e serviços sofisticados, já que fintechs tendem a oferecer opções mais ágeis e personalizadas, especialmente para PMEs no Brasil.
Perfis revelados pelo estudo indicam diferentes graus de preparação
A criação dos quatro grupos permite uma visão detalhada do funcionamento interno das empresas e de seus principais entraves. Cada perfil tem pontos fortes e vulnerabilidades específicas, e o entendimento desses elementos é fundamental para construção de políticas públicas e programas de capacitação adequados.
Os condutores do improviso tendem a sofrer com crises recorrentes de caixa e incapacidade de escalar o negócio. Ainda que ágeis, enfrentam limitações sérias em momentos de expansão. A ausência de plano estratégico, somada à rotina intensa de trabalho, compromete a saúde e a longevidade da empresa.
Já os realizadores pragmáticos mantêm estrutura sólida, mas encontram dificuldade em inovar. Em mercados cada vez mais voláteis, permanecer estático pode representar perda rápida de relevância. A resistência à mudança é um obstáculo significativo no universo das PMEs no Brasil.
Os intuitivos são os mais propensos a aprender com a prática e a testar novas ferramentas tecnológicas. Apesar de maior dinamismo, podem incorrer em riscos elevados quando não fazem análises suficientes antes de implementar mudanças. Esse grupo costuma adotar rapidamente tendências, mas precisa desenvolver controle e métricas.
Os desbravadores de gestão, por outro lado, mostram disposição para evoluir, mas carecem de disciplina e sistemas de controle. Com orientação adequada, esse grupo tem potencial para alcançar índices superiores de desempenho.
Planejamento se torna prioridade para a sobrevivência das PMEs
O estudo demonstra que planejamento é a principal carência entre as PMEs no Brasil. Mesmo empresários experientes demonstram fragilidade na definição de metas, organização de processos, controle de estoques, precificação e análise de desempenho.
A falta de previsibilidade impacta diretamente a capacidade de investimento e de resposta a crises. Sem indicadores consistentes, decisões se baseiam em percepções subjetivas, aumentando o risco de erro. Em um ambiente competitivo, improviso constante se torna fator de fragilidade.
Especialistas afirmam que estruturar o planejamento, mesmo de maneira simples, já contribui para ganho de eficiência. Rotinas claras, relatórios periódicos e metas objetivas reduzem desperdícios, ajustam expectativas e favorecem o crescimento sustentável.
Panorama revela urgência por capacitação e educação financeira
Os dados reforçam um quadro evidente: grande parte das PMEs no Brasil precisa avançar em educação financeira, gestão e uso de tecnologia. A falta de capacitação adequada limita a competitividade e restringe o potencial de expansão. A ampliação de programas de orientação, mentorias e cursos acessíveis pode mudar o curso dessas empresas.
O uso de ferramentas tecnológicas também se mostra fundamental. Sistemas de gestão, automação de processos, plataformas de vendas e inteligência de dados são essenciais para acompanhar o ritmo do mercado. Entre os intuitivos, a tecnologia já é uma realidade, mas os demais grupos ainda enfrentam barreiras de adaptação.
Mercado financeiro deve acompanhar mudanças de comportamento
A relação entre empreendedores e instituições financeiras é decisiva para o desenvolvimento das pequenas e médias empresas. O estudo mostra que há espaço para expansão de serviços personalizados e soluções digitais que atendam às necessidades específicas de cada perfil identificado.
Fintechs e bancos tradicionais precisam adaptar produtos, simplificar processos e oferecer modelos de crédito mais acessíveis. A sensibilidade às características de cada grupo é essencial para reduzir inadimplência e impulsionar o crescimento das PMEs no Brasil.
Mudanças geracionais influenciam o futuro do empreendedorismo
O comportamento por faixa etária indica que a nova geração tende a assumir riscos maiores, adotar tecnologias e buscar crescimento mais acelerado. Já empreendedores mais experientes priorizam estabilidade e rotinas consolidadas. A coexistência desses perfis cria ambiente diversificado, mas também revela desafios para políticas públicas.
Programas de incentivo ao empreendedorismo devem levar em conta as diferenças geracionais, facilitando a transição entre modelos tradicionais e novos formatos de negócios. A adaptação conjunta permitirá maior desenvolvimento para todo o setor.
O futuro das PMEs no Brasil depende de organização e visão estratégica
O levantamento oferece um panorama abrangente e reafirma que improviso constante não sustenta crescimento. A sobrevivência das PMEs no Brasil dependerá de capacidade de adaptação, organização financeira, planejamento e uso inteligente de tecnologia. Os próximos anos exigirão postura mais estratégica e maior profissionalização para enfrentar ciclos econômicos adversos e aproveitar oportunidades de expansão.






