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Magazine Luiza passa a vender 27 mil produtos no Mercado Livre

Acordo inclui produtos do Magalu, KaBuM! e Época Cosméticos e amplia estratégia da varejista de utilizar plataformas concorrentes como novos canais de venda.

por João Souza
02/09/2026 às 13h42
em Empresas
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O Magazine Luiza (MGLU3) começou nesta quarta-feira, 2 de setembro, a vender cerca de 27 mil produtos de estoque próprio dentro do Mercado Livre (MELI34), numa parceria que aproxima dois dos maiores grupos de comércio eletrônico da América Latina e amplia a estratégia do Magalu de utilizar marketplaces concorrentes como canais adicionais de distribuição.

A operação reúne produtos do Magazine Luiza, da KaBuM! e da Época Cosméticos, em categorias que vão de eletroeletrônicos e móveis a games, informática, cosméticos e perfumaria. As entregas ficarão a cargo do Magalog, operador logístico do grupo brasileiro. O acordo é não exclusivo e segue movimentos semelhantes firmados pelo Magalu com Amazon, AliExpress, Americanas, Itaú Shopping e Livelo.

A parceria ganha relevância pelo momento em que ocorre. No segundo trimestre de 2026, as vendas do e-commerce do Magalu recuaram 11,9% sobre o mesmo período do ano anterior, para R$ 9,3 bilhões, enquanto as lojas físicas avançaram 10,3%. No mesmo trimestre, o Mercado Livre registrou no Brasil crescimento de 39% no volume bruto de mercadorias, em moeda constante, e de 56% no número de itens vendidos. Ao colocar seu estoque próprio diante dessa audiência, o Magalu tenta recuperar velocidade no digital sem voltar a uma disputa baseada apenas em descontos e compra de tráfego.

Catálogo no Mercado Livre é maior que o levado à Amazon

A operação começa com aproximadamente 27 mil itens, mais que o dobro do sortimento inicial levado pelo Magalu à Amazon em junho, quando a parceria entre as duas empresas estreou com cerca de 12 mil produtos. No Mercado Livre, o portfólio inclui categorias nas quais o grupo brasileiro construiu escala ao longo de décadas, como linha branca, televisores, móveis e eletrodomésticos, além de áreas incorporadas ao ecossistema por aquisições, como games e informática, por meio da KaBuM!, e beleza, com a Época Cosméticos.

O desenho é de uma operação 1P, ou seja, os produtos pertencem ao estoque do próprio grupo Magalu, e não a vendedores independentes do marketplace. A companhia passa a utilizar a vitrine e o tráfego do Mercado Livre para girar mercadorias compradas de fabricantes e fornecedores, mantendo sob sua responsabilidade a execução logística.

Para o Magalu, a diferença é importante. O grupo precisa vender seu estoque próprio com margem positiva e, ao distribuí-lo em mais plataformas, aumenta a possibilidade de encontrar consumidores sem depender exclusivamente do tráfego gerado em seus aplicativos, sites ou campanhas publicitárias.

Queda do e-commerce ajuda a explicar a mudança

Os números do segundo trimestre ajudam a entender por que essa estratégia ganhou prioridade. Entre abril e junho, as vendas totais do Magalu somaram R$ 14,5 bilhões, queda de 5,1% na comparação anual. As lojas físicas seguiram na direção oposta e cresceram 10,3%, mas o e-commerce total recuou 11,9%.

Dos R$ 9,3 bilhões vendidos online no trimestre, R$ 5,8 bilhões vieram do estoque próprio, justamente a operação que agora ganha uma nova vitrine no Mercado Livre. O marketplace do Magalu movimentou outros R$ 3,6 bilhões. A companhia encerrou o período com Ebitda ajustado de R$ 708,8 milhões, margem de 8% e resultado líquido ajustado negativo em R$ 50,4 milhões.

A administração vem priorizando crescimento com rentabilidade e disciplina comercial. Nesse contexto, distribuir o estoque em plataformas de terceiros permite trocar parte do custo necessário para atrair consumidores aos canais próprios pelo custo de uma venda realizada dentro de um marketplace que já concentra audiência.

Mercado Livre chega ao acordo em trajetória oposta no digital

O parceiro escolhido pelo Magalu atravessa uma fase de forte expansão. No segundo trimestre, o Mercado Livre registrou US$ 21,9 bilhões em GMV consolidado, alta de 36% em moeda constante, e chegou a aproximadamente 89 milhões de compradores únicos ativos em sua operação de comércio eletrônico na América Latina.

O Brasil foi um dos principais motores do desempenho. O número de itens vendidos no país cresceu 56% sobre o segundo trimestre de 2025, enquanto o GMV avançou 39% em moeda constante. Na região, 77% dos envios classificados como rápidos foram entregues em até 48 horas.

A combinação cria uma relação de cooperação entre empresas que continuam sendo concorrentes. O Mercado Livre recebe um estoque relevante em segmentos de maior tíquete, especialmente móveis e eletrodomésticos pesados, enquanto o Magalu passa a expor produtos a uma base de consumidores que vem aumentando frequência e volume de compras.

Magalog é uma peça central do acordo

Embora a compra aconteça no Mercado Livre, os produtos vendidos pelo grupo serão entregues pelo Magalog. O arranjo preserva para o Magalu uma etapa importante da experiência do consumidor e, ao mesmo tempo, amplia o volume de uma operação logística que deixou de atender apenas empresas do próprio ecossistema.

O Magalog é um dos ativos que a companhia pretende monetizar no novo ciclo estratégico. Em 2025, a receita gerada com clientes externos cresceu 47%, segundo o relatório anual do grupo. No primeiro trimestre de 2026, essa receita externa voltou a avançar, desta vez 30%, com expansão em clientes já existentes e entrada de novas empresas.

O ganho de escala importa porque uma rede logística tem parte relevante dos custos associada a centros de distribuição, tecnologia, rotas e capacidade instalada. Mais volume pode aumentar a densidade das entregas e melhorar a utilização dessa estrutura. Assim, a parceria pode produzir resultado tanto na venda das mercadorias quanto na operação responsável por entregá-las.

Produtos pesados podem abrir uma segunda etapa

A cooperação pode avançar além dos 27 mil itens disponíveis inicialmente. As companhias avaliam ampliar a parceria logística, inclusive com soluções para mercadorias acima de 30 quilos, como geladeiras, fogões e móveis, uma categoria que exige veículos, armazenagem e manuseio diferentes dos usados nas encomendas menores.

Também está em avaliação o uso de lojas físicas do Magalu como pontos de retirada e devolução de produtos comercializados no Mercado Livre por outros vendedores. Se esse desenho avançar, a relação deixará de ser apenas uma parceria para vender estoque próprio e passará a utilizar parte da rede física do Magazine Luiza como infraestrutura de apoio ao ecossistema do Mercado Livre.

O Magalu encerrou junho com 1.246 lojas. Transformar parte desses endereços em pontos logísticos é uma forma de extrair valor de uma rede construída para o varejo físico e que já funciona como suporte à operação digital da companhia.

Acordos com concorrentes viraram parte da estratégia

O Mercado Livre não é o primeiro concorrente a receber estoque do Magazine Luiza. Em junho, o grupo começou a vender aproximadamente 12 mil produtos na Amazon Brasil. Antes disso, já havia avançado em integrações com AliExpress e outros canais.

O movimento representa uma mudança na lógica competitiva do varejo digital. Durante anos, as grandes plataformas investiram para manter o consumidor dentro dos próprios ecossistemas, ampliando catálogo, logística, serviços financeiros e programas de fidelidade. Com a audiência mais fragmentada e o custo de aquisição de clientes elevado, essas fronteiras ficaram menos rígidas.

Para o Magalu, a ideia é vender onde o consumidor já está, sem abandonar os canais próprios. O desafio será impedir que a expansão em marketplaces de terceiros simplesmente desloque compras que já ocorreriam no aplicativo ou no site da companhia, onde o grupo controla de forma mais ampla os dados do cliente e pode oferecer produtos financeiros, publicidade e outros serviços.

Rentabilidade será o principal teste

O sucesso da parceria não será medido apenas pelo aumento das vendas. Uma operação em plataforma de terceiro envolve comissões, condições comerciais e custos logísticos, mas também pode reduzir a necessidade de gastar para adquirir tráfego em canais de publicidade digital. A comparação entre essas duas contas determinará o valor econômico do modelo.

Esse ponto é especialmente sensível depois da retração do e-commerce do Magalu nos dois primeiros trimestres de 2026. A companhia vem preservando margem mesmo quando isso implica menor volume de vendas. A entrada no Mercado Livre só deverá ganhar peso estrutural se conseguir combinar vendas incrementais, giro de estoque e retorno adequado.

Existe ainda o risco de canibalização dos canais próprios. Em contrapartida, se boa parte das compras vier de consumidores que não utilizavam o Magalu, o marketplace poderá funcionar como uma forma de aquisição de clientes com custo variável e ligado diretamente à venda realizada.

Parceria mostra como a disputa do e-commerce está mudando

A aproximação entre Magalu e Mercado Livre mostra que a concorrência no comércio eletrônico brasileiro já não ocorre apenas entre sites e aplicativos. A disputa envolve audiência, logística, crédito, publicidade, tecnologia e a capacidade de fazer o mesmo estoque chegar ao consumidor por diferentes ambientes digitais.

Para o Mercado Livre, a chegada das marcas do grupo Magalu amplia o sortimento em categorias relevantes, especialmente bens duráveis e produtos de grande porte. Para o Magazine Luiza, o acordo abre acesso a uma plataforma em rápida expansão justamente quando seu e-commerce perdeu volume e, ao mesmo tempo, cria mais demanda para o Magalog.

A próxima etapa será acompanhar a velocidade de entrada dos 27 mil itens, a participação que o Mercado Livre passará a ter nas vendas digitais do Magalu e se a cooperação avançará para lojas físicas e logística de produtos pesados. O acordo começa como uma nova vitrine para o estoque próprio da varejista, mas poderá se tornar um teste importante de um modelo em que concorrentes continuam disputando a preferência do consumidor enquanto compartilham parte da infraestrutura necessária para vender e entregar.

Fontes:

Comunicado conjunto Grupo Magalu e Mercado Livre, divulgado em 2 de setembro de 2026.
Magazine Luiza — Divulgação de Resultados do 2T26
Magazine Luiza — Nossa Estratégia
MercadoLibre — Resultados do segundo trimestre de 2026
Magalog — Quem Somos
B3 — Magazine Luiza S.A.

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