A S&P National Ratings manteve o rating de crédito do Magazine Luiza (MGLU3) em brAA- na escala nacional brasileira e preservou a perspectiva estável, mas passou a projetar uma alavancagem mais elevada para o encerramento de 2026. A agência agora estima dÃvida lÃquida sobre Ebitda em torno de 4 vezes, acima dos 3,6 vezes previstos anteriormente, em razão da necessidade maior de capital de giro e do desempenho abaixo do esperado pela varejista no primeiro semestre.
A revisão ocorre depois de o Magazine Luiza registrar prejuÃzo lÃquido de R$ 72,5 milhões no segundo trimestre, ante perda de R$ 24,4 milhões um ano antes. O Ebitda ficou em R$ 675,3 milhões, queda de 1,7% na comparação anual, enquanto a receita lÃquida recuou 2,6%, para R$ 8,89 bilhões. Na linha ajustada, o prejuÃzo foi de R$ 50,4 milhões e o Ebitda chegou a R$ 708,8 milhões.
Apesar da deterioração de curto prazo, a S&P avalia que a companhia tem condições de recuperar vendas e geração de caixa nos próximos trimestres. A expectativa considera, entre outros fatores, a expansão dos canais de venda online por meio da parceria com o Mercado Livre e a menor pressão competitiva decorrente do fechamento de lojas das Casas Bahia. Para 2027, a agência espera que a relação entre dÃvida lÃquida e Ebitda recue para uma faixa entre 3,0 e 3,5 vezes.
Projeção de receita continua acima do nÃvel de 2025
A S&P reduziu sua projeção de receita lÃquida do Magazine Luiza para 2026 para aproximadamente R$ 39 bilhões. O número representa uma expansão de cerca de 2,5% sobre os R$ 38,04 bilhões registrados pela companhia em 2025, mas indica uma trajetória de crescimento mais moderada do que a esperada anteriormente pela agência. O corte da estimativa ocorreu em conjunto com a revisão das necessidades de capital de giro.
A mudança é relevante porque o problema identificado pela classificadora não está concentrado apenas na capacidade de gerar receita, mas na conversão dessa atividade em caixa suficiente para reduzir o endividamento. No primeiro semestre de 2026, a companhia acumulou prejuÃzo lÃquido de R$ 127,7 milhões, enquanto a dÃvida lÃquida chegou a aproximadamente R$ 4,04 bilhões.
A própria evolução dos resultados ajuda a explicar a cautela. No segundo trimestre, a receita bruta caiu 2,2%, para R$ 11,1 bilhões, e as despesas financeiras lÃquidas avançaram 15,5%, a R$ 572,3 milhões. Esse último valor correspondeu a 6,4% da receita lÃquida do trimestre, reduzindo o espaço para que o desempenho operacional se transformasse em lucro lÃquido.
A diferença entre a operação e o resultado final é um dos pontos centrais da atual estrutura financeira do Magazine Luiza. Mesmo com Ebitda superior a R$ 675 milhões no trimestre, a companhia terminou o perÃodo no vermelho. Isso significa que a melhora operacional ainda não foi suficiente para neutralizar o peso das despesas financeiras e demais itens que afetam o resultado final.
Alavancagem sobe antes da expectativa de queda em 2027
A revisão de 3,6 vezes para 4 vezes na projeção de dÃvida lÃquida sobre Ebitda representa uma alta de 0,4 ponto na relação de alavancagem, equivalente a aproximadamente 11% sobre a estimativa anterior. O movimento posterga a desalavancagem que a S&P esperava para 2026, mas não elimina a expectativa de redução no ano seguinte.
Na faixa inferior projetada para 2027, de 3 vezes, a relação seria 25% menor que os 4 vezes estimados para o fim de 2026. No teto de 3,5 vezes, a queda seria de 12,5%. A magnitude dependerá da recuperação das vendas, da geração de caixa e da capacidade de administrar o capital de giro, pontos diretamente ligados à revisão feita pela agência.
A S&P já havia trabalhado, no inÃcio de 2026, com uma expectativa de melhora gradual da alavancagem do Magazine Luiza. Em relatório de janeiro, a agência projetava dÃvida lÃquida ajustada sobre Ebitda em torno de 3,5 vezes ao final de 2026 e associava a redução do endividamento à melhoria operacional e à geração de caixa. A atualização de setembro mostra que essa trajetória foi postergada diante dos resultados do primeiro semestre.
No relatório de janeiro, a S&P também projetava redução de aproximadamente R$ 900 milhões na dÃvida bruta ao longo de 2026. Parte relevante desse processo está relacionada ao vencimento da 10ª emissão de debêntures, cujo saldo devedor era de R$ 888,3 milhões em 31 de dezembro de 2025 e cujo vencimento contratual está previsto para 15 de outubro de 2026. O Magazine Luiza esclareceu à CVM que essa amortização integra a gestão ordinária de seu passivo e não constitui uma projeção de desempenho.
A operação de outubro, portanto, representa um evento relevante para a trajetória da dÃvida, mas não deve ser confundida com uma geração de caixa operacional extraordinária. O pagamento reduz uma obrigação financeira já contratada; a capacidade de sustentar uma desalavancagem recorrente dependerá da geração de caixa do negócio.
Lojas fÃsicas sustentam a operação enquanto o digital perde ritmo
O desempenho do segundo trimestre mostra uma diferença importante entre os canais da companhia. As lojas fÃsicas apresentaram expansão de vendas, enquanto o comércio eletrônico sofreu retração. No consolidado, as vendas totais somaram aproximadamente R$ 14,5 bilhões no perÃodo, queda de 5,1% sobre o segundo trimestre de 2025. As vendas das lojas fÃsicas avançaram 10,3%, enquanto o e-commerce total recuou 11,9%.
Essa composição ajuda a entender por que a estratégia de recuperação destacada pela S&P está concentrada em recompor o desempenho digital sem perder a contribuição da rede fÃsica. O modelo de negócios do Magazine Luiza combina lojas próprias, operação online, marketplace e serviços associados. A perda de ritmo do comércio eletrônico afeta não apenas as vendas, mas também a capacidade de absorver custos de tecnologia, logÃstica e marketing sobre uma base maior de transações.
A parceria com o Mercado Livre passou a fazer parte desse esforço de recuperação. Segundo a S&P, o acordo pode ampliar a exposição dos produtos do Magazine Luiza no ambiente digital sem depender exclusivamente do tráfego próprio da companhia. A agência também considera que a redução da presença de concorrentes em determinadas localidades pode aliviar a disputa por demanda.
A questão central, porém, será verificar se a expansão de vendas terá conversão suficiente em margem e caixa. Crescimento de receita sem recuperação proporcional da geração financeira teria impacto limitado sobre a alavancagem, especialmente em uma companhia que ainda carrega despesas financeiras relevantes.
Rating preservado apesar da revisão das estimativas
A manutenção do rating em brAA- mostra que, na avaliação da S&P, a revisão das métricas para 2026 ainda permanece compatÃvel com o nÃvel de risco de crédito atribuÃdo à empresa. A perspectiva estável considera uma recuperação gradual das vendas e da geração de caixa, seguida de redução da alavancagem a partir de 2027.
O rating de recuperação das 10ª e 13ª emissões de debêntures também foi mantido em br3. Segundo a agência, essa classificação corresponde a uma expectativa de recuperação significativa, em torno de 60%, em um cenário hipotético de default. Trata-se de uma avaliação especÃfica de recuperação de crédito e não de uma previsão de inadimplência da companhia.
A perspectiva estável também não significa ausência de riscos. A própria revisão das projeções evidencia que a trajetória financeira pode mudar caso a recuperação das vendas ou da geração de caixa fique abaixo do esperado. No caso do Magazine Luiza, a evolução do capital de giro, o comportamento das despesas financeiras e a recuperação do comércio eletrônico estarão entre os principais indicadores para avaliar se a redução da alavancagem prevista para 2027 será confirmada.
O resultado do segundo trimestre reforçou esse ponto. O Ebitda permaneceu próximo do nÃvel observado um ano antes, mas o prejuÃzo lÃquido aumentou e a despesa financeira ganhou participação na receita. Assim, o próximo estágio da recuperação não depende somente de manter a rentabilidade operacional: será necessário converter essa rentabilidade em fluxo de caixa suficiente para reduzir obrigações financeiras e limitar a necessidade de capital de giro.
A leitura da S&P para o Magazine Luiza, portanto, combina duas trajetórias distintas. No curto prazo, a agência revisou para cima a alavancagem esperada e reduziu a previsão de receita, refletindo o desempenho mais fraco do primeiro semestre. No horizonte seguinte, continua projetando recuperação das vendas, melhora da geração de caixa e queda da relação entre dÃvida lÃquida e Ebitda.
O dado mais objetivo dessa mudança é a postergação do processo de desalavancagem. A companhia entrou no segundo semestre de 2026 ainda pressionada pelo custo financeiro e por um comércio eletrônico mais fraco, enquanto busca ampliar os canais de venda e recuperar o ritmo das receitas. A execução dessa estratégia nos próximos trimestres será determinante para que a relação de endividamento volte à trajetória prevista pela classificadora para 2027.
Fontes:
Standard & Poor’s – relatório de análise de crédito e projeções atualizadas para o Magazine Luiza
Magazine Luiza – comunicado ao mercado em resposta a ofÃcio da CVM sobre a amortização da 10ª emissão de debêntures
Magazine Luiza – divulgação de resultados e demonstrações financeiras do segundo trimestre de 2026
Magazine Luiza – divulgação de resultados e demonstrações financeiras do exercÃcio de 2025
Money Times – dados do resultado do segundo trimestre de 2026 e informações sobre receita, Ebitda e despesas financeiras







