A seis dias do primeiro turno das eleições presidenciais, Flávio Bolsonaro (PL) intensificou o discurso em favor do chamado voto útil, procurando atrair eleitores de outras candidaturas de direita e centro-direita para sua campanha. A movimentação ocorre enquanto o senador permanece sob investigação no Supremo Tribunal Federal (STF) por suspeitas relacionadas ao financiamento de Dark Horse, cinebiografia de Jair Bolsonaro que recebeu recursos associados ao empresário Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master.
A proximidade da votação de 4 de outubro coloca dois acontecimentos simultâneos na agenda da candidatura: a tentativa de ampliar sua votação ainda no primeiro turno e o andamento das apurações sobre a origem e a destinação dos recursos empregados na produção cinematográfica. O caso envolve procedimentos conduzidos pelos ministros André Mendonça e Flávio Dino, com objetos distintos, embora relacionados ao mesmo filme.
Em entrevista publicada pela revista Veja no último fim de semana, o senador Rogério Marinho (PL-RN), coordenador da campanha presidencial, defendeu a concentração dos votos entre eleitores identificados com candidaturas próximas ao campo político de Flávio. Ao justificar o movimento, afirmou que o voto útil poderia evitar um eventual “esgarçamento do processo” eleitoral.
A declaração foi apresentada no contexto de questionamentos sobre possíveis desdobramentos das investigações durante uma eventual segunda etapa da eleição. Marinho também defendeu a atuação do candidato nas tratativas de financiamento do filme e manifestou a expectativa de que as decisões judiciais permaneçam vinculadas aos elementos reunidos nos respectivos procedimentos.
O primeiro turno está marcado para domingo, 4 de outubro. Caso nenhum candidato obtenha mais da metade dos votos válidos, os dois mais votados disputarão uma nova votação em 25 de outubro, conforme o calendário oficial do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).
Campanha procura concentrar votos de outras candidaturas de direita
O apelo de Flávio Bolsonaro se dirige principalmente a eleitores que demonstram preferência por alternativas à candidatura do PL e à do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Entre os nomes presentes nesse segmento da disputa estão Ronaldo Caiado (PSD), Romeu Zema (Novo), Augusto Cury (Avante) e Renan Santos (Missão).
A estratégia consiste em apresentar a concentração dos votos como possibilidade de antecipar uma definição eleitoral, dispensando a realização do segundo turno. Em manifestações públicas, Flávio tem associado esse objetivo à oposição ao PT e à possibilidade de iniciar mais cedo a preparação de uma eventual transição de governo.
A decisão de disputar a Presidência no primeiro turno, entretanto, pertence individualmente aos eleitores, e a existência de candidaturas com posições políticas semelhantes não implica transferência automática de seus respectivos votos.
O TSE confirmou, em 11 de setembro, a participação de 12 candidaturas na disputa presidencial. Entre elas estão as chapas encabeçadas por Lula, Flávio Bolsonaro, Caiado, Zema, Cury e Renan Santos, além das demais candidaturas que tiveram seus registros aprovados pela Justiça Eleitoral.
A última eleição presidencial brasileira encerrada no primeiro turno ocorreu em 1998, quando Fernando Henrique Cardoso conquistou a reeleição. Desde então, as disputas presidenciais foram decididas em uma segunda votação.
Pelas regras constitucionais, para vencer no primeiro turno, um candidato precisa receber mais de 50% dos votos válidos, excluídos os votos brancos e nulos. O percentual não depende apenas da votação absoluta de determinada candidatura, mas também da distribuição dos votos válidos entre todos os concorrentes.
Inquérito sob relatoria de André Mendonça investiga financiamento do filme
O financiamento de Dark Horse passou a ser objeto de investigação no STF após a divulgação de informações sobre negociações entre Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro, então controlador do Banco Master.
A apuração sob responsabilidade do ministro André Mendonça foi instaurada a pedido da Polícia Federal, com manifestação favorável da Procuradoria-Geral da República (PGR). A decisão de 22 de julho autorizou o aprofundamento das investigações sobre possíveis irregularidades nas operações financeiras relacionadas ao projeto cinematográfico.
Entre as suspeitas submetidas à investigação estão possíveis práticas de corrupção, lavagem de dinheiro e evasão de divisas. A inclusão de Flávio Bolsonaro no procedimento busca esclarecer sua participação nas tratativas, a origem dos valores negociados, o percurso financeiro das transferências e a identificação dos beneficiários finais.
Informações divulgadas sobre as negociações apontam para um patrocínio de até R$ 134 milhões associado ao Banco Master. É necessário distinguir, entretanto, o montante previsto ou negociado contratualmente dos recursos efetivamente transferidos. O valor global anunciado não deve ser apresentado como quantia comprovadamente recebida pelo senador.
A investigação envolve também a estrutura financeira utilizada para encaminhar recursos à produção, incluindo operações relacionadas a um fundo constituído nos Estados Unidos. A identificação dos responsáveis pela administração, pela autorização das transferências e pela destinação final dos valores integra os pontos relevantes para esclarecer a natureza das operações.
Flávio Bolsonaro rejeita a existência de irregularidades. Segundo sua versão, os recursos destinados ao filme tinham origem privada e as negociações ocorreram em período no qual o Banco Master ainda funcionava regularmente.
O senador também negou ter acertado vantagem indevida com Vorcaro. A defesa apresentada por seus aliados sustenta que ele participou da solicitação de recursos para o projeto, mas não administrou diretamente o dinheiro.
Essas declarações integram o contraditório e precisam ser consideradas separadamente das hipóteses investigativas formuladas pela Polícia Federal. A instauração de um inquérito não representa conclusão sobre responsabilidade criminal, assim como a existência de transferências financeiras, isoladamente, não demonstra a prática dos delitos investigados.
Operação autorizada por Flávio Dino investiga possível uso de emendas parlamentares
Paralelamente à apuração sobre os recursos privados associados ao Banco Master, outra investigação examina a possível destinação irregular de dinheiro público para a produção cinematográfica.
Em 10 de setembro, a Polícia Federal deflagrou a Operação Make Up, autorizada pelo ministro Flávio Dino, para investigar suspeitas de desvio de recursos provenientes de emendas parlamentares. A ação contou com apoio da Controladoria-Geral da União (CGU) e envolveu o cumprimento de 49 mandados de busca e apreensão em São Paulo, Rio de Janeiro, Ceará e Distrito Federal.
Entre os investigados está o deputado federal Mário Frias (PL-SP), ligado à produção de Dark Horse. O procedimento examina repasses de emendas parlamentares para entidades vinculadas à empresária Karina Ferreira da Gama, responsável pela produtora audiovisual envolvida no projeto.
Segundo as informações divulgadas pelo STF, os recursos teriam sido destinados inicialmente ao Instituto Conhecer Brasil e à Academia Nacional de Cultura. A suspeita é de que parte do dinheiro tenha sido desviada de suas finalidades originais e direcionada a outras atividades, incluindo a produção do filme sobre Jair Bolsonaro.
A Polícia Federal também investiga possíveis irregularidades na contratação de empresas prestadoras de serviços, na comprovação da execução dos objetos financiados e na movimentação posterior dos recursos.
Os investigadores identificaram movimentações financeiras de centenas de milhões de reais entre empresas relacionadas ao esquema sob apuração. Esse montante, contudo, corresponde ao universo das transações financeiras examinadas na operação, não podendo ser apresentado como valor integralmente desviado ou destinado ao filme.
A distinção é especialmente importante porque a Operação Make Up possui abrangência superior à produção cinematográfica, envolvendo suspeitas de crimes licitatórios, peculato, falsidade documental, lavagem de dinheiro e organização criminosa.
A investigação conduzida por Flávio Dino também não deve ser confundida com o inquérito sob relatoria de André Mendonça. Embora ambos alcancem operações relacionadas a Dark Horse, possuem fundamentos, investigados e linhas de apuração próprios.
Defesa contesta suspeitas de irregularidades e questiona momento das investigações
Flávio Bolsonaro tem sustentado publicamente que não houve irregularidade no financiamento do filme e que sua participação nas negociações não envolveu benefício financeiro pessoal.
Após a Operação Make Up, o candidato classificou a iniciativa como uma tentativa de interferência política no período eleitoral e negou que recursos públicos tenham sido empregados na produção. A declaração contrasta com a hipótese examinada pela Polícia Federal, que investiga justamente a eventual utilização de verbas provenientes de emendas parlamentares.
A existência dessas posições divergentes exige distinguir o conteúdo da investigação de uma conclusão judicial. Até o momento das informações públicas examinadas, as apurações mencionadas não constituem condenação criminal do senador pelos fatos relacionados à produção de Dark Horse.
Na entrevista publicada pela Veja, Rogério Marinho apresentou uma defesa da participação de Flávio na obtenção do financiamento, afirmando que os recursos solicitados não foram destinados pessoalmente ao candidato, mas encaminhados a um fundo nos Estados Unidos.
O coordenador da campanha também declarou esperar que o ministro Flávio Dino observe os parâmetros da investigação e os elementos eventualmente identificados pela Polícia Federal.
A manifestação de Marinho associa a defesa do candidato ao ambiente da disputa presidencial. Entretanto, não há equivalência entre a manifestação de preocupação de integrantes da campanha e a existência de uma decisão judicial sobre novas medidas contra Flávio Bolsonaro.
Eventuais diligências, restrições ou medidas cautelares dependem dos requisitos legais e das decisões das autoridades competentes. Não é possível apresentar especulações sobre novas operações como providências já determinadas.
O que muda entre uma definição em primeiro turno e a votação de 25 de outubro
A distância entre as duas datas eleitorais é de 21 dias. Se houver segundo turno, o período abrirá uma nova etapa de campanha, restrita às duas candidaturas que obtiverem mais votos válidos na primeira votação.
Durante esse intervalo, os procedimentos judiciais e policiais relacionados a Dark Horse poderão seguir seus respectivos cursos, conforme as decisões dos relatores e as necessidades investigativas. A realização de uma segunda votação, por si só, não altera o objeto dos inquéritos nem estabelece antecipadamente qualquer consequência processual para os investigados.
O TSE considera cada turno uma eleição independente para efeito de votação e comparecimento do eleitorado. Os votos obtidos na primeira etapa não são transportados para a segunda, na qual o resultado é definido novamente pela maioria dos votos válidos.
Essa característica diferencia o discurso político sobre voto útil das regras efetivamente aplicáveis ao processo eleitoral. A campanha pode defender publicamente a concentração dos votos em determinado candidato, mas a definição de um eventual segundo turno decorre exclusivamente da apuração dos resultados oficiais.
O pedido de concentração eleitoral também ocorre em uma disputa com 12 candidaturas registradas, cujos eleitores não constituem grupos homogêneos. Afinidades programáticas, identidade partidária, avaliação de propostas e posicionamentos individuais podem resultar em escolhas diferentes, mesmo entre pessoas que se identificam com o mesmo campo político.
O caso Dark Horse, por sua vez, continuará sujeito aos procedimentos formais de investigação, independentemente do calendário da campanha. As duas frentes abertas no Supremo têm como questões centrais o esclarecimento da origem dos recursos, a identificação de seus destinatários e a verificação de possíveis irregularidades nas operações examinadas.
Até a votação de 4 de outubro, a campanha de Flávio Bolsonaro mantém o apelo pelo voto útil, enquanto a Polícia Federal prossegue com as investigações relacionadas ao financiamento da cinebiografia de Jair Bolsonaro. A evolução dos procedimentos dependerá das provas reunidas, das manifestações das partes e das decisões judiciais, sem que a disputa eleitoral substitua as exigências legais de apuração e responsabilização.
Fontes:
Tribunal Superior Eleitoral — Registros das candidaturas presidenciais de 2026, calendário eleitoral e regras do sistema majoritário.
Supremo Tribunal Federal — Decisão de autorização da Operação Make Up e informações oficiais sobre a investigação relacionada ao filme Dark Horse.
Polícia Federal — Comunicado oficial da Operação Make Up, publicado em 10 de setembro de 2026.
Controladoria-Geral da União — Informações sobre a investigação de possíveis desvios de recursos provenientes de emendas parlamentares.
Agência Brasil — Informações sobre a autorização judicial para investigar o financiamento da produção cinematográfica.
Declarações públicas de Flávio Bolsonaro e entrevista concedida pelo senador Rogério Marinho sobre a campanha presidencial e as investigações.








