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Mercado de canetas emagrecedoras deve chegar a US$ 150 bilhões até 2030

Avanço dos medicamentos GLP-1 muda hábitos de consumo e pressiona alimentos, bebidas, varejo, academias e tecnologia de saúde.

por Daniel Wicker
13/05/2026 às 07h54
em Negócios
Autor Do Projeto, Mario Heringer, Defende Uso De Canetas Emagrecedoras Como Parte De Política De Combate À Obesidade.

O mercado global de medicamentos GLP-1, classe que inclui as chamadas canetas emagrecedoras, deve chegar a US$ 150 bilhões até 2030, impulsionado pela expansão dos tratamentos contra obesidade, diabetes e controle de peso. A estimativa foi apresentada por Cristiane Amaral, sócia da EY e líder dos segmentos de consumo, produtos, varejo, health e life sciences para a América Latina, em análise sobre os efeitos desses medicamentos em diferentes setores da economia.

A projeção reforça a velocidade com que os remédios antiobesidade passaram a influenciar decisões de consumo, estratégias industriais e modelos de negócio. O avanço dos GLP-1 deixou de ser uma pauta restrita à indústria farmacêutica e passou a afetar também alimentos, bebidas, academias, varejo, tecnologia, clínicas de saúde, serviços de bem-estar e empresas ligadas à longevidade.

Leia também: Ibovespa sobe com corte da Selic, mas dólar e Fed mantêm mercado em alerta.

Segundo a executiva, há duas frentes simultâneas em transformação. A primeira é o mercado dos medicamentos GLP-1, que já representam cerca de 8% do faturamento das empresas produtoras. A segunda é o mercado de saudabilidade, conceito que engloba alimentação, atividade física, monitoramento biológico, prevenção e bem-estar, com potencial estimado em US$ 8 trilhões até 2030.

A EY atua globalmente em consultoria, auditoria, impostos e transações, com áreas dedicadas a consumo, varejo, saúde e life sciences, setores diretamente afetados pela expansão dos medicamentos antiobesidade.

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GLP-1 amplia impacto além da indústria farmacêutica

Os medicamentos GLP-1 ganharam escala primeiro no tratamento de diabetes, mas avançaram rapidamente para controle de peso e obesidade. A classe atua sobre mecanismos metabólicos ligados à saciedade, glicose e apetite, o que alterou a percepção do mercado sobre seu potencial econômico.

O crescimento da demanda criou uma nova fronteira para a indústria farmacêutica. Empresas produtoras desses medicamentos passaram a capturar receitas bilionárias, enquanto competidores tentam acelerar pesquisas, ampliar capacidade produtiva e desenvolver novas formulações.

A transformação, porém, não se limita às farmacêuticas. A redução de apetite e a mudança no padrão alimentar de usuários podem afetar categorias inteiras de alimentos e bebidas. Produtos com maior teor de açúcar, ultraprocessados e bebidas alcoólicas tendem a ser mais pressionados por consumidores que buscam dietas mais controladas.

Ao mesmo tempo, cresce a demanda por alimentos com maior teor proteico, porções menores, produtos funcionais, suplementos e soluções voltadas à saúde metabólica. Esse movimento exige revisão de portfólio por parte da indústria de consumo.

Para o varejo, o desafio está em reorganizar categorias. Supermercados, farmácias, lojas de suplementos e plataformas digitais tendem a adaptar prateleiras, comunicação e sortimento para capturar consumidores mais atentos à saúde.

Mercado de saudabilidade pode atingir US$ 8 trilhões

Além dos medicamentos GLP-1, a executiva da EY destacou o avanço do mercado de saudabilidade, estimado em US$ 8 trilhões até 2030. Esse segmento inclui produtos e serviços associados a alimentação saudável, atividade física, prevenção, longevidade, saúde mental, monitoramento biológico e bem-estar.

A tese central é que o uso das canetas emagrecedoras não representa apenas uma mudança médica, mas uma reorganização do consumo. Pessoas que passam a controlar peso e saúde metabólica tendem a revisar hábitos de alimentação, exercício, sono, exames, suplementação e acompanhamento clínico.

No Brasil, esse movimento já aparece nas decisões de compra. Segundo a executiva, 35% dos consumidores afirmam que o fator saudabilidade é decisivo no momento de escolher alimentos e bebidas.

A mudança se reflete também em hábitos cotidianos. Levantamento citado pela EY mostra que 71% da população já direciona escolhas para alimentos e bebidas mais saudáveis, enquanto 69% mudou práticas relacionadas a exercícios físicos.

Esses dados indicam que a busca por saúde deixou de ser nicho e passou a ocupar espaço central na estratégia de empresas de consumo. Para marcas, o desafio é combinar conveniência, preço, sabor, transparência e benefícios funcionais.

Estados Unidos antecipam tendência que pode chegar ao Brasil

O uso em larga escala dos medicamentos GLP-1 avançou primeiro nos Estados Unidos. Segundo Cristiane Amaral, a expectativa é que cerca de 20% da população adulta americana use esse tipo de medicamento até 2030.

Esse patamar ajuda a explicar por que empresas globais de alimentos, bebidas, saúde e varejo já observam o tema com atenção. Em um mercado desse tamanho, mudanças no apetite, nas preferências alimentares e no comportamento de compra podem alterar receitas de categorias consolidadas.

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O Brasil deve seguir trajetória própria, influenciado por renda, acesso médico, preço dos medicamentos, cobertura de planos de saúde, regulação, prescrição e disponibilidade. Ainda assim, a tendência de saudabilidade já está presente no mercado local.

A expansão das canetas emagrecedoras no país ocorre em meio a um debate mais amplo sobre obesidade, diabetes, envelhecimento populacional e prevenção de doenças crônicas. O avanço desses tratamentos pode acelerar uma mudança que já vinha acontecendo no consumo.

Para empresas brasileiras, o ponto central é antecipar adaptações. Alimentos com apelo saudável, bebidas com menos açúcar, opções sem álcool, produtos proteicos e serviços de acompanhamento podem ganhar relevância à medida que consumidores mudam prioridades.

Alimentação e bebidas entram em nova fase

A indústria de alimentos e bebidas está entre as mais expostas à expansão dos medicamentos GLP-1. Como esses remédios podem reduzir apetite e alterar preferências, empresas do setor precisam avaliar impactos em volume, frequência de compra e composição do carrinho.

Categorias indulgentes, porções grandes e produtos com alto teor calórico podem enfrentar maior pressão em determinados segmentos de consumidores. Em contrapartida, produtos associados a equilíbrio nutricional, saciedade, proteína, fibras e baixo teor de açúcar podem ganhar espaço.

No varejo, a mudança já aparece na reorganização de gôndolas. Áreas dedicadas a produtos light, sem lactose, sem glúten, com menos açúcar e funcionais tendem a crescer. Bebidas de baixo ou zero teor alcoólico também passam a ocupar posição mais relevante.

Segundo Cristiane Amaral, 48% dos consumidores no Brasil já redirecionam compras de bebidas para águas saborizadas, em substituição a bebidas alcoólicas, ou para opções com baixo ou zero teor alcoólico.

Esse movimento pressiona a indústria a revisar fórmulas, embalagens, tamanhos, linguagem de comunicação e portfólio. A disputa passa a ser por consumidores que querem produtos alinhados à saúde, mas não abrem mão de conveniência e experiência.

Academias e bem-estar ganham novo público

A expansão dos medicamentos GLP-1 também deve impactar academias, studios, clínicas de bem-estar e serviços de acompanhamento físico. O uso das canetas emagrecedoras pode estimular consumidores a adotar uma rotina mais ampla de saúde, combinando medicamento, exercício, alimentação e monitoramento.

Segundo a executiva da EY, não se trata apenas de uma população que passa a fazer mais exercícios. O consumidor tende a buscar espaços de saudabilidade diferentes, com serviços integrados a medicamentos, suplementação, avaliação física e prevenção.

Isso pode beneficiar academias premium, clínicas multidisciplinares, studios especializados, nutricionistas, endocrinologistas, aplicativos de saúde e programas corporativos de bem-estar.

O mercado de suplementos também pode se expandir nesse contexto. Consumidores em processo de perda de peso podem buscar produtos voltados à preservação de massa muscular, ingestão de proteína, vitaminas, fibras e saúde metabólica.

Para empresas do setor, a oportunidade está em construir ecossistemas. Em vez de vender apenas academia, consulta ou suplemento, o mercado tende a oferecer jornadas completas de acompanhamento.

Tecnologia de saúde deve ganhar espaço

Outro efeito apontado pela EY está no avanço do monitoramento de saúde. Wearables, anéis inteligentes, pulseiras, aplicativos e dispositivos capazes de medir indicadores biológicos devem ganhar relevância à medida que consumidores passam a acompanhar mais de perto sua condição física.

O mercado já avançou na medição de passos, frequência cardíaca, sono e gasto calórico. A nova etapa tende a ser mais sofisticada, com foco em idade biológica, metabolismo, marcadores de risco, composição corporal e qualidade de vida.

Clínicas de longevidade também entram nesse movimento. A busca deixa de ser apenas viver mais e passa a incluir viver com melhor qualidade, menor risco de doenças crônicas e maior autonomia física.

Essa tendência aproxima saúde, tecnologia e consumo. Empresas de equipamentos, plataformas digitais, laboratórios, clínicas e planos de saúde podem encontrar novas oportunidades nesse cruzamento.

Ao mesmo tempo, a expansão de dados de saúde exige maior atenção a privacidade, segurança da informação, transparência e responsabilidade no uso de informações sensíveis.

Varejo reorganiza categorias para consumidor mais seletivo

Supermercados e redes de varejo já começam a adaptar categorias para consumidores mais atentos a saúde. A lógica de compra muda quando o cliente passa a olhar rótulos, composição nutricional, teor de açúcar, presença de lactose, glúten, proteína e ingredientes funcionais.

Essa mudança impacta sortimento e exposição. Produtos saudáveis deixam de ser uma seção isolada e passam a competir por espaço em categorias principais. Bebidas sem álcool, águas saborizadas, snacks proteicos e alimentos menos processados ganham visibilidade.

Para varejistas, a oportunidade está em aumentar tíquete médio com produtos de maior valor agregado. Para a indústria, o desafio é entregar inovação com preço competitivo, especialmente em países como o Brasil, onde renda e inflação ainda influenciam fortemente o consumo.

A comunicação também precisa mudar. O consumidor exige mais clareza sobre composição, benefício e adequação do produto. Promessas vagas de saúde tendem a perder força diante de um público mais informado.

Segundo Cristiane Amaral, transparência será ponto central para a indústria. Empresas terão de explicar o que oferecem, quais benefícios entregam e como garantem que os produtos sejam adequados ao consumidor.

Empresas terão de revisar portfólios e pesquisa

A transformação associada aos GLP-1 exige reação estratégica das empresas. A executiva da EY afirma que a indústria terá de investir em pesquisa e desenvolvimento, revisar produtos e adaptar portfólios.

Essa revisão pode incluir novas formulações, redução de açúcar, porções menores, aumento de proteína, ingredientes funcionais, embalagens mais informativas e lançamentos voltados a públicos em tratamento ou em busca de controle de peso.

Empresas que demorarem a adaptar portfólios podem perder espaço para marcas mais ágeis. O risco é maior em categorias diretamente afetadas por mudança de apetite e hábitos alimentares.

Ao mesmo tempo, há oportunidade para companhias que conseguirem combinar saúde e prazer. Produtos saudáveis, mas sem aceitação sensorial, dificilmente ganham escala. O consumidor quer benefícios nutricionais, mas também conveniência, sabor e preço.

A mudança também deve afetar marketing e relacionamento com o cliente. Marcas terão de construir confiança, evitar promessas exageradas e dialogar com um consumidor mais atento a evidências, rótulos e recomendações médicas.

Saúde neurológica e longevidade entram no debate

A EY também identifica efeitos em quatro frentes principais: hábitos de alimentos e bebidas, monitoramento de saúde, longevidade e saúde neurológica. Isso amplia o alcance do tema para além do emagrecimento.

A conexão com longevidade ocorre porque obesidade, diabetes e saúde metabólica estão associados a risco de doenças crônicas. O controle de peso pode ser parte de uma agenda mais ampla de prevenção e qualidade de vida.

A saúde neurológica também ganha espaço porque sono, alimentação, atividade física, metabolismo e saúde mental estão cada vez mais integrados na visão de bem-estar. Empresas de consumo e saúde tentam capturar essa convergência com produtos, serviços e programas personalizados.

Esse cenário favorece modelos de negócio integrados. Clínicas, academias, aplicativos, planos de saúde, marcas de alimentos e empresas de tecnologia podem formar parcerias para acompanhar o consumidor em diferentes etapas.

No entanto, o avanço também exige cautela. Medicamentos GLP-1 devem ser usados com indicação e acompanhamento médico. A expansão do mercado não elimina riscos, contraindicações e necessidade de supervisão profissional.

Canetas emagrecedoras alteram estratégia de consumo

O crescimento projetado para o mercado de GLP-1 até 2030 mostra que as canetas emagrecedoras se tornaram um fenômeno econômico, não apenas médico. A classe de medicamentos já influencia hábitos de compra, estratégias de varejo, inovação industrial, academias, tecnologia de saúde e serviços ligados à longevidade.

Para empresas de alimentos e bebidas, o desafio será adaptar portfólios a consumidores mais seletivos. Para varejistas, a oportunidade está em reorganizar categorias e capturar demanda por produtos saudáveis. Para academias e clínicas, o movimento pode abrir espaço para modelos integrados de acompanhamento.

A projeção de US$ 150 bilhões para GLP-1 e de US$ 8 trilhões para saudabilidade indica que a transformação deve ganhar escala nos próximos anos. No Brasil, a mudança ainda depende de acesso, preço, regulação e comportamento do consumidor, mas os sinais já aparecem nas decisões de compra.

O avanço das canetas emagrecedoras tende a obrigar diferentes setores a revisar estratégias. A disputa não será apenas por quem produz medicamentos, mas por quem entende como o consumidor mudará sua forma de comer, comprar, treinar, monitorar saúde e buscar qualidade de vida.

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