O setor de serviços iniciou o terceiro trimestre sem crescimento, reforçando os sinais de moderação da economia brasileira. O volume de serviços ficou estável em julho na comparação com junho e avançou apenas 0,9% frente ao mesmo mês de 2025, segundo a Pesquisa Mensal de Serviços (PMS) do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O resultado veio abaixo das expectativas de mercado, que apontavam alta de 0,2% na margem e de 1,1% na comparação anual.
A leitura de julho ganha relevância porque os serviços têm grande peso na formação da atividade econômica e chegaram ao segundo semestre praticamente encostados no recorde histórico. O índice ficou 0,2% abaixo do pico alcançado em outubro de 2025, apesar de permanecer cerca de 20% acima do nível registrado antes da pandemia, em fevereiro de 2020.
O dado também prolonga uma sequência de perda de velocidade. Em junho, o volume havia ficado estável na margem, depois de queda de 0,4% em maio. Em abril, por outro lado, o setor tinha avançado 1,2%, depois de recuar 1,2% em março. A trajetória mostra uma economia que continua operando em nível elevado, mas com dificuldade crescente para sustentar taxas de expansão mais fortes.
A combinação entre juros ainda altos, menor dinamismo do consumo e desaceleração de algumas atividades ajuda a explicar esse comportamento. A Selic está em 14% ao ano desde a decisão do Comitê de Política Monetária (Copom) de agosto, quando o Banco Central reduziu a taxa de 14,25% para 14%.
Informação e comunicação interrompe sequência de crescimento
O principal contraponto dentro da pesquisa veio de informação e comunicação, que registrou queda de 2,5% em julho ante junho. O movimento devolveu parte do avanço de 3,3% acumulado entre abril e junho e interrompeu um dos segmentos que vinham contribuindo para sustentar a atividade no primeiro semestre.
A importância desse resultado está no peso do segmento e na intensidade da reversão. Informação e comunicação havia sido um dos motores do crescimento recente dos serviços, especialmente por meio de atividades relacionadas a tecnologia da informação, telecomunicações, desenvolvimento de software, tratamento de dados e serviços digitais.
O recuo de julho, portanto, não significa necessariamente uma mudança estrutural no setor, mas representa uma perda importante de impulso em uma área que vinha apresentando desempenho superior ao conjunto da economia. O efeito sobre o índice agregado foi parcialmente compensado pelo avanço das demais grandes categorias investigadas.
Entre os serviços profissionais, administrativos e complementares, o volume cresceu 0,6% na passagem de junho para julho. Serviços prestados às famílias avançaram 0,5%, enquanto outros serviços tiveram alta de 0,7%. Transportes, serviços auxiliares aos transportes e correio subiram 0,4%.
A composição revela, assim, uma diferença importante entre as atividades. Enquanto informação e comunicação devolveu parte dos ganhos recentes, os segmentos associados à circulação de pessoas, empresas e consumo apresentaram avanços modestos, impedindo que a retração de um único grupo arrastasse o índice agregado para território negativo.
Mesmo assim, a estabilidade nacional mostra que a expansão ficou distribuída de maneira insuficiente para produzir novo avanço do índice total.
Turismo recupera parte das perdas do primeiro semestre
Um dos resultados mais expressivos de julho apareceu no agregado de atividades turísticas. O índice avançou 2,7% na comparação com junho, recuperando parte da queda de 4% registrada entre maio e junho.
A alta veio em um momento de recuperação de um segmento que havia enfrentado oscilações importantes ao longo do primeiro semestre. Apesar do avanço mensal, o turismo ainda está 3,8% abaixo do ápice de sua série histórica, registrado em dezembro de 2024.
A diferença entre a expansão de julho e o nível recorde evidencia que a recuperação ainda não foi suficiente para recolocar o setor em sua máxima histórica. O desempenho também mostra que a estabilidade dos serviços em julho não significa ausência de crescimento em nichos específicos, mas sim uma composição em que altas de determinados segmentos foram neutralizadas por quedas em outros.
O transporte apresentou movimento semelhante. Dentro da atividade, o transporte de passageiros aumentou 2,9% em julho ante o mesmo mês do ano anterior, enquanto o transporte de cargas cresceu 1%. O desempenho contribuiu para evitar uma deterioração mais acentuada do índice geral.
A presença de crescimento nos transportes é relevante porque o segmento havia sido um dos pontos mais frágeis em determinados momentos do primeiro semestre. Em maio, por exemplo, os transportes recuaram 1% na margem, contribuindo de forma significativa para a queda total de 0,4% registrada naquele mês.
Desempenho mensal contrasta com desaceleração do PIB
O resultado de julho aparece poucos dias depois de o IBGE divulgar uma desaceleração do crescimento econômico no segundo trimestre. Entre abril e junho, o Produto Interno Bruto (PIB) avançou 0,5% em relação ao primeiro trimestre, abaixo da expansão de 1,1% registrada nos três primeiros meses do ano.
Dentro do PIB, o setor de serviços cresceu apenas 0,2% no segundo trimestre. A taxa ficou bem abaixo do ritmo de expansão observado no primeiro trimestre e confirmou uma perda de velocidade da atividade no período.
Na ótica da demanda, o quadro foi ainda mais claro. O consumo das famílias recuou 0,4% entre o primeiro e o segundo trimestre, depois de crescer no trimestre anterior. A queda representa um elemento importante para a interpretação dos números da PMS, uma vez que parte relevante dos serviços está diretamente relacionada ao consumo das famílias e à contratação de serviços por empresas.
O resultado de julho sugere que essa moderação não ficou restrita ao encerramento do segundo trimestre. A estabilidade registrada no primeiro mês do terceiro trimestre indica que o setor entrou na nova etapa do ano sem recuperar o ritmo perdido nos meses anteriores.
Há, portanto, uma diferença entre nível e velocidade. O setor continua em patamar historicamente elevado, mas cresce pouco na margem. Essa combinação reduz a capacidade dos serviços de funcionar como principal fonte de expansão contínua da atividade.
Juros elevados mantêm restrição sobre a economia
A política monetária continua sendo um dos principais fatores a considerar na leitura dos dados. O Copom reduziu a Selic para 14% ao ano em agosto, mas manteve uma avaliação de que a política monetária deve continuar restritiva diante das incertezas e das expectativas de inflação ainda acima da meta.
O efeito de uma taxa básica elevada não aparece de forma instantânea nos indicadores mensais. Ele se transmite por crédito, financiamento, custo de capital, decisões de investimento e comportamento das famílias. Por isso, a estabilidade observada em julho pode coexistir com uma economia que ainda apresenta mercado de trabalho relativamente aquecido.
O próprio Banco Central avaliou, na decisão de agosto, que os indicadores de atividade eram compatíveis com uma trajetória de desaceleração ao longo de 2026. A PMS de julho reforça essa leitura ao mostrar crescimento anual inferior a 1% e ausência de expansão na margem pelo segundo mês consecutivo.
O quadro é diferente de uma recessão generalizada. O índice continua acima do período pré-pandemia e próximo do recorde da série. O que os dados indicam é uma mudança de ritmo: a economia preserva parte dos ganhos acumulados, mas encontra mais dificuldade para adicionar novas altas.
Segundo semestre começa com menor margem para aceleração
O comportamento dos serviços também estabelece uma base mais fraca para o restante do terceiro trimestre. Como julho terminou estável, os resultados de agosto e setembro terão de apresentar crescimento para produzir uma aceleração mais clara no trimestre.
A composição de julho mostra que essa recuperação dependerá de uma combinação de fatores. Informação e comunicação precisará interromper a queda observada no mês, enquanto transportes, serviços profissionais e atividades voltadas às famílias terão de manter o avanço.
O turismo aparece como uma fonte potencial de sustentação, mas ainda carrega uma distância de 3,8% em relação ao seu pico histórico. Isso limita, no curto prazo, a interpretação de que o avanço mensal de 2,7% represente uma retomada completa.
A perda de velocidade também ocorre em uma economia que chegou ao segundo semestre com diferenças relevantes entre os setores. A agropecuária apresentou forte expansão no segundo trimestre, com alta de 2,8%, enquanto a indústria cresceu apenas 0,1%. Os serviços ficaram no meio desse quadro, avançando 0,2%.
Esse desenho torna os indicadores mensais particularmente importantes para acompanhar se a desaceleração observada no segundo trimestre será transitória ou se ganhará maior abrangência no restante do ano.
Por enquanto, julho fornece um primeiro sinal de continuidade da moderação. O setor permanece robusto em termos de nível de atividade, mas o crescimento de 0,9% em 12 meses e a estabilidade pelo segundo mês seguido mostram que o impulso perdeu intensidade justamente no segmento de maior peso sobre a economia.
O desempenho dos próximos meses também será observado em meio à combinação entre juros ainda restritivos, consumo mais fraco e incertezas que podem afetar decisões de famílias e empresas. Com a atividade começando o terceiro trimestre sem avanço, a trajetória dos serviços passa a ser um dos principais indicadores para medir a capacidade de a economia sustentar o crescimento acumulado no primeiro semestre.
Fontes:
Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – Pesquisa Mensal de Serviços e indicadores do volume de serviços de 2026
Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – Contas Nacionais Trimestrais e resultado do PIB do segundo trimestre de 2026
Banco Central do Brasil – decisão e comunicado do Copom de agosto de 2026 sobre a taxa Selic e a atividade econômica
UOL Economia – cobertura dos dados da Pesquisa Mensal de Serviços de julho de 2026









