O mercado de capitais brasileiro movimentou R$ 361,8 bilhões em ofertas entre janeiro e junho de 2026, o maior volume já registrado para um primeiro semestre na série histórica da Anbima, iniciada em 2012. O resultado representa crescimento de 9,8% em relação ao mesmo período do ano passado e mostra que empresas, instituições financeiras, fundos e acionistas continuaram encontrando demanda para captações mesmo diante dos juros elevados, da volatilidade externa e das incertezas fiscais e eleitorais.
Ao todo, foram concluídas 1.513 operações no mercado doméstico, aumento de 13% sobre os seis primeiros meses de 2025. O avanço do número de emissões foi superior ao crescimento do volume financeiro, sinal de que o mercado recebeu mais ofertas de menor porte e estruturas voltadas a diferentes perfis de emissor.
A renda fixa permaneceu como principal fonte de recursos, com R$ 288,8 bilhões, o equivalente a quase 80% do total captado no semestre. Debêntures, fundos de recebíveis, notas comerciais e certificados ligados aos setores imobiliário e agropecuário continuaram dominando as emissões.
A composição do recorde, no entanto, foi mais diversificada do que em períodos anteriores. Fundos imobiliários, Fiagros e ações ganharam participação, compensando a retração observada em instrumentos tradicionais como debêntures, CRIs e CRAs.
Os títulos híbridos, categoria em que a Anbima reúne fundos imobiliários e fundos das cadeias agroindustriais, levantaram R$ 47,8 bilhões. O volume também foi recorde para um primeiro semestre.
FIIs mais que dobram captações no semestre
Os fundos de investimento imobiliário foram um dos principais motores do crescimento.
As ofertas de cotas de FIIs movimentaram R$ 39,5 bilhões, alta de 103,9% sobre os R$ 19,3 bilhões registrados nos primeiros seis meses de 2025.
O resultado mostra que os fundos imobiliários mantiveram capacidade de captar recursos mesmo em um ambiente no qual títulos públicos, CDBs e outros produtos de renda fixa oferecem remuneração elevada.
Parte da explicação está na própria composição da indústria. Fundos de papel, que investem em certificados de recebíveis e outros créditos imobiliários, podem se beneficiar de juros e inflação elevados porque parcela relevante das carteiras está indexada ao CDI ou a índices de preços.
Fundos de imóveis físicos enfrentam uma dinâmica diferente. Galpões logísticos, shopping centers, escritórios, hospitais e imóveis destinados ao varejo dependem da ocupação, da qualidade dos contratos, dos reajustes de aluguel e da capacidade dos gestores de adquirir ativos a preços atrativos.
As ofertas permitem ampliar portfólios, financiar aquisições, reduzir dívidas e reforçar o caixa dos fundos. Para o cotista, porém, uma nova emissão pode provocar diluição quando o investidor não acompanha a subscrição e o capital captado não produz retorno proporcional.
O salto das captações também foi sustentado pela demanda de pessoas físicas e fundos de investimento. Os investidores individuais elevaram as subscrições em instrumentos híbridos de R$ 9,7 bilhões para R$ 20,7 bilhões.
Entre os fundos de investimento, o volume aplicado nas ofertas passou de R$ 6 bilhões para R$ 18,9 bilhões.
Fiagros captam R$ 8,3 bilhões e ganham espaço no crédito rural
Os Fiagros apresentaram a maior taxa de crescimento entre os instrumentos acompanhados no levantamento.
As captações chegaram a R$ 8,3 bilhões, avanço de 288,3% em relação aos R$ 2,1 bilhões do primeiro semestre do ano passado.
Criados para direcionar recursos privados ao agronegócio, os Fiagros podem investir em recebíveis, imóveis rurais, participações empresariais e títulos emitidos por companhias das cadeias de alimentos, insumos, logística e produção agrícola.
O crescimento ocorre em um momento de maior necessidade de refinanciamento no setor. Juros elevados encarecem o capital de giro dos produtores e das empresas, enquanto oscilações nos preços das commodities, eventos climáticos e margens mais apertadas aumentam a demanda por novas fontes de crédito.
Os fundos oferecem uma alternativa ao financiamento bancário tradicional e ao crédito rural subsidiado. Por meio dessas estruturas, investidores podem financiar produtores, cooperativas, revendedores de insumos, tradings, usinas e empresas de armazenagem.
O aumento do volume exige atenção à qualidade das operações. Fiagros concentrados em poucos devedores, regiões ou culturas podem ficar mais expostos a secas, quebras de safra, queda de preços e inadimplência.
Garantias, subordinação de cotas, histórico dos emissores e experiência dos gestores tornaram-se fatores centrais diante da rápida expansão da indústria.
Debêntures seguem na liderança, mas volume cai 12,1%
As debêntures continuaram como o principal instrumento individual do mercado de capitais brasileiro.
As emissões somaram R$ 169,8 bilhões no semestre, queda de 12,1% em comparação com o mesmo período de 2025. A quantidade de operações, entretanto, aumentou de 268 para 278.
A redução do volume financeiro, acompanhada por um número maior de ofertas, indica queda no valor médio das emissões.
Empresas continuaram recorrendo ao mercado para financiar investimentos, administrar dívidas e reforçar o capital de giro, mas passaram a dividir as captações em operações menores ou mais específicas.
As debêntures representaram aproximadamente 47% de todo o dinheiro levantado no mercado doméstico entre janeiro e junho.
Os títulos permitem que companhias captem diretamente com investidores, sem depender exclusivamente de empréstimos bancários. As condições variam conforme prazo, indexador, garantias e risco de crédito.
Em um ambiente de juros elevados, emissões vinculadas ao CDI permanecem atrativas para investidores que desejam acompanhar a taxa básica. Para as empresas, porém, o custo financeiro também aumenta, pressionando a capacidade de pagamento.
Energia concentra debêntures incentivadas
As debêntures incentivadas representaram 38,3% das captações da categoria, ou aproximadamente R$ 65 bilhões.
Esses títulos financiam projetos considerados prioritários de infraestrutura e, sob as condições legais aplicáveis, oferecem isenção de Imposto de Renda para pessoas físicas.
O setor de energia elétrica respondeu por mais da metade do volume incentivado.
Empresas de geração, transmissão e distribuição utilizam o mercado para financiar novos projetos, modernizar redes, ampliar capacidade e refinanciar investimentos de longo prazo.
Saneamento, transportes, telecomunicações e logística também recorrem às debêntures incentivadas, mas com participação menor.
O instrumento permite aproximar o prazo da dívida do período necessário para que um projeto de infraestrutura comece a produzir receita.
A isenção tributária melhora a demanda, mas não elimina o risco. O pagamento depende da situação financeira do emissor e do desempenho dos projetos financiados. Debêntures não contam com a proteção do Fundo Garantidor de Créditos.
Negociação de debêntures cresce 20,6%
O mercado secundário de debêntures também apresentou expansão.
O volume negociado passou de R$ 410,1 bilhões no primeiro semestre de 2025 para R$ 494,6 bilhões no mesmo intervalo de 2026, crescimento de 20,6%.
O avanço indica que os investidores não apenas compraram novos títulos, mas também negociaram com maior frequência papéis já existentes.
Um mercado secundário mais ativo melhora a liquidez e facilita a formação de preços. Gestores conseguem ajustar suas carteiras, vender posições antes do vencimento e comparar taxas entre diferentes emissores.
A liquidez, contudo, permanece desigual. Títulos de grandes empresas, emissões volumosas e debêntures incentivadas costumam concentrar mais negócios.
Papéis de companhias menores ou com estruturas específicas podem apresentar baixa frequência de negociação e diferenças maiores entre os preços de compra e venda.
FIDCs levantam R$ 53,1 bilhões
Os fundos de investimento em direitos creditórios movimentaram R$ 53,1 bilhões em 559 operações.
Os FIDCs foram a segunda maior fonte de captação da renda fixa, atrás apenas das debêntures.
Esses fundos compram recebíveis originados por bancos, varejistas, indústrias, fintechs, empresas de serviços e outros negócios. Ao vender os créditos, a empresa antecipa valores que receberia no futuro.
A estrutura amplia o acesso ao mercado de capitais para companhias que não possuem porte ou histórico suficiente para emitir debêntures diretamente.
Os FIDCs podem reunir duplicatas, parcelas de cartão, financiamentos, mensalidades, contratos comerciais e outros direitos de pagamento.
O risco depende da qualidade dos devedores, da concentração da carteira, das garantias e da estrutura das cotas. Em muitos fundos, cotas subordinadas absorvem as primeiras perdas antes de afetar investidores seniores.
O número de 559 operações mostra que o instrumento alcançou emissores de diferentes tamanhos e setores, com captações médias inferiores às observadas nas debêntures.
CRIs e CRAs perdem força
Os certificados de recebíveis apresentaram retração.
As emissões de CRIs somaram R$ 20,3 bilhões, queda de 15,8% ante o primeiro semestre do ano passado.
Os CRAs registraram recuo mais intenso, de 50,4%, para R$ 7,1 bilhões.
Os dois instrumentos transformam recebíveis dos setores imobiliário e agropecuário em títulos adquiridos por investidores.
A queda não significa necessariamente uma redução equivalente no financiamento dessas atividades. Parte da demanda pode ter migrado para FIIs, Fiagros, FIDCs e debêntures.
Mudanças regulatórias, custos de estruturação e maior seletividade dos investidores também podem ter influenciado as emissões.
Assim como as debêntures, CRIs e CRAs apresentam risco de crédito e não possuem garantia do FGC. A isenção tributária para pessoas físicas, quando aplicável, não deve ser considerada substituta da análise do emissor e das garantias.
Notas comerciais têm recorde de operações
As notas comerciais registraram 123 ofertas, maior quantidade já observada para um primeiro semestre.
O número cresceu 43% na comparação anual. O volume financeiro, porém, caiu 11,4%, para R$ 27,1 bilhões.
A combinação reforça o movimento de maior número de captações com tíquetes médios menores.
Notas comerciais possuem estrutura mais simples que as debêntures e podem ser utilizadas para capital de giro, estoques, investimentos e reorganização de passivos.
O instrumento é especialmente relevante para empresas que desejam acessar o mercado de capitais, mas ainda não possuem necessidade ou estrutura para realizar uma emissão de debêntures.
O crescimento do número de operações amplia a base de companhias financiadas por investidores. Ao mesmo tempo, exige mais atenção ao risco de crédito de empresas menos conhecidas.
Renda variável volta com R$ 25,2 bilhões
A renda variável voltou a ganhar tração no primeiro semestre de 2026.
As ofertas de ações movimentaram aproximadamente R$ 25,2 bilhões, superando os R$ 15,5 bilhões registrados durante todo o ano de 2025.
O mercado realizou oito ofertas subsequentes, conhecidas como follow-ons, que captaram cerca de R$ 22 bilhões. A quantidade foi superior às cinco operações realizadas no primeiro semestre do ano anterior, quando o volume ficou próximo de R$ 4 bilhões.
As ofertas subsequentes podem ser primárias ou secundárias. Nas primárias, a companhia emite novas ações e recebe o dinheiro. Nas secundárias, acionistas vendem papéis existentes e ficam com os recursos.
O semestre também marcou o retorno dos IPOs à B3 com a abertura de capital da Compass (PASS3), plataforma de negócios de gás controlada anteriormente pela Cosan (CSAN3).
A oferta movimentou aproximadamente R$ 3,2 bilhões, com preço de R$ 28 por ação.
A operação foi integralmente secundária e destinada a investidores profissionais. Isso significa que a Compass passou a ter ações negociadas no Novo Mercado, mas não recebeu os recursos da venda.
O dinheiro ficou com os acionistas vendedores. Ainda assim, a listagem ampliou a base de investidores, aumentou a liquidez das ações e estabeleceu uma referência pública de valor para a companhia.
Primeiro IPO em cinco anos reabre janela da Bolsa
A estreia da Compass (PASS3) interrompeu um período de quase cinco anos sem IPOs na B3.
A operação tem importância para outras empresas que aguardavam condições mais favoráveis para abrir o capital.
O retorno não significa que o mercado de IPOs esteja normalizado. Juros elevados continuam reduzindo o interesse por ações, porque aumentam a atratividade da renda fixa e diminuem o valor presente dos lucros futuros das empresas.
A volatilidade externa, a política fiscal e o calendário eleitoral também influenciam a disposição dos investidores.
A abertura da Compass e a retomada dos follow-ons, contudo, mostram que existe demanda quando emissores e vendedores aceitam preços compatíveis com as expectativas do mercado.
Uma eventual queda mais consistente dos juros poderia ampliar a janela para novas ofertas no médio prazo.
Brasil capta US$ 24,8 bilhões no exterior
As captações brasileiras no mercado internacional chegaram a US$ 24,8 bilhões, o maior volume para um primeiro semestre desde 2014.
O resultado foi 44,2% superior ao registrado entre janeiro e junho de 2025.
O governo federal respondeu por US$ 14,6 bilhões, ou 58,9% do total. Empresas levantaram US$ 7,7 bilhões, enquanto instituições financeiras captaram US$ 2,5 bilhões.
A participação do Tesouro foi ampliada por grandes operações soberanas.
Em fevereiro, o Brasil emitiu US$ 3,5 bilhões em títulos com vencimento em 2036 e reabriu em US$ 1 bilhão o papel com vencimento em 2056.
Em abril, o Tesouro voltou ao mercado europeu depois de mais de uma década e emitiu € 5 bilhões em títulos com vencimentos em 2030, 2033 e 2036.
A presença soberana ajuda a construir curvas de referência em moedas estrangeiras. Essas taxas servem como parâmetro para emissões de bancos e companhias brasileiras no exterior.
Para empresas com receitas em dólar ou euro, a captação externa pode alinhar a moeda da dívida ao fluxo de caixa. Companhias sem receitas na mesma moeda precisam contratar proteção cambial, elevando o custo final.
Recorde amplia financiamento, mas mantém dependência da renda fixa
O recorde de R$ 361,8 bilhões confirma a capacidade do mercado de capitais brasileiro de continuar financiando empresas e projetos durante um período de juros altos e maior aversão ao risco.
O resultado também mostra uma estrutura mais diversificada. A queda das debêntures, dos CRIs e dos CRAs foi compensada pelo avanço de FIIs, Fiagros, FIDCs e ações.
A renda fixa, entretanto, segue dominante. Quase oito de cada dez reais captados no mercado doméstico vieram de instrumentos de dívida.
Essa composição reflete tanto a preferência dos investidores por retornos elevados e previsíveis quanto a necessidade das empresas de refinanciar passivos e financiar investimentos sem recorrer exclusivamente ao crédito bancário.
O segundo semestre deverá testar a continuidade do movimento.
A trajetória da Selic, o cenário fiscal, as eleições e as condições internacionais definirão o custo das emissões e o grau de apetite por risco.
Se a queda dos juros ganhar força, ações e fundos de imóveis físicos poderão ampliar participação. Se as taxas permanecerem elevadas, debêntures, FIDCs e títulos indexados ao CDI devem continuar concentrando a demanda.
Mercado de capitais em números
| Segmento | Volume no 1º semestre de 2026 |
|---|---|
| Total de ofertas domésticas | R$ 361,8 bilhões |
| Número de operações | 1.513 |
| Renda fixa | R$ 288,8 bilhões |
| Debêntures | R$ 169,8 bilhões |
| FIDCs | R$ 53,1 bilhões |
| Fundos imobiliários | R$ 39,5 bilhões |
| Fiagros | R$ 8,3 bilhões |
| Notas comerciais | R$ 27,1 bilhões |
| CRIs | R$ 20,3 bilhões |
| CRAs | R$ 7,1 bilhões |
| Renda variável | R$ 25,2 bilhões |
| Negociação secundária de debêntures | R$ 494,6 bilhões |
| Captações internacionais | US$ 24,8 bilhões |











