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Move Brasil chega a R$ 1 bilhão, mas filtro dos bancos limita acesso ao carro novo

Programa já financiou veículos para mais de 10 mil taxistas e motoristas de aplicativo, mas aprovação no Gov.br não garante crédito, dispensa de entrada ou liberação automática dos recursos.

por Gabriel Monteiro
23/07/2026 às 16h37
em Economia
Move Brasil - Gazeta Mercantil

O Move Brasil alcançou R$ 1 bilhão em financiamentos aprovados para a compra de automóveis por taxistas e motoristas de aplicativo, mas a análise de risco feita pelos bancos permanece como o principal filtro entre a inscrição no programa e a retirada do veículo na concessionária. O balanço divulgado em julho pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social mostra que mais de 10 mil profissionais conseguiram contratar o crédito em 1.015 municípios, enquanto uma parcela dos interessados continua sujeita a exigências de entrada, avaliação de renda, histórico financeiro e disponibilidade de limite.

A linha começou a receber pedidos em 19 de junho e dispõe de até R$ 30 bilhões. O resultado de R$ 1 bilhão representa pouco mais de 3% da capacidade total prevista, embora o programa ainda esteja em sua fase inicial de operação.

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O valor médio financiado ficou em aproximadamente R$ 102 mil por veículo. A modalidade permite adquirir automóveis enquadrados nas regras ambientais do programa, com preço de até R$ 150 mil e prazo de pagamento de até 72 meses.

As taxas máximas são de 11,5% ao ano para mulheres e 12,6% para os demais beneficiários. Também há possibilidade de carência de até seis meses para o pagamento do principal, período em que os juros continuam devidos.

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A combinação de prazo mais longo e juros inferiores aos normalmente cobrados em operações de veículos torna a linha atrativa. O acesso, contudo, não é automático. O cadastro no Gov.br confirma apenas que o profissional atende aos critérios definidos pelo governo. A aprovação financeira continua sob responsabilidade dos bancos.

Aprovação no Gov.br não garante o financiamento

O processo do Move Brasil foi dividido em etapas distintas. Primeiro, o motorista acessa a plataforma do governo e autoriza a verificação das informações necessárias à análise de elegibilidade.

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No caso dos motoristas de aplicativo, é preciso manter cadastro ativo por pelo menos 12 meses e comprovar no mínimo 100 corridas realizadas no período, na mesma plataforma. Taxistas devem possuir registros e licenças ativos.

A resposta sobre a elegibilidade é enviada em até cinco dias úteis. Depois da confirmação, o profissional pode escolher um veículo participante e procurar uma concessionária ou instituição financeira habilitada.

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É nesse momento que começa a análise de crédito. O banco verifica renda, dívidas existentes, histórico de pagamento, comprometimento mensal, garantias e relacionamento com o cliente.

A autorização recebida pelo motorista não obriga a instituição a conceder o empréstimo. Como a operação é indireta, o banco credenciado assume o risco do contrato perante o BNDES e decide quais propostas serão aceitas.

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A separação entre a validação governamental e a decisão bancária ajuda a explicar por que o universo de profissionais interessados é maior que o número de financiamentos efetivamente contratados.

Bancos podem exigir entrada mesmo com cobertura de até 100%

As normas do BNDES permitem financiar até 100% dos itens elegíveis, mas essa possibilidade não significa que todos os clientes terão acesso ao veículo sem entrada.

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O percentual efetivamente liberado é definido pela instituição responsável pela operação. O banco pode financiar o valor integral, exigir uma parcela inicial ou reduzir o montante concedido de acordo com a avaliação do perfil financeiro.

A entrada funciona como uma proteção para a instituição. Ao antecipar parte do preço, o comprador reduz o saldo financiado, diminui o valor das parcelas e absorve parte do risco de desvalorização do automóvel.

Para motoristas autônomos, a comprovação da capacidade de pagamento costuma ser mais complexa do que para trabalhadores com salário fixo. A renda pode variar conforme o número de corridas, a cidade, a jornada, as tarifas das plataformas e a demanda em cada período.

Além disso, o faturamento bruto registrado nos aplicativos não corresponde ao valor disponível para pagar o financiamento. Combustível, manutenção, seguro, impostos, pneus, limpeza e comissão das plataformas consomem parte relevante da receita.

O banco precisa estimar quanto sobra depois desses custos. Se a prestação projetada superar o limite considerado seguro, a proposta pode ser reduzida, condicionada a uma entrada maior ou rejeitada.

Juros menores não eliminam o peso das parcelas

O Move Brasil estabelece um custo financeiro máximo de 11,5% ao ano para mulheres. Para os demais motoristas, o teto é de 12,6%.

A diferença decorre de uma taxa fixa menor destinada às profissionais mulheres, público para o qual o programa reservou ao menos R$ 3 bilhões. Outros R$ 3 bilhões foram separados inicialmente para taxistas, sem impedir que esses grupos contratem valores superiores se houver demanda e recursos disponíveis.

O prazo pode chegar a 72 meses, com até seis meses de carência para o pagamento do principal. Durante a carência, porém, os juros precisam ser pagos e não podem ser incorporados integralmente ao saldo devedor.

O prazo mais longo reduz o valor mensal, mas aumenta o período de endividamento. Para quem utiliza o automóvel como instrumento de trabalho, a decisão precisa considerar a prestação, os custos operacionais e a possível necessidade de manutenção ao longo de seis anos.

Um financiamento médio de R$ 102 mil representa um compromisso expressivo para um trabalhador autônomo. Mesmo com juros controlados, a parcela precisa caber em uma renda que pode oscilar de um mês para outro.

A instituição financeira também considera outras dívidas. Empréstimos pessoais, cartão de crédito, financiamentos anteriores e atrasos podem reduzir a capacidade disponível para assumir uma nova obrigação.

Fundo garantidor busca ampliar número de aprovações

O governo incluiu as operações do Move Brasil no Programa Emergencial de Acesso a Crédito, por meio do Fundo Garantidor para Investimentos, o Peac-FGI.

O mecanismo oferece uma garantia parcial ao banco credenciado. Se o motorista deixar de pagar, parte da perda poderá ser coberta pelo fundo, conforme as condições previstas no regulamento.

A proteção reduz o risco da instituição e pode permitir a aprovação de clientes que, sem a garantia, teriam dificuldade para obter financiamento. O fundo também pode contribuir para melhorar prazos e condições.

O Peac-FGI, entretanto, não funciona como um seguro para o motorista. A dívida continua sendo de responsabilidade do contratante, que permanece obrigado a pagar as prestações.

A utilização da garantia depende da concordância da instituição e do tomador. Também pode haver cobrança de um encargo pela concessão da proteção, valor que poderá ser incluído entre os itens financiados.

Mesmo com o fundo, o banco mantém sua análise de risco. O mecanismo reduz uma parte da exposição, mas não transforma automaticamente clientes sem capacidade de pagamento em propostas aprováveis.

O resultado do programa dependerá, portanto, da forma como as instituições incorporarão a garantia aos seus modelos. Quanto maior a proteção efetiva, maior tende a ser o espaço para aprovar profissionais com renda variável e menor patrimônio disponível.

Taxa de cadastro é proibida nas operações

O Conselho Monetário Nacional proibiu a cobrança de tarifa de cadastro nos financiamentos do Move Brasil.

A regra impede que a instituição cobre do motorista um valor apenas para abrir ou analisar o cadastro dentro do programa. O interessado que receber esse tipo de exigência deve verificar se a empresa é credenciada e procurar outro agente financeiro participante.

A vedação não elimina todos os custos da contratação. Podem existir despesas relacionadas à constituição e ao registro da alienação fiduciária, seguros contratados com o veículo e o encargo do fundo garantidor, quando utilizado.

O seguro do bem e o seguro prestamista podem ser financiados junto com o automóvel. Também podem ser incluídos custos cartorários ligados à garantia do contrato.

Para motoristas mulheres, itens de segurança podem representar até 10% do valor total financiado, desde que sejam contratados em conjunto com o veículo e estejam enquadrados nas regras da linha.

A instituição deve apresentar as condições da operação antes da assinatura. O cliente precisa conhecer o custo efetivo total, que reúne juros, encargos, seguros e demais despesas.

Uma taxa nominal inferior à praticada no mercado não significa necessariamente que todos os contratos terão o mesmo custo. A composição final varia conforme o valor financiado, o prazo, a entrada, os seguros e o uso de garantia.

Carros precisam atender aos critérios do programa

O Move Brasil não pode ser utilizado para comprar qualquer automóvel disponível nas concessionárias.

Na modalidade voltada a taxistas e motoristas de aplicativo, o veículo deve respeitar o teto de R$ 150 mil e integrar a relação de bens financiáveis. Os modelos precisam atender aos critérios de sustentabilidade estabelecidos pelo governo.

A lista inclui veículos flex, elétricos, híbridos compatíveis com etanol e modelos movidos exclusivamente pelo biocombustível. As montadoras também precisam estar habilitadas no Programa Mobilidade Verde e Inovação, o Mover.

O objetivo é associar a inclusão financeira à renovação da frota e à redução do consumo de combustíveis fósseis. Como taxistas e motoristas de aplicativo percorrem distâncias superiores às de um automóvel particular, a troca por modelos mais eficientes pode produzir impacto maior sobre consumo e emissões.

Para o profissional, eficiência energética tem efeito direto no fluxo de caixa. Um veículo mais econômico reduz o gasto por quilômetro e pode liberar uma parcela maior da receita para manutenção e pagamento do financiamento.

O custo da bateria, a disponibilidade de recarga, a autonomia e o valor do seguro também precisam ser considerados na escolha de modelos elétricos ou híbridos. O benefício econômico varia conforme a cidade, a jornada e a infraestrutura disponível.

Programa também funciona como política industrial

O Move Brasil não foi estruturado apenas como uma linha de crédito ao consumidor. O programa integra uma política mais ampla de renovação da frota e estímulo à indústria automotiva.

Ao direcionar recursos para veículos de empresas habilitadas no Mover, o governo procura aumentar as vendas de modelos produzidos ou comercializados dentro das exigências ambientais da política industrial.

O teto de R$ 30 bilhões cria potencial para movimentar concessionárias, montadoras, seguradoras, oficinas, empresas de equipamentos e serviços financeiros.

Se todo o volume previsto fosse utilizado com um financiamento médio próximo de R$ 102 mil, a linha poderia alcançar centenas de milhares de operações. O cálculo é apenas indicativo, porque o valor dos contratos varia e parte dos recursos está reservada a públicos específicos.

A velocidade das aprovações será determinante para o impacto econômico. O programa precisa conciliar dois objetivos que nem sempre avançam no mesmo ritmo: ampliar o acesso ao crédito e preservar a qualidade das carteiras bancárias.

Afrouxar excessivamente os critérios poderia elevar a inadimplência e comprometer a sustentabilidade da linha. Exigências muito rígidas, por outro lado, reduziriam o alcance social e manteriam os recursos sem utilização.

Distância entre procura e contratos expõe desafio do crédito

O avanço para R$ 1 bilhão mostra que o Move Brasil saiu da fase inicial e começou a gerar contratos em todas as regiões do país.

As mais de 10 mil operações comprovam que há demanda e capacidade de execução. O valor, porém, permanece distante do teto de R$ 30 bilhões, revelando o espaço disponível para ampliar o programa.

O principal desafio está na conversão de profissionais elegíveis em clientes aprovados pelos bancos. A política pública controla juros, prazos, critérios dos veículos e parte das garantias, mas não elimina a avaliação individual da capacidade de pagamento.

A exigência eventual de entrada continuará sendo um dos pontos mais sensíveis. Embora o BNDES admita financiamento integral, o banco repassador pode limitar o percentual para adequar o contrato ao risco do cliente.

A ampliação do Peac-FGI tende a ajudar, mas seus resultados dependerão da adesão das instituições e da cobertura concedida a cada operação.

Para taxistas e motoristas de aplicativo, a vantagem do Move Brasil continuará sendo comparada ao custo do aluguel, da manutenção do veículo atual e das linhas convencionais oferecidas no mercado.

A marca de R$ 1 bilhão representa um início relevante, mas o teste decisivo será verificar se o programa conseguirá acelerar as aprovações sem transformar crédito facilitado em endividamento incompatível com a renda dos profissionais.

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