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Natura traz Alessandro Carlucci de volta ao cargo de CEO após 12 anos

Executivo substitui João Paulo Ferreira em outubro e assume com a missão de acelerar a estratégia e recuperar a operação brasileira

por João Souza
01/09/2026 às 09h14
em Empresas
Natura (Natu3) Tem Prejuízo De R$ 119 Milhões No 3º Trimestre E Enfrenta Desafios Na América Latina - Gazeta Mercantil

A Natura (NATU3) decidiu recorrer a um executivo profundamente familiarizado com a companhia para conduzir sua próxima etapa. Alessandro Carlucci, que presidiu a fabricante de cosméticos entre 2005 e 2014 e atualmente comandava o Conselho de Administração, voltará à presidência executiva em 1º de outubro, substituindo João Paulo Ferreira após dez anos de gestão.

Apesar da mudança no principal cargo executivo, a companhia sinaliza que o retorno de Carlucci não representa uma guinada estratégica. Ao anunciar a transição, a Natura afirmou que o novo CEO terá como prioridade acelerar a execução da estratégia que já está em andamento. A mensagem reduz a possibilidade de uma revisão abrupta do modelo implementado nos últimos anos e coloca o foco sobre execução, crescimento e correção dos problemas operacionais que pressionaram o negócio brasileiro em 2026.

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Ferreira permanecerá na companhia até o fim de setembro. Carlucci deixa imediatamente suas funções no Conselho de Administração para preparar a transição e será substituído na presidência do colegiado por Fábio Barbosa, que retorna ao posto poucos meses depois de ter migrado para o Conselho Consultivo.

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A mudança completa uma sequência de alterações na governança da Natura iniciada ainda no primeiro semestre e ocorre em um momento especialmente delicado para a operação. Depois de concluir a simplificação da estrutura corporativa e concentrar suas atividades na América Latina, a empresa passou a enfrentar dificuldades de abastecimento, ajustes logísticos, mudanças comerciais e um ambiente de consumo mais fraco no Brasil.

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O desafio de Carlucci, portanto, será menos redesenhar a Natura e mais fazer funcionar com maior velocidade uma estrutura que já foi profundamente modificada.

Carlucci retorna após 12 anos fora da gestão executiva

Alessandro Carlucci conhece a Natura de dentro. Ele ingressou na empresa em 1989 e acumulou 25 anos como executivo, incluindo quase uma década na presidência, entre 2005 e 2014.

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Depois de deixar o comando, construiu uma trajetória predominantemente em conselhos de administração e atividades no exterior. Entre suas experiências estão passagens por conselhos de empresas como Arezzo & Co, atual Azzas 2154, Lojas Renner e outras companhias, além de atuação junto à Avon International.

Carlucci voltou a se aproximar formalmente da Natura em 2025, quando ingressou no Conselho de Administração. Em março deste ano, foi indicado para assumir a presidência do colegiado dentro da ampla reorganização da governança anunciada pela companhia.

Sua passagem pela presidência do conselho acabou sendo curta. Cinco meses depois, a empresa decidiu deslocá-lo novamente para uma função executiva.

No comunicado sobre a mudança, Carlucci deixou claro que não pretende iniciar sua gestão com uma reformulação integral das prioridades. Segundo o executivo, o foco estará em acelerar a estratégia já existente.

A escolha é relevante porque afasta, ao menos inicialmente, uma interpretação de que a troca de CEO represente rejeição ao trabalho desenvolvido durante a gestão de João Paulo Ferreira.

João Paulo Ferreira deixa empresa que triplicou de tamanho

Ferreira encerra um ciclo de dez anos como CEO e 17 anos de trajetória dentro da Natura.

Segundo dados divulgados pela própria companhia, a receita da empresa triplicou durante sua gestão. O período também foi marcado pela expansão internacional, crescimento dos negócios nos mercados hispânicos, desenvolvimento dos canais digitais e transformação do modelo tradicional de venda direta em uma estrutura multicanal.

A Natura afirma contar atualmente com cerca de 2,8 milhões de consultoras de beleza na América Latina, além de mais de 1.200 lojas. Somente em 2025, os canais digitais — incluindo comércio eletrônico, marketplaces e plataformas de social commerce — movimentaram mais de R$ 1,5 bilhão.

Ferreira também comandou um dos períodos mais complexos da história societária da companhia.

A empresa expandiu sua presença internacional, incorporou Avon e posteriormente passou por uma extensa reorganização destinada a simplificar a estrutura que havia sido criada durante o ciclo de aquisições globais.

Nos últimos anos, a Natura vendeu ativos internacionais, encerrou a operação da estrutura Natura &Co como havia sido originalmente concebida e voltou a concentrar seus esforços na América Latina.

Em 2025, a companhia registrou receita líquida de R$ 22,2 bilhões e EBITDA recorrente de aproximadamente R$ 3,1 bilhões, com margem de 14,1%.

A simplificação financeira e societária, entretanto, não eliminou os desafios operacionais.

Problemas no Brasil são o primeiro teste do novo CEO

O segundo trimestre de 2026 mostrou com clareza onde estão as principais dificuldades que Carlucci receberá.

A Natura registrou receita de R$ 5,2 bilhões no período. O negócio brasileiro foi afetado por indisponibilidade de produtos, efeitos tributários temporários e pelo enfraquecimento do consumo.

A própria empresa reconheceu que o desabastecimento foi superior ao inicialmente previsto.

Os problemas surgiram durante mudanças na cadeia de abastecimento e no relacionamento entre diferentes canais de vendas. A companhia também vem ampliando investimentos em infraestrutura digital e logística enquanto reorganiza a operação entre venda direta, comércio eletrônico, franquias e lojas próprias.

Apesar das dificuldades, o EBITDA consolidado chegou a R$ 620 milhões no segundo trimestre, equivalente a uma margem de 12%. Excluído o descasamento tributário apontado pela companhia, a margem teria alcançado 13,2%.

A geração de caixa livre para a firma foi positiva em R$ 342 milhões, e a alavancagem terminou o período em 2,06 vezes.

A América Hispânica apresentou desempenho bastante diferente. A receita avançou 7,2% em moeda constante, com crescimento particularmente relevante no México e continuidade da recuperação na Argentina.

Nesse conjunto de mercados, a marca Natura cresceu 12,3%, enquanto a Avon avançou 4,7%.

Esses números ajudam a delimitar a agenda que Carlucci terá pela frente: recuperar o ritmo da operação brasileira sem comprometer a melhora de rentabilidade obtida nos demais mercados latino-americanos.

Natura já definiu medidas para corrigir operação

Antes mesmo da troca de comando, a empresa havia apresentado uma série de iniciativas para normalizar o negócio brasileiro.

Entre as medidas estão o reequilíbrio da cadeia de abastecimento durante o segundo semestre, novos incentivos para a força de vendas, ações comerciais concentradas em categorias com maior giro, retomada da abertura de lojas e revisão do modelo de contratos de franquias.

Também está prevista a expansão da plataforma digital Minha Loja, utilizada pelas consultoras, e a entrada da companhia em novos marketplaces.

A Natura declarou ainda que pretende preservar investimentos considerados estratégicos em marketing, pesquisa e desenvolvimento e inovação digital.

É justamente essa estrutura que Carlucci deverá herdar.

Não há, até agora, indicação oficial de abandono dessas iniciativas. Pelo contrário: a mensagem pública do novo CEO associa seu retorno à aceleração da implementação do plano já existente.

Isso não significa ausência de mudanças. Um novo presidente executivo tende a alterar prioridades, estrutura de gestão, ritmo de investimentos e mecanismos de acompanhamento dos resultados. Mas, até que Carlucci apresente seu plano detalhado, não há evidência de uma reversão da estratégia corporativa construída nos últimos anos.

Advent adiciona nova variável à governança

O retorno de Carlucci também precisa ser observado dentro da reorganização acionária da Natura.

Em março, a companhia anunciou um compromisso pelo qual um fundo administrado pela Advent International adquiriria participação entre 8% e 10% no capital, mediante compras de ações em circulação e observado um preço-alvo médio de R$ 9,75 por ação.

A gestora posteriormente atingiu participação de 8%, equivalente a aproximadamente 110 milhões de ações.

A entrada permitiu à Advent indicar representantes para o Conselho de Administração e participar de estruturas responsáveis por acompanhar a estratégia e o plano de criação de valor.

O movimento aconteceu simultaneamente a uma transformação mais ampla da governança.

Os fundadores Luiz Seabra, Guilherme Leal e Pedro Passos deixaram o Conselho de Administração e migraram para um Conselho Consultivo criado para preservar a cultura, os princípios e a identidade empresarial da Natura.

Na ocasião, Fábio Barbosa também deixou a presidência do Conselho de Administração para integrar o novo órgão consultivo, enquanto Carlucci assumiu como chairman.

Agora, poucos meses depois, os dois executivos trocam novamente de posição: Carlucci vai para a gestão diária e Barbosa retorna à presidência do conselho.

A sequência mostra uma aproximação entre governança e execução justamente quando a empresa precisa transformar o processo de simplificação societária em crescimento operacional.

Não há, porém, indicação oficial de que a entrada da Advent tenha determinado a troca de CEO. Os dois movimentos fazem parte do mesmo período de reorganização da Natura, mas a companhia apresentou a mudança executiva como uma transição de ciclo.

Crescimento passa a ser a próxima cobrança

Nos últimos anos, boa parte da energia administrativa da Natura foi direcionada à reorganização.

A empresa vendeu operações, simplificou a estrutura societária, integrou negócios de Natura e Avon na América Latina, reduziu a complexidade internacional e reorganizou sua estrutura de capital.

O problema agora é diferente.

Com boa parte desse trabalho concluída, investidores passam a poder cobrar resultados mais diretamente ligados à expansão da receita, ganho de participação de mercado, geração de caixa e aumento da rentabilidade.

A própria Natura passou a utilizar a expressão “novo ciclo de expansão” para definir a etapa seguinte da companhia.

Carlucci assume, portanto, uma empresa muito diferente daquela que deixou em 2014. A venda direta continua relevante, mas divide espaço com lojas físicas, franquias, comércio eletrônico, marketplaces e social commerce. A Avon está incorporada ao modelo latino-americano, e a presença digital ganhou peso estrutural.

Ao mesmo tempo, seu profundo conhecimento da cultura da companhia é justamente um dos elementos destacados pela Natura para justificar o retorno.

A próxima indicação concreta sobre o tamanho das mudanças deverá surgir quando Carlucci assumir efetivamente a presidência executiva em 1º de outubro e detalhar as prioridades para a operação brasileira, a integração dos canais e o plano de crescimento. Até lá, a mensagem oficial é de continuidade: troca-se o comandante, mas não o rumo estratégico.

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