A Petrobras (PETR4) assinou nesta quinta-feira, 17 de setembro de 2026, contratos de partilha de produção para oito blocos exploratórios offshore na Costa do Marfim, consolidando sua entrada operacional em uma nova frente de exploração de petróleo na África Ocidental. Por meio da subsidiária integral Petrobras Netherlands B.V. (PNBV), a companhia terá 90% de participação e será a operadora das áreas, enquanto a estatal marfinense PETROCI Holding ficará com os 10% restantes. A cerimônia ocorreu em Abidjan e contou com a presença da diretora executiva de Exploração e Produção da Petrobras, Sylvia Anjos.
Os contratos abrangem os blocos CI-513, CI-600, CI-601, CI-602, CI-603, CI-605, CI-701 e CI-702. A assinatura formaliza uma negociação que vinha sendo construída desde 2025 e coloca a Petrobras como principal responsável pelas atividades exploratórias em um conjunto de áreas localizado na porção oeste da bacia sedimentar marfinense. O acordo, porém, não representa descoberta de petróleo nem início de produção: a companhia passa agora à etapa de exploração das áreas contratadas, cujo potencial dependerá de estudos geológicos, sísmicos e perfurações futuras.
A estrutura definida nos contratos significa que, em cada bloco, a participação da Petrobras é nove vezes superior à da PETROCI Holding. Além da fatia econômica de 90%, a subsidiária brasileira exercerá a função de operadora, concentrando a responsabilidade pelas atividades técnicas e operacionais previstas para as áreas. O comunicado da companhia não divulgou, na assinatura, valor de bônus, cronograma detalhado de perfuração ou estimativa de reservas associada aos oito blocos.
Pacote final ficou menor que o conjunto negociado em 2025
A trajetória até a assinatura mostra uma mudança no escopo inicial. Em junho de 2025, o governo da Costa do Marfim autorizou negociações com a Petrobras para nove blocos: além das oito áreas agora contratadas, a lista incluía o CI-700. A declaração de interesse apresentada pela Petrobras naquele momento também abrangia nove blocos e representava a primeira etapa de um processo que ainda dependeria da negociação dos contratos.
Na etapa final, o CI-700 deixou de constar do pacote assinado. Em termos exclusivamente quantitativos, o conjunto contratado representa uma redução de uma área sobre as nove inicialmente negociadas, equivalente a 11,1% do número de blocos da proposta de 2025. As fontes oficiais consultadas não apresentam a justificativa para a retirada do CI-700, de modo que não é possível atribuir a mudança a uma decisão técnica, comercial ou regulatória específica.
A evolução também mostra que o acordo passou por etapas distintas ao longo de mais de um ano. Primeiro veio a manifestação de interesse da Petrobras; depois, a autorização do governo marfinense para negociar os contratos; em junho de 2026, o Conselho de Ministros anunciou a assinatura dos oito PSCs; e, em 17 de setembro, os instrumentos foram efetivamente formalizados em Abidjan.
Costa do Marfim amplia ocupação de sua bacia sedimentar
A importância do acordo também pode ser dimensionada pelo lado marfinense. Em junho, o governo informou que a assinatura dos oito contratos elevaria para 75% a taxa de ocupação da bacia sedimentar nacional, considerando uma área de aproximadamente 63 mil quilômetros quadrados submetida a atividades de produção, avaliação e exploração.
Considerando o percentual e a área divulgados oficialmente, uma conta simples indica uma extensão total aproximada de 84 mil quilômetros quadrados para a bacia sedimentar considerada nessa métrica. O quarto restante corresponderia, nessa mesma base de cálculo, a cerca de 21 mil quilômetros quadrados. Trata-se de uma aproximação matemática a partir dos números oficiais e não de uma nova estimativa geológica.
O avanço da Petrobras ocorre em uma região que o governo marfinense vem tentando desenvolver como nova fronteira de exploração. Em 2025, a administração do país afirmou que os blocos da porção oeste da bacia eram, em sua maioria, localizados em águas profundas e que a entrada da Petrobras poderia ampliar a atividade exploratória nessa faixa ainda pouco desenvolvida.
A Petrobras, por sua vez, associa a expansão na Costa do Marfim à busca por novas fronteiras exploratórias e à recomposição de reservas de óleo e gás. A companhia afirma que a estratégia combina ativos no Brasil e no exterior e busca diversificar seu portfólio exploratório.
Novo ativo entra em estratégia de reposição de reservas
A assinatura ocorre no primeiro ano de vigência do Plano de Negócios 2026-2030 da Petrobras, que prevê US$ 109 bilhões em investimentos no quinquênio. Dentro do segmento de Exploração e Produção, a companhia destinou US$ 69,2 bilhões à carteira em implantação alvo, enquanto o plano reserva US$ 7,1 bilhões especificamente para atividades exploratórias.
O programa exploratório da Petrobras para 2026 a 2030 contempla, além das áreas brasileiras, ativos em outros países. O plano cita oportunidades exploratórias na Colômbia, em São Tomé e Príncipe e na África do Sul. A assinatura dos contratos na Costa do Marfim amplia esse componente internacional depois da aprovação do planejamento, reforçando a presença da companhia em novas fronteiras fora do Brasil.
O movimento precisa ser separado das operações de produção já existentes da Petrobras. A empresa pretende elevar sua produção total de petróleo e gás ao longo do quinquênio, com pico projetado de 3,4 milhões de barris equivalentes de óleo e gás por dia em 2028 e 2029. A entrada das novas áreas da Costa do Marfim, entretanto, não contribui de imediato para essa produção, porque os blocos ainda estão na fase exploratória e não há descoberta anunciada associada aos contratos.
Essa distinção é relevante para dimensionar o efeito econômico do anúncio. O contrato cria acesso a recursos potenciais e amplia o portfólio de exploração, mas não permite contabilizar novas reservas ou produção futura antes que os trabalhos exploratórios confirmem a existência e a viabilidade comercial de hidrocarbonetos.
Petrobras assume risco exploratório e amplia exposição internacional
A participação de 90% atribuída à PNBV coloca a Petrobras em posição dominante na estrutura de cada um dos oito contratos. A companhia também será a operadora, o que significa que a presença no projeto não se limita a uma posição financeira minoritária: a estatal brasileira terá papel central na condução das atividades de exploração.
A vantagem operacional buscada pela empresa está relacionada à experiência acumulada em operações offshore. Em seu planejamento estratégico, a Petrobras afirma que a exploração de novas fronteiras faz parte da estratégia de reposição das reservas e de maximização do valor de seu portfólio de óleo e gás.
A Costa do Marfim acrescenta uma geografia distinta ao conjunto de ativos internacionais. A própria Petrobras descreve as áreas contratadas como parte de uma região com características geológicas semelhantes às de bacias sedimentares nas quais a companhia possui experiência. A declaração, no entanto, é uma avaliação corporativa sobre o potencial da região e não equivale à comprovação de reservas nas áreas recém-contratadas.
Outro aspecto é o caráter de longo prazo da operação. Entre a manifestação de interesse registrada em junho de 2025 e a assinatura dos contratos, transcorreram cerca de 15 meses. Esse intervalo envolveu análise das áreas, negociação contratual e aprovação pelas autoridades marfinenses. A próxima etapa passa pela execução efetiva do programa exploratório e pela geração de dados capazes de determinar se os blocos apresentam acumulações comercialmente viáveis.
Próximos passos dependem da exploração dos oito blocos
A assinatura dos PSCs encerra a fase de negociação contratual, mas abre uma etapa que pode exigir vários ciclos de avaliação antes de qualquer decisão sobre desenvolvimento. O resultado econômico dos ativos dependerá da qualidade dos dados geológicos, da identificação de estruturas promissoras, da eventual perfuração de poços e, posteriormente, da confirmação de volumes recuperáveis e da viabilidade de produção.
O principal resultado imediato para a Petrobras é, portanto, a ampliação de seu inventário exploratório. A empresa passa a ter oito blocos sob sua operação na Costa do Marfim, com 90% de participação, enquanto o governo local mantém a PETROCI Holding como sócia com 10%.
Para a Costa do Marfim, a contratação amplia a cobertura de sua bacia sedimentar e incorpora uma companhia com experiência em exploração em águas profundas. Para a Petrobras, o acordo representa uma nova frente internacional dentro da estratégia de reposição de reservas. O retorno financeiro, contudo, ainda depende de uma sequência de etapas que começa agora e cujo resultado não está definido pelos contratos assinados em 17 de setembro.
Fontes:
Petrobras – anúncio da assinatura dos oito contratos de partilha de produção na Costa do Marfim e composição societária dos blocos
Governo da Costa do Marfim – decisão de 3 de junho de 2026 sobre os oito contratos e a ocupação da bacia sedimentar nacional
Governo da Costa do Marfim – autorização de junho de 2025 para negociação de contratos petrolíferos com a Petrobras
Petrobras – declaração de interesse apresentada em junho de 2025 para nove blocos exploratórios na Costa do Marfim
Petrobras – Plano de Negócios 2026-2030 e orçamento destinado à exploração e produção
B3 – identificação dos códigos de negociação das ações da Petrobras






