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PF mira aliados de Sóstenes em operação sobre desvio de cota parlamentar

Operação Galho Fraco II cumpre medidas no Distrito Federal, em Goiás e Minas Gerais; líder do PL não foi alvo desta fase

por Júlia Campos - Repórter de Política
01/07/2026 às 15h45 - Atualizado em 16/07/2026 às 19h38
em Política,Destaque,Notícias
Pl Quer Enquadramento De Criminosos Como Terroristas E Reforço Da Pf - Gazeta Mercantil - Política

deputado Sóstenes Cavalcante (PL-RJ)

A Polícia Federal deflagrou nesta quarta-feira, 1º de julho, a terceira fase da Operação Rent a Car, denominada Galho Fraco II, para aprofundar a investigação sobre um suposto esquema de desvio e ocultação de recursos da Cota para o Exercício da Atividade Parlamentar. As medidas foram autorizadas pelo Supremo Tribunal Federal e cumpridas no Distrito Federal, em Goiás e em Minas Gerais. O deputado Sóstenes Cavalcante (PL-RJ), líder do PL na Câmara, não foi alvo desta etapa.

A investigação apura indícios dos crimes de peculato, lavagem de dinheiro, organização criminosa e fraude processual. Segundo a PF, agentes públicos, particulares e pessoas jurídicas podem ter sido utilizados para conferir aparência de legalidade à movimentação de dinheiro público. A corporação também investiga possíveis tentativas de ocultação ou alteração de provas.

A nota oficial não informou a quantidade de mandados cumpridos, os nomes dos alvos nem o valor dos bens recolhidos. Reportagens publicadas durante a operação apontaram que assessores, advogados e pessoas ligadas ao entorno de Sóstenes estavam entre os investigados. O parlamentar, no entanto, não foi submetido a busca nesta quarta-feira.

Dinheiro foi encontrado dentro de livros falsos

Durante o cumprimento das medidas, agentes encontraram dinheiro em espécie escondido em compartimentos de livros falsos em endereços no Distrito Federal. Também foram recolhidos celulares, um computador portátil e relógios. A Folha de S.Paulo informou que as apreensões desta quarta somaram aproximadamente R$ 160 mil e US$ 502, além dos equipamentos eletrônicos e objetos de valor. A Polícia Federal ainda não divulgou oficialmente um balanço financeiro detalhado da ação.

A localização de dinheiro oculto não comprova, isoladamente, a prática dos crimes investigados. Os valores, documentos e aparelhos precisarão passar por análise para que a PF determine a origem dos recursos, seus destinatários e uma eventual relação com contratos pagos pela Câmara dos Deputados.

A suspeita de fraude processual está relacionada à possibilidade de que documentos ou versões tenham sido produzidos para justificar a origem de valores encontrados em etapas anteriores. A Polícia Federal afirma haver indícios de tentativas de ocultar ou modificar elementos relevantes para a investigação, mas ainda não apresentou publicamente uma conclusão sobre a responsabilidade individual dos alvos.

Um dos focos da nova fase seria a apuração da versão apresentada para explicar o dinheiro encontrado em dezembro de 2025 em um endereço utilizado por Sóstenes em Brasília. Segundo reportagens sobre o caso, um advogado investigado teria participado da documentação relativa à compra e venda de um imóvel apontada como origem dos recursos.

PF investiga versão sobre dinheiro apreendido em dezembro

A primeira Operação Galho Fraco foi deflagrada em 19 de dezembro de 2025 como desdobramento da Rent a Car. Na ocasião, a PF cumpriu sete mandados de busca e apreensão no Distrito Federal e no Rio de Janeiro para apurar suspeitas de desvio e posterior ocultação de verbas provenientes de cotas parlamentares. Sóstenes Cavalcante e o deputado Carlos Jordy (PL-RJ) estiveram entre os alvos daquela fase.

As informações publicadas sobre a quantia localizada no endereço associado a Sóstenes apresentam diferenças. Algumas reportagens mencionam cerca de R$ 430 mil; outras registram valor superior a R$ 460 mil ou próximo de R$ 470 mil. A nota oficial da Polícia Federal sobre a operação de dezembro não informou o montante exato, o que impede tratar uma dessas cifras como valor definitivo da corporação.

Após a apreensão, Sóstenes afirmou que o dinheiro tinha origem lícita e resultava da venda de um imóvel em Ituiutaba, em Minas Gerais. O deputado também declarou que a propriedade constava de seu Imposto de Renda e classificou a investigação como perseguição política. A PF passou a apurar se a transação apresentada correspondeu a uma operação efetiva ou se teria sido utilizada para justificar posteriormente a posse do numerário.

A nova diligência não significa que a versão do parlamentar já tenha sido considerada falsa pelo Judiciário. A operação busca justamente reunir documentos, comunicações e registros financeiros que permitam confirmar ou afastar essa hipótese.

Sóstenes informou à CNN Brasil que se manifestaria depois de tomar conhecimento do conteúdo da decisão e das medidas adotadas. Em manifestações anteriores, ele negou participação em um esquema de desvio de dinheiro público.

Operação começou com suspeita de contratos simulados

A origem da investigação remonta a dezembro de 2024, quando a Polícia Federal deflagrou a primeira fase da Operação Rent a Car. Naquele momento, seis mandados de busca e apreensão foram cumpridos no Distrito Federal, no Rio de Janeiro e no Tocantins.

De acordo com a PF, agentes públicos e empresários teriam estabelecido um acordo para desviar recursos provenientes de cotas parlamentares. A suspeita era de que uma empresa de locação de veículos tivesse sido utilizada para simular contratos de prestação de serviços, gerando documentação que permitiria solicitar o ressarcimento de despesas inexistentes ou diferentes das efetivamente realizadas.

Na fase inicial, os mandados se concentraram em assessores e outros integrantes do grupo investigado. Com o avanço das diligências, a operação alcançou diretamente Sóstenes e Carlos Jordy em dezembro de 2025. A terceira etapa busca esclarecer o caminho percorrido pelo dinheiro depois que os pagamentos foram realizados e verificar se houve participação de outras pessoas ou empresas na ocultação dos recursos.

Carlos Jordy negou irregularidades quando foi alvo da fase anterior. Segundo o deputado, os contratos de locação mantidos por seu gabinete eram regulares. Nenhum dos parlamentares foi condenado no âmbito dessa investigação.

Cota parlamentar permite aluguel de veículos

A Cota para o Exercício da Atividade Parlamentar, conhecida pela sigla CEAP, é destinada ao pagamento de despesas vinculadas ao mandato. Ela pode custear passagens, manutenção de escritórios, telefonia, combustível, divulgação parlamentar, hospedagem e diferentes formas de locomoção.

A locação ou o fretamento de veículos automotores é uma despesa permitida, respeitado o limite mensal inacumulável de R$ 12.713. A Câmara também admite a contratação de seguro, mas proíbe, entre outras situações, o pagamento a empresas das quais o deputado, parentes de até terceiro grau ou servidores da Casa sejam proprietários ou participantes.

Ao pedir o reembolso, o parlamentar declara assumir responsabilidade pela liquidação da despesa e atesta que o serviço foi prestado, que o gasto respeita as regras e que a documentação apresentada é autêntica e legítima. A Câmara pode promover verificações, conferências e glosas dos comprovantes. Dados como fornecedor, CNPJ, número da nota fiscal e valor reembolsado são publicados no Portal da Transparência.

Os registros da Câmara mostram que, em novembro de 2025, o gabinete de Sóstenes apresentou R$ 12.700 em despesas de locação ou fretamento de veículos, divididas entre dois fornecedores. O valor ficou R$ 13 abaixo do teto mensal previsto para essa modalidade. Esse registro público, isoladamente, não demonstra irregularidade, e não há confirmação oficial de que essas duas despesas específicas sejam objeto da Operação Galho Fraco II.

A distinção é necessária porque o simples uso da cota para alugar veículos é permitido. A investigação criminal procura saber se determinados serviços foram efetivamente prestados, se os documentos apresentados correspondiam à realidade e se parte dos pagamentos retornou a agentes públicos ou pessoas ligadas aos gabinetes.

Aluguel de veículos representa parcela relevante da CEAP

Dados consolidados pela Câmara mostram que os deputados federais haviam utilizado R$ 116,4 milhões da CEAP em 2026 até a atualização consultada. Desse total, R$ 18,85 milhões, ou 16,2%, estavam classificados como despesas com aluguel de veículos. A modalidade aparecia como a segunda maior rubrica, atrás apenas da divulgação da atividade parlamentar.

A presença relevante dessas despesas no orçamento parlamentar não significa que os contratos sejam, em geral, irregulares. Os dados ajudam, porém, a dimensionar a quantidade de dinheiro público movimentada por locadoras e a importância dos controles sobre notas fiscais, propriedade dos veículos, efetiva disponibilização dos automóveis e vínculos entre fornecedores e gabinetes.

O Ato da Mesa nº 43, que regulamenta a cota, estabelece que as despesas devem estar exclusivamente vinculadas à atividade parlamentar. O deputado também assume formalmente responsabilidade pela autenticidade da documentação apresentada ao solicitar o ressarcimento.

Em uma investigação desse tipo, os agentes podem confrontar notas fiscais, contratos, registros de veículos, movimentações bancárias, mensagens, localização dos automóveis, datas de utilização e saques realizados depois dos pagamentos. Inconsistências não produzem automaticamente uma condenação, mas podem justificar novas diligências e perícias.

Crimes permanecem sob investigação

O peculato investigado pela PF envolve, em termos gerais, o possível desvio ou apropriação de recursos públicos por agente que tenha acesso ao dinheiro em razão da função. A lavagem de dinheiro se refere a atos destinados a ocultar ou dissimular a origem, propriedade ou movimentação de valores provenientes de infração penal.

A hipótese de organização criminosa depende da demonstração de uma estrutura coordenada, com divisão de tarefas e objetivo de obter vantagens mediante a prática de crimes. Já a fraude processual pode ser caracterizada quando há alteração artificial de pessoas, lugares, objetos ou documentos para induzir autoridades ao erro durante uma investigação ou processo.

Nesta etapa, essas classificações representam linhas de apuração, e não crimes definitivamente atribuídos aos envolvidos. Buscas e apreensões são medidas de obtenção e preservação de provas. Elas não equivalem a denúncia do Ministério Público, recebimento de ação penal ou condenação.

A investigação tramita sob supervisão do Supremo Tribunal Federal porque envolve parlamentares federais e medidas submetidas à Corte. A nota oficial da PF informou apenas que as diligências foram autorizadas pelo STF. Reportagens sobre o caso atribuem a autorização ao ministro Flávio Dino.

Análise dos aparelhos definirá próximos movimentos

A PF deverá analisar o conteúdo de celulares, computadores, documentos e registros financeiros recolhidos nesta quarta-feira. O objetivo será reconstruir a movimentação dos recursos e verificar se as pessoas físicas e jurídicas investigadas tiveram participação na contratação, no recebimento, no saque ou na ocultação do dinheiro.

Os elementos encontrados poderão ser comparados com provas reunidas nas fases de 2024 e 2025, incluindo mensagens, depoimentos, contratos e dados bancários. Dependendo do resultado das perícias, a Polícia Federal poderá solicitar novas medidas, ouvir investigados ou apresentar relatório parcial ao Supremo Tribunal Federal.

Até que as provas sejam examinadas e as responsabilidades individualizadas, os envolvidos permanecem sob a presunção de inocência. A Galho Fraco II amplia o alcance da apuração, mas ainda não encerra a investigação nem estabelece culpa criminal de Sóstenes Cavalcante, de seus assessores ou dos demais alvos.

Tags: Câmara dos DeputadosCEAPcota parlamentarFlavio DinoLAVAGEM DE DINHEIROOperação Galho Fraco IIOperação Rent a CarpeculatoPolícia FederalPolíticaSóstenes Cavalcante

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