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PicPay dobra lucro no 2T26 e carteira de crédito chega a R$ 31,9 bilhões

Consignado privado responde por mais da metade da expansão trimestral dos empréstimos; lucro ajustado alcança R$ 283 milhões, enquanto inadimplência acima de 90 dias sobe para 9,8%

por João Souza
25/08/2026 às 20h20
em Empresas
Picpay Dobra Lucro No 2T26 E Carteira De Crédito Chega A R$ 31,9 Bilhões - Gazeta Mercantil

O PicPay (Nasdaq: PICS) encerrou o segundo trimestre de 2026 com aceleração da carteira de crédito, crescimento de receita acima de 60% e mais que o dobro do lucro registrado um ano antes. Os números mostram uma instituição que avança rapidamente na concessão de empréstimos, mas que passa a exigir acompanhamento mais atento da inadimplência à medida que as safras de crédito amadurecem.

A carteira total atingiu R$ 31,9 bilhões em junho, avanço de 99% em 12 meses e de 14% em relação ao primeiro trimestre. O resultado ficou 3% acima dos aproximadamente R$ 31 bilhões projetados pela própria companhia para o período.

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O principal motor foi o crédito consignado privado. Somente essa linha acrescentou R$ 2,2 bilhões à carteira durante o trimestre, o equivalente a 56% de todo o crescimento incremental.

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O lucro líquido ajustado alcançou R$ 283 milhões, alta de 135% na comparação anual. Pelo padrão contábil IFRS, o lucro foi de R$ 269 milhões, crescimento de 124% sobre o segundo trimestre de 2025 e de 77% frente aos três primeiros meses deste ano.

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A melhora, porém, precisa ser analisada juntamente com um benefício tributário reconhecido no trimestre e com os efeitos do programa Desenrola sobre o custo de crédito.

Receita supera R$ 4 bilhões no trimestre

A receita total e financeira do PicPay chegou a R$ 4,1 bilhões, avanço de 67% em um ano.

Considerando a métrica gerencial, que exclui receitas relacionadas a derivativos e contabilidade de hedge, o valor foi de R$ 3,73 bilhões, 3,6% superior ao guidance de aproximadamente R$ 3,6 bilhões.

A margem financeira líquida, ou NII, atingiu R$ 2 bilhões, expansão anual de 65% e resultado 5,4% acima da projeção apresentada pela administração três meses antes.

O lucro bruto foi de R$ 1,25 bilhão, superando em 8,4% a estimativa de R$ 1,15 bilhão.

No primeiro semestre, a companhia acumulou R$ 7,6 bilhões em receitas totais e financeiras, crescimento de 68%, enquanto o lucro líquido ajustado somou R$ 452,4 milhões, avanço de 117%.

O número chama atenção quando comparado ao desempenho de todo o exercício anterior. Em 2025, o PicPay havia registrado aproximadamente R$ 502 milhões de lucro líquido ajustado.

Assim, apenas nos primeiros seis meses de 2026, a fintech já produziu resultado equivalente a cerca de 90% do lucro ajustado de todo o ano passado.

Consignado privado se torna principal vetor do crédito

O ritmo de expansão da carteira está diretamente relacionado ao avanço das linhas com garantia ou proteção parcial.

O PicPay originou R$ 4,8 bilhões em empréstimos no segundo trimestre, crescimento de 78% em relação ao mesmo período de 2025. Nos primeiros seis meses, as novas concessões chegaram a R$ 9,2 bilhões, praticamente o dobro do ano anterior.

Segundo a companhia, 86% das originações ocorreram em produtos garantidos ou parcialmente garantidos.

A carteira de consignado privado encerrou junho em R$ 7,2 bilhões. O PicPay estima participação de mercado de 6,4% nessa modalidade, com mais de 3,6 milhões de contratos realizados desde o lançamento do produto.

A instituição afirma ainda que os empréstimos alcançam trabalhadores vinculados a mais de 327 mil empresas.

A relevância dessa linha aparece claramente na composição da expansão trimestral: dos novos saldos adicionados à carteira, R$ 2,2 bilhões vieram do consignado privado.

Outros R$ 900 milhões, equivalentes a 24% do aumento, tiveram origem em cartões considerados maduros, ou seja, clientes com histórico de crédito mais longo dentro da plataforma.

Com isso, produtos garantidos e parcialmente garantidos passaram a representar 55% de toda a carteira, ante 45% um ano antes.

Inadimplência acima de 90 dias sobe para 9,8%

A expansão do crédito vem acompanhada de deterioração em um dos indicadores mais acompanhados pelos investidores.

A inadimplência superior a 90 dias aumentou de 8,9% no primeiro trimestre para 9,8% no segundo.

A administração atribui a maior parte da elevação ao amadurecimento natural das safras originadas nos trimestres anteriores, principalmente em produtos que cresceram rapidamente.

Segundo o PicPay, o envelhecimento da carteira adicionou 3,18 pontos percentuais ao indicador no período, enquanto outros efeitos, entre eles renegociações realizadas pelo Desenrola, compensaram parcialmente esse movimento.

Ao mesmo tempo, a inadimplência inicial, referente a atrasos entre 15 e 90 dias, caiu de 8,4% para 7,5%.

A formação conjunta dos créditos classificados nos estágios 2 e 3 diminuiu de 5,1% para 4,9%. A formação de Stage 3 caiu de 3,9% para 3,6%.

Esses dados sugerem que há dois movimentos ocorrendo simultaneamente: as safras mais antigas avançam para atrasos superiores a 90 dias, enquanto os indicadores iniciais das novas carteiras apresentam estabilidade ou melhora.

Desenrola reduziu custo de crédito em R$ 59 milhões

O programa de renegociação também produziu impacto relevante nos indicadores do trimestre.

O PicPay informa ter renegociado aproximadamente R$ 520 milhões em exposição bruta por meio do Desenrola.

Com desconto médio próximo de 50%, o saldo dessas operações foi reduzido em aproximadamente R$ 260 milhões.

Esse efeito ajudou a diminuir a formação de Stage 3. Sem o programa, a companhia estima que o indicador teria permanecido próximo de 4%.

O Desenrola também gerou impacto positivo de aproximadamente R$ 59 milhões no custo de crédito, equivalente a cerca de 5% das despesas totais dessa linha no trimestre.

Ainda assim, as despesas com perdas de crédito atingiram R$ 1,2 bilhão, contra R$ 974 milhões nos três primeiros meses de 2026.

O custo de risco ficou em 3,9%, no limite superior da faixa de 3,7% a 3,9% indicada anteriormente pela administração.

A cobertura total da carteira permaneceu em 13,9%.

Lei do Bem impulsiona lucro líquido

Outra parcela do salto do lucro não está diretamente relacionada à expansão operacional.

O PicPay reconheceu no segundo trimestre um benefício tributário de aproximadamente R$ 79 milhões relacionado à Lei do Bem, instrumento que concede incentivos fiscais a empresas que realizam investimentos em pesquisa, desenvolvimento e inovação tecnológica.

O reconhecimento reduziu significativamente a alíquota efetiva de impostos do trimestre.

Esse fator ajuda a explicar por que o crescimento do lucro líquido foi maior que a expansão observada no resultado antes dos impostos.

O lucro antes dos impostos pelo IFRS alcançou R$ 268 milhões, alta de 153% em relação ao mesmo período do ano passado, enquanto o lucro líquido cresceu 124%.

A própria companhia alerta que a comparação sequencial do terceiro trimestre será afetada pela normalização tributária.

Despesas aumentam, mas eficiência melhora

A expansão do negócio também provocou aumento expressivo em algumas linhas de custos.

As despesas operacionais ajustadas chegaram a R$ 955 milhões, crescimento de 29% em 12 meses.

O maior salto ocorreu em marketing.

Os gastos dessa área subiram 147%, para R$ 242,7 milhões. As despesas diretamente associadas à aquisição de clientes passaram de R$ 33,9 milhões para R$ 101,9 milhões.

A companhia também antecipou aproximadamente R$ 30 milhões em campanhas que originalmente seriam realizadas no terceiro trimestre.

As despesas administrativas cresceram 68%, para R$ 166,6 milhões, enquanto os gastos com tecnologia aumentaram 45%, alcançando R$ 182 milhões.

O PicPay atribui parte desse aumento à expansão da infraestrutura tecnológica e de inteligência artificial.

Em sentido contrário, as despesas ajustadas com pessoal caíram 17%, para R$ 270,2 milhões.

Apesar do crescimento nominal dos gastos, o índice de eficiência melhorou de 56,2% no segundo trimestre de 2025 para 44,8% agora. No primeiro trimestre deste ano, estava em 46,9%.

Base chega a 70,4 milhões de contas

O crescimento financeiro continua apoiado em uma base ampla de clientes.

O PicPay encerrou junho com 70,4 milhões de contas, aumento anual de 10%. O número de clientes ativos trimestrais alcançou 45,4 milhões.

Os depósitos somaram R$ 35,8 bilhões, avanço de 45% em um ano e de 10% em relação a março.

O volume de dinheiro que entrou na plataforma, chamado pela companhia de cash-in, atingiu R$ 136,4 bilhões apenas no segundo trimestre.

Já o volume total de pagamentos, o TPV, alcançou R$ 167,6 bilhões, crescimento anual de 27%.

Nos primeiros seis meses do ano, foram R$ 323,6 bilhões movimentados.

Kovr adiciona uma nova frente de crescimento

Além do crédito, o PicPay está tentando ampliar sua participação no mercado de seguros.

Em 3 de agosto, a companhia concluiu a aquisição da Kovr, depois de obter as autorizações do Cade, da Susep e do Banco Central.

O negócio envolveu a compra de 100% da Kovr Participações e de 53% da Estrutural Corretora Assessoria e Consultoria de Seguros.

No fechamento do segundo trimestre, antes da consolidação da adquirida, o PicPay já possuía 11,1 milhões de apólices de seguros ativas distribuídas em sua plataforma, crescimento de 63% em relação ao ano anterior.

A estratégia é transformar o grupo de distribuidor de seguros em uma plataforma mais verticalizada, incorporando maior parcela da receita e da margem dos produtos vendidos.

Os resultados da Kovr ainda não fizeram parte dos números do segundo trimestre.

PicPay prevê carteira de R$ 34,7 bilhões no 3T26

Para o terceiro trimestre, a administração indica que a expansão do crédito continuará.

A previsão é encerrar setembro com aproximadamente R$ 34,7 bilhões em carteira, o que representaria crescimento adicional próximo de R$ 2,8 bilhões em apenas três meses.

O custo de risco deverá ficar entre 3,9% e 4,1%.

A receita gerencial é projetada em aproximadamente R$ 4,04 bilhões, enquanto a margem financeira líquida deverá atingir R$ 2,1 bilhões.

O PicPay espera lucro antes dos impostos de aproximadamente R$ 360 milhões, 34% superior ao segundo trimestre.

O lucro líquido IFRS, entretanto, deverá recuar 5%, para cerca de R$ 255 milhões.

A companhia afirma que a queda não representa deterioração do negócio. O principal motivo será a ausência da concentração do benefício tributário da Lei do Bem registrada no segundo trimestre.

O lucro ajustado projetado para o terceiro trimestre é de R$ 265 milhões.

A próxima divulgação será particularmente importante porque começará a mostrar como a rápida expansão do consignado privado afeta o comportamento da inadimplência depois de mais um trimestre de amadurecimento das safras.

Com quase R$ 32 bilhões em crédito, crescimento de 99% em um ano e uma meta de adicionar outros R$ 2,8 bilhões até setembro, a variável decisiva deixa de ser apenas a capacidade de crescer. O teste passa a ser quanto desse crescimento poderá ser convertido em lucro recorrente sem elevar de forma excessiva o custo de risco.

Fontes:

PicPay — Earnings Release 2Q26, divulgado em 24 de agosto de 2026
Securities and Exchange Commission — PicPay conclui aquisição da Kovr
PicPay — Relações com Investidores e documentos financeiros

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