Empresas brasileiras de pequeno e médio porte e seus sócios principais que estão simultaneamente inadimplentes acumulam R$ 80,6 bilhões em dívidas, segundo estudo divulgado nesta terça-feira (14) pela Serasa Experian. Embora representem apenas 5,5% de uma base de 24,8 milhões de empresas ativas, esses negócios concentram um volume elevado de atrasos em cartão de crédito e capital de giro, combinação que expõe a interdependência entre o caixa do CNPJ e a capacidade financeira do empreendedor.
O recorte integra a 7ª edição do Panorama PME e considera empresas com faturamento anual estimado de até R$ 300 milhões. Para o levantamento, foram classificados como inadimplentes os atrasos iguais ou superiores a 30 dias nas duas modalidades avaliadas.
Em números absolutos, o grupo equivale a aproximadamente 1,36 milhão de empresas. A concentração de R$ 80,6 bilhões nesse universo mostra que a inadimplência das PMEs não está distribuída de forma uniforme. Uma parcela relativamente pequena reúne exposição suficiente para influenciar decisões de crédito, renegociação, limites bancários e prazos concedidos por fornecedores.
Cartão e capital de giro respondem por metade do passivo
A maior fatia das dívidas está entre empresas e sócios que registram atrasos simultâneos no cartão de crédito e no capital de giro. Essa combinação responde por R$ 40,3 bilhões, exatamente metade dos R$ 80,6 bilhões apurados no grupo de inadimplência conjunta.
Outros R$ 25,3 bilhões estão associados a atrasos exclusivamente no cartão de crédito, enquanto R$ 15 bilhões correspondem apenas a operações de capital de giro. O cartão, isoladamente ou combinado com financiamento empresarial, participa da maior parte da exposição identificada.
As modalidades cumprem funções diferentes, mas frequentemente se encontram na rotina das PMEs. O capital de giro financia estoques, folha, fornecedores e despesas operacionais até a entrada das receitas. O cartão pode ser usado pelo empreendedor em gastos pessoais ou ligados ao negócio, sobretudo quando há pouca separação entre as contas.
Quando empresa e sócio atrasam ao mesmo tempo, o problema deixa de se restringir a um contrato. A deterioração simultânea reduz a margem para reorganizar pagamentos, porque o empresário perde capacidade de aportar recursos justamente quando o negócio precisa recompor caixa.
Estudo identifica associação, mas não estabelece causa e efeito
A Serasa Experian ressalta que os dados revelam associação entre a situação financeira da empresa e a do sócio principal, mas não permitem afirmar qual das duas entrou em dificuldade primeiro. O levantamento também não conclui que o crédito pessoal tenha sido necessariamente utilizado para financiar a atividade empresarial.
Segundo Cleber Genero, vice-presidente de Pequenas e Médias Empresas da Serasa Experian, a saúde financeira do negócio e a do empreendedor “caminham juntas e podem se influenciar mutuamente”. A queda de faturamento pode comprometer a renda do sócio; no sentido inverso, dívidas pessoais podem reduzir a capacidade de sustentar a empresa. O estudo, contudo, não isola essas trajetórias.
A conclusão mais segura é que a mistura financeira aumenta a vulnerabilidade. Mesmo com patrimônios formalmente separados, a operação cotidiana de uma PME costuma depender de garantias pessoais e da disponibilidade de recursos do proprietário.
Selic de 14,25% mantém crédito empresarial sob pressão
O levantamento foi divulgado em um ambiente ainda restritivo para a tomada de crédito. O Comitê de Política Monetária reduziu a Selic para 14,25% ao ano em junho, mas a taxa permanece elevada. O IPCA acumulado em 12 meses ficou em 4,64% até junho, mantendo ampla diferença entre a inflação corrente e o custo básico do dinheiro.
Dados do Banco Central mostram que a taxa média das novas concessões de crédito livre para empresas chegou a 25,2% ao ano em maio. O percentual subiu 0,3 ponto porcentual no mês e 1 ponto em 12 meses, com pressão nas linhas de capital de giro com prazo superior a 365 dias.
A inadimplência no crédito livre às pessoas jurídicas alcançou 4,1% em maio, alta de 0,1 ponto porcentual no mês e de 0,6 ponto em um ano. Na carteira total destinada às empresas, incluindo recursos direcionados, o índice ficou em 3,2%.
Ao mesmo tempo, o estoque de crédito livre para pessoas jurídicas permaneceu praticamente estável em 12 meses, em R$ 1,6 trilhão. O quadro combina custo elevado, avanço dos atrasos e baixo crescimento da carteira, fatores que favorecem concessões mais seletivas, sobretudo para negócios com menor capacidade de oferecer garantias.
Empresas maduras concentram maior exposição financeira
O Panorama PME contraria a leitura de que os maiores valores em atraso estejam necessariamente entre negócios recém-criados. Empresas com mais tempo de mercado concentram os maiores volumes de crédito contratado e exposições mais altas.
Negócios com 10 a 20 anos de atividade acumulam R$ 26,7 bilhões em crédito nas modalidades analisadas e R$ 11,6 bilhões em atrasos. Entre as empresas com cinco a dez anos, o volume contratado chega a R$ 26,1 bilhões, enquanto as pendências somam R$ 13,5 bilhões.
As empresas com um a cinco anos representam a maior parcela dos casos de inadimplência conjunta, com 38,6% das ocorrências. Ainda assim, registram valores menores: R$ 16,3 bilhões em crédito contratado e R$ 9,7 bilhões em atrasos.
A diferença está associada à escala. Empresas maduras costumam ter faturamento maior, relacionamento bancário mais longo e limites superiores. Quando enfrentam perda de receita ou descasamento de caixa, o valor absoluto da dívida tende a ser mais elevado.
Comércio lidera valores; serviços concentram ocorrências
A análise setorial mostra duas dimensões da inadimplência das PMEs. Serviços reúne o maior número de empresas e sócios simultaneamente inadimplentes, com 48,8% das ocorrências. O Comércio, porém, lidera em volume financeiro.
As empresas comerciais abrangidas pelo recorte acumulam R$ 35,3 bilhões em crédito contratado e R$ 16,1 bilhões em atrasos. Em Serviços, os valores chegam a R$ 31,5 bilhões e R$ 16 bilhões, respectivamente.
A proximidade dos montantes em atraso, apesar da diferença no número de casos, indica exposição média mais elevada no Comércio, setor que precisa financiar estoques, compras sazonais e prazos concedidos aos consumidores. Em Serviços, a maior quantidade de ocorrências reflete a amplitude de atividades e portes empresariais.
A pressão aparece na radiografia geral da Serasa Experian. Em abril, aproximadamente 8,52 milhões de micro, pequenas e médias empresas estavam inadimplentes. O número permanecia elevado, mesmo com desaceleração do crescimento em relação ao fim de 2025.
Sócio negativado aparece em 40% das empresas sem atraso
O estudo identificou ainda empresas inadimplentes cujos sócios principais permanecem adimplentes. Elas representam 2,2% da base e acumulam R$ 43,9 bilhões em dívidas.
Desse total, R$ 21,9 bilhões correspondem a atrasos simultâneos no cartão e no capital de giro, R$ 12,4 bilhões estão apenas no cartão e R$ 9,6 bilhões se concentram exclusivamente no capital de giro.
A maior parte da base, equivalente a 92,2%, não apresentava inadimplência empresarial nas modalidades avaliadas. Dentro desse universo, 52,2% tinham empresa e sócio principal em situação regular. Outros 40% mantinham o CNPJ adimplente, apesar de o sócio registrar atrasos.
O grupo mostra que a dificuldade da pessoa física não leva automaticamente à inadimplência empresarial. Ainda assim, a negativação do sócio pode reduzir a margem de segurança percebida pelo credor quando o empresário é a principal fonte de garantias ou quando o negócio depende de aportes pessoais.
Separação do caixa ganha peso na prevenção
A Serasa Experian recomenda que empreendedores mantenham contas bancárias, despesas e fluxos de caixa separados entre pessoa física e pessoa jurídica. A medida não impede choques de receita, mas melhora a leitura da situação financeira e permite identificar mais cedo onde a deterioração começou.
O planejamento do crédito deve considerar a capacidade de pagamento gerada pela operação. Contratar uma linha de curto prazo para cobrir despesas recorrentes alivia o caixa de imediato, mas amplia a exposição caso a receita futura não seja suficiente para pagar principal e juros.
O monitoramento de faturamento, endividamento, contas a receber e vencimentos torna-se ainda mais importante com juros elevados. Quanto mais cedo a empresa identifica o descasamento, maior é a possibilidade de renegociar antes que atrasos diferentes se acumulem no CNPJ e no CPF do controlador.
A orientação ganha relevância porque as PMEs sustentam parcela expressiva do emprego formal. Entre janeiro e abril de 2026, o segmento criou cerca de 408 mil vagas com carteira assinada, com participação relevante de Serviços, Construção Civil e Indústria de Transformação.
Risco cruzado amplia seletividade no crédito às PMEs
A inadimplência simultânea de empresas e sócios não representa a maioria das PMEs, mas concentra valores capazes de influenciar a política de risco para todo o segmento. Em um mercado com juros altos e atrasos crescentes, instituições financeiras tendem a diferenciar com mais rigor empresas que demonstram geração de caixa própria daquelas dependentes da capacidade financeira do controlador.
O impacto ultrapassa os bancos e alcança fornecedores, empresas de antecipação de recebíveis, seguradoras de crédito e plataformas financeiras. O Panorama PME expõe uma fragilidade estrutural: embora tenha obrigações próprias, a resistência da empresa a choques ainda depende, em muitos casos, da saúde financeira do empreendedor. Com R$ 80,6 bilhões concentrados em apenas 5,5% da base, separar o caixa empresarial das finanças pessoais tornou-se componente central de acesso ao crédito.









