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Eleições 2026: Brasil terá 158,7 milhões de eleitores com Sudeste perdendo peso e eleitorado mais velho

Maior colégio eleitoral da história tem avanço no Norte e Centro-Oeste, envelhecimento do eleitorado e Fundo Eleitoral de R$ 4,9 bilhões redefinindo as campanhas.

por Júlia Campos
22/07/2026 às 09h13
em Política
Maior Colégio Eleitoral Da História Tem Avanço No Norte E Centro-Oeste, Envelhecimento Do Eleitorado E Fundo Eleitoral De R$ 4,9 Bilhões Redefinindo As Campanhas.-Gazeta Mercantil

O Brasil vai às urnas em 4 de outubro de 2026 com 158.745.463 eleitores e um deslocamento inédito de poder político. Pela primeira vez em uma eleição geral, o Sudeste, que responde por mais da metade do PIB e da arrecadação federal, perdeu eleitores em termos absolutos. O encolhimento ocorre justamente quando o país registra o maior colégio eleitoral da história e quando o eleitor com 60 anos ou mais passa a representar quase um quarto de quem vota. É uma combinação que muda o preço do voto, a geografia do gasto público e a pauta econômica da campanha.

Os dados foram divulgados pelo Tribunal Superior Eleitoral e consolidados no fim de maio, com fechamento do cadastro em 6 de maio. Segundo o TSE, o eleitorado cresceu 1,46% em relação a 2022, o equivalente a 2,29 milhões de pessoas. O número final de 2026, de 158,7 milhões, parte de uma base de 155,38 milhões registrada no início do ano, com acréscimo de 3,47 milhões apenas entre janeiro e maio, impulsionado por alistamentos e regularizações. Desde maio de 2025, o sistema já havia incorporado mais de 1,09 milhão de registros biométricos novos.

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O que importa para a economia não é só o crescimento, mas onde ele acontece. O Sudeste tem o maior número de eleitores registrados, com 66,3 milhões, seguido do Nordeste com 43,5 milhões, do Sul com 22,8 milhões, do Norte com 13,1 milhões e do Centro-Oeste com 12 milhões. A ordem se mantém, mas a dinâmica mudou. O Sudeste concentrou 43,44% do eleitorado em ciclos anteriores e agora vê sua fatia cair para 41,78%.

Sudeste encolhe e cria descolamento entre PIB e voto

O recuo do Sudeste foi de 66,707 milhões em 2022 para 66,329 milhões em 2026, queda de 0,56%, ou cerca de 378 mil eleitores. No Rio de Janeiro, o crescimento foi de apenas 0,23%, para 12,85 milhões. Na prática, o Estado que ainda abriga a segunda maior economia metropolitana do país e parte relevante da base de contribuintes do Imposto de Renda praticamente ficou estagnado no mapa eleitoral.

Esse descolamento entre poder econômico e peso eleitoral tem consequência fiscal. O Sudeste responde por cerca de 52% do PIB nacional segundo o IBGE, mas agora reúne 41,78% dos votos. O Norte, que responde por menos de 6% do PIB, passou a concentrar 8,26% do eleitorado. Quando o voto migra, migra junto a pressão por transferências. Fundos Constitucionais, emendas parlamentares, obras de logística e recursos do SUS e do Fundeb seguem a lógica populacional e eleitoral. Para governadores do Sudeste, a perda relativa significa menos munição para negociar no Congresso em torno de reforma tributária, compensações de ICMS e partilha de royalties. Para empresas com operação nacional, significa recalibrar risco regulatório: decisões sobre infraestrutura, energia e telecomunicações serão cada vez mais influenciadas por bancadas do Norte e Centro-Oeste.

São Paulo segue como âncora. São 34,10 milhões de eleitores, 21,48% do total nacional. Minas Gerais tem 16,37 milhões, Bahia 11,32 milhões e Paraná 8,60 milhões. Somados a Rio de Janeiro, os cinco maiores colégios concentram 83,26 milhões de votos, 52,45% do país. É um país ainda concentrado, mas menos do que há quatro anos.

Fronteira agrícola converte crescimento econômico em capital político

O maior avanço proporcional veio de onde a economia mais cresceu na última década. O Norte cresceu 4,37% em eleitores, para 13,1 milhões. O Centro-Oeste avançou 3,97%, com mais 457 mil novos eleitores. Roraima liderou o país com 9,63%, seguido por Tocantins com 8,07% e Mato Grosso com 6,84%. São Estados onde o agronegócio puxou o PIB, a formalização do emprego e a migração interna.

Essa conversão de dinamismo econômico em peso eleitoral não é neutra para mercados. De acordo com o TSE, o Centro-Oeste e o Norte também apresentaram expansão significativa de registros biométricos entre maio e dezembro de 2025, com 233,5 mil e 192,6 mil novos cadastros respectivamente, enquanto o Sudeste adicionou 1,35 milhão de biometrias no mesmo intervalo. O recado é que a base eleitoral está se interiorizando e se digitalizando ao mesmo tempo.

Para setores como máquinas agrícolas, armazenagem, fertilizantes, proteína animal, energia e conectividade rural, o ganho de representação tende a se traduzir em maior tração para pautas como BRs, ferrovias, licenciamento ambiental e crédito rural. Para o varejo e o sistema financeiro, significa que o crescimento da conta de clientes nos próximos dois anos virá proporcionalmente mais de Rio Verde, Sorriso, Paragominas e Porto Velho do que de capitais do Sudeste.

Fundo de R$ 4,9 bilhões precisa render mais por eleitor

A mudança geográfica encarece a logística da campanha e pressiona um Orçamento já comprometido. O Tribunal Superior Eleitoral divulgou neste mês a distribuição do Fundo Especial de Financiamento de Campanha para 2026. Ao todo, aproximadamente R$ 4,9 bilhões serão distribuídos entre 30 legendas, conforme critérios de representatividade. Os 30 partidos registrados no TSE vão receber os recursos para financiar campanhas que começam em 16 de agosto.

O valor foi elevado de R$ 1 bilhão para R$ 4,9 bilhões na Comissão Mista de Orçamento do Congresso Nacional para o Orçamento de 2026 e já foi disponibilizado pela União ao TSE dentro do prazo legal de 1º de junho. O PL terá a maior fatia, com R$ 881 milhões, seguido pelo PT. O valor total responde à pergunta que mais interessa ao mercado: quanto custa a democracia em ano de eleição geral.

Dividido pelos 158,7 milhões de eleitores, o FEFC representa cerca de R$ 31 por eleitor apenas em dinheiro público direto, sem contar Fundo Partidário, tempo de TV e estrutura estatal. Com o eleitorado mais espalhado e mais velho, o custo de alcance sobe. Campanhas precisarão pulverizar verba em praças onde o CPM de mídia é menor, mas o deslocamento, o aluguel de espaços e a contratação de equipes locais são mais caros. Segundo o TSE, os recursos podem ser usados para produção de material, publicidade, deslocamentos, aluguel de espaços e contratação de serviços ligados ao processo eleitoral. Na prática, quem ganha são empresas regionais de mídia, gráficas, aviação executiva, telecom e plataformas de impulsionamento.

O efeito fiscal é duplo. De um lado, R$ 4,9 bilhões saem do Tesouro e deixam de financiar outras políticas. De outro, o calendário eleitoral congela parte da agenda econômica. Entre as convenções, de 20 de julho a 5 de agosto, e o primeiro turno, o Congresso tende a adiar votações impopulares. A experiência de 2022 mostra que a curva de juros precifica esse adiamento.

Eleitorado de 60+ vira força fiscal e muda consumo

O dado estrutural mais importante para contas públicas não está no Norte, mas na idade. O grupo com 60 anos ou mais passou de 32,9 milhões para 37,5 milhões entre 2022 e 2026 e saltou de 21,02% para 23,60% do eleitorado. A faixa de 40 a 44 anos é hoje a mais numerosa, com 15,99 milhões. Em contrapartida, a faixa de 21 a 34 anos perdeu participação, de 28,01% para 25,85%. O número de eleitores com 18 anos ou menos caiu 606 mil, para 3,57 milhões.

Esse envelhecimento do cadastro eleitoral espelha a transição demográfica captada pelo IBGE. Dados divulgados pelo Instituto apontam que o número de idosos deve chegar a 25,5% da população até 2060 e que o mais preocupante não é o crescimento em si da população idosa, mas a diminuição da população jovem em idade ativa. Projeções do IBGE indicam que em 2046 os 60+ serão a maior fatia populacional, com 28%, e em 2070 chegarão a 37,8%. O índice de envelhecimento deve saltar de 43% em 2018 para 173% em 2060.

Para a Gazeta Mercantil, o ponto é direto: um eleitorado mais velho cobra outra agenda econômica. Pesa mais o reajuste do salário mínimo e do INSS, a fila de cirurgias eletivas, o preço de medicamentos, o crédito consignado e a tributação sobre aposentadorias. Pesa menos a discussão sobre primeiro emprego e financiamento estudantil. Para o Tesouro, cada ponto adicional de idosos no eleitorado aumenta a sensibilidade política de qualquer reforma da Previdência. Para bancos, seguradoras e varejo farmacêutico, muda a curva de demanda. O consignado do INSS, que já movimenta mais de R$ 600 bilhões em carteira, ganha centralidade. Planos de saúde, cuidadores, adaptação de moradias e serviços de saúde domiciliar deixam de ser nicho.

Mulheres são 52,8% e redefinem a economia do voto

As mulheres seguem maioria. São 83,9 milhões, 52,8% do eleitorado, contra 74,8 milhões de homens, 47,2%. O recorte se mantém desde 2022 e se acentuou.

Do ponto de vista econômico, a predominância feminina tem efeito mensurável sobre consumo das famílias. Mulheres são maioria entre chefes de domicílio, segundo o IBGE, e lideram decisões de compra de alimentos, vestuário, educação e saúde. Também são maioria entre microempreendedoras individuais. Programas de crédito orientado, licença parental, vagas em creche e formalização deixam de ser pauta identitária e viram pauta de produtividade. Empresas que monitoram a eleição para calibrar portfólio já entenderam que a campanha de 2026 falará mais de economia do cuidado do que de 2022.

Cadastro mais diverso amplia pressão por políticas de renda

O TSE registra ainda o cadastro mais diverso da série histórica em raça e cor. O número de eleitores pardos saltou de 8,5 milhões para 16,9 milhões, o de pretos de 1,8 milhão para 3,6 milhões e o de indígenas de 155,6 mil para 287,1 mil, refletindo maior autodeclaração entre 2024 e 2026. O movimento não é apenas simbólico. Ele muda a demanda por políticas de transferência de renda, habitação, saneamento e inclusão financeira.

Regiões com maior proporção de eleitores pardos e pretos concentram também maior informalidade e menor bancarização plena. Para o sistema financeiro, isso significa que a agenda de educação financeira, microcrédito e meios de pagamento instantâneos tem retorno eleitoral e econômico. Para o varejo de massa, significa que a sensibilidade a preço de alimentos e energia será tema central nos debates presidenciais e nos programas de governo.

Exterior cresce 31% e cria nova fronteira cambial

O contingente de brasileiros aptos a votar fora do país chegou a 918.876 pessoas, alta de 31,82% sobre 2022. No fim de maio, os registros no exterior já somavam cerca de 917 mil, com 11,3 mil novas biometrias apenas entre maio e dezembro de 2025.

É um eleitorado pequeno em número, mas com impacto econômico desproporcional. São famílias que enviam e recebem remessas, pagam serviços em moeda estrangeira e consomem produtos brasileiros no exterior. Fintechs de câmbio, empresas de remessa internacional e companhias aéreas são afetadas diretamente. Do ponto de vista tributário, a discussão sobre tributação de residentes no exterior, herança e investimentos offshore ganha tração quando quase um milhão de eleitores vive fora.

Quem ganha e quem perde na economia da eleição

O novo mapa cria ganhadores e perdedores claros. Ganham empresas de infraestrutura de interior, locadoras de veículos, companhias aéreas regionais, operadoras de fibra ótica, meios de pagamento e plataformas de tráfego pago com capilaridade no Norte e Centro-Oeste. Ganham também escritórios de advocacia eleitoral, consultorias de dados e institutos de pesquisa com capacidade de coleta fora das capitais.

Perdem, em termos relativos, agências e veículos hiperconcentrados no eixo Rio-São Paulo que não adaptarem a operação. Perde também a previsibilidade fiscal de curto prazo. Com um eleitorado mais velho e mais dependente de benefícios indexados, o espaço para ajuste de despesas obrigatórias no primeiro ano do próximo governo diminui. O mercado já precifica que a discussão sobre arcabouço fiscal em 2027 será condicionada por um eleitorado que envelheceu 2,6 pontos percentuais em apenas quatro anos.

Para o investidor, a leitura é prática. O Ibovespa e o dólar em 2026 responderão menos a promessas genéricas e mais a sinais concretos sobre como o próximo presidente pretende financiar o envelhecimento da população, compensar a perda relativa do Sudeste na distribuição de recursos e manter o investimento no arco do agro sem estourar o Fundo Eleitoral de R$ 4,9 bilhões que o próprio Congresso já carimbou.

O que acompanhar até outubro

O calendário oficial dá o ritmo econômico. Até 6 de maio de 2026 o cadastro foi fechado. Em 1º de junho, a União liberou o FEFC ao TSE. As convenções partidárias ocorrem entre 20 de julho e 5 de agosto. A campanha começa em 16 de agosto. O primeiro turno será em 4 de outubro. Até lá, a Gazeta Mercantil vai monitorar três termômetros: a execução do Fundo Eleitoral por partido e região, a evolução do crédito consignado do INSS como proxy de humor do eleitor 60+, e a migração de domicílio eleitoral como indicador antecedente de migração econômica para o Norte e Centro-Oeste.

O Brasil de 2026 não é apenas maior nas urnas. É mais velho, mais feminino, mais diverso, mais interiorizado e mais caro de ser conquistado. E é esse Brasil que vai definir juros, câmbio, crédito e gasto público nos quatro anos seguintes.

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