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Raízen (RAIZ4) propõe converter dívida em ações a R$ 0,25 e separar negócios

Plano preliminar busca renegociar R$ 65,4 bilhões em recuperação extrajudicial, alongar passivos até 2035 e reforçar caixa com aporte da Shell.

por João Souza - Repórter de Negócios
28/05/2026 às 11h49
em Mercados, Destaque, Notícias
Raízen (Raiz4) - Gazeta Mercantil

A Raízen (RAIZ4) apresentou os contornos preliminares de uma ampla reestruturação financeira que pode alterar de forma profunda sua estrutura de capital, a relação com credores e a posição dos atuais acionistas. A proposta, divulgada nesta quarta-feira, 27 de maio de 2026, prevê conversão de parte da dívida em ações, alongamento de passivos, emissão de novos instrumentos de dívida, aporte de capital da Shell e segregação dos negócios em duas empresas distintas após a conclusão da operação.

O plano ainda não tem contratos definitivos assinados e depende de negociações com credores. Segundo a companhia, a dívida total da Raízen (RAIZ4) somava R$ 75,3 bilhões em março de 2026. Desse montante, R$ 65,4 bilhões estão incluídos no processo de recuperação extrajudicial.

A proposta apresentada pela empresa prevê que 45% da dívida reestruturada seja convertida em ações da Raízen (RAIZ4), ao preço de R$ 0,25 por papel. Os 55% restantes seriam trocados por novos instrumentos de dívida de longo prazo, com vencimentos entre 2032 e 2035.

A reestruturação ocorre em meio ao alto endividamento da companhia e tem como objetivo reorganizar o passivo, reforçar a liquidez e criar condições para a continuidade das operações. Para acionistas, o ponto mais sensível é o risco de diluição decorrente da conversão de dívida em ações. Para credores, a discussão central envolve prazo, garantias, moeda dos novos títulos, descontos e capacidade futura de pagamento.

O que a Raízen propôs aos credores

A proposta preliminar da Raízen (RAIZ4) combina três eixos principais: conversão de dívida em ações, alongamento dos passivos e novo aporte de capital.

O primeiro eixo prevê transformar 45% da dívida incluída na recuperação extrajudicial em ações da companhia. A conversão seria feita ao preço de R$ 0,25 por ação, o que pode levar à emissão de grande volume de novos papéis.

O segundo eixo envolve a substituição dos 55% restantes da dívida reestruturada por novos instrumentos financeiros de longo prazo. Esses títulos teriam vencimento entre 2032 e 2035, ampliando o prazo de pagamento e reduzindo a pressão imediata sobre o caixa.

O terceiro eixo inclui aporte de capital da Shell, acionista relevante da companhia. O valor previsto é de R$ 3,5 bilhões. A operação também chegou a considerar uma injeção adicional de R$ 500 milhões por veículo ligado à Aguassanta Investimentos, da família de Rubens Ometto, controlador da Cosan (CSAN3), mas credores já não consideram esse aporte adicional como parte provável da operação, segundo a apuração citada no texto-base.

A companhia afirma que a proposta ainda depende de negociação e não representa acordo fechado. Isso significa que termos, prazos, garantias e participação dos credores podem ser alterados até a formalização definitiva.

Dívida total chega a R$ 75,3 bilhões

A dimensão do endividamento é o principal fator por trás da reestruturação. Em março de 2026, a dívida total da Raízen (RAIZ4) somava R$ 75,3 bilhões.

Desse valor, R$ 65,4 bilhões foram incluídos no processo de recuperação extrajudicial. A recuperação extrajudicial é um mecanismo de negociação com credores, fora do ambiente tradicional de recuperação judicial, que permite reorganizar dívidas mediante acordo e posterior homologação.

A maior parte do endividamento está concentrada em bonds em dólar. Esses papéis representam R$ 27,2 bilhões da dívida. Em seguida aparecem os financiamentos de pré-pagamento de exportação, que somam R$ 11,9 bilhões.

A composição da dívida mostra exposição relevante a moeda estrangeira. Esse ponto é sensível porque variações no câmbio podem afetar o valor em reais dos passivos e pressionar indicadores financeiros.

Para uma empresa com atuação em açúcar, etanol, bioenergia, combustíveis e distribuição, a gestão da dívida é determinante para preservar capacidade operacional, financiamento de safra, investimentos industriais e relacionamento com fornecedores, bancos e investidores.

Conversão em ações pode diluir acionistas atuais

O ponto de maior impacto para acionistas da Raízen (RAIZ4) é a proposta de conversão de 45% da dívida reestruturada em ações ao preço de R$ 0,25 por papel.

Quando uma empresa converte dívida em ações, credores deixam de ter parte do crédito como obrigação financeira e passam a receber participação acionária. Para a companhia, isso reduz endividamento. Para os acionistas atuais, porém, pode significar diluição relevante.

A diluição ocorre porque a emissão de novas ações aumenta a quantidade total de papéis da empresa. Com isso, a participação proporcional de quem já era acionista diminui, a menos que o investidor participe de eventuais aportes ou mecanismos de recomposição previstos na operação.

Em reestruturações financeiras, esse tipo de medida costuma ser adotado quando a empresa precisa reduzir rapidamente sua alavancagem e preservar caixa. A conversão pode melhorar o balanço, mas transfere parte do risco da dívida para a base acionária.

No caso da Raízen (RAIZ4), o preço de R$ 0,25 por ação será um dos pontos mais observados pelo mercado. Quanto maior o volume convertido, maior tende a ser o efeito sobre a estrutura societária.

Novas dívidas teriam vencimento até 2035

A parcela de 55% da dívida reestruturada que não for convertida em ações seria trocada por novos instrumentos de dívida de longo prazo.

Segundo a proposta preliminar, os vencimentos ficariam entre 2032 e 2035. Esse alongamento busca reduzir o risco de liquidez no curto e médio prazo, dando mais tempo para a companhia reorganizar operações e gerar caixa.

Os credores poderão optar por receber os novos títulos na mesma moeda dos créditos atuais, incluindo real, dólar e, potencialmente, euro. A remuneração poderá ser atrelada ao CDI ou a juros em moeda estrangeira.

O plano também prevê garantias vinculadas a ativos específicos da empresa. Garantias são importantes para credores porque reduzem o risco de perda em caso de inadimplência futura.

Além disso, a proposta inclui alternativas com descontos maiores para credores que aceitarem condições diferenciadas de pagamento. Esse tipo de estrutura costuma ser usado para acomodar interesses distintos entre grupos de credores, que podem ter prioridades diferentes em relação a liquidez, prazo, moeda, garantias e recuperação de valor.

Aporte da Shell reforça tentativa de preservar liquidez

A Shell aparece como peça central no plano preliminar de reestruturação da Raízen (RAIZ4). A proposta prevê aporte de R$ 3,5 bilhões pela acionista.

Esse reforço de capital é relevante porque sinaliza apoio de um sócio estratégico e pode melhorar a percepção sobre a capacidade da empresa de atravessar a reestruturação.

A injeção de recursos ajudaria a reforçar a liquidez, reduzir pressão de curto prazo e dar sustentação ao processo de negociação com credores. Em reestruturações financeiras, a presença de aporte novo costuma ser vista como elemento importante para viabilizar acordo, desde que os termos sejam considerados suficientes pelas partes envolvidas.

Ao mesmo tempo, o aporte não elimina os riscos. A empresa ainda precisa obter adesão dos credores, formalizar contratos, definir garantias e demonstrar que o novo perfil de dívida será compatível com a geração de caixa futura.

A eventual ausência do aporte adicional de R$ 500 milhões ligado à Aguassanta Investimentos também pode ser observada pelo mercado como sinal de cautela entre acionistas e credores. Segundo o texto-base, os credores já não consideram essa injeção como parte provável da operação.

Separação dos negócios está no plano

Além da renegociação financeira, a Raízen (RAIZ4) pretende segregar seus negócios em duas empresas distintas após o fechamento da operação.

A separação pode ter impacto estratégico relevante. A Raízen atua em diferentes frentes, incluindo produção de açúcar e etanol, bioenergia, distribuição de combustíveis e soluções de energia. Esses negócios têm perfis diferentes de margem, risco, capital intensivo, sazonalidade e geração de caixa.

Ao dividir operações em estruturas separadas, a companhia pode buscar maior clareza para investidores e credores, além de facilitar alocação de capital, governança e eventual captação futura.

A segregação também pode permitir que cada unidade seja avaliada de forma mais específica pelo mercado. Negócios de distribuição de combustíveis, por exemplo, têm dinâmica distinta da produção agrícola e industrial ligada à cana-de-açúcar.

Ainda assim, a proposta depende dos detalhes finais. A forma como ativos, passivos, garantias, contratos e participações serão alocados entre as empresas será essencial para medir o impacto efetivo da separação.

Recuperação extrajudicial exige adesão de credores

Embora a proposta já tenha sido apresentada em linhas gerais, a reestruturação da Raízen (RAIZ4) ainda depende de uma etapa decisiva: a negociação com credores.

A recuperação extrajudicial exige acordo com os grupos envolvidos e, posteriormente, homologação conforme as regras aplicáveis. Diferentemente de uma renegociação bilateral simples, esse tipo de processo envolve coordenação entre múltiplos credores, classes de dívida, moedas e instrumentos financeiros.

Credores de bonds em dólar, bancos ligados a financiamentos de exportação e detentores de outros instrumentos podem ter interesses diferentes. Alguns podem preferir mais garantias; outros, menor desconto; outros, títulos em moeda estrangeira ou maior participação acionária.

A negociação tende a ser complexa porque envolve R$ 65,4 bilhões incluídos no processo. O desfecho dependerá da percepção dos credores sobre a capacidade da Raízen (RAIZ4) de continuar operando, gerar caixa e cumprir o novo cronograma de pagamentos.

Enquanto não houver contratos definitivos, a proposta deve ser tratada como preliminar. O mercado acompanhará eventuais mudanças nos termos e manifestações dos credores.

O que está em jogo para os acionistas da Raízen

Para acionistas da Raízen (RAIZ4), a reestruturação pode representar um divisor de águas.

O lado positivo é a possibilidade de redução da dívida, reforço de liquidez e preservação da operação. Se bem-sucedido, o plano pode diminuir o risco financeiro e criar uma base mais sustentável para a companhia.

O lado negativo é o risco de diluição. A conversão de 45% da dívida reestruturada em ações ao preço de R$ 0,25 tende a alterar a estrutura acionária. Dependendo do volume final de papéis emitidos, os atuais acionistas podem ter sua participação proporcional reduzida de maneira significativa.

Também há incerteza sobre o valor econômico das duas empresas que poderão surgir após a segregação dos negócios. O mercado precisará avaliar quais ativos ficarão em cada estrutura, quais passivos serão alocados e como será a governança.

Em situações de reestruturação, o preço das ações costuma refletir expectativas sobre recuperação, diluição, risco de execução e adesão de credores. Por isso, a volatilidade pode permanecer elevada até que os termos definitivos sejam conhecidos.

O que está em jogo para os credores

Para credores, a proposta da Raízen (RAIZ4) envolve uma troca entre recuperação de valor, prazo e risco.

A conversão de parte da dívida em ações pode permitir participação em uma eventual recuperação da companhia. No entanto, também expõe os credores à volatilidade do mercado acionário e à incerteza sobre o valor futuro dos papéis.

Já os novos instrumentos de dívida de longo prazo preservam parte do crédito, mas empurram vencimentos para 2032 a 2035. Isso reduz a pressão imediata sobre a empresa, mas exige confiança na geração de caixa de longo prazo.

As garantias vinculadas a ativos específicos serão um ponto relevante da negociação. Quanto mais robustas forem as garantias, maior tende a ser a proteção dos credores em caso de novo estresse financeiro.

Os descontos previstos para quem aceitar condições diferenciadas também serão avaliados com cuidado. Em reestruturações, credores costumam comparar o valor presente das alternativas oferecidas com o potencial de recuperação em cenários mais adversos.

Raízen tenta preservar operação em meio a dívida elevada

A Raízen (RAIZ4) é uma das maiores companhias do setor de energia, açúcar e etanol no Brasil. A escala operacional torna sua reestruturação relevante não apenas para acionistas e credores, mas também para fornecedores, clientes, trabalhadores e agentes do mercado de combustíveis.

A companhia opera em segmentos intensivos em capital e sujeitos a variáveis como preços internacionais de commodities, câmbio, safra, custos agrícolas, demanda por combustíveis, margens de distribuição e política energética.

Em empresas desse porte, dívida elevada pode limitar investimentos, pressionar caixa e reduzir flexibilidade estratégica. A reestruturação busca justamente reorganizar essas obrigações para permitir continuidade operacional.

O sucesso do plano, porém, dependerá da combinação entre adesão dos credores, aporte de capital, melhora de liquidez e execução operacional nos próximos anos.

Mercado acompanha próximos passos da reestruturação

A proposta preliminar da Raízen (RAIZ4) coloca a companhia no centro das atenções da Bolsa. O mercado deve acompanhar quatro pontos principais: aceitação dos credores, tamanho final da diluição, condições dos novos instrumentos de dívida e formato da separação dos negócios.

A ausência de contratos definitivos mantém elevado o grau de incerteza. Até a formalização do acordo, investidores devem tratar o plano como uma proposta em negociação.

A operação pode aliviar parte da pressão financeira sobre a Raízen (RAIZ4), mas também traz efeitos relevantes para a estrutura acionária e para o perfil de risco da companhia. A conversão de dívida em ações, o alongamento até 2035 e o aporte da Shell são os pilares de uma tentativa de recompor o balanço e evitar deterioração adicional da liquidez.

Com dívida total de R$ 75,3 bilhões e R$ 65,4 bilhões incluídos na recuperação extrajudicial, a Raízen entra em uma fase decisiva. O desfecho da negociação com credores indicará se a empresa conseguirá transformar uma reestruturação complexa em uma nova base financeira para sustentar seus negócios.

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