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Focus eleva projeção do IPCA para 4,86% e mantém Selic em 13,0% em 2026

por Camila Braga
27/04/2026 às 11h43
em Economia
Selic - Boletim Focus - Gazeta Mercantil

Projeções do Focus acentuam pressão sobre Copom com nova alta no IPCA

O mercado financeiro brasileiro elevou, pela sétima semana consecutiva, as estimativas para o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) de 2026, consolidando um cenário de desancoragem das expectativas que desafia a condução da política monetária pelo Banco Central. De acordo com o Relatório Focus divulgado nesta segunda-feira, 27 de abril de 2026, a mediana das projeções para a inflação oficial saltou de 4,80% para 4,86%. O movimento ocorre a apenas 48 horas da decisão do Comitê de Política Monetária (Copom), que se reúne na próxima quarta-feira (29) sob um ambiente de ceticismo quanto ao cumprimento das metas estabelecidas pelo Conselho Monetário Nacional (CMN).

A persistência do movimento altista nas projeções inflacionárias para o horizonte relevante da política monetária reforça o caráter restritivo da taxa básica de juros. Embora o mercado tenha mantido a previsão para a Selic em 13,0% ao ano ao final de 2026, a percepção de risco permanece elevada. O relatório indica que o sistema de metas de inflação, agora sob o regime de meta contínua de 3,0% com margem de tolerância de 1,5 ponto percentual, enfrenta o seu teste mais rigoroso desde a transição do modelo. Com o IPCA projetado em 4,86%, o indicador já rompe o teto da meta (4,50%), exigindo uma postura vigilante da autoridade monetária para evitar o contágio das expectativas de longo prazo.

Leia também: Precatórios 2026: Tesouro projeta pico de gastos fora da meta em 2028

A dinâmica inflacionária e o desvio das metas

O avanço do IPCA para 4,86% não é um dado isolado, mas o reflexo de uma deterioração progressiva. Nas atualizações mais recentes colhidas pelo Banco Central nos últimos cinco dias úteis — que costumam antecipar tendências de curto prazo —, o salto foi ainda mais pronunciado, subindo de 4,85% para 4,89%. Este “sentimento de ponta” sugere que os agentes econômicos estão precificando novos choques de custos ou uma resiliência maior da demanda doméstica, possivelmente impulsionada por políticas fiscais expansionistas ou pressões no mercado de trabalho.

Para 2027, o cenário também apresenta sinais de fadiga. A expectativa para o IPCA subiu de 3,99% para 4,00%, marcando a quinta elevação semanal seguida. Esse movimento é particularmente preocupante para os diretores do Banco Central, pois indica que a inflação está demorando mais do que o esperado para convergir ao centro da meta, mesmo com os juros reais em patamares historicamente elevados. Para os anos de 2028 e 2029, as projeções encontram-se em 3,61% e 3,50%, respectivamente, sugerindo que o mercado ainda não vislumbra a inflação no alvo de 3,0% em nenhum momento do horizonte visível.

Selic e o dilema do Copom na quarta-feira

A manutenção da projeção da Selic em 13,0% reflete a aposta do mercado em uma pausa ou em uma redução extremamente cautelosa do ritmo de afrouxamento monetário. Na última reunião de março, o Copom havia surpreendido parte dos analistas ao reduzir a taxa básica em apenas 0,25 ponto percentual, levando-a de 15% para 14,75%. A manutenção das projeções atuais para o fechamento de 2026 em 13,0% — patamar superior aos 12,50% previstos há apenas um mês — demonstra que o “espaço para cortes” encolheu drasticamente diante da inflação resiliente.

Para 2027, o mercado estacionou a previsão da Selic em 11,0% ao ano, enquanto para 2028 e 2029 os valores são de 10,0% e 9,75%. Estes números indicam que a taxa de juros real neutra da economia brasileira pode estar subindo, ou que o prêmio de risco exigido pelos investidores para financiar a dívida pública em prazos mais longos permanece elevado. A condução da política monetária, portanto, caminha em uma linha tênue entre o controle da inflação e o suporte necessário ao crescimento econômico.

Câmbio e PIB: Estabilidade em meio à volatilidade

Apesar da pressão nos preços e nos juros, o Relatório Focus trouxe um alento pontual no front cambial. A projeção para o dólar ao fim de 2026 recuou de R$ 5,30 para R$ 5,25. Essa valorização marginal do real pode ser atribuída ao diferencial de juros favorável, que continua atraindo capital estrangeiro para o “carry trade”, e à resiliência das exportações brasileiras, especialmente no setor de commodities. Entretanto, o câmbio permanece como uma variável de alta volatilidade, sensível tanto às decisões do Federal Reserve (Fed) nos Estados Unidos quanto ao cumprimento das metas fiscais em Brasília.

No que tange à atividade econômica, a estimativa para o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) em 2026 foi mantida em 1,85%. O dado sugere que, embora a economia brasileira não esteja em trajetória de recessão, o ritmo de expansão é modesto e insuficiente para gerar ganhos substanciais de produtividade sem pressionar a inflação. A estabilidade nessa projeção sinaliza que o mercado já precificou o impacto dos juros altos sobre o consumo das famílias e os investimentos produtivos (FBCF).

O cenário macroeconômico e o regime de meta contínua

A mudança para o regime de meta contínua de inflação, implementada para dar maior flexibilidade e previsibilidade à política monetária, exige um acompanhamento minucioso do IPCA acumulado em 12 meses. O Banco Central tem reiterado que não hesitará em utilizar todos os instrumentos necessários para garantir a convergência dos preços. A autoridade monetária monitora não apenas o índice cheio, mas também os núcleos de inflação e a inflação de serviços, que têm mostrado maior resistência devido à indexação de contratos e ao aperto no mercado de trabalho.

O Relatório Focus funciona como um termômetro essencial para as decisões do Copom. Se as expectativas continuarem a se desancorar, a tendência é que o Banco Central adote um tom mais “hawkish” (rigoroso) em seu comunicado de quarta-feira, sinalizando que a manutenção da taxa de juros por um período prolongado é o cenário base para garantir a estabilidade da moeda. A credibilidade da instituição está em jogo, especialmente em um momento de transição de sua diretoria e de debates intensos sobre a autonomia operacional da autarquia.

Perspectivas para o encerramento do primeiro semestre

À medida que o primeiro semestre de 2026 avança, o cenário para a economia brasileira desenha-se com matizes de cautela. A combinação de Selic elevada, inflação acima do teto da meta e crescimento moderado impõe desafios aos gestores de fundos, investidores do mercado de capitais e ao setor produtivo. A atenção agora se volta para os detalhes da ata do Copom e para o comportamento dos indicadores de alta frequência nos próximos meses.

A resiliência da inflação de 2026 em 4,86% sugere que os fatores inerciais ainda são fortes na economia nacional. Sem uma sinalização clara de austeridade fiscal e de reformas que aumentem o PIB potencial, o fardo do controle de preços recairá quase que exclusivamente sobre a taxa de juros, prolongando o ciclo de aperto monetário. O mercado aguarda agora a sinalização oficial do Banco Central, que deverá ponderar o hiato do produto e as incertezas externas em sua análise de riscos.

Análise técnica e o futuro dos indicadores financeiros

Para os analistas do setor financeiro, a estabilidade das projeções de longo prazo (2028-2029) em torno de 3,50% indica que, embora haja turbulência no curto prazo, existe uma crença residual na capacidade das instituições brasileiras de manter a inflação sob controle. Contudo, a distância de 50 pontos-base em relação ao centro da meta de 3,0% demonstra que a “ancora” ainda não está totalmente fincada no fundo do mar macroeconômico.

A semana que se inicia será decisiva. Além do Copom, o acompanhamento de indicadores setoriais e da balança comercial fornecerá as peças restantes do quebra-cabeça econômico de 2026. A Selic em 13,0% é, hoje, o preço da incerteza, e o Relatório Focus desta segunda-feira apenas confirmou que o caminho para a estabilidade monetária ainda apresenta obstáculos significativos.

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