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Resultado do jogo do bicho expõe debate sobre legalização, riscos e mercado informal no Brasil

Modalidade tradicional segue fora do mercado regulado, movimenta bilhões de reais e volta ao centro das discussões com projeto sobre jogos e apostas no Senado

por Daniel Wicker
12/05/2026 às 07h52
em Brasil
Resultado Do Jogo Do Bicho Expõe Debate Sobre Legalização, Riscos E Mercado Informal No Brasil - Gazeta Mercantil - Brasil

O resultado do jogo do bicho, uma das modalidades de apostas mais conhecidas do Brasil, voltou ao centro do debate público em meio às discussões sobre a regulamentação de jogos e apostas no país. Apesar da forte presença cultural e da capilaridade em diferentes regiões, a prática segue fora do mercado regulado, sem fiscalização estatal equivalente à aplicada às loterias oficiais e às apostas autorizadas pelo poder público. A modalidade permanece enquadrada como contravenção penal e opera em um ambiente de informalidade, sem auditoria pública, sem tributação estruturada e sem garantias oficiais ao apostador.

A permanência do jogo do bicho na economia informal expõe uma contradição no setor de apostas no Brasil. Ao mesmo tempo em que o país avançou na regulamentação das bets e das apostas de quota fixa, uma das práticas mais antigas e populares do mercado paralelo continua sem enquadramento legal. Isso significa que a atividade não recolhe tributos de forma formalizada, não segue regras de publicidade responsável, não possui mecanismos institucionais de proteção ao consumidor e não está submetida a fiscalização padronizada de resultados.

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O tema ganhou nova relevância com a tramitação do Projeto de Lei nº 2.234/2022, que trata da exploração de jogos e apostas no Brasil e prevê autorização para cassinos, bingos, jogos on-line e jogo do bicho. A proposta já passou pela Câmara dos Deputados e pela Comissão de Constituição e Justiça do Senado, mas ainda depende de votação no Plenário. Em julho de 2025, a análise chegou a ser pautada, mas foi adiada pelo presidente do Senado, Davi Alcolumbre.

Enquanto não há definição no Congresso, o jogo do bicho permanece em uma zona de tensão entre tradição popular, informalidade econômica e controvérsia jurídica. Para defensores da legalização, manter a atividade na clandestinidade não elimina sua prática, apenas impede tributação, controle e proteção ao apostador. Para críticos, a regularização pode ampliar riscos sociais, como endividamento, dependência em apostas e eventual uso do setor para lavagem de dinheiro.

Modalidade é estruturada em 25 grupos de animais

O jogo do bicho é organizado a partir de uma tabela tradicional com 25 grupos de animais. Cada grupo corresponde a um animal específico, usado como referência na dinâmica popular da modalidade. A lista inclui avestruz, águia, burro, borboleta, cachorro, cabra, carneiro, camelo, cobra, coelho, cavalo, elefante, galo, gato, jacaré, leão, macaco, porco, pavão, peru, touro, tigre, urso, veado e vaca.

A simplicidade dessa estrutura ajudou a consolidar o jogo do bicho no imaginário popular brasileiro. Ao associar números a animais, a modalidade criou uma linguagem acessível, de fácil memorização e com forte apelo simbólico. Essa característica explica parte de sua longevidade, mesmo sem reconhecimento formal como loteria autorizada.

Ao longo das décadas, a prática se espalhou por bancas, pontos informais e redes locais. Mais recentemente, parte da atividade migrou para canais digitais, aplicativos de mensagens e plataformas sem autorização, ampliando os desafios de fiscalização.

Essa capilaridade também reforça o peso cultural da modalidade. O jogo do bicho atravessou gerações, tornou-se tema recorrente na cultura popular e se manteve presente em diferentes regiões do país, especialmente em áreas urbanas. A força dessa tradição, no entanto, não altera sua condição jurídica atual.

Jogo do bicho segue como contravenção penal

No Brasil, o jogo do bicho é tratado como contravenção penal. A Lei das Contravenções Penais, de 1941, enquadra a exploração de jogos de azar fora da autorização estatal como infração. Isso diferencia a modalidade das loterias oficiais e das apostas de quota fixa autorizadas.

Nas atividades reguladas, os operadores precisam cumprir exigências de autorização, identificação de usuários, prevenção à lavagem de dinheiro, publicidade responsável, fiscalização e pagamento de tributos. Também há mecanismos formais de controle, ainda que o setor de apostas siga em processo de consolidação regulatória.

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No jogo do bicho, a realidade é diferente. Não há auditoria pública dos resultados, não existe garantia estatal de pagamento de prêmios e o apostador não conta com canais oficiais de reclamação. A relação entre apostador e operador é baseada em confiança informal, sem respaldo institucional comparável ao de modalidades autorizadas.

Essa ausência de regulação amplia riscos para consumidores e para o poder público. Sem regras claras, torna-se mais difícil monitorar fluxos financeiros, impedir fraudes, coibir exploração de pessoas vulneráveis e rastrear eventuais operações ilícitas ligadas ao setor.

Mercado informal movimenta bilhões sem tributação estruturada

A dimensão econômica do jogo do bicho é um dos principais argumentos usados por defensores da regularização. Estimativas do Instituto Brasileiro Jogo Legal indicam que a modalidade teria arrecadado cerca de R$ 12 bilhões em 2024, com mais de 350 mil pontos de venda no país.

Como não há registro oficial padronizado, a movimentação exata do setor é difícil de medir. Parte das apostas ocorre em dinheiro vivo, enquanto outra parcela passou a circular por meios digitais e aplicativos de mensagens. Essa informalidade torna o mercado menos transparente e dificulta o acompanhamento por órgãos públicos.

A ausência de formalização também impede a cobrança regular de tributos. Diferentemente de operadores autorizados, que precisam se adequar a regras fiscais e regulatórias, a atividade informal funciona à margem do sistema. Isso reduz a arrecadação potencial do Estado e cria assimetria competitiva em relação ao mercado regulado de apostas.

Na prática, o jogo do bicho funciona como um mercado paralelo de grande capilaridade. Ele movimenta dinheiro em escala relevante, mas sem as obrigações impostas a empresas legalmente autorizadas a operar jogos ou apostas no país.

Legalização divide governo, Congresso e especialistas

A eventual legalização do jogo do bicho divide parlamentares, especialistas e setores da sociedade. A discussão envolve arrecadação, segurança pública, liberdade econômica, proteção ao consumidor e riscos sociais associados aos jogos de azar.

Defensores da regularização afirmam que a proibição não eliminou a prática. Para esse grupo, trazer a atividade para dentro da lei permitiria cobrar impostos, fiscalizar operadores, monitorar resultados e estabelecer regras de proteção ao apostador. A legalização também poderia reduzir a influência de redes informais sobre a exploração da modalidade.

Críticos, por outro lado, argumentam que a liberação pode ampliar a exposição da população a jogos de azar, aumentar casos de endividamento e dependência em apostas e criar novos desafios de fiscalização. Também há preocupação com o uso de estruturas de apostas para lavagem de dinheiro, financiamento de atividades ilícitas e expansão de redes criminosas.

O impasse explica a dificuldade de avanço no Senado. O Projeto de Lei nº 2.234/2022 reúne diferentes modalidades de jogos e apostas em uma mesma proposta, incluindo cassinos, bingos, jogos on-line e jogo do bicho. A amplitude do texto amplia a complexidade política da votação.

Projeto no Senado prevê regras para jogos e apostas

O Projeto de Lei nº 2.234/2022 é o principal texto em discussão no Congresso sobre a legalização de jogos no Brasil. A proposta estabelece regras para exploração de jogos e apostas e prevê autorização para diferentes modalidades, incluindo o jogo do bicho.

O texto também cria mecanismos de supervisão e fiscalização, com medidas voltadas à segurança, transparência e prevenção a crimes como lavagem de dinheiro e financiamento do terrorismo. Caso seja aprovado, o setor passaria a operar sob regras formais, com exigência de licenças, identificação de operadores e obrigações tributárias.

A proposta já foi aprovada pela Câmara dos Deputados e pela Comissão de Constituição e Justiça do Senado. Ainda assim, precisa passar pelo Plenário do Senado para avançar. A votação, prevista em julho de 2025, foi adiada por Davi Alcolumbre, mantendo a legalização sem definição.

A tramitação mostra que o tema continua sensível. A regularização de jogos envolve interesses econômicos relevantes, mas também enfrenta resistência de grupos políticos, religiosos e sociais contrários à expansão das apostas no país.

O que mudaria com uma eventual regularização

Se a legalização avançar, o jogo do bicho passaria a depender de regras formais de funcionamento. A operação poderia exigir licença, registro de empresas, identificação dos responsáveis, fiscalização dos sorteios, auditoria de resultados, pagamento de tributos e mecanismos de controle contra fraudes.

A forma de divulgação do resultado do jogo do bicho também poderia mudar. Em um mercado regulado, a tendência seria haver regras sobre transparência, canais oficiais de consulta e mecanismos independentes de verificação. Isso reduziria a dependência de sistemas informais e de relações baseadas apenas na confiança entre apostador e operador.

Outro ponto relevante seria a tributação. Hoje, por operar fora da formalidade, a atividade não contribui de maneira estruturada para a arrecadação pública. Em um modelo regulado, parte da receita poderia ser direcionada ao Estado, como ocorre em outras modalidades de apostas autorizadas.

A legalização, porém, não resolveria automaticamente todos os problemas. Sem fiscalização efetiva, parte do setor poderia continuar operando à margem da lei. O desafio seria criar um modelo capaz de atrair operadores para a formalidade, punir atividades clandestinas e proteger consumidores.

Apostadores ficam sem proteção oficial

A ausência de regulação amplia os riscos para quem participa da modalidade. Como o jogo do bicho não integra o sistema oficial de apostas, não há garantia pública de pagamento, transparência institucional sobre os resultados ou canais oficiais de contestação.

Também não existem regras padronizadas sobre cadastro de usuários, limites financeiros, publicidade, prevenção ao vício em apostas ou proteção de dados pessoais. Em canais informais, o apostador pode ficar exposto a golpes, promessas de ganhos, manipulação de resultados e ausência de qualquer mecanismo formal de reclamação.

Esse é um dos pontos centrais do debate regulatório. O avanço das apostas digitais no Brasil mostrou que o setor exige normas específicas para evitar publicidade abusiva, endividamento excessivo, uso indevido de meios de pagamento e exploração de consumidores vulneráveis.

No caso do jogo do bicho, esses desafios são agravados pela informalidade histórica. A prática existe, movimenta recursos e possui base ampla de participantes, mas permanece sem estrutura pública de proteção.

Bets reguladas ampliam contraste com jogo do bicho

A regulamentação das apostas de quota fixa ampliou o contraste entre o mercado formal de bets e o jogo do bicho. Enquanto operadores autorizados passam a ter obrigações de licença, controle, tributação e publicidade responsável, a modalidade tradicional segue fora desse sistema.

Esse contraste gera distorções. Empresas reguladas precisam cumprir custos de conformidade, pagar tributos, seguir regras de prevenção à lavagem de dinheiro e adotar mecanismos de jogo responsável. Já operadores informais atuam sem a mesma carga regulatória, o que pode criar concorrência desigual.

Ao mesmo tempo, a existência de um mercado paralelo forte mostra que a regulação de apostas no Brasil ainda não abrange todas as práticas populares. A decisão sobre incluir ou não o jogo do bicho no mercado formal será determinante para o desenho futuro do setor.

Para o poder público, o desafio está em equilibrar controle e realismo. Manter a proibição preserva o enquadramento penal, mas não elimina a prática. Legalizar pode ampliar fiscalização e arrecadação, mas exige estrutura robusta para evitar expansão descontrolada do jogo.

Peso cultural dificulta solução simples

O jogo do bicho não pode ser analisado apenas como atividade econômica ou infração legal. A modalidade ocupa espaço relevante na cultura popular brasileira, na economia informal e em redes locais de circulação de dinheiro.

A tabela de animais, o funcionamento simples e a presença cotidiana ajudaram a transformar a prática em um fenômeno conhecido por diferentes gerações. Em muitas regiões, o jogo se consolidou como parte de rotinas locais, embora permaneça fora da legalidade.

Esse peso cultural torna a solução mais complexa. Uma política baseada apenas na repressão enfrenta o desafio de lidar com uma atividade disseminada e historicamente enraizada. Por outro lado, uma legalização sem controle rigoroso poderia ampliar problemas sociais e financeiros.

O debate, portanto, não se resume a permitir ou proibir. Ele envolve capacidade estatal de fiscalização, desenho regulatório, proteção ao consumidor, combate a crimes financeiros e definição de limites para a exploração comercial de apostas.

Resultado do jogo do bicho vira símbolo de impasse regulatório

O resultado do jogo do bicho sintetiza o impasse brasileiro sobre jogos e apostas. A modalidade é conhecida, tem presença cultural, movimenta recursos expressivos e continua fora do mercado formal, enquanto o país avança na regulamentação de outras formas de aposta.

A eventual legalização dependerá de decisão política no Senado, de um modelo regulatório consistente e de capacidade real de fiscalização. Sem esses elementos, a atividade pode continuar dividida entre operadores formais e informais, reduzindo a eficácia de qualquer nova regra.

Até que haja mudança legal, o jogo do bicho permanece sem a mesma proteção oferecida por modalidades autorizadas. Isso significa que apostadores não têm garantias oficiais, operadores não estão submetidos a regras padronizadas e o Estado não consegue acompanhar integralmente o fluxo financeiro da atividade.

O tema seguirá no centro das discussões sobre apostas no Brasil. Entre tradição, informalidade e regulação, o jogo do bicho expõe um desafio de política pública: decidir se o país manterá a repressão como principal resposta ou se tentará trazer uma prática historicamente disseminada para dentro de um sistema formal de controle, tributação e proteção ao consumidor.

Nota editorial: este conteúdo tem caráter exclusivamente informativo e jornalístico. A matéria não incentiva a participação em jogos não autorizados nem indica canais, operadores ou formas de aposta.

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