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Sabesp (SBSP3) dobra investimentos e repassa R$ 3,6 bilhões a 220 municípios

Após a privatização, companhia amplia investimentos e acelera plano de R$ 70 bilhões em saneamento.

por João Souza
14/07/2026 às 14h34
em Empresas
Sabesp (Sbsp3) - Gazeta Mercantil

A Sabesp (SBSP3) investiu R$ 15,2 bilhões em infraestrutura de água e esgoto em 2025, primeiro ano completo de operação após a privatização concluída em julho de 2024, e transferiu R$ 3,6 bilhões a 220 municípios paulistas desde a mudança de controle. O investimento cresceu 120% sobre os R$ 6,9 bilhões aplicados no ano anterior, impulsionado pelas metas do novo contrato de concessão, que antecipou para 2029 a universalização dos serviços e destinou parte da receita municipal da Sabesp a fundos de saneamento e infraestrutura.

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Os números mostram que a desestatização entrou em sua fase de execução. Depois da oferta de ações que reduziu a participação do governo paulista e levou a Equatorial Energia (EQTL3) ao capital, o desempenho da Sabesp passou a depender da entrega de redes, ligações, estações de tratamento e projetos de redução de perdas em 371 municípios.

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A mudança também alterou a relação entre investimento, tarifa e fiscalização. A Sabesp assumiu obrigações adicionais em áreas rurais e núcleos urbanos informais, enquanto a Agência Reguladora de Serviços Públicos do Estado de São Paulo, a Arsesp, passou a verificar o capital efetivamente aplicado e os repasses realizados aos fundos municipais.

Capex de R$ 15,2 bilhões muda a escala da Sabesp

O investimento de 2025 foi mais que o dobro do registrado em 2024 e estabeleceu um novo patamar para a Sabesp. A companhia aplicou R$ 4,8 bilhões apenas no quarto trimestre, sinal de aceleração dos contratos de engenharia, fornecimento de equipamentos e expansão de redes ao longo do exercício.

Segundo a Sabesp, as obras ampliaram o acesso à água potável para cerca de 1,8 milhão de pessoas em 2025. A companhia também avançou em projetos de coleta e tratamento de esgoto, concentrados em municípios com maior déficit e em áreas que não estavam plenamente atendidas pelos contratos anteriores.

A escala continuará elevada. A Sabesp apresentou a investidores uma estimativa de aproximadamente R$ 20 bilhões em investimentos em 2026. Ao fim de 2025, a carteira contratada para execução até 2029 somava R$ 39 bilhões, dando visibilidade a fabricantes de tubos, bombas, equipamentos elétricos, sistemas de automação, construtoras e empresas de engenharia.

O volume contratado reduz o risco de atraso na fase de licitação, mas não elimina o risco de execução. Obras de saneamento dependem de licenciamento, autorizações municipais, desapropriações e remanejamento de redes de energia, gás e telecomunicações. Para a Sabesp, administrar intervenções simultâneas em centenas de cidades será tão relevante quanto financiar o programa.

Fundos municipais criam receita vinculada até 2060

O segundo eixo do modelo é o repasse aos Fundos Municipais de Saneamento Ambiental e Infraestrutura. Desde a privatização, a Sabesp transferiu R$ 3,6 bilhões a 220 municípios, segundo o governo de São Paulo. O contrato prevê a destinação de cerca de 4% da receita líquida trimestral obtida em cada cidade habilitada, com vigência até o fim da concessão, em 2060.

Os valores não entram livremente no caixa das prefeituras. Devem financiar ações relacionadas a saneamento, infraestrutura urbana e recuperação ambiental. Entre as aplicações estão drenagem, intervenções habitacionais necessárias à expansão das redes e projetos de restauração florestal associados à proteção de mananciais.

A transferência muda principalmente a posição fiscal de municípios pequenos e médios. Em cidades com baixa arrecadação própria, o fundo cria uma fonte recorrente vinculada à receita local da Sabesp e menos dependente de convênios ou transferências discricionárias dos governos estadual e federal.

A previsibilidade vem acompanhada de exigências. O município precisa criar o fundo por lei, definir estrutura própria de administração, incluir ao menos um representante da sociedade civil na governança e manter atualizado o plano municipal ou regional de saneamento. A Arsesp verifica essas condições antes de autorizar o pagamento pela Sabesp.

151 cidades ainda não cumpriram exigências da Arsesp

Das 371 cidades abrangidas pelo contrato, 151 ainda não haviam concluído a habilitação. A diferença revela um gargalo institucional: o recurso existe, mas parte das prefeituras não dispõe de estrutura jurídica, contábil e técnica suficiente para aprovar a legislação, organizar a prestação de contas e atualizar os instrumentos de planejamento.

A demora tem efeito financeiro. Quando o fundo não está habilitado, a parcela correspondente não é acumulada automaticamente para pagamento futuro ao município. O valor é tratado pela regulação como saldo favorável aos usuários e considerado nos mecanismos de compensação tarifária.

Na prática, cada trimestre sem regularização pode representar perda de receita para a prefeitura. A regra busca impedir que recursos pagos pelos consumidores sejam transferidos a estruturas sem governança mínima ou sem planejamento compatível com as metas do contrato da Sabesp.

O mecanismo também limita o uso do dinheiro como receita genérica. A destinação precisa ser comprovada, fiscalizada e registrada separadamente. Mesmo após a habilitação, disponibilidade de caixa não substitui projeto executivo, licenciamento, contratação e acompanhamento das obras.

Meta de 2029 concentra obras e pressiona o caixa

O choque de investimento decorre da antecipação da universalização. O Marco Legal do Saneamento estabeleceu, para dezembro de 2033, atendimento de 99% da população com água potável e de 90% com coleta e tratamento de esgoto. O contrato da Sabesp trouxe esse horizonte para 2029 nos municípios atendidos, incluindo áreas rurais e núcleos informais passíveis de regularização.

Para cumprir o cronograma, a Sabesp trabalha com um programa de aproximadamente R$ 70 bilhões até 2029. A concentração do capital em poucos anos pressiona o fluxo de caixa, enquanto a receita das novas ligações entra gradualmente, conforme redes e estações são concluídas e incorporadas à operação.

A Sabesp ampliou o acesso aos mercados de dívida para financiar essa transição, com emissões domésticas e internacionais. A estratégia alonga vencimentos e diversifica fontes, mas eleva a importância da disciplina financeira em um período de investimento intenso e necessidade recorrente de captação.

Para os acionistas da Sabesp, o principal indicador deixa de ser apenas o lucro trimestral. Ganham peso a execução física do capex, a entrada dos ativos em operação, a evolução da dívida, a arrecadação, a redução de perdas e o cumprimento dos indicadores de qualidade.

O risco social também é relevante. Parte do déficit está em periferias e ocupações consolidadas, onde a chegada da rede à rua não garante a conexão do imóvel. A Sabesp dependerá de soluções técnicas específicas, regularização urbana, ligações intradomiciliares e mecanismos de apoio a famílias de baixa renda.

Regulação definirá impacto dos investimentos na tarifa

O contrato adotou uma metodologia em que custos, investimentos e mercado são verificados com base no que foi efetivamente realizado. A Arsesp calcula a tarifa de equilíbrio considerando despesas operacionais, remuneração do capital, reintegração de ativos e componentes financeiros, com ajustes quando houver diferença entre projeção e execução.

Esse modelo incentiva a Sabesp a investir, mas não autoriza o repasse automático de qualquer desembolso ao consumidor. O capital precisa ser comprovado, vinculado à prestação do serviço e submetido aos critérios regulatórios. A agência também considera qualidade, demanda, receitas adicionais e valores efetivamente destinados aos fundos municipais.

A discussão tarifária será um dos testes centrais do novo ciclo. O aumento do capex precisa coexistir com eficiência operacional e modicidade tarifária. Se os custos crescerem acima do previsto ou as obras atrasarem, a pressão pode aparecer na dívida, na rentabilidade ou em pedidos de reconhecimento tarifário.

Para a indústria, o programa da Sabesp representa uma carteira de demanda rara em escala e duração. A concentração de obras estimula fabricantes, construtoras e empresas de tecnologia, mas pode elevar preços e disputar mão de obra especializada. A velocidade terá de ser acompanhada por concorrência nos contratos e controle de qualidade dos fornecedores.

Equatorial muda governança e tese da Sabesp na Bolsa

A privatização foi concluída por meio de uma oferta de ações que movimentou R$ 14,77 bilhões. A Equatorial Energia (EQTL3) adquiriu 15% da Sabesp por cerca de R$ 6,9 bilhões e tornou-se investidora de referência. O Estado de São Paulo reduziu sua participação de 50,3% para aproximadamente 18,3%, mantendo uma ação especial com poder de veto em matérias restritas.

A nova composição substituiu o controle estatal por uma estrutura sem acionista majoritário. Na Bolsa, a Sabesp passou a ser analisada menos como uma estatal madura e mais como uma companhia de infraestrutura em expansão, com crescimento ligado a novas ligações, redução de perdas e ganhos de eficiência.

A oportunidade vem acompanhada de risco. A Sabesp precisa executar uma carteira bilionária, manter qualidade, administrar dívida e atender territórios de elevada complexidade social. Saneamento é serviço essencial, sujeito a fiscalização, controle tarifário e pressão pública por regularidade.

Para investidores, o acompanhamento do programa exige atenção não apenas ao valor desembolsado, mas à parcela dos projetos que entra efetivamente em operação. Atrasos em obras podem pressionar o caixa antes que os ativos passem a gerar receita ou remuneração regulatória.

O aumento do endividamento também precisa ser analisado em conjunto com a expansão da base de clientes, a arrecadação e a eficiência operacional. A Sabesp terá de demonstrar que o investimento acelerado produz crescimento capaz de sustentar a estrutura de capital durante e depois do ciclo de universalização.

Obras colocam municípios no centro da entrega até 2029

O próximo estágio será percebido nas ruas. A carteira contratada tende a ampliar abertura de valas, interdições e remanejamento de redes em bairros densamente ocupados. O ritmo dependerá da coordenação entre Sabesp, prefeituras, concessionárias de outros serviços e órgãos de trânsito e licenciamento.

A comunicação com moradores e comerciantes também será determinante. Intervenções prolongadas podem afetar mobilidade, acesso a estabelecimentos e funcionamento de serviços públicos, exigindo cronogramas coordenados e fiscalização municipal.

Para as 151 cidades ainda sem fundos habilitados, a prioridade é regularizar a estrutura administrativa e evitar novos trimestres sem repasse. Para as 220 que já recebem os recursos, o desafio é transformar receita vinculada em projetos executáveis e resultados verificáveis.

A Sabesp encerrou 2025 com investimento recorde, R$ 39 bilhões em obras contratadas até 2029 e um modelo municipal que já movimentou R$ 3,6 bilhões. O desempenho da privatização será medido pela velocidade das conexões, pelo esgoto efetivamente tratado, pela disciplina tarifária e pela capacidade de converter capital em infraestrutura operacional.

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