Uma empresa pertencente ao advogado Willer Tomaz, amigo de Flávio Bolsonaro (PL), recebeu pelo menos R$ 136,5 mil em recursos do Senado Federal referentes ao aluguel da residência ocupada por Ciro Nogueira (PP-PI) em Brasília. Os pagamentos foram feitos por meio da Cota para o Exercício da Atividade Parlamentar dos Senadores e correspondem a 39 parcelas mensais de R$ 3,5 mil entre março de 2023 e maio de 2026.
A destinatária dos recursos é a WT Administração de Imóveis e Bens, proprietária da casa de 632 metros quadrados onde Ciro vive na capital federal. A empresa comprou o imóvel por R$ 4,5 milhões em 2021, pouco antes da mudança do senador.
O pagamento chama atenção não apenas pelo valor acumulado, mas também por quem está do outro lado da operação. Tomaz mantém relação de amizade de anos com Flávio Bolsonaro e voltou repetidamente ao noticiário em 2026 por suas conexões patrimoniais e pessoais com personagens presentes nas investigações sobre fraudes no INSS e no caso Banco Master.
A relação, porém, precisa ser delimitada. Não há evidência de que Flávio tenha participado do contrato de aluguel de Ciro Nogueira, determinado os pagamentos do Senado ou recebido parte desses recursos. O fato documentado é que dinheiro público destinado à moradia parlamentar foi pago à empresa de um advogado próximo ao candidato do PL.
Empresa de Tomaz também possui imóvel usado por Flávio
A ligação da WT Administração de Imóveis e Bens com Flávio não se resume à amizade entre o senador e o proprietário da empresa.
Segundo levantamento publicado pelo UOL, a WT também é dona de um apartamento utilizado por Flávio Bolsonaro durante sua campanha presidencial. O imóvel havia pertencido a Fabiano Zettel, apontado pela Polícia Federal como operador financeiro ligado a Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master.
De acordo com a reportagem, a empresa de Tomaz comprou esse apartamento em fevereiro de 2026 por R$ 3,5 milhões. Zettel havia adquirido o imóvel por R$ 5,5 milhões menos de um ano antes, uma diferença de R$ 2 milhões entre as duas operações.
A aquisição por valor inferior ao preço pago anteriormente não constitui, isoladamente, evidência de irregularidade. O dado, entretanto, amplia a relevância patrimonial da WT no entorno político de Flávio: a mesma empresa que recebe recursos públicos pelo imóvel ocupado por Ciro também aparece como proprietária de residência utilizada pelo candidato do PL.
Tomaz também viajou com Flávio em aeronave ligada à estrutura de Vorcaro
Outro episódio tornou pública a proximidade entre os dois.
Em janeiro de 2025, Flávio Bolsonaro e sua família viajaram ao lado de Willer Tomaz em uma aeronave cuja operação posteriormente passou a ser associada à estrutura empresarial de Daniel Vorcaro. A informação ganhou repercussão em setembro deste ano depois da divulgação dos registros da viagem.
O próprio Flávio reagiu publicamente e reconheceu que, na época da viagem, considerava a aeronave de Willer. A CNN também confirmou que Tomaz estava entre os cotistas do avião utilizado pelo senador.
A aeronave era administrada por empresa que teve Vorcaro entre seus sócios até 2025. Tomaz afirmou que não conhecia o ex-banqueiro, nunca esteve com ele e jamais celebrou qualquer negócio diretamente com ele.
Portanto, também nesse ponto é necessário distinguir uma conexão empresarial indireta de uma relação pessoal comprovada entre Tomaz e Vorcaro.
Tomaz é alvo de investigação no caso INSS
A proximidade com Flávio ganhou peso adicional depois que Willer Tomaz se tornou alvo da Polícia Federal na Operação Sem Desconto, que investiga fraudes envolvendo descontos associativos não autorizados sobre aposentadorias e pensões do INSS.
Em 4 de agosto, a PF cumpriu 18 mandados de busca e apreensão no Distrito Federal e no Maranhão em uma fase destinada a investigar possíveis operações de lavagem de dinheiro. A Polícia Federal informou que apurava movimentações financeiras e patrimoniais realizadas por meio de pessoas físicas, empresas, contas de terceiros e operações em espécie para eventualmente ocultar a origem e o destino de recursos.
Tomaz foi apontado em reportagens como um dos alvos dessa etapa. A investigação permanece em andamento e não existe condenação contra o advogado relacionada a esses fatos.
Esse ponto é especialmente relevante porque Flávio Bolsonaro continuou reconhecendo publicamente a proximidade com Tomaz mesmo depois de o advogado entrar no radar da Polícia Federal. Isso demonstra uma relação pessoal documentada, mas não transfere ao senador responsabilidade automática pelos fatos investigados contra o amigo.
R$ 136,5 mil saíram da cota parlamentar
Os pagamentos ligados a Ciro Nogueira possuem uma origem pública claramente identificada.
O Senado permite que parlamentares utilizem recursos da CEAPS para complementar o auxílio-moradia em até R$ 3,5 mil por mês. A autorização está expressa no Ato do Primeiro-Secretário nº 5, de 2014, alterado em 2023 para incluir essa modalidade de ressarcimento.
Ciro utilizou exatamente o teto mensal durante 39 meses.
A conta é direta:
R$ 3.500 × 39 = R$ 136.500.
Todos esses pagamentos foram destinados à WT Administração de Imóveis e Bens, segundo o levantamento das despesas parlamentares.
A existência desse complemento é autorizada pelas regras internas do Senado e, portanto, seu uso não representa por si só irregularidade.
A questão jornalística está na combinação entre duração, destinatário e contexto: dinheiro público foi transferido regularmente por mais de três anos para uma empresa ligada a um personagem que também mantém relações próximas com Flávio Bolsonaro e aparece em outras frentes de investigação.
Gasto mensal com moradia podia chegar a R$ 9 mil
O complemento não era a única verba pública relacionada à residência.
Além dos R$ 3,5 mil da CEAPS, Ciro recebia R$ 5,5 mil mensais de auxílio-moradia. Segundo o próprio Senado informou ao UOL, as duas verbas podem ser utilizadas simultaneamente para custear o aluguel de um único imóvel.
Isso significa que os recursos públicos relacionados à residência poderiam alcançar R$ 9 mil por mês.
Se esse valor tivesse sido pago durante os mesmos 39 meses, o desembolso alcançaria R$ 351 mil.
Esse montante, entretanto, não pode ser apresentado como valor comprovadamente recebido pela WT. Os recibos relativos aos R$ 5,5 mil mensais do auxílio-moradia regular são mantidos sob sigilo, enquanto os pagamentos de R$ 3,5 mil feitos por meio da CEAPS aparecem nos dados de transparência.
Assim, o valor documentalmente identificado em favor da empresa é de pelo menos R$ 136,5 mil.
Ciro possui apartamento declarado em Brasília
Outro dado chama atenção no histórico de moradia do senador.
Ciro possui um apartamento em Brasília declarado à Justiça Eleitoral pelo menos desde 2018. Mesmo assim, utilizou imóvel funcional do Senado entre junho de 2019 e abril de 2021 e, posteriormente, passou a morar na residência pertencente à empresa de Tomaz.
A existência de imóvel próprio na cidade não significa automaticamente que Ciro estivesse impedido de receber auxílio-moradia. O direito ao benefício depende das regras administrativas adotadas pelo Senado e das condições específicas previstas para sua concessão.
O dado, entretanto, adiciona contexto ao uso prolongado de recursos públicos para custear a residência particular escolhida pelo parlamentar.
Casa foi comprada pouco antes da mudança de Ciro
A WT adquiriu o imóvel em 2021 por R$ 4,5 milhões.
Ciro mudou-se para a casa em abril daquele ano. Segundo reportagem citada pelo UOL, o aluguel era de R$ 15 mil mensais naquele período.
Nos primeiros meses, o senador não utilizou o auxílio-moradia. Em agosto de 2021, deixou temporariamente o Senado para assumir a Casa Civil do governo Jair Bolsonaro e perdeu o direito aos benefícios parlamentares.
Ciro retornou ao Senado em dezembro de 2022 e voltou a receber auxílio-moradia. Em março de 2023, depois que o Senado criou a possibilidade de utilizar a CEAPS para complementar esse benefício, passou a registrar mensalmente os R$ 3,5 mil destinados à empresa de Tomaz.
Os pagamentos permaneceram constantes até maio deste ano.
Pagamentos terminaram no mês seguinte à operação contra Ciro
A interrupção ocorreu em um momento sensível para o parlamentar.
Em 7 de maio, o ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal, autorizou uma nova fase da Operação Compliance Zero. Segundo o STF, a Polícia Federal apontou indícios de que Ciro Nogueira teria atuado em benefício de interesses privados de Daniel Vorcaro em troca de vantagens indevidas. Mendonça autorizou medidas cautelares contra o senador e outros investigados.
A investigação não representa condenação e os fatos permanecem sob apuração.
O complemento de R$ 3,5 mil destinado à empresa de Tomaz ainda foi registrado em maio. Em junho, tanto essa parcela quanto o auxílio-moradia de R$ 5,5 mil deixaram de ser pagos, conforme levantamento divulgado pelo UOL.
A proximidade das datas é objetiva, mas não existe informação pública que demonstre que a operação da PF tenha provocado a interrupção dos benefícios.
Ciro e Tomaz aparecem em investigações diferentes
A convergência dos personagens exige outra distinção importante.
Ciro Nogueira aparece na Operação Compliance Zero, relacionada ao Banco Master e a Daniel Vorcaro. O STF informou que a investigação apura uma possível atuação do senador em benefício de interesses privados ligados ao ex-banqueiro.
Willer Tomaz, por sua vez, foi alvo da Operação Sem Desconto, relacionada ao esquema de descontos indevidos em benefícios do INSS e a suspeitas posteriores de lavagem de dinheiro.
São investigações diferentes.
A conexão entre os dois neste episódio não está na existência de uma investigação comum, mas na relação imobiliária: uma empresa de Tomaz é dona da residência de Ciro e recebeu dinheiro da cota parlamentar do senador.
Willer ocupa posição recorrente no entorno de Flávio
O episódio adiciona mais uma peça a um conjunto de relações que tornou Willer Tomaz personagem recorrente no entorno político e pessoal de Flávio Bolsonaro.
Além da amizade reconhecida entre os dois, Tomaz acompanhou Flávio e sua família na viagem de janeiro de 2025; teve participação na aeronave utilizada naquela ocasião; e sua empresa possui apartamento usado pelo candidato durante a campanha presidencial.
Ao mesmo tempo, o advogado se tornou alvo de investigação da Polícia Federal no caso INSS.
Esses fatos justificam escrutínio jornalístico sobre a extensão das relações patrimoniais e políticas existentes ao redor do candidato, mas não permitem imputar a Flávio crimes ou negócios praticados por pessoas próximas a ele sem evidências de participação.
No caso específico dos R$ 136,5 mil, não há informação de que Flávio tenha participado do contrato entre Ciro e a empresa de Tomaz.
O dado relevante é outro: uma empresa controlada por um amigo próximo do candidato recebeu recursos públicos durante 39 meses pelo imóvel ocupado por um senador que, paralelamente, passou a ser investigado em outro braço das apurações envolvendo o Banco Master.
Tomaz diz que contratos são regulares
Willer Tomaz afirmou que os contratos de locação mantidos por sua empresa são regulares, firmados a valores de mercado e protegidos por cláusulas de confidencialidade.
Segundo ele, os aluguéis são pagos diretamente pelos inquilinos e cabe a cada locatário explicar a origem dos recursos utilizados nos pagamentos.
Ciro Nogueira foi procurado pela reportagem que revelou os pagamentos e não apresentou manifestação sobre o episódio.
Em relação às investigações que envolvem o Banco Master, o senador já negou anteriormente ter cometido irregularidades.
Tomaz também rejeita interpretações de que tenha mantido negócios diretamente com Daniel Vorcaro e declarou que nunca conheceu ou esteve com o ex-banqueiro.
Caso expõe rede de relações, mas exige separar fatos de suspeitas
O episódio reúne personagens que aparecem simultaneamente em diferentes frentes de investigação e relações políticas, mas os fatos não podem ser fundidos em uma única acusação.
O que está documentalmente estabelecido é que Ciro Nogueira destinou R$ 136,5 mil da CEAPS à empresa de Willer Tomaz; que Tomaz mantém relação de amizade com Flávio Bolsonaro; que a WT também possui imóvel usado por Flávio durante a campanha; e que o advogado viajou com o senador em aeronave posteriormente associada a uma estrutura empresarial que teve Daniel Vorcaro como sócio.
Também está confirmado oficialmente que Ciro é investigado na Compliance Zero e que a Polícia Federal deflagrou em agosto uma fase da Operação Sem Desconto para apurar suspeitas de lavagem de dinheiro.
O que não está demonstrado é que Flávio tenha participado dos pagamentos feitos pelo Senado à WT, que tenha se beneficiado deles ou que seja responsável pelos atos investigados envolvendo seu amigo.
A força jornalística do caso está justamente na documentação dessas conexões sem ultrapassar o que as provas atualmente permitem afirmar.
Fontes
Senado Federal — dados da Cota para o Exercício da Atividade Parlamentar dos Senadores e regulamentação do complemento do auxílio-moradia.
Supremo Tribunal Federal — decisão de 7 de maio de 2026 relacionada à nova fase da Operação Compliance Zero.
Polícia Federal — informações oficiais sobre a fase da Operação Sem Desconto destinada à apuração de lavagem de dinheiro.








