A Dívida Bruta do Governo Geral (DBGG) alcançou 82,9% do Produto Interno Bruto (PIB) em agosto, equivalente a R$ 11,1 trilhões, segundo as Estatísticas Fiscais divulgadas pelo Banco Central em 30 de setembro de 2026. A relação subiu 0,3 ponto percentual em um mês e acumulou alta de 4,2 pontos no ano. O principal componente da deterioração em 2026 foi a incorporação de juros nominais, que sozinha acrescentou 6,5 pontos percentuais à dívida em relação ao PIB, enquanto o crescimento do PIB nominal retirou 3,6 pontos e as emissões líquidas somaram outros 1,5 ponto.
O dado coloca o estoque de endividamento próximo das projeções para o encerramento do ano. No Prisma Fiscal de setembro, divulgado pela Secretaria de Política Econômica do Ministério da Fazenda em 15 de setembro, a mediana das estimativas de mercado para a DBGG ao fim de 2026 subiu de 83% para 83,2% do PIB. A distância entre o dado efetivamente observado em agosto e essa projeção de fim de ano é de apenas 0,3 ponto percentual, embora os números correspondam a momentos diferentes e a trajetória até dezembro ainda dependa dos resultados fiscais, dos juros, do câmbio e da evolução do PIB.
Juros ampliam pressão sobre o endividamento
A composição da variação mostra por que a expansão da dívida não pode ser explicada apenas pelo resultado primário. Em agosto, os juros nominais do setor público consolidado somaram R$ 105,9 bilhões, contra R$ 74,3 bilhões no mesmo mês de 2025. A diferença de R$ 31,6 bilhões representa aumento de cerca de 42,5% em um ano.
No acumulado de 12 meses encerrado em agosto, a conta de juros chegou a R$ 1,182 trilhão, equivalente a 8,86% do PIB. Um ano antes, eram R$ 946,5 bilhões, ou 7,61% do PIB. Em termos nominais, portanto, o gasto financeiro anualizado cresceu R$ 235,5 bilhões, alta de aproximadamente 24,9%.
A despesa com juros também ajuda a explicar a distância entre o déficit primário e o déficit nominal. O setor público consolidado registrou déficit primário de R$ 10 bilhões em agosto. Somados os R$ 105,9 bilhões de juros nominais, o déficit nominal alcançou R$ 115,9 bilhões no mês. Em 12 meses, o déficit nominal chegou a R$ 1,264 trilhão, equivalente a 9,48% do PIB.
Esse comportamento mostra que uma melhora do resultado primário em determinado mês não elimina automaticamente a pressão sobre o estoque da dívida. O resultado primário mede as receitas e despesas antes dos juros; o nominal incorpora a despesa financeira. Nas estatísticas do Tesouro, o resultado primário do Governo Central é apurado pela metodologia “acima da linha”, enquanto o Banco Central calcula a estatística fiscal “abaixo da linha”, baseada na variação da dívida líquida.
Déficit primário do mês recua, mas União permanece no vermelho
Apesar do aumento do custo financeiro, o déficit primário do setor público consolidado em agosto foi menor que o registrado no mesmo mês de 2025. O saldo negativo de R$ 10 bilhões representa redução de R$ 7,3 bilhões em relação aos R$ 17,3 bilhões de um ano antes, o equivalente a uma melhora de cerca de 42,2%.
A composição do resultado, contudo, foi desigual entre os segmentos. O Governo Central registrou déficit de R$ 14,7 bilhões, enquanto os governos regionais tiveram superávit de R$ 2,7 bilhões e as empresas estatais registraram saldo positivo de aproximadamente R$ 2 bilhões.
Nos 12 meses encerrados em agosto, o setor público consolidado acumulou déficit primário de R$ 82,1 bilhões, correspondente a 0,62% do PIB. O indicador melhorou 0,06 ponto percentual em relação ao acumulado até julho. O desempenho do mês, portanto, reduziu o déficit acumulado, mas não alterou a presença de resultado negativo no horizonte de 12 meses.
Os números do Banco Central para o Governo Central não devem ser confundidos diretamente com os do Resultado do Tesouro Nacional divulgado na véspera. Pela metodologia do Tesouro, o déficit primário do Governo Central foi de R$ 13,6 bilhões em agosto. A diferença decorre dos critérios estatísticos utilizados: o Tesouro acompanha receitas e despesas pelo método “acima da linha”, enquanto o BC apura o resultado fiscal “abaixo da linha”. As duas estatísticas são comparáveis e complementares, mas servem a finalidades diferentes.
Dívida líquida também avança e juros dominam a composição
A Dívida Líquida do Setor Público (DLSP) chegou a 69,3% do PIB em agosto, equivalente a cerca de R$ 9,2 trilhões. Houve aumento de 0,1 ponto percentual em relação a julho. Segundo os dados fiscais, os juros nominais contribuíram com 0,8 ponto percentual para a alta mensal, enquanto o déficit primário acrescentou 0,1 ponto.
Esses efeitos foram parcialmente compensados pelo crescimento do PIB nominal, com impacto de -0,4 ponto percentual, pela desvalorização cambial de 2,1%, com contribuição negativa de 0,2 ponto, e por ajustes da dívida externa líquida que reduziram a relação em 0,1 ponto percentual.
A diferença entre as duas medidas de endividamento é relevante para a leitura do quadro fiscal. A DBGG inclui as dívidas do Governo Federal, do INSS e dos governos estaduais e municipais, enquanto a DLSP considera, de forma mais ampla, os passivos líquidos do setor público, descontados determinados ativos. Por isso, os percentuais não devem ser comparados como se fossem indicadores equivalentes.
Estrutura da dívida federal concentra mais títulos flutuantes
Outro dado divulgado pelo Tesouro Nacional ajuda a dimensionar o ambiente financeiro enfrentado pelo governo. A Dívida Pública Federal encerrou agosto em R$ 9,29 trilhões, praticamente estável ante os R$ 9,28 trilhões registrados em julho. O estoque subiu apenas 0,04% no mês, em razão da apropriação de R$ 88,39 bilhões em juros, parcialmente compensada por resgates líquidos de R$ 84,43 bilhões.
Mais relevante para a dinâmica do custo da dívida foi a composição dos títulos. A participação de papéis remunerados por taxa flutuante passou de 51,11% em julho para 52,74% em agosto, o maior percentual da série histórica iniciada em dezembro de 2000. Títulos vinculados a índices de preços representaram 23,22% do estoque e os prefixados, 20,31%.
A concentração de mais da metade da dívida federal em instrumentos de remuneração flutuante significa que parte elevada do estoque fica mais diretamente exposta às condições correntes de juros. O dado não permite, isoladamente, medir o custo futuro da dívida, porque o estoque também envolve vencimentos, emissões, prazos e diferentes indexadores, mas ajuda a explicar por que mudanças nas condições financeiras podem se refletir no serviço da dívida.
O custo médio acumulado em 12 meses da Dívida Pública Federal subiu de 12,45% ao ano em julho para 12,59% ao ano em agosto. Ao mesmo tempo, o prazo médio do estoque aumentou de 4,05 para 4,10 anos, enquanto a parcela com vencimento nos 12 meses seguintes caiu de 18,91% para 16,39%. A reserva de liquidez terminou agosto em R$ 1,208 trilhão, equivalente a 7,18 meses de vencimentos.
Projeções fiscais mantêm trajetória de alta no curto prazo
A evolução do endividamento ocorre em um contexto no qual o mercado também passou a trabalhar com uma razão dívida/PIB mais alta para o fim de 2026. O Prisma Fiscal de setembro elevou a mediana para 83,2% do PIB, ante 83% na pesquisa anterior. Para 2027, a projeção passou de 86,77% para 87%.
A estimativa não representa uma previsão oficial do Banco Central ou do Tesouro e pode mudar conforme os resultados fiscais, as taxas de juros, o câmbio e o crescimento econômico. O ponto de comparação relevante é que o dado efetivo de agosto, de 82,9%, já ficou muito próximo da mediana de 83,2% projetada para dezembro.
No acumulado de 2026, a própria decomposição do Banco Central mostra que os juros foram responsáveis por acréscimo de 6,5 pontos percentuais na relação dívida/PIB. As emissões líquidas adicionaram 1,5 ponto, enquanto o crescimento do PIB nominal reduziu a relação em 3,6 pontos e a valorização cambial retirou outros 0,2 ponto. A soma desses fatores resulta na alta de 4,2 pontos percentuais observada desde o início do ano.
O dado de agosto, portanto, reforça que a trajetória do endividamento depende de mais de uma variável. O resultado primário influencia a necessidade de financiamento, mas o custo dos juros, o crescimento nominal da economia, o comportamento do câmbio e a composição do estoque também determinam a velocidade de expansão da dívida.
Os próximos resultados mensais serão importantes para verificar se a melhora do déficit primário observada em agosto se sustenta e em que medida ela será suficiente para contrabalançar o peso dos encargos financeiros. Até aqui, os números mostram uma dívida bruta de R$ 11,1 trilhões e uma despesa de juros anualizada de R$ 1,182 trilhão, com o custo financeiro permanecendo como o principal fator de pressão sobre o endividamento em 2026.
Fontes:
Banco Central do Brasil – Estatísticas Fiscais de agosto de 2026, com dados sobre dívida bruta, dívida líquida, resultado primário, juros nominais e resultado nominal
Ministério da Fazenda – Resultado do Tesouro Nacional de agosto de 2026, com dados de receitas, despesas e déficit primário do Governo Central
Tesouro Nacional – Relatório Mensal da Dívida Pública Federal de agosto de 2026, com estoque, composição, custo médio, prazo e vencimentos da dívida
Ministério da Fazenda – Prisma Fiscal de setembro de 2026, com projeções de mercado para resultado primário e dívida bruta








