A SpaceX, empresa de foguetes e inteligência artificial controlada por Elon Musk, perdeu cerca de US$ 400 bilhões em valor de mercado na última segunda-feira (22), em um dos maiores tombos já registrados por uma companhia em um único pregão. A queda ocorreu menos de duas semanas após a estreia histórica das ações em Wall Street e foi impulsionada pela rápida deterioração do apetite dos investidores por ativos de tecnologia diante da expectativa de juros mais elevados nos Estados Unidos.
Os papéis da companhia encerraram o pregão em baixa de 16,4%, cotados a US$ 154,60, acumulando desvalorização de 31,5% em relação ao pico registrado após a oferta pública inicial (IPO) realizada em 11 de junho. A forte correção reduziu o valor de mercado da SpaceX para aproximadamente US$ 2,03 trilhões, após a empresa ter se aproximado da marca de US$ 3 trilhões dias antes.
O movimento colocou a companhia no centro das atenções dos mercados globais e reforçou a volatilidade que costuma acompanhar empresas negociadas com múltiplos elevados e expectativas agressivas de crescimento futuro.
A queda também ocorreu em meio a uma reprecificação generalizada dos ativos de tecnologia, desencadeada pela alta dos rendimentos dos títulos do Tesouro americano e pela percepção de que o Federal Reserve poderá adotar uma postura monetária mais restritiva nos próximos meses.
Alta dos juros pressiona empresas de crescimento acelerado
O principal fator por trás da correção da SpaceX foi o avanço das taxas dos títulos públicos dos Estados Unidos, considerados referência para a precificação de ativos financeiros em todo o mundo.
Quando os rendimentos dos Treasuries sobem, investidores tendem a migrar recursos para aplicações consideradas mais seguras, reduzindo o apetite por ações de empresas cujo valor depende fortemente de expectativas futuras de expansão.
Esse fenômeno afeta especialmente companhias de tecnologia e inteligência artificial, que frequentemente operam com avaliações elevadas em relação às receitas atuais.
A SpaceX se enquadra nesse perfil. Segundo dados do mercado, a empresa vinha sendo negociada a múltiplos superiores a 100 vezes sua receita anual, refletindo apostas de longo prazo ligadas aos negócios espaciais, à infraestrutura computacional e à inteligência artificial.
A pressão ganhou força após dirigentes do Federal Reserve sinalizarem preocupação com a persistência da inflação nos Estados Unidos, especialmente diante dos impactos econômicos decorrentes das tensões geopolíticas no Oriente Médio.
O mercado passou a incorporar com maior intensidade a possibilidade de novos aumentos de juros ainda em 2026, cenário que reduz a atratividade de ativos considerados mais arriscados.
Queda da SpaceX entra para a história dos mercados
A perda de aproximadamente US$ 400 bilhões em valor de mercado colocou a SpaceX entre os maiores episódios de destruição de valor já registrados em um único dia nos mercados financeiros globais.
Levantamentos baseados em dados da Bloomberg apontam que a desvalorização está entre as maiores da história corporativa moderna.
O recuo interrompeu um período de forte valorização iniciado após o IPO da companhia. As ações estrearam a US$ 135 e rapidamente avançaram impulsionadas pelo entusiasmo dos investidores com os projetos liderados por Elon Musk.
O movimento elevou temporariamente a capitalização da empresa para perto de US$ 3 trilhões, consolidando a SpaceX entre as companhias mais valiosas do planeta.
Analistas, contudo, vinham alertando que parte da valorização refletia expectativas extremamente otimistas sobre a capacidade da empresa de transformar seus investimentos em inteligência artificial em receitas e lucros futuros.
Com a mudança de percepção sobre o ambiente macroeconômico, o mercado iniciou uma correção considerada natural por parte dos participantes.
Setor de tecnologia sofre vendas em escala global
A queda da SpaceX ocorreu em paralelo a um movimento amplo de realização de lucros em ações de tecnologia.
O índice Nasdaq Composite recuou 1,3% no pregão, enquanto gigantes do setor registraram perdas expressivas.
Empresas como Alphabet, controladora do Google, Amazon e Broadcom encerraram o dia com quedas superiores a 4%.
O movimento se espalhou rapidamente pelos mercados internacionais.
Na Ásia, bolsas importantes também registraram forte deterioração. O índice Kospi, da Coreia do Sul, chegou a cair mais de 8%, levando as autoridades locais a interromper temporariamente as negociações.
Entre os principais destaques negativos estiveram a SK Hynix e a Samsung, duas das maiores fabricantes globais de semicondutores, que sofreram perdas relevantes em meio ao aumento da aversão ao risco.
No Japão, o Nikkei 225 encerrou o dia em baixa de 2,7%, enquanto o Hang Seng, de Hong Kong, recuou 1,5%.
Os contratos futuros em Nova York também indicaram continuidade da pressão sobre os ativos de tecnologia.
Dependência da inteligência artificial amplia sensibilidade da empresa
Embora a SpaceX seja amplamente conhecida por seus projetos espaciais, parte relevante da avaliação atribuída pelos investidores está ligada à expansão de suas iniciativas em inteligência artificial.
A companhia passou por uma profunda transformação após a integração de ativos relacionados à xAI, empresa de inteligência artificial fundada por Elon Musk.
O mercado passou a enxergar a SpaceX não apenas como uma companhia aeroespacial, mas também como uma plataforma tecnológica com exposição direta à corrida global por infraestrutura computacional.
Essa mudança ampliou significativamente as expectativas de crescimento e ajudou a justificar os elevados múltiplos de mercado observados desde a abertura de capital.
Por outro lado, também tornou a empresa mais sensível a alterações nas condições financeiras globais.
Empresas de inteligência artificial dependem fortemente de investimentos contínuos em centros de dados, chips avançados, energia e infraestrutura computacional, exigindo grandes volumes de capital.
Quando os juros sobem, o custo de financiamento desses projetos aumenta, reduzindo parte do valor presente esperado pelos investidores.
Venda bilionária de títulos aumenta atenção do mercado
Outro fator acompanhado de perto pelos investidores é o plano da SpaceX de captar até US$ 20 bilhões por meio de uma emissão de títulos corporativos.
Os recursos serão utilizados para refinanciar um empréstimo-ponte contratado anteriormente durante operações estratégicas envolvendo ativos de inteligência artificial e plataformas digitais ligadas ao ecossistema de Elon Musk.
O momento da operação ocorre justamente quando o mercado de renda fixa enfrenta pressão causada pela expectativa de juros mais altos.
Nesse ambiente, o custo de captação tende a aumentar, tornando o refinanciamento mais caro para empresas altamente dependentes de investimentos.
Analistas observam que a capacidade da companhia de concluir a operação em condições favoráveis será um dos principais fatores monitorados nas próximas semanas.
A recepção dos investidores à emissão poderá servir como termômetro da confiança do mercado na estratégia financeira da empresa.
Parcerias de IA continuam sustentando narrativa de crescimento
Apesar da forte correção das ações, a SpaceX segue ampliando sua atuação no segmento de inteligência artificial.
Recentemente, a companhia anunciou novos acordos para fornecer capacidade computacional a empresas que desenvolvem modelos avançados de IA.
Entre os contratos divulgados estão iniciativas voltadas ao fornecimento de infraestrutura para startups e grupos tecnológicos que necessitam de grande poder de processamento para treinamento de modelos.
A estratégia se aproxima do modelo de negócios adotado por empresas especializadas em computação de alto desempenho, que alugam capacidade de processamento para organizações envolvidas na corrida global da inteligência artificial.
O objetivo é transformar os investimentos bilionários em data centers em uma nova fonte recorrente de receitas.
Mesmo assim, investidores seguem avaliando a capacidade da empresa de converter crescimento operacional em rentabilidade sustentável.
Mercado reavalia expectativas após euforia do IPO
A correção da SpaceX evidencia uma mudança importante no humor dos mercados financeiros globais.
Nos primeiros dias após a estreia em bolsa, o entusiasmo com os negócios ligados à inteligência artificial impulsionou avaliações consideradas históricas.
Com a perspectiva de juros mais altos nos Estados Unidos, parte desse otimismo passou a ser reavaliada.
A reação demonstra que, mesmo para empresas associadas a tecnologias transformadoras, fatores macroeconômicos continuam exercendo papel decisivo sobre a formação de preços dos ativos.
Para investidores, o episódio reforça os riscos inerentes a companhias negociadas com múltiplos elevados e dependentes de expectativas futuras de crescimento.
Ao mesmo tempo, a SpaceX permanece como uma das empresas mais valiosas do mundo, mantendo posição estratégica em setores considerados centrais para a próxima década, como exploração espacial, inteligência artificial e infraestrutura digital.
A volatilidade observada nos últimos pregões mostra que o mercado continua dividido entre o potencial de crescimento da companhia e os desafios financeiros impostos por um ambiente global de juros mais elevados.








