O ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal, autorizou nesta quinta-feira, 23 de julho de 2026, a abertura de inquérito para investigar repasses do ex-banqueiro Daniel Vorcaro para a produção do filme Dark Horse, cinebiografia sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro. A decisão, que tramita sob sigilo, atendeu a pedido da Polícia Federal e contou com parecer favorável da Procuradoria-Geral da República. O próprio Mendonça havia solicitado a manifestação da PGR antes de decidir.
Segundo a Polícia Federal, o inquérito é um desdobramento direto das investigações sobre o Banco Master e foi distribuído a Mendonça por prevenção, já que o ministro relata no Supremo os processos vinculados à Operação Compliance Zero. De acordo com a Reuters, que ouviu fontes do STF com acesso ao caso, a participação do senador Flávio Bolsonaro, pré-candidato do PL à Presidência, será investigada.
O filme ganhou notoriedade em maio de 2026 após reportagens do site Intercept Brasil revelarem áudios, mensagens e comprovantes de transferências envolvendo Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro. O senador admitiu ter solicitado financiamento privado para a obra sobre o pai, mas nega irregularidade. A produtora Go Up Entertainment e o deputado federal Mário Frias, que também assina a história do longa, chegaram a afirmar publicamente que não receberam recursos de Vorcaro, em versões que depois entraram em contradição com declarações da própria dona da produtora.
Três frentes de apuração definidas pela PF no novo inquérito
Conforme a Polícia Federal, o inquérito aberto a partir da decisão de Mendonça terá três eixos principais. O primeiro é o repasse de R$ 61 milhões já efetivado por Vorcaro para o filme, a pedido de Flávio Bolsonaro, dentro de um acordo total de R$ 134 milhões. O valor de R$ 61 milhões corresponde a cerca de US$ 10,6 milhões e teria sido pago em seis parcelas entre fevereiro e maio de 2025.
A segunda frente apura a destinação final dos recursos. Investigadores avaliam se o dinheiro foi integralmente aplicado na produção cinematográfica ou se parte foi desviada para custear a permanência do ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos. Eduardo vive no Texas desde fevereiro de 2025 e nega ter recebido recursos do fundo. A terceira frente, que inicialmente estava no escopo deste inquérito, trata do uso de emendas parlamentares para entidades ligadas à produtora. Esse ponto já é objeto de apuração separada sob relatoria do ministro Flávio Dino, no âmbito da ADPF 854, que discute transparência e rastreabilidade das emendas.
A decisão de Mendonça ocorre a dois dias da convenção nacional do PL marcada para oficializar Flávio Bolsonaro como candidato ao Palácio do Planalto na eleição de 2026. Jair Bolsonaro está em prisão domiciliar após condenação da Primeira Turma do STF a 27 anos e 3 meses de prisão por tentativa de golpe de Estado após as eleições de 2022.
Como R$ 61 milhões chegaram ao fundo no Texas
Segundo as investigações, o dinheiro não saiu diretamente de contas de Vorcaro ou do Banco Master. De acordo com documentos obtidos pelo Intercept Brasil e confirmados pela Polícia Federal, os recursos transitaram pela empresa Entre Investimentos e Participações, apontada pelo Banco Central como possível empresa de fachada ligada ao ecossistema do Master. Em declaração de Imposto de Renda do banco enviada à CPI do Crime Organizado, foram indicados R$ 2,3 milhões repassados à Entre.
Da Entre, os recursos teriam seguido para o Havengate Development Fund LP, fundo sediado no Texas. O Havengate tem como agente legal o escritório Law Offices of Paulo Calixto PLLC, do advogado Paulo Calixto, que atua nos processos de imigração de Eduardo Bolsonaro. Nos registros do Controlador de Contas Públicas do Texas, o fundo aparece como propriedade da Havengate Development Fund GP LLC, registrada no mesmo endereço comercial do escritório de Calixto, em Dallas, e que tem o próprio Calixto e o corretor de imóveis Altieris Santana no quadro societário.
Em entrevista à GloboNews, Flávio Bolsonaro afirmou considerar natural que o advogado de confiança do irmão seja gestor do fundo que recebeu os recursos. A dona da Go Up Entertainment, Karina Ferreira da Gama, declarou em entrevista ao Estúdio i que Daniel Vorcaro foi responsável por mais de 90% da verba que viabilizou Dark Horse. Segundo Karina, o orçamento já realizado estava em cerca de R$ 65,7 milhões, equivalentes a US$ 13 milhões, e que desse total R$ 61 milhões foram pagos por Vorcaro. Em junho, a produtora apresentou perícia privada elevando o custo total para R$ 75 milhões, o que tornaria Dark Horse a produção mais cara da história do cinema brasileiro, acima de títulos como Ainda Estou Aqui e O Agente Secreto.
Em 9 de junho de 2026, o Intercept Brasil publicou comprovantes de transferências internacionais via SWIFT efetuadas por ordem de Vorcaro e planilha da contabilidade da Go Up com aportes acordados e efetivamente recebidos. O publicitário Thiago Miranda, que intermediou o primeiro contato entre Flávio, Mário Frias e Vorcaro, confirmou à coluna de Malu Gaspar, em O Globo, que o banqueiro foi o único financiador do projeto até sua prisão.
Do Banco Master ao cinema: elo com a maior fraude bancária do país
O Banco Master entrou no centro do noticiário financeiro no final de 2025. De acordo com o Banco Central, a instituição teve liquidação extrajudicial decretada em 18 de novembro de 2025 por grave crise de liquidez, comprometimento da situação econômico-financeira e graves violações às normas do Sistema Financeiro Nacional. A decisão atingiu o Banco Master S.A., o Banco Master de Investimento S.A., o Letsbank S.A. e a Master Corretora. O Banco Master Múltiplo foi colocado em Regime Especial de Administração Temporária e, posteriormente, também liquidado.
Segundo a Polícia Federal, a fraude investigada na Operação Compliance Zero chega a R$ 12 bilhões em bloqueio determinado pela Justiça e teria funcionado como pirâmide financeira, com oferta de CDBs com rendimentos muito acima do mercado sem lastro correspondente e sobrevalorização de garantias. O caso é tratado por investigadores e pelo Ministério Público Federal como a maior fraude bancária já registrada no país, com dívida estimada em até R$ 52 bilhões ao Fundo Garantidor de Créditos.
Daniel Vorcaro foi preso em 18 de novembro de 2025 no aeroporto ao tentar embarcar para viagem internacional e, depois, passou a cumprir medidas cautelares. O banqueiro chegou a assinar termo de confidencialidade com a PGR e a PF em março de 2026 para negociar colaboração premiada, tratativas que não avançaram. Em depoimento à PF em dezembro de 2025, Vorcaro disse que a Diretoria de Fiscalização do Banco Central teria recomendado a venda do Master ao Banco de Brasília, o BRB, e negou facilitação política.
Instituições ligadas a governos estaduais, como o BRB e o RioPrevidência, investiram R$ 12 bilhões e R$ 2,6 bilhões respectivamente em papéis do Master, segundo dados da própria investigação. O escândalo provocou a prisão do pai de Daniel, Henrique Vorcaro, em maio de 2026, em nova fase da Compliance Zero, e envolveu o afastamento do então presidente do BRB.
O filme mais caro do Brasil e as contradições da produtora
Dark Horse é dirigido pelo cineasta iraniano-americano Cyrus Nowrasteh e tem roteiro de Cyrus e seu filho Mark Nowrasteh, a partir de história original de Mário Frias. A obra retrata a campanha presidencial de 2018, com foco no atentado a faca sofrido por Jair Bolsonaro em Juiz de Fora. O ator americano Jim Caviezel, conhecido por A Paixão de Cristo, interpreta Bolsonaro. A produção executiva é assinada por Karina Ferreira da Gama, Mário Frias e Eduardo Bolsonaro, conforme ficha registrada na página da obra.
As filmagens começaram em outubro de 2025 no Hospital Indianópolis, na zona sul de São Paulo, passaram pelo Memorial da América Latina, pelo México e foram finalizadas em Hollywood em 2026. A Go Up Entertainment, responsável pela produção no Brasil, não possui histórico prévio de lançamento de longas-metragens no cinema, TV aberta ou por assinatura, segundo a Ancine. Outras duas empresas ligadas a Karina também não possuem lançamentos, embora uma delas, a G07, tenha registrado na Ancine projeto de documentário intitulado Atletas de Cristo que não saiu do papel.
A primeira exibição ocorreu em 15 de junho de 2026 no Fraud Fighter Summit e a estreia nos cinemas brasileiros está prevista para 11 de setembro de 2026 com distribuição da Europa Filmes. Em dezembro de 2025, figurantes acionaram a Justiça e o Sindicato dos Artistas de São Paulo relatou condições de trabalho consideradas humilhantes, com confisco de celulares e restrições de uso de banheiro, o que a produção negou à época.
As versões sobre o financiamento se tornaram ponto central da apuração. Enquanto Mário Frias afirmou em nota que a produção não recebeu um centavo de Vorcaro, Karina declarou à GloboNews que o banqueiro respondeu por mais de 90% da verba. Em áudio enviado a Vorcaro em novembro de 2025, véspera da prisão do banqueiro, Flávio Bolsonaro cobrou parcelas em atraso e disse que sem os recursos a produção perderia contratos, atores, diretor e equipe.
Emendas Pix e ONG paulistana no radar de Flávio Dino
Paralelamente ao inquérito de Mendonça, o ministro Flávio Dino determinou em 15 de maio de 2026 a abertura de procedimento apartado na ADPF 854 para apurar suposto desvio de finalidade de emendas parlamentares destinadas ao Instituto Conhecer Brasil e à Academia Nacional de Cultura, ambos ligados à produtora de Dark Horse.
Segundo despacho de Dino, as petições apresentadas pelos deputados Henrique Vieira e Tabata Amaral apontam quebra de transparência e rastreabilidade na destinação de recursos públicos. Conforme o Consultor Jurídico, a suspeita envolve R$ 2 milhões a R$ 2,6 milhões em emendas Pix indicadas pelo deputado Mário Frias para projetos sociais da ONG comandada por Karina. A Polícia Civil de São Paulo cumpriu em 1º de junho mandados de busca na sede da Go Up, em endereço da empresária e na Secretaria Municipal de Inovação e Tecnologia da Prefeitura de São Paulo, no âmbito de investigação sobre contrato de R$ 108 milhões para fornecimento de Wi-Fi gratuito. A Prefeitura afirmou que o contrato seguiu princípios de legalidade e que repudia ilações de desvio.
Dino destacou que, caso confirmadas, as condutas poderiam violar o artigo 165, parágrafo 10º da Constituição, que exige efetiva entrega de bens e serviços à sociedade na execução das programações orçamentárias. O procedimento corre sob sigilo nível 3 e a Câmara dos Deputados já foi intimada a prestar esclarecimentos.
Cronologia da redistribuição no STF
A investigação sobre Dark Horse chegou ao Supremo por meio de notícia-crime apresentada pelo deputado federal Lindbergh Farias. Inicialmente encaminhada ao ministro Alexandre de Moraes, por conexão com processo que apura coação envolvendo Eduardo Bolsonaro nos EUA, a representação teve parecer da PGR defendendo a redistribuição a André Mendonça, por haver coincidência com investigações sobre o Banco Master já sob sua relatoria.
Em decisão assinada pelo presidente do STF, ministro Edson Fachin, em junho de 2026, a prevenção foi reconhecida e os autos foram redistribuídos a Mendonça. A defesa de Flávio Bolsonaro chegou a pedir que o inquérito sobre emendas, relatado por Dino, também fosse concentrado em Mendonça para evitar decisões conflitantes. Dino manteve a apuração das emendas em procedimento próprio.
Posições das partes e próximos desdobramentos
Flávio Bolsonaro afirma que a negociação com Vorcaro foi operação privada, com cláusula de confidencialidade, destinada exclusivamente ao filme e sem contrapartida política. Em entrevista à GloboNews em 14 de maio de 2026, o senador disse que todos os recursos aportados no fundo foram usados integralmente para fazer o filme e que não houve destinação a Eduardo. Eduardo Bolsonaro, por sua vez, negou ter recebido dinheiro do fundo e afirmou que apenas cedeu direitos de imagem, embora contrato de novembro de 2023 assinado digitalmente em janeiro de 2024 o aponte como produtor-executivo ao lado de Mário Frias. A defesa de Frias declarou que Eduardo nunca foi produtor-executivo.
Karina Ferreira da Gama não foi localizada pela Polícia Civil no dia das buscas e, em manifestações anteriores, negou uso de verba pública paulistana no filme e afirmou que a contratação pelo município foi regular. Daniel Vorcaro não se manifestou publicamente sobre o inquérito de 23 de julho, mas em depoimentos anteriores negou fraude e lavagem de dinheiro.
Com a abertura do inquérito, a Polícia Federal deverá intimar os envolvidos, solicitar quebra de sigilo bancário e fiscal do fundo Havengate e da Entre Investimentos e compartilhar provas da Operação Compliance Zero. A PGR acompanhará as diligências e decidirá sobre eventual pedido de indiciamento. A convenção do PL, o avanço da auditoria da Controladoria-Geral da União sobre as emendas e a conclusão do laudo contábil da Go Up são os próximos marcos esperados para esclarecer se os R$ 61 milhões efetivamente bancaram Dark Horse ou sustentaram outras finalidades.








