TCU pode impedir BC de vender bens de Vorcaro e amplia cerco sobre atuação do Banco Central
O Tribunal de Contas da União (TCU) elevou o grau de pressão institucional sobre o Banco Central (BC) ao sinalizar que pode impedir a venda de bens ligados ao banqueiro Daniel Vorcaro no processo de liquidação do banco Master. A advertência foi feita pelo ministro Jhonatan de Jesus em novo despacho, que aprofunda a fiscalização sobre os atos do órgão regulador e coloca sob escrutínio técnico e jurídico decisões consideradas sensíveis no sistema financeiro nacional.
O movimento do TCU ocorre em meio a um cenário de crescente judicialização do caso Master e amplia o debate sobre os limites da atuação do Banco Central, sua autonomia técnica e o alcance do controle externo exercido pela Corte de Contas. Ao levantar a possibilidade de uma medida cautelar, o tribunal sinaliza preocupação com eventuais atos considerados irreversíveis, sobretudo aqueles relacionados à alienação de ativos da massa liquidanda.
Alerta formal do TCU ao Banco Central
No despacho, o ministro Jhonatan de Jesus não descarta a adoção de providência cautelar para impedir que o BC prossiga com a venda de bens vinculados ao Master. O objetivo, segundo o documento, seria preservar o valor econômico da massa em liquidação e assegurar a efetividade do controle externo, evitando prejuízos de difícil reversão.
A manifestação reforça que qualquer medida a ser adotada deverá observar critérios de proporcionalidade, finalidade específica e motivação expressa, considerando inclusive o risco da chamada demora reversa, quando a rapidez de um ato administrativo pode causar danos maiores do que sua suspensão temporária.
Competência constitucional do TCU
A decisão ganhou respaldo institucional com posicionamento do presidente do TCU, ministro Vital do Rêgo, que reafirmou a competência constitucional da Corte para fiscalizar o Banco Central. Segundo ele, não há dúvida jurídica sobre o alcance do controle externo exercido pelo tribunal, que inclui a análise contábil, financeira, orçamentária, operacional e patrimonial de autarquias federais.
A manifestação reforça que a fiscalização do TCU não compromete a autonomia técnica e decisória do Banco Central, mas garante que seus atos estejam alinhados aos princípios da legalidade, legitimidade e economicidade previstos na Constituição Federal.
Inspeção in loco no Banco Central
Como parte do aprofundamento das investigações, técnicos do TCU realizarão uma inspeção presencial no Banco Central. A ação envolve acesso a documentos internos, registros administrativos e bases de dados relacionadas ao processo de supervisão do banco Master.
O objetivo é reconstruir, com rastreabilidade documental, todo o histórico decisório que levou à decretação do regime de liquidação, avaliando se as medidas adotadas observaram o arcabouço legal e regulatório aplicável ao sistema financeiro.
Pontos que serão analisados pelos auditores
O despacho do ministro Jhonatan de Jesus estabelece, de forma detalhada, os eixos centrais da inspeção. Entre eles estão o exame do histórico da supervisão prudencial do conglomerado financeiro, a análise de reclassificações de risco, exigências feitas ao banco e respostas apresentadas ao longo do tempo.
Também será avaliada a decisão sobre a instauração, ou não, de processos administrativos sancionadores, especialmente em casos que envolvam comunicação de indícios a órgãos de persecução penal. Outro ponto sensível diz respeito à análise de reuniões internas ocorridas às vésperas da liquidação, incluindo atas, pautas, participantes e documentos apresentados.
Avaliação de decisões societárias e alternativas menos gravosas
Os técnicos do TCU deverão examinar decisões relacionadas à transferência de controle e reorganizações societárias, verificando se houve aderência procedimental, motivação técnica adequada e respeito às normas de governança deliberativa.
Além disso, a inspeção buscará identificar se o Banco Central considerou alternativas menos gravosas antes de decretar o regime extremo de liquidação. A análise inclui a verificação da coerência, proporcionalidade e fundamentação das decisões, bem como o tratamento conferido a tratativas de mercado ocorridas imediatamente antes da intervenção.
Questionamentos à nota técnica do Banco Central
O despacho do TCU também registra críticas à nota técnica apresentada pelo Banco Central. Segundo o ministro, o documento se limitou a expor uma cronologia institucional e fundamentos gerais, sem a devida comprovação documental nos autos.
A ausência de documentos comprobatórios, na avaliação do TCU, fragiliza a narrativa apresentada e reforça a necessidade de uma inspeção detalhada para verificar a consistência técnica das decisões adotadas pelo órgão regulador.
Suposta divergência interna no BC
Outro ponto sensível envolve a possível divergência entre diretorias do Banco Central durante o processo decisório. Embora a nota técnica do BC afirme que não houve discordâncias internas, o TCU considera necessário apurar informações veiculadas sobre tensões entre áreas técnicas da autarquia.
A inspeção deverá reconstruir o fluxo decisório, identificando se existiram posições técnicas alternativas, como foram processadas internamente e se a motivação final enfrentou adequadamente argumentos contrários ou sugestões menos drásticas.
Banco Central sob pressão institucional
O avanço das ações do TCU amplia o cerco institucional sobre o Banco Central em um momento considerado crítico para o sistema financeiro. Internamente, há avaliação de que as decisões do tribunal são inéditas e fogem ao padrão histórico de relação entre os órgãos, colocando em debate o papel da autoridade monetária como supervisora do setor bancário.
A preocupação central é que a ampliação do controle externo possa gerar insegurança regulatória em processos de intervenção e liquidação, que tradicionalmente exigem rapidez e discricionariedade técnica.
Risco de judicialização e indenizações
Um dos temores expressos nos bastidores é que as determinações do TCU abram brechas para questionamentos judiciais por parte de Daniel Vorcaro. Há receio de que o banqueiro possa buscar a reversão da liquidação ou pleitear indenizações, caso se identifiquem falhas procedimentais ou vícios de motivação nos atos do Banco Central.
Esse cenário poderia gerar impactos relevantes não apenas para o caso Master, mas também para a atuação futura do BC em situações semelhantes.
Comunicações ao Ministério Público
O caso Master envolve ainda comunicações feitas pelo Banco Central ao Ministério Público Federal sobre indícios de crimes financeiros. Entre os pontos destacados estão operações consideradas fraudulentas, envolvendo valores expressivos e práticas que teriam criado aparência de legalidade para operações sem lastro econômico real.
Essas comunicações reforçam a gravidade das acusações e ajudam a explicar a decisão do BC de adotar medidas extremas. No entanto, também aumentam a complexidade do caso, ao entrelaçar aspectos administrativos, regulatórios e criminais.
Impactos para o sistema financeiro
o episódio envolvendo o Master, o Banco Central e o TCU reacende o debate sobre os limites entre autonomia regulatória e controle externo. A possibilidade de o TCU impedir a venda de bens da massa liquidanda pode estabelecer precedentes relevantes para futuras liquidações bancárias.
Especialistas avaliam que o desfecho do caso terá repercussões diretas sobre a segurança jurídica do sistema financeiro, a previsibilidade regulatória e a confiança de investidores e agentes de mercado.
Ao sinalizar que TCU pode impedir BC de vender bens de Vorcaro, o Tribunal de Contas da União assume papel central em um dos casos mais sensíveis do setor financeiro recente. A iniciativa amplia o controle externo sobre a atuação do Banco Central e coloca sob análise minuciosa decisões que envolvem bilhões de reais e a credibilidade do sistema bancário.
O avanço das investigações, a inspeção in loco e a eventual adoção de medidas cautelares deverão definir os próximos capítulos de um embate institucional que pode redefinir os limites entre regulação, fiscalização e autonomia no Brasil.






