As taxas dos títulos públicos negociados pelo Tesouro Direto passaram por uma sessão de forte oscilação nesta sexta-feira (2), último pregão antes do primeiro turno das eleições de 2026. O movimento começou com alívio após a divulgação de indicadores mais fracos de atividade no Brasil e de emprego nos Estados Unidos, mas perdeu força ao longo da manhã. Às 11h49, o Tesouro IPCA+ 2032 oferecia rendimento de IPCA mais 7,62% ao ano, enquanto o Tesouro Prefixado 2029 pagava 13,85% ao ano.
A referência marca uma mudança em relação ao início dos negócios. O IPCA+ 2032 havia chegado a 7,60% mais cedo, mas voltou para 7,62%. O movimento foi acompanhado por outros vencimentos: o IPCA+ 2040 estava em 7,24% e o IPCA+ 2050, em 7,08%. Entre os prefixados, o título com vencimento em 2029 avançou para 13,85%, enquanto o Prefixado 2032 alcançou 14,20%.
A sessão combina três forças de naturezas diferentes. No cenário doméstico, a produção industrial brasileira recuou 0,6% em agosto, interrompendo a pequena alta registrada em julho. Nos Estados Unidos, o mercado de trabalho também apresentou sinais de perda de dinamismo, com a criação de 29 mil vagas em setembro e taxa de desemprego de 4,2%. Ao mesmo tempo, os títulos longos do governo americano continuaram pressionando as curvas globais de juros.
O contexto brasileiro acrescenta uma variável adicional: o primeiro turno das eleições está marcado para domingo (4), e o calendário oficial do Tribunal Superior Eleitoral prevê eventual segundo turno para 25 de outubro. A proximidade da votação reduz a disposição dos investidores para posições mais agressivas em ativos sensíveis à definição do ambiente econômico e fiscal dos próximos meses.
Indústria acumula perda superior a 3% em quatro meses
O dado industrial divulgado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística nesta sexta-feira acrescentou um elemento favorável à percepção de desaceleração da economia brasileira. A produção nacional caiu 0,6% em agosto ante julho e recuou 1,2% na comparação com agosto de 2025. No acumulado de janeiro a agosto, porém, ainda havia crescimento de 0,8%.
A sequência recente é mais fraca do que o resultado isolado de agosto sugere. Considerando as variações mensais informadas pelo IBGE para maio, junho, julho e agosto, de -1,0%, -1,8%, 0,1% e -0,6%, respectivamente, a produção acumulou uma retração aproximada de 3,3% no período, segundo cálculo sobre as taxas encadeadas. O dado mostra que a alta de julho não foi suficiente para reverter a perda registrada nos dois meses anteriores.
A fraqueza industrial pode influenciar a leitura sobre a política monetária porque reduz, na margem, a pressão derivada da atividade sobre os preços. O próprio Banco Central afirmou na ata da reunião de setembro que vinha observando uma moderação gradual da economia, principalmente nos setores mais cíclicos, embora o nível de atividade ainda fosse considerado resiliente e o mercado de trabalho permanecesse aquecido.
A inflação também oferece sinais de desaceleração. O IPCA de agosto ficou negativo em 0,32%, e o acumulado em 12 meses chegou a 4,22%. O IPCA-15 de setembro, por sua vez, registrou alta de 0,70%, indicando que a leitura mais recente da inflação corrente continua exigindo acompanhamento antes de qualquer conclusão sobre a trajetória dos juros.
Curva de juros mostra prêmio elevado nos papéis ligados à inflação
Mesmo com alguma redução recente dos rendimentos, o juro real oferecido pelos títulos atrelados ao IPCA permanece elevado. Às 11h49, o Tesouro IPCA+ 2032 pagava 7,62% acima da inflação, enquanto o vencimento de 2040 oferecia 7,24% e o de 2050, 7,08%.
A diferença de 54 pontos-base entre o IPCA+ 2032 e o 2050 revela uma curva real inclinada, com prêmio maior nos vencimentos intermediários do que nos títulos mais longos. Entre o 2032 e o 2040, o diferencial era de 38 pontos-base. A estrutura mostra que o mercado não está simplesmente aplicando uma mesma remuneração real a toda a curva, mas precificando de forma distinta as incertezas associadas a cada horizonte.
O patamar de 7,62% também fica muito acima da inflação oficial acumulada em 12 meses. Em uma conta puramente matemática, caso um investidor conseguisse manter por um ano a inflação de 4,22% e recebesse exatamente o juro real de 7,62%, a remuneração nominal equivalente seria de aproximadamente 12,16% antes de impostos e custos. O cálculo não representa uma projeção de inflação ou retorno, mas ilustra a dimensão do prêmio real incorporado ao título no momento.
No mercado de prefixados, o Tesouro 2029 oferecia 13,85% ao ano, apenas 10 pontos-base acima da Selic de 13,75% vigente desde 17 de setembro. A diferença é pequena em termos nominais, mas o título prefixado embute uma taxa fixa até o vencimento, enquanto a taxa básica pode mudar ao longo do período.
Juros americanos mantêm pressão sobre os ativos brasileiros
O ambiente externo continua sendo um dos principais componentes da formação das taxas domésticas. Em 16 de setembro, o Federal Reserve elevou o intervalo da taxa dos Fed Funds em 0,25 ponto percentual, para 3,75% a 4%, segundo a decisão oficial do banco central americano. As projeções divulgadas na mesma reunião colocaram a mediana da taxa para o fim de 2026 em 4,1%, acima do intervalo vigente no momento da decisão.
O relatório de emprego divulgado nesta sexta-feira mostrou a criação de apenas 29 mil postos de trabalho não agrícolas em setembro, enquanto a taxa de desemprego ficou em 4,2%. O resultado reforçou a percepção de desaceleração do mercado de trabalho, mas não foi suficiente para eliminar a pressão sobre os juros longos americanos.
Esse comportamento é relevante para o mercado brasileiro porque a remuneração dos títulos do Tesouro dos Estados Unidos funciona como referência para parte dos fluxos internacionais de capital. Quando os juros americanos permanecem elevados, ativos emergentes precisam oferecer prêmio adicional para compensar o risco de mercado e de câmbio.
A pressão sobre os vértices longos também explica por que o movimento de queda observado no início da sessão brasileira não se consolidou. O IPCA+ 2032 voltou a 7,62%, enquanto os papéis mais longos também registraram alta em relação às primeiras cotações do dia. A curva brasileira, portanto, absorveu parte do alívio proporcionado pelos dados econômicos, mas continuou refletindo o custo elevado do dinheiro no mercado internacional.
Selic menor não significa queda linear das taxas longas
O Copom reduziu a Selic para 13,75% ao ano na reunião de setembro, mas manteve uma comunicação de cautela. Na ata, o colegiado destacou que as expectativas de inflação permaneciam acima da meta e apontou riscos elevados tanto para a inflação quanto para a atividade. As projeções do cenário de referência indicavam IPCA de 5,2% em 2026, 3,9% em 2027 e 3,2% no primeiro trimestre de 2028.
Essa combinação ajuda a explicar por que os títulos longos não acompanham necessariamente cada movimento da Selic. O investidor que compra um título com vencimento em 2032, 2040 ou 2050 está precificando uma trajetória de juros, inflação, contas públicas, câmbio, oferta de títulos e prêmio de risco muito mais extensa do que a taxa básica definida na reunião mais recente do Banco Central.
O movimento desta sexta-feira reforça essa distinção. Apesar da redução recente da Selic e de sinais de moderação da atividade econômica, os títulos públicos continuam negociados com juros reais elevados. No curto prazo, os preços ainda respondem às oscilações dos Treasuries americanos e à percepção de risco associada à transição política que começa a ser definida a partir do primeiro turno.
As próximas sessões devem incorporar os resultados da votação de domingo e, conforme o cenário eleitoral, novas estimativas sobre política econômica, inflação, contas públicas e trajetória da Selic. Para os títulos prefixados e atrelados ao IPCA, essas variáveis tendem a ser determinantes para a marcação a mercado, independentemente da taxa contratada no momento da compra.
Fontes:
Tesouro Direto – rendimento dos títulos e atualização das condições de negociação em 2 de outubro de 2026
Banco Central do Brasil – comunicado e decisão do Copom de 16 de setembro de 2026 sobre a taxa Selic
Banco Central do Brasil – ata da 281ª reunião do Copom e projeções de inflação
IBGE – Pesquisa Industrial Mensal: Produção Física de agosto de 2026
IBGE – IPCA de agosto de 2026 e indicadores recentes de inflação
U.S. Bureau of Labor Statistics – Employment Situation de setembro de 2026
Federal Reserve – decisão do FOMC de setembro de 2026 e projeções econômicas
Tribunal Superior Eleitoral – calendário oficial das Eleições Gerais de 2026





