Fundos de ações encerram 2025 com resgates bilionários mesmo diante de forte alta da Bolsa
Os resgates em fundos de ações marcaram de forma contundente o desempenho da indústria de investimentos no Brasil em 2025. Mesmo com um ano histórico para o mercado acionário, impulsionado por sucessivos recordes do Ibovespa e uma valorização expressiva no acumulado de doze meses, os investidores retiraram R$ 54,5 bilhões líquidos dessa classe de fundos. O resultado contrasta fortemente com 2024, quando os resgates haviam somado R$ 16,2 bilhões, e revela um paradoxo que chama a atenção de analistas e gestores.
O dado evidencia uma dissociação relevante entre o desempenho da Bolsa e o comportamento do investidor brasileiro, especialmente o institucional. Em um ambiente marcado por elevada volatilidade política, expectativas eleitorais e mudanças no apetite ao risco, os resgates em fundos de ações se intensificaram, mesmo diante de retornos expressivos do mercado.
Um ano de recordes no Ibovespa, mas fuga dos fundos
O Ibovespa encerrou 2025 com uma valorização acumulada de 34%, após registrar mais de 30 recordes históricos ao longo do ano. Em condições normais, esse desempenho seria suficiente para atrair fluxo positivo para fundos de ações. No entanto, a realidade foi oposta.
Ao longo de 2025, os resgates em fundos de ações ganharam ritmo, refletindo uma postura mais cautelosa dos investidores. A saída líquida de R$ 54,5 bilhões expõe uma tendência de redução estrutural da exposição a fundos tradicionais de renda variável, mesmo quando o mercado apresenta resultados robustos.
Esse movimento sugere que muitos investidores preferiram realizar lucros diretamente via ações individuais ou migrar recursos para outras classes, em vez de manter posições em fundos geridos.
Dezembro mostra desaceleração, mas não reversão
No último mês de 2025, houve uma leve desaceleração no ritmo dos resgates em fundos de ações. Em dezembro, a saída líquida foi de R$ 2,3 bilhões, abaixo do registrado em novembro, quando os resgates alcançaram R$ 3,7 bilhões. Ainda assim, o valor permaneceu acima do observado em outubro, de R$ 1,6 bilhão.
A desaceleração, embora relevante, não foi suficiente para reverter o saldo negativo acumulado no ano. O dado indica que, mesmo com um cenário mais favorável no início do quarto trimestre, a confiança do investidor em fundos de ações permaneceu fragilizada até o encerramento do exercício.
Política e aversão ao risco no radar dos investidores
Um dos fatores determinantes para a intensificação dos resgates em fundos de ações no fim do ano foi o aumento da aversão ao risco em dezembro. A oficialização da pré-candidatura de Flávio Bolsonaro à Presidência da República em 2026 alterou significativamente a percepção de risco político.
O mercado interpretou o movimento como uma redução das chances de vitória de um candidato considerado mais alinhado à agenda pró-mercado. Com isso, estratégias conhecidas como “trade Tarcísio”, baseadas na expectativa de vitória do atual governador de São Paulo, perderam força, impactando diretamente o humor dos investidores.
Esse contexto político contribuiu para uma postura defensiva, reforçando a decisão de muitos cotistas de reduzir exposição a fundos de ações.
Fluxo de investidores: estrangeiros, locais e pessoas físicas
A análise dos fluxos na B3 ajuda a compreender melhor o cenário dos resgates em fundos de ações. Em dezembro, investidores estrangeiros foram vendedores líquidos de R$ 1,9 bilhão em ações brasileiras, revertendo o movimento positivo observado em novembro, quando haviam comprado R$ 2,1 bilhões.
Na contramão, instituições locais adquiriram R$ 2,9 bilhões em ações no mês, enquanto as pessoas físicas realizaram compras líquidas de R$ 3,9 bilhões. Esse comportamento evidencia que, apesar da saída dos fundos, houve interesse direto no mercado acionário, especialmente por parte do investidor individual.
No acumulado de 2025, os estrangeiros registraram compras líquidas de R$ 26,6 bilhões, reforçando o apetite internacional por ativos brasileiros. Já as instituições locais encerraram o ano como vendedoras líquidas de R$ 48,6 bilhões, enquanto as pessoas físicas somaram compras líquidas de R$ 7,3 bilhões.
Desalinhamento entre fundos e investidores diretos
O contraste entre os resgates em fundos de ações e o fluxo positivo de investidores diretos na Bolsa aponta para uma mudança estrutural no comportamento do investidor. Cada vez mais, pessoas físicas optam por investir diretamente em ações, reduzindo a dependência de fundos tradicionais.
Além disso, a performance desigual entre fundos, com alguns ficando atrás do índice de referência, contribuiu para a frustração de cotistas. Mesmo em um ano de forte alta do Ibovespa, muitos fundos não conseguiram capturar integralmente o movimento, o que reforçou a decisão de resgate.
Multimercados ensaiam reação em meio à volatilidade
Enquanto os resgates em fundos de ações dominaram o noticiário, os fundos multimercados apresentaram um desempenho ligeiramente distinto no fim do ano. Em dezembro, essa categoria registrou entrada líquida de R$ 3,7 bilhões, sinalizando uma possível retomada do interesse dos investidores.
Apesar disso, no acumulado de 2025, os multimercados também fecharam o ano no vermelho, com resgates líquidos de R$ 58,9 bilhões. O volume, no entanto, foi significativamente inferior ao observado em 2024, indicando uma melhora relativa.
Especialistas destacam que, em anos eleitorais, a flexibilidade dos multimercados tende a ser valorizada. A possibilidade de assumir posições diversificadas, incluindo proteção cambial e estratégias de juros, pode favorecer essa classe em ambientes de maior incerteza.
Renda fixa: o grande contraponto
Em contraste com os resgates em fundos de ações, os fundos de renda fixa encerraram 2025 com captação líquida de R$ 84,3 bilhões. Mesmo registrando saída líquida expressiva em dezembro, de R$ 76,3 bilhões, a classe se beneficiou do cenário de juros elevados ao longo do ano.
A atratividade dos retornos, aliada a um perfil de risco mais conservador, consolidou a renda fixa como a principal escolha dos investidores em 2025. Esse movimento reforça a leitura de que a busca por previsibilidade e menor volatilidade ainda prevalece no mercado brasileiro.
Retornos elevados, mas desafios persistem
Apesar dos resgates em fundos de ações, a classe entregou retornos expressivos em 2025, com alguns produtos alcançando ganhos de até 45%. Ainda assim, fundos considerados “estrelados” enfrentaram dificuldades para manter desempenho consistente e atrair novos recursos.
Esse paradoxo evidencia que retorno passado, por si só, não tem sido suficiente para reverter a desconfiança dos investidores. Questões como taxas de administração, volatilidade excessiva e comparações desfavoráveis com investimentos diretos continuam pesando na decisão dos cotistas.
Perspectivas para 2026 e o papel das eleições
O comportamento dos resgates em fundos de ações em 2026 deverá ser fortemente influenciado pelo cenário eleitoral. Historicamente, períodos de maior incerteza política tendem a provocar ajustes nas carteiras, com redução de exposição a ativos mais voláteis.
Por outro lado, estrategistas apontam que, caso haja maior clareza sobre o rumo da política econômica, os fundos de ações podem voltar a atrair recursos, especialmente se o mercado mantiver desempenho consistente.
A indústria de fundos, por sua vez, enfrenta o desafio de se reinventar, oferecendo produtos mais eficientes, transparentes e alinhados às expectativas de um investidor cada vez mais sofisticado.






