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Tarifa zero pode movimentar R$ 60,3 bilhões por ano e ganha força no debate federal

Estudo da UnB calcula impacto da gratuidade no transporte público das capitais e regiões metropolitanas; governo avalia modelos de financiamento para reduzir peso das passagens sobre trabalhadores

por Maria Helena Costa - Repórter de Economia
08/05/2026 às 11h45 - Atualizado em 15/05/2026 às 17h24
em Notícias, Destaque, Economia
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A proposta de tarifa zero no transporte público voltou ao centro do debate nacional após um estudo da Universidade de Brasília (UnB) estimar que a gratuidade em ônibus, metrôs e trens das capitais e regiões metropolitanas poderia movimentar até R$ 60,3 bilhões por ano na economia brasileira. O levantamento trata o transporte gratuito como uma política de distribuição de renda, ao liberar parte do orçamento hoje comprometido por famílias trabalhadoras com deslocamentos diários.

A pesquisa, intitulada “A Tarifa Zero no transporte público como política de distribuição de renda”, foi coordenada pelo professor Thiago Trindade, do Instituto de Ciência Política da UnB, com apoio da Frente Parlamentar em Defesa da Tarifa Zero no Congresso Nacional. O estudo calcula que, descontadas gratuidades já existentes, a injeção real de renda disponível na economia seria de cerca de R$ 45,6 bilhões por ano.

O tema ganhou força em Brasília em meio às discussões do governo federal sobre mudanças estruturais no financiamento do transporte coletivo. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva teria solicitado estudos sobre a viabilidade econômica da tarifa zero, enquanto o Ministério da Fazenda avalia alternativas para reduzir a dependência da cobrança direta de passagens.

A proposta é comparada por especialistas a uma espécie de “salário indireto” para trabalhadores. A lógica é que o usuário manteria a mesma renda nominal, mas teria mais dinheiro disponível ao fim do mês por deixar de pagar tarifas de ônibus, metrô ou trem.

Estudo calcula impacto bilionário da gratuidade

O estudo da UnB estima que a tarifa zero nas 27 capitais e em seus sistemas metropolitanos teria impacto bruto de R$ 60,3 bilhões por ano. Esse valor representa o montante que deixaria de sair diretamente do bolso dos usuários e passaria a circular em outras áreas da economia.

Desse total, cerca de R$ 14,7 bilhões já correspondem a gratuidades existentes, como benefícios para idosos, estudantes, pessoas com deficiência e outras categorias com isenção parcial ou total. Por isso, os pesquisadores estimam uma injeção líquida adicional de aproximadamente R$ 45,6 bilhões anuais.

A abordagem do levantamento difere da análise tradicional sobre o tema. Em vez de calcular apenas o custo fiscal da medida, os pesquisadores medem o efeito sobre a renda disponível das famílias, especialmente as de menor renda.

Na prática, o dinheiro que hoje é destinado a passagens poderia ser redirecionado para alimentação, remédios, contas básicas, educação, serviços e consumo local. Por esse motivo, a tarifa zero passou a ser discutida não apenas como política de mobilidade, mas como instrumento econômico e social.

Comparação com Bolsa Família amplia debate político

Um dos pontos de maior repercussão do estudo é a comparação entre o impacto econômico da tarifa zero e políticas públicas já existentes. Segundo a pesquisa, a gratuidade no transporte das capitais e regiões metropolitanas movimentaria cerca de R$ 60,3 bilhões por ano.

O valor é próximo ao impacto estimado do Bolsa Família nos mesmos territórios, calculado em R$ 57,9 bilhões. A comparação não significa que a tarifa zero substituiria programas de transferência de renda, mas mostra o potencial redistributivo da política.

O estudo também compara a proposta à isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil, medida que teria impacto estimado de R$ 25,4 bilhões. A tarifa zero, portanto, teria efeito econômico superior nessa comparação territorial.

Esse paralelo ajudou a elevar o tema no debate político. Defensores da medida argumentam que o transporte gratuito funcionaria como alívio direto para famílias trabalhadoras, especialmente nas periferias urbanas.

Críticos, por outro lado, apontam que o custo de implantação exige fonte permanente de financiamento e governança eficiente para evitar deterioração do serviço.

Transporte público enfrenta perda de passageiros

A discussão sobre tarifa zero ocorre em meio a uma crise prolongada do transporte coletivo no Brasil. Entre 2013 e 2023, o setor perdeu cerca de 30% dos passageiros.

No mesmo período, a frota de carros cresceu 44% e a de motos avançou 58%. Em São Paulo, maior sistema de transporte urbano do país, a perda chegou a quase 1 bilhão de passagens em uma década.

A redução do número de usuários criou um ciclo de deterioração. Com menos passageiros, a arrecadação cai. Para compensar a perda de receita, tarifas tendem a subir. Com passagens mais caras e pior qualidade do serviço, mais pessoas abandonam o transporte coletivo.

Esse ciclo preocupa gestores públicos e especialistas. O modelo atual, baseado em grande parte na cobrança direta dos usuários, torna o sistema vulnerável à queda de demanda e à elevação de custos operacionais.

Para os autores do estudo, sem mudanças estruturais, o transporte coletivo pode caminhar para um quadro de colapso financeiro e operacional em diversas cidades.

Governo avalia novo modelo de financiamento

O governo federal passou a estudar alternativas para reformular o financiamento do transporte urbano. O objetivo é reduzir a dependência da tarifa paga diretamente pelo passageiro e criar fontes mais estáveis para custear o sistema.

O então ministro das Cidades, Jader Filho, afirmou recentemente que o governo avalia mudanças estruturais no modelo de transporte público brasileiro. O tema também vem sendo discutido pelo Ministério da Fazenda.

O principal desafio é definir quem pagaria a conta da gratuidade. Uma proposta anterior da mesma equipe de pesquisadores sugeriu substituir o modelo atual do vale-transporte por uma contribuição empresarial fixa, inspirada em experiências internacionais, como a adotada na França.

Segundo os defensores dessa alternativa, a medida permitiria financiar a política sem criar um novo imposto federal amplo. A ideia é deslocar parte do custo do transporte para uma fonte mais previsível e desvinculada do pagamento individual da passagem.

As estimativas indicam que a gratuidade universal em ônibus urbanos de cidades com mais de 50 mil habitantes custaria cerca de R$ 78 bilhões por ano. Caso metrôs, trens e VLTs sejam incluídos, o valor ficaria entre R$ 90 bilhões e R$ 93 bilhões.

São Paulo teria maior impacto econômico

Entre as cidades analisadas, São Paulo aparece como a mais beneficiada economicamente pela tarifa zero. Segundo o estudo, a capital paulista teria injeção real de R$ 19,5 bilhões por ano na economia.

O Rio de Janeiro aparece em seguida, com R$ 4,2 bilhões. Florianópolis teria impacto estimado de R$ 2,56 bilhões, Belo Horizonte de R$ 2,34 bilhões, Brasília de R$ 2,1 bilhões e Salvador de R$ 2 bilhões.

A concentração do impacto em São Paulo reflete o tamanho da população, a extensão do sistema de transporte e o volume de deslocamentos diários. A capital paulista reúne o maior mercado de trabalho urbano do país e forte dependência de deslocamentos metropolitanos.

Os pesquisadores observam que os números podem ser ainda maiores, pois o levantamento não inclui milhares de municípios menores que também possuem sistemas de transporte coletivo.

Esse ponto é relevante porque a tarifa zero já deixou de ser uma ideia restrita ao debate acadêmico. Segundo o estudo, cerca de 145 municípios brasileiros adotam modelos integrais ou parciais de gratuidade, alcançando aproximadamente 8 milhões de habitantes.

Tarifa pesa mais sobre trabalhadores pobres

O estudo da UnB sustenta que o custo da passagem pesa proporcionalmente mais sobre trabalhadores pobres, moradores de periferias e população negra. Por isso, a tarifa zero teria efeito redistributivo mais intenso nesses grupos.

Em muitas cidades, o gasto mensal com transporte pode ultrapassar R$ 300 por pessoa. Em famílias com dois ou três trabalhadores, esse valor pode consumir parcela relevante da renda doméstica.

A gratuidade, nesse contexto, funcionaria como aumento indireto da renda. O trabalhador continuaria recebendo o mesmo salário, mas deixaria de comprometer parte do orçamento com deslocamento.

A medida também poderia ampliar o acesso a oportunidades. Passagens caras limitam a busca por emprego, a frequência escolar, o acesso a serviços públicos, consultas médicas, cultura, lazer e redes de apoio.

Para os defensores da proposta, o direito à cidade depende da capacidade de deslocamento. Quando o transporte é caro, a população de baixa renda fica mais restrita ao território onde mora, com menor acesso às oportunidades concentradas em áreas centrais.

Desigualdade racial e territorial entra na discussão

A pesquisa também destaca o impacto racial e territorial das tarifas. Segundo os autores, reajustes constantes nas passagens afetam de forma mais intensa moradores de periferias urbanas, onde há maior concentração de população negra e de baixa renda.

O levantamento cita exemplos recentes de aumento tarifário, como alta de 20% em Fortaleza e reajuste de 9% em Belo Horizonte. Para famílias de renda baixa, aumentos desse tipo têm efeito imediato sobre o orçamento.

A tarifa zero, nesse sentido, é apresentada como política de combate à exclusão urbana. Ao eliminar o custo direto da passagem, a medida ampliaria a circulação de trabalhadores, estudantes e pessoas que dependem do transporte coletivo para acessar serviços essenciais.

Os pesquisadores também argumentam que o modelo atual penaliza quem mais depende do transporte público. Enquanto pessoas de renda mais alta conseguem migrar para carro, aplicativo ou transporte privado, famílias pobres permanecem expostas a tarifas crescentes e serviços frequentemente precários.

Essa dimensão social explica por que o tema passou a ser discutido como política de distribuição de renda e não apenas como pauta de mobilidade.

Municípios com tarifa zero relatam aumento de uso

A tarifa zero já existe em parte do Brasil. Segundo o estudo, cerca de 145 municípios adotaram modelos integrais ou parciais de gratuidade no transporte coletivo.

Essas cidades somam aproximadamente 8 milhões de habitantes. Em muitos casos, os municípios relatam aumento no uso do transporte público, redução da evasão escolar, maior circulação econômica no comércio local e ampliação do acesso a serviços públicos.

Os exemplos municipais são usados por defensores da proposta como evidência de que a gratuidade pode funcionar em diferentes escalas. Ainda assim, a implantação nacional envolve desafios muito maiores.

Capitais e regiões metropolitanas possuem sistemas mais complexos, custos mais altos, redes integradas, contratos de concessão e múltiplos operadores. A transposição de modelos municipais para grandes metrópoles exigiria planejamento financeiro, governança e coordenação federativa.

Além disso, a gratuidade pode elevar a demanda rapidamente. Sem aumento de frota, melhorias na frequência e investimentos em infraestrutura, há risco de superlotação e queda na qualidade do serviço.

Congresso deve ampliar discussão em 2026

A tarifa zero deve ganhar espaço no Congresso Nacional nos próximos meses. A Frente Parlamentar em Defesa da Tarifa Zero passou a usar os dados da UnB como base para defender uma mudança no modelo de financiamento do transporte público.

O tema também dialoga com a agenda social do governo Lula, especialmente em um ano de debates sobre renda, custo de vida, emprego e políticas de inclusão.

A discussão, porém, tende a enfrentar resistência. Parlamentares e gestores preocupados com o impacto fiscal questionam a sustentabilidade da medida e a viabilidade de uma fonte permanente de recursos.

Empresas de transporte também acompanham o debate com atenção. A gratuidade não elimina o custo operacional do sistema; apenas muda a forma de pagamento. O setor dependeria de contratos, subsídios e mecanismos de compensação mais previsíveis.

A construção de um modelo nacional exigiria acordo entre União, estados, municípios, operadores, empresas empregadoras e Congresso. Sem uma arquitetura financeira estável, a proposta corre o risco de gerar desequilíbrios locais.

Tarifa zero avança como pauta econômica e social

O estudo da UnB reposiciona a tarifa zero no debate público brasileiro. A proposta deixou de ser tratada apenas como bandeira de mobilidade urbana e passou a ser apresentada como mecanismo de redistribuição de renda, estímulo ao consumo local e enfrentamento da crise do transporte coletivo.

A estimativa de impacto bruto de R$ 60,3 bilhões por ano nas capitais e regiões metropolitanas tornou o tema mais visível dentro do governo e no Congresso. Ao mesmo tempo, o custo de uma política nacional mais ampla, que poderia chegar a até R$ 93 bilhões com metrôs, trens e VLTs, mantém o financiamento como principal obstáculo.

Para os defensores, a tarifa zero ampliaria acesso ao trabalho, à educação, à saúde e à cidade. Para os críticos, a medida exige fonte permanente de receita e controle rigoroso para evitar deterioração do serviço.

O debate deve avançar em 2026, impulsionado pela crise do transporte coletivo e pela busca de alternativas para aliviar o orçamento das famílias. A decisão política dependerá de uma equação difícil: transformar a gratuidade em política social de larga escala sem comprometer a sustentabilidade fiscal e operacional do sistema.

Tags: Bolsa FamíliacidadesCongresso Nacionaldistribuição de rendaEconomiagoverno LulaMetrôMinistério da Fazendamobilidade urbanaônibustarifa zerotransporte coletivotransporte públicoTrensUnB

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