As terras raras passaram a ocupar posição estratégica na agenda econômica e industrial do Brasil em meio à disputa global por minerais críticos usados na transição energética, na indústria digital e no setor de defesa. Apesar do nome, esses elementos não são “terras” nem exatamente “raros”: trata-se de um grupo de metais encontrados no subsolo, cuja principal dificuldade está na separação, no refino e na transformação industrial em insumos de alto valor agregado.
O tema ganhou protagonismo no debate legislativo e na agenda do governo federal porque o Brasil possui uma das maiores bases de recursos conhecidos do mundo, mas ainda participa de forma limitada da cadeia produtiva. Hoje, países como China, Estados Unidos, Canadá, Rússia, Austrália e África do Sul tratam as terras raras como ativos estratégicos para segurança econômica, tecnológica e militar.
Esses elementos são usados em tecnologias cotidianas, como celulares, veículos elétricos, turbinas eólicas, alto-falantes, lentes, circuitos eletrônicos e equipamentos de telecomunicações. Também são essenciais para aplicações sensíveis, como satélites, foguetes, drones, mísseis, sistemas de radar e componentes de datacenters que sustentam a expansão da inteligência artificial.
O avanço da demanda mundial colocou o Brasil diante de uma oportunidade industrial relevante. O país tem reservas, conhecimento geológico e interesse internacional, mas ainda precisa superar gargalos em pesquisa, beneficiamento, refino, licenciamento ambiental, infraestrutura e atração de capital para deixar de ser apenas potencial fornecedor de matéria-prima.
O que são terras raras
As terras raras formam um grupo de 17 elementos químicos com propriedades semelhantes. Entre eles estão neodímio, praseodímio, lantânio, disprósio, térbio, escândio e ítrio. O nome surgiu há cerca de dois séculos, quando pesquisadores suecos identificaram esses materiais em minerais pouco conhecidos à época.
A denominação, no entanto, pode induzir a erro. Esses elementos não são terras no sentido comum da palavra. Também não são necessariamente raros em termos de ocorrência geológica. O desafio está no fato de aparecerem misturados a outros minerais e exigirem processos complexos para separação e purificação.
Segundo o Serviço Geológico do Brasil, os elementos de terras raras aparecem associados a minerais como bastnaesita e monazita. Em muitos casos, também podem ser encontrados como subprodutos de depósitos minerais já explorados comercialmente, especialmente os ligados ao nióbio e ao fosfato.
O valor econômico desses elementos vem de suas propriedades elétricas, ópticas e magnéticas. Eles funcionam como potencializadores de desempenho em ligas metálicas, componentes eletrônicos e equipamentos de alta precisão.
O neodímio é um dos exemplos mais conhecidos. Quando combinado com ferro e boro, permite a produção de ímãs permanentes de alto desempenho, usados em motores de veículos elétricos, geradores de turbinas eólicas, aparelhos eletrônicos e equipamentos industriais.
Por que terras raras são estratégicas
As terras raras se tornaram estratégicas porque estão no centro de três grandes transformações globais: a eletrificação da economia, a transição energética e a digitalização acelerada.
Na indústria de energia limpa, esses elementos são usados em turbinas eólicas e motores elétricos mais eficientes. Em veículos elétricos, ajudam a produzir motores menores, mais leves e mais potentes. Em equipamentos eletrônicos, permitem miniaturização, maior capacidade magnética e melhor desempenho.
No cotidiano, os elementos de terras raras aparecem em celulares, alto-falantes, telas, sensores, câmeras, vidros especiais, cerâmicas, lentes de alta refração, lasers e circuitos eletroeletrônicos.
Na área militar e aeroespacial, a relevância é ainda maior. Esses metais são utilizados em mísseis, drones, satélites, foguetes, sistemas de navegação, sensores de precisão e radares. Por isso, o controle da cadeia produtiva passou a ser tratado como tema de segurança nacional por grandes potências.
A expansão da inteligência artificial também aumenta a importância desses minerais. Datacenters, semicondutores, sistemas ópticos e infraestrutura de alto desempenho dependem de cadeias minerais estáveis, previsíveis e tecnologicamente sofisticadas.
Nesse contexto, as terras raras deixaram de ser apenas um tema da mineração e passaram a integrar a política industrial, a estratégia de defesa, a diplomacia econômica e a disputa por liderança tecnológica.
China domina produção e refino
A China é a principal potência global na cadeia de terras raras. O país concentra grandes reservas, lidera a produção e domina etapas essenciais de separação, refino e fabricação de componentes de alto valor agregado.
O domínio chinês não se limita à extração mineral. A vantagem mais importante está na capacidade industrial de transformar minerais brutos em óxidos de alta pureza, metais, ligas e superímãs. Essa etapa é justamente a mais difícil da cadeia.
Cerca de 90% dos superímãs usados no mundo são fabricados pelos chineses, segundo dados citados no texto-base. Esse controle cria dependência para setores estratégicos de outros países, incluindo veículos elétricos, turbinas eólicas, defesa, eletrônicos e equipamentos de tecnologia avançada.
A concentração da cadeia produtiva na China preocupa países industrializados. Qualquer restrição de exportação, tensão comercial ou disputa diplomática pode afetar o fornecimento de insumos essenciais para indústrias de alto valor.
Por isso, Estados Unidos, União Europeia, Canadá, Austrália e outros países buscam diversificar fornecedores e reduzir dependência chinesa. Essa reorganização abriu espaço para países com reservas relevantes, como o Brasil.
Brasil tem grande potencial, mas produção ainda é baixa
O Brasil aparece como um dos países com maior potencial em terras raras. De acordo com dados do Serviço Geológico do Brasil citados no texto-base, o país possui cerca de 21 milhões de toneladas em recursos conhecidos, volume equivalente a aproximadamente 23% das reservas e recursos globais.
As principais ocorrências brasileiras foram identificadas em Minas Gerais, Goiás, Amazonas, Bahia e Sergipe. Também há iniciativas em Santa Catarina voltadas à chamada mineração urbana, que busca recuperar elementos de terras raras presentes em equipamentos eletrônicos descartados.
Apesar desse potencial, a produção brasileira ainda é pequena. Em 2024, o país produziu apenas 20 toneladas de terras raras, enquanto a produção mundial chegou a 390 mil toneladas.
A diferença entre o tamanho das reservas e o volume produzido revela o principal desafio nacional. O Brasil possui recursos minerais, mas ainda não desenvolveu escala industrial suficiente para competir nas etapas mais valiosas da cadeia.
Sem refino e industrialização, o país corre o risco de repetir um padrão conhecido na economia mineral: exportar matéria-prima de menor valor e importar produtos industrializados mais caros, como ímãs, componentes eletrônicos e equipamentos de alta tecnologia.
Refino é o principal gargalo da cadeia
O maior obstáculo para ampliar a produção de terras raras não está apenas na mineração. O ponto mais complexo é o processamento químico necessário para separar os elementos individualmente.
Como esses metais possuem propriedades químicas semelhantes, a purificação exige técnicas sofisticadas, alto investimento, controle ambiental rigoroso e conhecimento industrial especializado.
A cadeia produtiva envolve várias etapas. Primeiro vem a extração do minério bruto. Depois, o beneficiamento, a concentração, a separação química, a produção de óxidos de alta pureza, a transformação em metais e ligas e, por fim, a fabricação de componentes industriais.
É nessa fase de processamento que poucos países concentram domínio tecnológico. A China consolidou sua liderança justamente por controlar não apenas a mina, mas o elo industrial que transforma o mineral em insumo estratégico.
Para o Brasil, o desafio é construir uma cadeia mais completa. Produzir apenas o minério não é suficiente para capturar o maior valor econômico. O país precisa avançar em refino, pesquisa, formação de mão de obra, inovação tecnológica e atração de empresas capazes de instalar etapas industriais no território nacional.
Congresso aprova política para minerais críticos
O avanço das terras raras na agenda brasileira ganhou impulso com a aprovação, pela Câmara dos Deputados, do projeto de lei 2.780/2026, que institui a Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos. O texto, de autoria do deputado Zé Silva (União-MG) e relatoria de Arnaldo Jardim (Cidadania-SP), segue agora para análise do Senado.
A proposta cria regras e instrumentos de governança para estimular pesquisa, extração, beneficiamento e industrialização de minerais críticos, estratégicos e terras raras.
O projeto também prevê incentivos fiscais e financeiros para empresas do setor, mecanismos de certificação ambiental, rastreabilidade da produção mineral e a criação de um conselho responsável por definir quais substâncias serão enquadradas como minerais críticos ou estratégicos.
Outro ponto importante é a criação de um Fundo Garantidor da Atividade Mineral, destinado a servir como garantia em operações de crédito para novos investidores. A proposta ainda determina que empresas do setor invistam parte da receita em pesquisa, desenvolvimento e inovação.
A tramitação no Senado será decisiva para definir o alcance da política. O governo trabalha para preservar a versão aprovada na Câmara, considerada importante para dar segurança jurídica e atrair capital privado.
Governo busca investidores de diferentes países
Na esfera do Executivo, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva tem defendido uma abordagem multilateral para atrair investidores internacionais à cadeia de terras raras.
A posição do governo é abrir espaço para empresas de diferentes países, incluindo China, Estados Unidos e parceiros europeus, desde que reconheçam que os recursos minerais são ativos da União e obedeçam às normas brasileiras.
Essa estratégia tenta equilibrar interesses econômicos e geopolíticos. O Brasil precisa de capital, tecnologia e mercado para desenvolver a cadeia. Ao mesmo tempo, busca evitar dependência excessiva de uma única potência ou grupo empresarial.
A disputa global por minerais críticos cria poder de negociação para o país. Países industrializados querem alternativas à cadeia chinesa, enquanto empresas chinesas buscam manter liderança em refino e componentes.
O desafio brasileiro será transformar essa procura internacional em investimentos que gerem valor local, com processamento, industrialização, empregos qualificados, inovação e transferência tecnológica.
Mineração urbana ganha espaço no debate
Além das jazidas naturais, a chamada mineração urbana começa a ganhar espaço na discussão sobre terras raras. Essa modalidade busca recuperar elementos presentes em equipamentos eletrônicos descartados, como celulares, computadores, baterias, placas, ímãs e componentes industriais.
A iniciativa é relevante porque a transição digital gera grande volume de resíduos eletrônicos. Parte desses materiais contém metais valiosos, cuja recuperação pode reduzir dependência de novas minas e diminuir impactos ambientais.
Santa Catarina aparece no texto-base como uma das regiões com investimentos em pesquisa voltada à mineração urbana. O modelo ainda está em desenvolvimento, mas pode se tornar complemento importante à mineração tradicional.
A mineração urbana não substitui a exploração mineral em larga escala, mas ajuda a criar uma economia circular em torno de elementos estratégicos. Também pode reduzir perdas de materiais que hoje são descartados sem reaproveitamento adequado.
Para o Brasil, essa frente pode unir inovação, sustentabilidade e política industrial. O aproveitamento de resíduos eletrônicos pode gerar novas cadeias produtivas e reduzir a pressão sobre áreas sensíveis de mineração.
Desafio ambiental será decisivo
A expansão da cadeia de terras raras também traz desafios ambientais relevantes. A mineração e o processamento químico podem gerar impactos sobre solo, água, biodiversidade e comunidades locais.
Em alguns depósitos, minerais associados às terras raras podem conter elementos radioativos naturais, como tório e urânio. Isso exige controle técnico, licenciamento rigoroso e gestão adequada de rejeitos.
O refino também pode envolver reagentes químicos e processos industriais intensivos. Sem padrões ambientais elevados, a cadeia pode gerar custos sociais e ambientais que comprometam sua legitimidade.
Por isso, rastreabilidade, certificação ambiental e transparência são pontos centrais da política em discussão. Compradores internacionais estão cada vez mais atentos à origem dos minerais, às condições de produção e ao cumprimento de critérios sociais e ambientais.
Se conseguir desenvolver uma cadeia com alto padrão de governança ambiental, o Brasil pode transformar esse fator em vantagem competitiva. Em um mercado global pressionado por sustentabilidade, minerais rastreáveis e produzidos sob regras claras tendem a ganhar valor.
Terras raras podem reposicionar o Brasil na indústria global
As terras raras representam uma oportunidade estratégica para o Brasil, mas também expõem uma escolha industrial. O país pode permanecer como detentor de reservas pouco exploradas ou avançar para uma posição mais sofisticada na cadeia global de minerais críticos.
Para isso, será necessário combinar regulação, investimento privado, pesquisa pública, infraestrutura, licenciamento eficiente, proteção ambiental e política industrial de longo prazo.
A aprovação da Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos pode ser um passo relevante, desde que acompanhada de execução efetiva. O Brasil precisa reduzir incertezas, acelerar projetos viáveis e criar condições para que empresas instalem etapas de processamento e transformação no país.
A corrida global por terras raras não será vencida apenas por quem possui mais minério. O fator decisivo será a capacidade de transformar recursos naturais em tecnologia, componentes industriais e produtos de alto valor agregado.
Com reservas expressivas, demanda internacional crescente e posição diplomática relevante, o Brasil tem condições de disputar espaço. O desafio será evitar que a nova corrida mineral reproduza antigos padrões de dependência e baixo valor agregado.
Se conseguir avançar da mina ao refino e do refino à indústria, o país poderá ocupar papel relevante na geopolítica da transição energética, da tecnologia digital e da defesa nas próximas décadas.






