O Brasil chegou a 2026 ainda preso a uma combinação de baixo crescimento de longo prazo, perda relativa de renda e dificuldade crônica de reorganizar as contas públicas. A comparação internacional ajuda a dimensionar o problema: em 1990, o PIB per capita brasileiro em paridade de poder de compra ficava acima da média mundial e muito à frente do indicador chinês; em 2024, a China havia ultrapassado o Brasil, enquanto a média global também passou a superar o desempenho brasileiro. O movimento evidencia uma trajetória de estagnação relativa que não se explica por uma crise isolada, mas por décadas de crescimento fraco, baixa produtividade, gasto público rígido e incapacidade política de sustentar um ajuste fiscal estrutural.
A leitura é dura porque contrasta duas trajetórias. De um lado, a China acelerou crescimento, urbanização, industrialização, investimento e produtividade. De outro, o Brasil alternou planos econômicos, ciclos de commodities, crises fiscais, recessões, reformas incompletas e expansão de despesas obrigatórias. O resultado é um país que não desabou em queda livre, mas perdeu posição aos poucos, em uma marcha lenta de empobrecimento relativo.
O diagnóstico fiscal aparece no centro desse debate. Economistas de diferentes correntes apontam que o desequilíbrio das contas públicas limita a capacidade do Estado de investir, aumenta o prêmio de risco, pressiona juros, reduz previsibilidade e estreita o espaço para políticas de desenvolvimento. Mas o problema não é apenas técnico. A dificuldade está na estrutura política e social que sustenta gastos, benefícios, subsídios, vinculações e renúncias tributárias com forte apoio de grupos organizados.
PIB per capita mostra perda relativa do Brasil
O PIB per capita em paridade de poder de compra é um indicador usado para comparar o padrão médio de renda entre países, descontando diferenças de preços. Ele não mede distribuição de renda, qualidade dos serviços públicos ou produtividade isolada, mas permite observar a posição relativa de uma economia ao longo do tempo.
Nesse recorte, o Brasil aparece como um caso de perda progressiva de dinamismo. No início dos anos 1990, o país ainda mantinha renda per capita superior à média mundial. A China, naquele momento, partia de uma base muito menor. Três décadas depois, o quadro se inverteu: a economia chinesa avançou em velocidade muito superior, enquanto o Brasil cresceu pouco.
A comparação não significa que o Brasil pudesse simplesmente repetir a trajetória chinesa. Os dois países têm sistemas políticos, estruturas demográficas, estratégias industriais, regimes de investimento, níveis de poupança e modelos institucionais muito distintos. Ainda assim, o contraste serve como alerta sobre a distância aberta em produtividade, capacidade de investimento e consistência de políticas públicas.
O problema brasileiro não foi apenas crescer menos que a China. Foi crescer menos que a média do mundo. Quando a média global supera o desempenho brasileiro, o país deixa de convergir para níveis mais altos de renda e passa a perder relevância relativa no cenário internacional.
Contas públicas viram centro do debate econômico
A questão fiscal se tornou o principal ponto de tensão da economia brasileira. O governo precisa financiar despesas obrigatórias crescentes, programas sociais, Previdência, benefícios, folha de pagamento, emendas parlamentares, subsídios e políticas setoriais, ao mesmo tempo em que tenta cumprir metas fiscais e preservar algum espaço para investimento público.
Em 2025, o Governo Central fechou com déficit primário de R$ 61,69 bilhões, equivalente a 0,48% do PIB, segundo o Tesouro Nacional. O resultado foi pressionado por gastos obrigatórios, especialmente Previdência Social e Benefício de Prestação Continuada.
O número é relevante porque o resultado primário exclui os juros da dívida. Ou seja, mesmo antes do pagamento dos encargos financeiros, o governo ainda registrou rombo. Quando os juros são incluídos, a pressão fiscal se torna maior, sobretudo em ambiente de Selic elevada.
Esse quadro limita a política econômica. Quanto maior a dúvida sobre a capacidade de estabilizar a dívida pública, maior tende a ser a exigência de retorno dos investidores para financiar o governo. Isso afeta juros longos, câmbio, investimento privado e custo de crédito para empresas e famílias.
Ajuste fiscal esbarra em interesses organizados
O ajuste fiscal brasileiro é difícil porque as principais despesas e renúncias têm beneficiários claros, organizados e politicamente influentes. Cortar gastos ou rever benefícios significa enfrentar grupos com capacidade de pressão sobre Congresso, governo e opinião pública.
O salário mínimo é um exemplo sensível. A política de reajuste com ganho real tem impacto direto sobre trabalhadores, aposentados, pensionistas e beneficiários de programas vinculados ao piso nacional. Qualquer mudança nessa regra tende a gerar forte custo político.
A Previdência é outro ponto central. A despesa previdenciária representa parcela expressiva do gasto público e cresce com envelhecimento populacional, regras de benefícios e indexações. Reformas podem produzir efeitos relevantes no longo prazo, mas enfrentam resistência social e política elevada.
Subsídios também são difíceis de remover. O Simples Nacional, por exemplo, beneficia milhões de empresas e empreendedores. O crédito rural favorece um setor com forte representação no Congresso. Incentivos regionais, desonerações e regimes especiais têm defensores organizados e narrativas próprias de preservação de emprego, competitividade ou desenvolvimento.
Congresso é peça decisiva da equação
Nenhum ajuste fiscal estrutural avança sem o Congresso. O Executivo pode propor medidas, mas a maior parte das mudanças relevantes depende de aprovação legislativa, negociação com bancadas e composição de maioria.
Esse ponto torna o ajuste menos uma questão de planilha e mais uma questão de coalizão. Economistas podem listar medidas de corte de gasto, revisão de subsídios, mudança em indexadores, reforma administrativa, alteração previdenciária e ampliação de receitas. Mas cada item encontra resistência concreta.
A bancada do agronegócio tem força para defender benefícios setoriais. Bancadas ligadas ao funcionalismo resistem a reformas administrativas. Parlamentares evitam votar medidas impopulares em ano pré-eleitoral ou eleitoral. Governos, por sua vez, tendem a preservar bases sociais e alianças políticas.
O resultado é uma preferência por medidas paliativas. Contingenciamentos, bloqueios temporários, receitas extraordinárias, antecipações, revisões pontuais e aumentos de arrecadação são politicamente mais viáveis do que reformas estruturais. Mas seu efeito é limitado.
Receita maior não resolve sozinha o problema
Uma alternativa frequentemente discutida é elevar receitas. O Brasil já adotou ou debateu medidas como tributação de fundos exclusivos, offshore, apostas, subvenções, mudanças em benefícios fiscais, revisão de deduções e aumento de tributos sobre renda e patrimônio.
Essas medidas podem ajudar no curto prazo, mas não eliminam a rigidez estrutural do gasto. O problema fiscal brasileiro combina receita, despesa, dívida, juros e baixa produtividade. Aumentar arrecadação sem enfrentar a dinâmica do gasto pode apenas adiar o ajuste.
Há também limites políticos. Rever deduções do Imposto de Renda da Pessoa Física pode atingir a classe média. Tributar heranças ou grandes fortunas tem apelo popular por afetar parcela pequena da população, mas tende a gerar arrecadação limitada ou de difícil operacionalização. Aumentar carga sobre empresas pode afetar investimento e competitividade.
O debate, portanto, não é apenas sobre arrecadar mais. É sobre a qualidade da composição fiscal. Países que crescem de forma sustentável costumam combinar gasto eficiente, investimento público relevante, dívida sob controle e ambiente de negócios previsível.
Supersalários têm apelo, mas efeito limitado
O combate a supersalários no setor público é uma pauta com forte apelo popular. A existência de remunerações acima do teto constitucional, penduricalhos e benefícios específicos alimenta a percepção de injustiça e favorece o discurso de moralização do gasto.
A medida, porém, teria impacto fiscal limitado quando comparada ao tamanho do déficit e da dívida. Atacar distorções remuneratórias é importante por razões de equidade, governança e legitimidade, mas não substitui uma reforma mais ampla do gasto público.
Além disso, mudanças que atingem carreiras de elite do Estado costumam enfrentar resistência institucional. Judiciário, Ministério Público, Legislativo e algumas categorias do Executivo têm força política, jurídica e corporativa para contestar medidas.
Isso explica por que o tema avança lentamente. Mesmo quando há consenso público sobre a necessidade de limitar abusos, a implementação depende de regras detalhadas, aprovação política e capacidade de superar disputas judiciais.
Baixo crescimento agrava a armadilha fiscal
O fiscal pesa sobre o crescimento, mas o baixo crescimento também piora o fiscal. Quando a economia cresce pouco, a arrecadação avança menos, a relação dívida/PIB fica mais difícil de estabilizar e a pressão por gasto social aumenta.
Esse círculo vicioso ajuda a explicar a estagnação brasileira. O país precisa crescer mais para aliviar a dívida, mas enfrenta juros altos e incerteza fiscal que dificultam o investimento. Precisa investir em infraestrutura, educação, tecnologia e produtividade, mas grande parte do Orçamento está presa a despesas obrigatórias.
O resultado é uma economia que opera com pouco espaço para escolhas estratégicas. Governos passam a administrar restrições, tentando cumprir metas de curto prazo e evitar crises, em vez de reorganizar a base do desenvolvimento.
A comparação com economias que avançaram mais rápido mostra que renda per capita não cresce apenas com estabilidade monetária. Ela depende de produtividade, investimento, educação, infraestrutura, abertura eficiente, inovação, segurança jurídica e capacidade estatal de executar políticas de longo prazo.
Eleição reduz espaço para medidas duras
A proximidade do ciclo eleitoral de 2026 aumenta a dificuldade de aprovar medidas impopulares. Candidatos competitivos tendem a evitar promessas explícitas de corte de benefícios, redução de subsídios ou mudanças em regras que afetam grandes grupos de eleitores.
Austeridade raramente rende dividendos eleitorais imediatos. O eleitor médio sente mais diretamente perdas de renda, reajustes menores, redução de benefícios ou aumento de impostos do que ganhos difusos de estabilidade macroeconômica.
Isso cria uma assimetria política. O custo do ajuste é concentrado e imediato; o benefício é difuso e de longo prazo. Por isso, governos preferem medidas de baixo desgaste, mesmo quando sabem que elas não resolvem o problema.
A consequência é a postergação. O país evita o colapso, mas também evita a reorganização. Mantém-se em uma zona intermediária: cresce pouco, controla parcialmente riscos, mas não muda a trajetória de fundo.
Brasil precisa de acordo político para sair da estagnação
A principal conclusão do debate fiscal é que não haverá ajuste relevante sem uma nova concertação política. Isso significa negociar, de forma explícita, quais benefícios serão preservados, quais serão reduzidos, quem pagará a conta e quais contrapartidas a sociedade receberá.
Um ajuste fiscal duradouro precisa ser compreendido como pacto de desenvolvimento, não apenas como corte de despesas. Sem perspectiva de melhora em serviços públicos, crescimento, renda e oportunidades, a austeridade tende a ser percebida apenas como perda.
O desafio é construir uma agenda que combine responsabilidade fiscal, proteção social, eficiência do gasto, redução de privilégios, revisão de subsídios, investimento e produtividade. Essa combinação é politicamente difícil, mas é o caminho para romper a estagnação relativa.
Sem isso, o Brasil continuará recorrendo a medidas temporárias. Bloqueios, contingenciamentos, receitas extraordinárias e mudanças pontuais podem evitar deterioração abrupta, mas não alteram a marcha lenta de perda de renda relativa.
Perda de rumo virou problema estrutural
A economia brasileira não está diante de uma crise aguda única, mas de um problema estrutural acumulado. O país perdeu dinamismo em relação ao mundo, viu a China ultrapassá-lo em renda per capita por paridade de poder de compra e passou a conviver com um debate fiscal permanente.
A questão não é apenas fechar as contas de um ano. É redefinir a capacidade do Estado de sustentar crescimento, investir, prestar serviços e reduzir desigualdades sem produzir déficits permanentes.
Enquanto essa reorganização não ocorre, o Brasil seguirá administrando urgências. O país pode evitar rupturas, mas continuará distante de uma trajetória consistente de convergência com economias mais produtivas.
O risco é transformar a mediocridade econômica em normalidade política. Sem acordo fiscal, aumento de produtividade e reformas capazes de sobreviver ao calendário eleitoral, o Brasil continuará com um longo passado pela frente.









