São Paulo, 17 de junho de 2026 — O cenário econômico brasileiro ficou mais desafiador nos últimos meses, com inflação mais resistente, incertezas fiscais e demanda ainda aquecida, o que deve obrigar o Banco Central a manter a taxa Selic em patamares elevados por mais tempo. A avaliação é do grupo consultivo macroeconômico da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima), que revisou para cima suas projeções e passou a esperar juros de 14% ao ano no encerramento de 2026, ante estimativa anterior de 13%.
Os números, divulgados nesta quarta-feira, mostram que o
mercado financeiro incorporou um cenário de maior dificuldade para controlar a alta de preços, com inflação oficial projetada em
5,4% neste ano, bem acima do teto da meta de 4,5% estabelecida pelo Conselho Monetário Nacional (CMN). O alerta foi feito às vésperas da decisão do Comitê de
Política Monetária (Copom), que, como já noticiado, reduziu a taxa em 0,25 ponto percentual, para 14,25% ao ano, mas com comunicação mais cautelosa sobre os próximos passos.
Inflação resiste e pressiona política monetária
A principal mudança nas estimativas da Anbima veio justamente no comportamento dos preços. A mediana das projeções para o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) saltou de 4,9% para 5,4% em 2026, indicando que a inflação não está desacelerando na velocidade esperada. Para os anos seguintes, as revisões também foram de alta, o que sinaliza preocupação com efeitos prolongados de choques externos e internos.
Fernando Honorato, economista-chefe do Bradesco e integrante do grupo de
trabalho da entidade, explica que a alteração reflete uma piora generalizada no cenário, especialmente após o avanço do indicador acumulado em 12 meses. “Os dados recentes mostraram que a inflação está mais rígida, com núcleos ainda elevados e pressões vindas de preços administrados, além de serviços que continuam sensíveis à demanda”, afirmou.
Entre os fatores externos que pesam, está a alta do petróleo no mercado internacional, impulsionada por tensões no Oriente Médio. O barril do tipo Brent, referência para o Brasil, subiu mais de 15% no acumulado do ano, o que se reflete diretamente no preço dos combustíveis, do transporte e, por consequência, de quase todos os produtos e serviços da
economia.
Consumo forte desafia efeito dos juros altos
Um dos pontos que mais chama a atenção dos economistas é o fato de a demanda continuar aquecida, mesmo
com juros na casa dos dois dígitos há mais de um ano. O
mercado de trabalho segue com taxas de desocupação em níveis historicamente baixos, o que mantém a renda das famílias e sustenta gastos com serviços, alimentação fora de casa e bens de maior valor.
Além disso, medidas do governo federal contribuem para manter o ritmo de consumo. Programas de renegociação de dívidas, ampliação de benefícios sociais e incentivos setoriais devolveram capacidade de compra a parte da população, reduzindo o impacto restritivo da política monetária.
“Quando o Banco Central age para esfriar a economia, mas há medidas fiscais que estimulam a demanda, o trabalho de controle da inflação fica mais difícil. A política monetária acaba tendo que ser mais forte e duradoura para chegar ao mesmo resultado”, explicou Ana Paula Vescovi, diretora de macroeconomia do Santander Brasil e também integrante do grupo da Anbima.
Cassiana Fernandez, chefe de pesquisa do JP Morgan para a América Latina, complementa que programas como os de renegociação alteram o funcionamento do canal do crédito, um dos principais meios pelos quais os juros altos deveriam reduzir a atividade. “Ao facilitar o pagamento de dívidas, essas medidas permitem que o consumidor volte a gastar, o que pode manter a pressão sobre os preços por mais tempo”, disse.
Governo defende que as iniciativas têm como objetivo proteger a população de choques externos e de condições de crédito muito restritivas, e afirma que todas seguem limites fiscais e regras orçamentárias. Mesmo assim, projeções recentes apontam aumento do déficit público, o que amplia a preocupação com a sustentabilidade das contas.
Incerteza fiscal é obstáculo adicional
Para os economistas da Anbima, o cenário fiscal é uma das maiores fontes de incerteza no momento. A combinação de gastos obrigatórios crescentes, pressão por novos programas e dificuldade em elevar receitas levou a revisões para cima das estimativas de déficit primário em 2026 e 2027.
Essa percepção de risco afeta diretamente a política monetária: quando o mercado duvida da capacidade do governo de equilibrar as contas, as expectativas de inflação pioram e o Banco Central se vê obrigado a manter juros mais altos para ancorar projeções.
A avaliação do grupo é que, independentemente do resultado das eleições de outubro, será necessário um ajuste fiscal em 2027 para evitar descontrole das contas e abrir espaço para uma redução mais consistente da taxa Selic.
Cenário para 2027 traz alívio, mas com condições
Apesar do quadro desafiador para este ano, as projeções da Anbima trazem um cenário mais positivo para 2027, mas dependente de ações econômicas coordenadas. A estimativa é que a Selic recue para
11,25% ao ano, com inflação caindo para
4,3%, dentro da meta, e crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) de
1,60%. O
dólar é projetado para terminar o próximo ano em
R$ 5,30.
“A melhora virá, mas não é automática. Depende de a inflação realmente ceder, de as contas públicas serem ajustadas e de o cenário externo ficar mais favorável”, destacou Honorato.
Para os investidores e
empresas, o recado é claro: juros altos devem permanecer por mais tempo do que se esperava há alguns meses, o que continua a exigir cautela na tomada de decisão, na alocação de recursos e na avaliação de projetos de longo prazo.
Com
a decisão do Copom já divulgada e confirmando a redução de 0,25 ponto, o foco agora passa a ser sobre as próximas reuniões, com analistas divididos sobre se haverá continuidade no ritmo de corte ou se o ciclo será interrompido antes do esperado.