A Associação Brasileira de Incorporadoras Imobiliárias (Abrainc) afirmou que a Selic a 14,25% ao ano ainda impõe custos excessivos à atividade produtiva, mesmo após o Comitê de Política Monetária do Banco Central reduzir a taxa básica de juros em 0,25 ponto percentual nesta quarta-feira, 17 de junho de 2026. Para a entidade, o patamar atual dos juros continua pressionando investimentos, geração de empregos, crédito imobiliário e capacidade financeira das famílias, em um cenário de endividamento elevado e inadimplência crescente.
A manifestação da Abrainc ocorre logo após o terceiro corte consecutivo da Selic pelo Copom. Embora a redução indique continuidade do ciclo de afrouxamento monetário, a taxa permanece em nível considerado restritivo para setores intensivos em capital, como construção civil, incorporação imobiliária e infraestrutura urbana.
A entidade avalia que a Selic em 14,25% ao ano ainda encarece o financiamento das empresas, reduz a viabilidade de novos projetos e limita o acesso das famílias ao crédito. O setor imobiliário é especialmente sensível à taxa básica porque depende de financiamento de longo prazo, tanto para a produção de empreendimentos quanto para a compra de imóveis pelos consumidores.
Segundo a Abrainc, a manutenção dos juros em patamar elevado afeta não apenas incorporadoras e construtoras, mas também a economia real. O impacto se espalha por fornecedores de materiais, prestadores de serviços, trabalhadores da construção, bancos, compradores de imóveis e famílias que precisam equilibrar orçamento em meio ao custo elevado do crédito.
Corte da Selic não elimina pressão sobre a construção civil
O Copom reduziu a Selic de 14,50% para 14,25% ao ano, em uma decisão amplamente acompanhada pelo mercado financeiro. O movimento confirmou a continuidade do ciclo de cortes, mas não foi suficiente para alterar a avaliação da Abrainc sobre o ambiente econômico.
Para a associação, a queda de 0,25 ponto percentual representa um passo positivo, mas insuficiente diante do nível ainda elevado da taxa. A construção civil depende de previsibilidade, financiamento e capacidade de compra das famílias. Quando os juros permanecem altos, o setor tende a adiar lançamentos, revisar projetos e reduzir o ritmo de contratação.
O efeito aparece em diferentes etapas da cadeia produtiva. Incorporadoras enfrentam custo maior para financiar terrenos, obras e capital de giro. Compradores encontram prestações mais elevadas e menor poder de aprovação de crédito. Fornecedores vendem menos para obras novas. Trabalhadores sentem a desaceleração em contratações e renda.
Esse ciclo limita a capacidade do mercado imobiliário de atuar como vetor de crescimento. Historicamente, a construção civil tem forte efeito multiplicador sobre a economia, porque movimenta mão de obra, indústria de materiais, transporte, serviços técnicos, arquitetura, engenharia e comércio local.
Abrainc vê risco para investimento e emprego
O presidente da Abrainc, Luiz França, afirmou que a permanência da Selic em patamares elevados limita o crescimento econômico e produz efeitos que vão além do mercado imobiliário. Segundo ele, famílias perdem capacidade de consumo, enfrentam dificuldades para organizar o orçamento e recorrem mais ao endividamento para cobrir despesas correntes.
A avaliação da entidade é que o custo do dinheiro se tornou um entrave para a atividade produtiva. Empresas encontram mais obstáculos para investir, crescer e gerar empregos. Esse diagnóstico ganha força em setores de longo ciclo, nos quais a decisão de investimento tomada hoje depende de expectativas para vários anos.
No caso das incorporadoras, um novo empreendimento exige compra de terreno, aprovação regulatória, contratação de equipes, financiamento da obra, comercialização das unidades e entrega futura. Juros altos aumentam o custo de cada etapa e reduzem a margem de segurança dos projetos.
Além disso, a Selic elevada afeta o valor presente dos investimentos. Projetos que seriam rentáveis em um ambiente de juros mais baixos podem deixar de ser viáveis quando o custo de capital sobe. Isso leva empresas a postergar lançamentos ou concentrar esforços em empreendimentos de menor risco.
Crédito caro reduz poder de compra das famílias
A crítica da Abrainc também se concentra no impacto da Selic sobre as famílias. Juros altos encarecem empréstimos, financiamentos e renegociações de dívida. Esse efeito reduz a renda disponível e compromete decisões de consumo de maior valor, como a compra da casa própria.
No crédito imobiliário, pequenas variações nas taxas podem alterar de forma relevante o valor das parcelas e a capacidade de aprovação do comprador. Como os financiamentos são longos, o custo total da operação depende diretamente das condições de juros, da renda familiar e das regras de crédito.
Quando a Selic permanece elevada, bancos tendem a adotar critérios mais restritivos, exigindo maior comprovação de renda ou reduzindo o valor financiável. Isso afeta especialmente famílias de renda média, que dependem do financiamento para acessar imóveis em áreas urbanas.
A pressão sobre o orçamento também se amplia com o endividamento em outras modalidades de crédito. Cartão, cheque especial, crédito pessoal e financiamento de veículos competem com a renda mensal das famílias. Quanto maior o comprometimento da renda, menor a capacidade de assumir uma prestação imobiliária.
Setor imobiliário depende de trajetória mais consistente de queda
A Abrainc defende que apenas uma redução mais consistente dos juros poderá restaurar o poder de consumo e permitir crescimento sustentável da economia. Para o setor, o problema não está apenas no nível da Selic, mas na velocidade e na previsibilidade do ciclo de queda.
Empresas tomam decisões de investimento com base em cenários de médio prazo. Se a queda dos juros parece lenta, incerta ou sujeita a interrupções, incorporadoras tendem a manter postura cautelosa. A ausência de uma trajetória clara reduz a disposição para lançar novos projetos e assumir compromissos financeiros de longo prazo.
O próprio comunicado do Copom reforçou a cautela na condução da política monetária. O Banco Central indicou que os próximos passos dependerão da evolução da inflação, das expectativas, do cenário externo e da atividade econômica. Essa postura foi interpretada pelo mercado como sinal de que novos cortes podem ocorrer em ritmo gradual e condicionado aos dados.
Para a construção civil, a diferença entre um ciclo previsível de queda e uma flexibilização incerta é relevante. O setor precisa planejar lançamentos, contratar fornecedores e organizar cronogramas de obra com antecedência. A volatilidade de juros e crédito dificulta essa organização.
Selic elevada mantém renda fixa competitiva e reduz apetite por risco
A Selic a 14,25% também influencia o comportamento dos investidores. Com a renda fixa oferecendo retornos elevados, parte do capital que poderia ser direcionado à atividade produtiva permanece alocada em títulos públicos, CDBs, fundos de renda fixa e outros instrumentos conservadores.
Esse ambiente reduz o apetite por risco e dificulta a captação de recursos por empresas. No setor imobiliário, a consequência pode aparecer em menor demanda por fundos imobiliários, certificados de recebíveis imobiliários, debêntures, ações de incorporadoras e instrumentos ligados ao financiamento de longo prazo.
Para companhias abertas do setor, juros altos tendem a pressionar o valuation. O mercado desconta fluxos de caixa futuros por taxas maiores, o que reduz o valor presente das empresas. Incorporadoras listadas na Bolsa também sofrem com a percepção de que o crédito imobiliário pode continuar restrito por mais tempo.
A pressão não se limita às grandes empresas. Pequenas e médias construtoras, com menor acesso a capital e maior dependência de crédito bancário, costumam sentir os efeitos de forma mais intensa. O encarecimento do dinheiro pode reduzir o número de obras, limitar contratações e elevar o risco de atrasos.
Construção civil sente impacto em cadeia produtiva ampla
A construção civil ocupa posição relevante na economia brasileira porque mobiliza uma cadeia extensa. Cada lançamento imobiliário envolve mão de obra direta, fornecedores de cimento, aço, vidro, madeira, cerâmica, instalações elétricas, hidráulica, transporte, engenharia, arquitetura, corretagem e serviços financeiros.
Quando os juros restringem novos projetos, o efeito se espalha para toda essa cadeia. Menos obras significam menor demanda por insumos, menor contratação de trabalhadores, menor arrecadação local e menor atividade em serviços relacionados.
O impacto também chega aos municípios. Empreendimentos imobiliários movimentam aprovação de projetos, licenças, tributos, infraestrutura urbana e comércio local. Em regiões metropolitanas, a desaceleração da incorporação pode afetar oferta habitacional, preço dos imóveis e capacidade de renovação urbana.
A Abrainc sustenta que a redução mais firme dos juros ajudaria a reativar essa cadeia. A entidade argumenta que juros menores poderiam estimular investimentos, ampliar a oferta de moradias, melhorar o acesso ao crédito e fortalecer a geração de empregos.
Copom mantém cautela diante de inflação e incerteza
A decisão do Copom ocorreu em um contexto de inflação ainda pressionada e expectativas sensíveis. O Banco Central reduziu a Selic, mas evitou sinalizar uma trajetória automática para as próximas reuniões. A autoridade monetária afirmou que seguirá avaliando os dados e os riscos antes de definir novos cortes.
Esse cuidado reflete o desafio de equilibrar crescimento e estabilidade de preços. Juros mais baixos estimulam crédito, consumo e investimento, mas podem aumentar pressões inflacionárias se a economia estiver aquecida ou se as expectativas estiverem desancoradas.
O cenário externo também pesa. Juros elevados nos Estados Unidos, volatilidade cambial, preços de commodities e riscos geopolíticos influenciam a política monetária brasileira. A alta do dólar, por exemplo, pode encarecer produtos importados e limitar o espaço para cortes mais rápidos da Selic.
Para o setor produtivo, porém, a permanência da taxa em patamar elevado prolonga a dificuldade de financiamento. Esse é o ponto central da crítica da Abrainc: o ritmo de queda ainda não aliviou de forma suficiente empresas e famílias.
Juros altos mantêm pressão sobre moradia, crédito e investimento
A manifestação da Abrainc reforça a tensão entre a necessidade de controlar a inflação e a demanda por estímulo à atividade econômica. Para o Banco Central, a Selic ainda elevada funciona como instrumento de contenção dos preços. Para setores produtivos, o custo é a desaceleração do investimento e do consumo.
No mercado imobiliário, essa tensão é direta. Juros altos dificultam a compra da casa própria, reduzem a velocidade de vendas, encarecem obras e limitam lançamentos. Juros mais baixos, por outro lado, podem ampliar a demanda, melhorar o financiamento e destravar projetos represados.
O setor seguirá atento às próximas decisões do Copom, à ata da reunião e aos sinais sobre inflação. A construção civil depende menos de cortes pontuais e mais de uma trajetória consistente de redução da Selic, capaz de mudar as condições de crédito e restabelecer a confiança de empresas e consumidores.
Enquanto a Selic permanecer em 14,25% ao ano, a avaliação da Abrainc é que a economia continuará operando sob forte restrição financeira. O corte desta semana abriu espaço para algum alívio, mas ainda não mudou o diagnóstico central da entidade: juros elevados seguem comprimindo investimentos, empregos e orçamento das famílias.










