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Abimaq corta projeção para 2026 e vai aos EUA contra tarifa de até 37,5%

Indústria brasileira de máquinas prevê queda maior no mercado doméstico e tentará convencer autoridades americanas de que novas sobretaxas também prejudicariam empresas dos Estados Unidos.

por João Souza
30/06/2026 às 20h57
em Economia
Abimaq Corta Projeção Para 2026 E Vai Aos Eua Contra Tarifa De Até 37,5 - Gazeta Mercantil

A Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos, a Abimaq, reduziu suas projeções para o desempenho do setor em 2026 e prepara uma ofensiva em Washington para tentar evitar que produtos brasileiros sejam atingidos por novas tarifas comerciais dos Estados Unidos.

A entidade passou a projetar queda de 3,6% na receita obtida no mercado doméstico neste ano. A previsão anterior indicava retração de 2,7%.

A estimativa para a receita líquida total da indústria de máquinas e equipamentos também piorou, passando de redução de 2,7% para recuo de 3,2%.

Em direção oposta, a Abimaq elevou a projeção de crescimento das exportações de 2,3% para 6,4%. O avanço esperado das vendas ao exterior, entretanto, não deverá ser suficiente para compensar a fraqueza do mercado interno.

O cenário ganhou um novo componente de risco com as investigações comerciais conduzidas pelo Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos, o USTR.

A Abimaq informou que participará das audiências públicas previstas para 6 e 7 de julho, em Washington, para defender a exclusão de máquinas e equipamentos brasileiros das listas sujeitas às novas sobretaxas.

Em uma das frentes, o governo americano propõe tarifa adicional de 25% sobre uma ampla relação de mercadorias brasileiras, preservadas determinadas exceções.

Outra investigação prevê cobrança adicional de 12,5% sobre produtos de países que, na avaliação dos Estados Unidos, não mantêm mecanismos considerados suficientes para impedir a importação de bens produzidos com trabalho forçado.

Dependendo do enquadramento do produto e da aplicação cumulativa das medidas, determinados equipamentos brasileiros poderão enfrentar uma sobretaxa total de até 37,5%.

A tarifa ainda não está definitivamente aplicada. As audiências fazem parte do processo de consulta e avaliação antes da decisão final das autoridades americanas.

Indústria de máquinas reduz previsão para o mercado interno

A revisão das estimativas reflete a perda de força da demanda brasileira por máquinas e equipamentos.

A Abimaq prevê agora uma retração de 3,6% na receita obtida dentro do país, ante expectativa anterior de queda de 2,7%.

O desempenho do setor é considerado um indicador importante sobre a disposição das empresas para investir.

Máquinas industriais, equipamentos agrícolas, componentes, sistemas de automação e bens de capital são adquiridos principalmente quando empresas ampliam fábricas, modernizam processos ou aumentam a capacidade de produção.

Quando o custo do crédito sobe e as expectativas econômicas ficam mais incertas, esses investimentos costumam ser adiados.

A manutenção de juros elevados no Brasil encarece financiamentos, reduz a atratividade de projetos e aumenta o retorno mínimo exigido pelas empresas antes de autorizar novas compras.

Essa combinação atinge principalmente os fabricantes que dependem de grandes projetos industriais e de decisões de investimento de longo prazo.

Receita total deverá cair 3,2% em 2026

A Abimaq também reduziu a previsão para a receita líquida total do setor.

A estimativa anterior apontava retração de 2,7%. A nova projeção indica queda de 3,2% em 2026.

O resultado considera tanto as vendas realizadas no Brasil quanto as exportações.

A deterioração da expectativa mostra que o desempenho mais favorável das vendas externas não deverá neutralizar a redução dos negócios domésticos.

O mercado brasileiro possui peso relevante para a indústria de bens de capital. A demanda interna inclui equipamentos utilizados pela indústria de transformação, pelo agronegócio, pela construção civil, pelo setor de energia e por diferentes áreas de infraestrutura.

Quando esses investimentos diminuem simultaneamente, os fabricantes enfrentam menor utilização da capacidade, redução da carteira de pedidos e maior dificuldade para repassar custos.

Exportações podem crescer 6,4%

Apesar do cenário negativo no Brasil, a Abimaq aumentou sua projeção para as exportações.

A entidade espera crescimento de 6,4% nas vendas externas em 2026, ante previsão anterior de alta de 2,3%.

O avanço representa uma alternativa para empresas que enfrentam demanda doméstica mais fraca.

Fabricantes brasileiros fornecem máquinas, componentes e equipamentos para diferentes mercados, com destaque para América Latina, Estados Unidos e Europa.

A expansão em dólares, contudo, não garante aumento equivalente da receita convertida em reais.

Segundo a Abimaq, a moeda brasileira acumulou valorização próxima de 11% diante do dólar durante o ano. Com o real mais forte, cada dólar obtido com exportações gera menos reais para a empresa brasileira.

O câmbio também influencia a competitividade.

Uma valorização acentuada do real encarece os produtos brasileiros para o comprador estrangeiro quando os preços são convertidos em dólares.

Ao mesmo tempo, torna máquinas importadas relativamente mais baratas no mercado brasileiro, ampliando a concorrência enfrentada pela indústria nacional.

Alta mensal de maio não representa recuperação

A receita nominal do setor cresceu 5,1% em maio na comparação com abril.

A leitura isolada poderia sugerir uma retomada da atividade, mas a Abimaq atribuiu o movimento principalmente a fatores sazonais.

Depois do ajuste sazonal, que procura retirar efeitos recorrentes relacionados ao calendário e ao comportamento normal de cada período, a receita recuou 1,2%.

“Quando a gente faz a sazonalização do número, ele fica em queda de 1,2%. Então, na verdade, olhando para a receita e fazendo esse ajuste sazonal, houve um declínio”, afirmou Cristina Zanella, diretora de competitividade, economia e estatística da Abimaq.

A comparação anual reforça a avaliação negativa.

Em maio, a receita líquida de vendas da indústria brasileira de máquinas e equipamentos alcançou aproximadamente R$ 22,5 bilhões, queda de 20,4% em relação ao mesmo mês de 2025.

A redução mostra que o setor opera sobre uma base significativamente inferior à observada um ano antes.

Carteira de pedidos cai para 8,2 semanas

Outro indicador que preocupa a indústria é a redução da carteira de pedidos.

Em maio, as encomendas asseguravam aproximadamente 8,2 semanas de atividade, queda de 10,6% em relação ao mesmo período de 2025.

A carteira representa o volume de produção futura já contratado pelas empresas.

Quanto menor o número de semanas garantidas, menor é a previsibilidade para fábricas, fornecedores e trabalhadores.

A redução pode levar empresas a diminuir turnos, adiar contratações, revisar compras de matérias-primas ou reduzir investimentos próprios.

O indicador também sugere que a fraqueza observada em maio poderá continuar durante os próximos meses.

Mesmo que novas encomendas sejam recebidas, a recuperação tende a ser gradual porque muitos equipamentos possuem ciclo longo de negociação, fabricação e entrega.

Tarifas dos EUA criam novo risco para as exportações

O crescimento projetado de 6,4% para as exportações depende da manutenção do acesso aos principais mercados.

Os Estados Unidos estão entre os destinos mais relevantes das máquinas e equipamentos brasileiros.

Por isso, a possibilidade de novas tarifas ameaça justamente a área que poderia compensar parte da retração doméstica.

A primeira investigação americana envolve diferentes políticas e práticas atribuídas ao Brasil, incluindo comércio digital, serviços de pagamento eletrônico, tarifas consideradas preferenciais, proteção de propriedade intelectual, acesso ao mercado de etanol, aplicação de normas anticorrupção e desmatamento ilegal.

O USTR propôs uma tarifa adicional de 25% sobre produtos brasileiros, embora tenha apresentado uma lista de mercadorias e categorias que poderão ser excluídas.

A audiência pública dessa investigação será realizada em 6 de julho.

Empresas, entidades setoriais e representantes do governo poderão apresentar argumentos para modificar o alcance das tarifas ou incluir produtos nas exceções.

Segunda investigação pode acrescentar 12,5%

A audiência de 7 de julho está relacionada a uma investigação mais ampla sobre países que, segundo os Estados Unidos, não possuem ou não aplicam de forma adequada proibições à importação de produtos fabricados com trabalho forçado.

Para as economias incluídas no grupo mais atingido, o USTR propôs tarifa adicional de 12,5%.

A medida não está limitada a produtos cuja fabricação tenha sido individualmente comprovada como vinculada ao trabalho forçado.

A investigação avalia os mecanismos legais e de fiscalização mantidos por cada país para impedir a entrada desses bens em seus próprios mercados.

Caso as duas tarifas sejam aplicadas de maneira cumulativa sobre uma mesma mercadoria, a cobrança adicional poderá alcançar 37,5%.

A incidência efetiva dependerá das listas finais de produtos, das exceções e da forma como as medidas forem implementadas.

Abimaq tentará excluir máquinas das sobretaxas

A estratégia da Abimaq será demonstrar que a taxação de máquinas brasileiras não resolveria as preocupações apresentadas pelo governo americano e poderia gerar efeitos negativos para a própria economia dos Estados Unidos.

A entidade pretende destacar que uma parcela relevante do comércio bilateral do setor ocorre entre empresas pertencentes ao mesmo grupo econômico.

Em diversas operações, uma companhia instalada no Brasil fornece componentes, peças ou equipamentos para sua controladora, subsidiária ou unidade industrial localizada nos Estados Unidos.

A nova tarifa elevaria o custo dentro da própria cadeia empresarial.

A Abimaq também argumentará que determinados equipamentos brasileiros são fabricados sob encomenda e não possuem substitutos imediatos no mercado americano.

A troca de fornecedor poderia exigir novos projetos, testes, certificações e adaptações industriais, aumentando custos e atrasando investimentos.

Brasil tem déficit de US$ 1,1 bilhão no comércio bilateral

Outro argumento da entidade será a situação da balança comercial de máquinas e equipamentos entre os dois países.

Segundo a Abimaq, o Brasil registra déficit de aproximadamente US$ 1,1 bilhão nesse comércio bilateral.

Isso significa que o país compra mais máquinas e equipamentos dos Estados Unidos do que vende ao mercado americano.

A entidade pretende utilizar o dado para contestar a ideia de que os produtos brasileiros causariam prejuízo generalizado à indústria dos Estados Unidos.

A relação comercial, na avaliação da associação, é complementar em diversas áreas.

Empresas brasileiras importam tecnologia, equipamentos e componentes americanos, enquanto exportam produtos especializados que integram cadeias produtivas instaladas nos Estados Unidos.

Uma tarifa mais alta poderá reduzir os fluxos nos dois sentidos.

Tarifa de 37,5% aproximaria Brasil da China

A diretora executiva de mercado externo da Abimaq, Patrícia Gomes, afirmou que alguns produtos representados pela entidade poderão enfrentar tarifa de aproximadamente 37,5%.

Segundo ela, esse patamar colocaria o Brasil em condição tarifária semelhante à enfrentada pela China em determinadas categorias.

A comparação é considerada preocupante porque a política comercial dos Estados Unidos em relação à China envolve disputas estratégicas sobre tecnologia, indústria e segurança econômica.

O Brasil, por outro lado, mantém uma relação comercial historicamente menos conflituosa com os americanos.

Para a Abimaq, aplicar uma carga semelhante reduziria a competitividade dos produtos brasileiros e poderia levar importadores a procurar fornecedores em países não atingidos pelas medidas.

O impacto dependerá da margem de cada fabricante.

Em equipamentos de alto valor e baixa rentabilidade percentual, uma tarifa adicional de 25% ou 37,5% pode inviabilizar completamente a operação.

Empresas americanas também podem ser atingidas

A defesa da Abimaq deverá enfatizar que a tarifa será paga inicialmente pelo importador nos Estados Unidos.

O custo poderá ser absorvido pela empresa americana, repassado ao consumidor ou dividido com o fornecedor brasileiro por meio de descontos.

Em qualquer cenário, existe potencial de aumento de preços ou redução de margens.

Empresas americanas que dependem de equipamentos brasileiros produzidos sob encomenda poderão enfrentar custos maiores para manter ou ampliar suas operações.

Em casos nos quais a máquina é parte de uma linha industrial, atrasos na importação podem afetar todo o cronograma do projeto.

A substituição por um fornecedor local também pode não ser imediata, especialmente quando o equipamento exige tecnologia específica ou integração com sistemas já existentes.

A Abimaq pretende demonstrar que excluir esses produtos das tarifas preservaria investimentos e empregos também nos Estados Unidos.

Indústria enfrenta pressão dentro e fora do Brasil

A revisão das projeções ocorre em um momento no qual os fabricantes enfrentam dificuldades simultâneas.

No mercado interno, os juros elevados e a redução dos investimentos diminuem a demanda.

No exterior, novas barreiras comerciais ameaçam o crescimento esperado das exportações.

A valorização do real adiciona uma terceira pressão ao reduzir a receita das vendas externas quando convertida para a moeda brasileira e aumentar a competitividade dos importados.

Esse conjunto limita as alternativas disponíveis para o setor.

Elevar preços pode reduzir ainda mais a demanda. Cortar margens preserva vendas, mas compromete a rentabilidade. Reduzir produção pode afetar empregos, fornecedores e investimentos.

Empresas com operações diversificadas, presença internacional e maior capacidade financeira poderão absorver melhor o período de fraqueza.

Fabricantes menores ou dependentes de poucos clientes tendem a enfrentar riscos superiores.

Audiências serão decisivas, mas não encerram processo

As audiências de 6 e 7 de julho permitirão que a Abimaq e outras entidades apresentem suas posições diretamente ao comitê responsável pela Seção 301.

Os depoimentos não garantem a exclusão das máquinas brasileiras.

O USTR analisará as manifestações, os comentários escritos, as necessidades da economia americana e as recomendações de diferentes órgãos do governo.

As autoridades poderão manter a proposta original, alterar alíquotas, ampliar as exceções ou retirar determinados produtos das listas.

Até a publicação da decisão definitiva, as empresas brasileiras continuarão expostas à incerteza.

Exportadores precisarão avaliar contratos, responsabilidades pelo pagamento das tarifas, prazos de entrega e possíveis destinos alternativos.

Setor dependerá de exportações para limitar queda

A nova projeção da Abimaq mostra que o mercado externo será essencial para evitar uma retração ainda maior em 2026.

A entidade espera que as exportações cresçam 6,4%, mesmo diante da fraqueza doméstica e da valorização do real.

A concretização dessa estimativa dependerá do resultado das negociações com os Estados Unidos e da capacidade das empresas de ampliar vendas para outros destinos.

Se as tarifas forem aplicadas sem exceções relevantes, a projeção poderá precisar de uma nova revisão.

No mercado interno, uma recuperação mais consistente dependerá da redução do custo do crédito, da retomada dos investimentos e de maior confiança das empresas.

Até lá, a indústria de máquinas continuará operando com carteira menor, receita abaixo de 2025 e crescente dependência das vendas externas.

Tags: Abimaqbens de capitalEconomiaexportações brasileirasindústria brasileiraindústria de máquinasmáquinas e equipamentosSeção 301tarifas dos Estados UnidosUSTRWashington

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