A próxima rodada consistente de ofertas públicas iniciais de ações no Brasil deverá ocorrer apenas em 2027, segundo a avaliação do Bradesco BBI. O banco de investimento trabalha com uma primeira onda formada por dez grandes companhias, dentro de um grupo de cerca de 30 empresas consideradas preparadas para acessar a Bolsa, principalmente nos setores de infraestrutura, saúde, tecnologia, consumo e varejo.
A projeção mostra que o IPO da Compass Gás e Energia (PASS3), realizado em maio, encerrou formalmente o jejum de estreias na B3, mas não foi suficiente para abrir uma janela ampla de captação. A operação movimentou até R$ 3,2 bilhões, porém foi composta exclusivamente pela venda de ações pertencentes a acionistas existentes. Nenhum recurso novo entrou no caixa da companhia.
Esse detalhe separa uma listagem bem-sucedida de uma retomada efetiva do mercado primário. A Compass ganhou uma base pública de investidores e passou a negociar suas ações na B3, enquanto os acionistas vendedores obtiveram liquidez. A empresa, entretanto, não captou capital para financiar expansão, aquisições ou novos projetos.
O preço também revelou a seletividade dos investidores. As ações foram precificadas a R$ 28, na parte mais baixa das expectativas trabalhadas durante a oferta. A colocação foi concluída, mas exigiu uma avaliação considerada compatível com um ambiente de juros elevados e menor tolerância a risco.
A leitura do Bradesco BBI é que o mercado brasileiro ainda precisa de uma combinação mais favorável de inflação, juros, cenário externo e previsibilidade econômica para absorver uma sequência de novas empresas. O IPO isolado da Compass mostrou que existe demanda por ativos de grande porte, com receitas previsíveis e posição consolidada. Não demonstrou, porém, que o investidor esteja disposto a financiar indiscriminadamente companhias em diferentes setores e estágios de maturidade.
Compass rompe jejum, mas não inaugura novo ciclo
A Compass (PASS3) iniciou as negociações na B3 em 11 de maio, tornando-se a primeira companhia a realizar um IPO no mercado brasileiro desde 2021.
A oferta alcançou 114,29 milhões de ações, considerando os lotes adicional e suplementar, ao preço de R$ 28 por papel. O montante bruto chegou a aproximadamente R$ 3,2 bilhões.
Todas as ações foram vendidas por acionistas da companhia. A Cosan (CSAN3), controladora da Compass, esteve entre os ofertantes, ao lado de fundos e outros investidores que já integravam a estrutura societária.
Como a operação foi secundária, a listagem funcionou principalmente como instrumento de liquidez e reorganização acionária. O dinheiro pago pelos novos investidores foi destinado aos antigos proprietários dos papéis, descontadas as despesas e comissões da oferta.
Esse formato reduz o efeito econômico direto do IPO. Em uma emissão primária, novas ações são criadas, e os recursos entram no caixa da companhia para financiar investimentos, reforçar capital ou diminuir dívida. Na oferta secundária, há apenas transferência de propriedade.
A Compass ainda produziu um sinal importante. A demanda confirmou que investidores estão dispostos a avaliar empresas brasileiras quando encontram escala, governança, geração de caixa e ativos capazes de atravessar ciclos econômicos adversos.
O grupo opera negócios de distribuição, comercialização e infraestrutura de gás natural. Parte relevante de suas receitas está ligada a atividades reguladas e contratos de longo prazo, perfil que oferece maior previsibilidade do que empresas dependentes de crescimento acelerado ou consumo discricionário.
A conclusão do IPO, portanto, não contradiz a projeção de uma retomada mais ampla apenas em 2027. A oferta mostrou que operações específicas podem avançar em 2026. O que ainda não existe é uma janela capaz de receber companhias de perfis variados em sequência.
Bradesco BBI vê 30 empresas prontas para a Bolsa
O Bradesco BBI afirma que cerca de 30 empresas já possuem condições de avançar em processos de abertura de capital. A primeira onda poderia reunir dez companhias de maior porte.
Infraestrutura aparece entre os setores mais bem posicionados. Empresas com ativos de energia, saneamento, transportes, telecomunicações e logística costumam apresentar contratos longos, barreiras de entrada e receitas menos sensíveis às oscilações imediatas da economia.
Saúde também integra a lista. Hospitais, laboratórios, empresas de diagnóstico e prestadores de serviços especializados combinam demanda estrutural com oportunidades de consolidação em um mercado ainda fragmentado.
Tecnologia, consumo e varejo completam o grupo indicado pelo banco. Nesses segmentos, entretanto, a análise tende a ser mais rigorosa. Investidores deverão exigir crescimento acompanhado de geração de caixa, governança e controle de endividamento.
O próximo ciclo deverá ser diferente do observado em 2020 e 2021, quando dezenas de empresas chegaram à Bolsa em curto intervalo. Naquela janela, a combinação entre juros baixos, liquidez global e valorização das ações permitiu a listagem de negócios ainda em fase de expansão acelerada.
Em 2026, a referência mudou. O mercado passou a penalizar companhias que dependem de capital recorrente, apresentam margens instáveis ou não conseguem demonstrar uma trajetória clara de rentabilidade.
Não basta estar juridicamente preparado para protocolar uma oferta. A empresa precisa sustentar a avaliação pretendida diante de investidores que podem obter retornos elevados em renda fixa sem assumir riscos operacionais e de mercado.
Selic de 14,25% eleva a régua das ofertas
A taxa Selic está em 14,25% ao ano depois de o Banco Central reduzir os juros em junho. Mesmo após o início da flexibilização monetária, a política continua em nível fortemente restritivo.
Para uma empresa que pretende abrir capital, o efeito ocorre por diferentes canais. O primeiro é a concorrência com a renda fixa. Quanto maior o retorno disponível em títulos públicos e privados, maior precisa ser o potencial de valorização oferecido pelas ações.
O segundo efeito aparece no valor das companhias. Analistas calculam o preço de uma empresa trazendo para o presente os fluxos de caixa esperados para o futuro. Juros maiores aumentam a taxa usada nesse cálculo e reduzem o valor atual dos resultados projetados.
Negócios de crescimento são particularmente afetados. Quanto mais distante estiver a geração de caixa relevante, maior será o impacto da taxa de desconto sobre o valuation.
O terceiro canal está dentro das próprias empresas. Juros altos encarecem dívidas, capital de giro e investimentos. Companhias que chegam à Bolsa para reduzir alavancagem podem ser obrigadas a aceitar preços inferiores aos desejados porque os investidores já incorporam o custo financeiro ao risco da operação.
A redução da Selic cria uma direção mais favorável, mas o Banco Central continua sinalizando cautela. A trajetória dependerá da inflação, das expectativas, do cenário fiscal e dos efeitos econômicos das tensões internacionais.
Para que os IPOs no Brasil voltem em escala, não será suficiente uma diminuição isolada da taxa básica. O mercado precisará enxergar uma queda sustentável dos juros futuros, que incorporam riscos para períodos mais longos.
Ano eleitoral encurta a janela de 2026
O calendário político também reduz a possibilidade de uma retomada ampla ainda em 2026. As eleições presidenciais e estaduais aumentam a incerteza sobre política fiscal, regulação, tributação e prioridades de investimento público.
Ofertas iniciais exigem meses de preparação. A companhia precisa atualizar demonstrações financeiras, concluir auditorias, estruturar governança, preparar o prospecto e realizar apresentações a investidores.
Quando a visibilidade econômica diminui, compradores exigem desconto maior para participar. Os controladores, por sua vez, podem preferir adiar a operação a aceitar uma avaliação que considerem baixa.
A aproximação da eleição também reduz o espaço disponível no calendário. Depois das convenções partidárias e do início da campanha formal, o mercado passa a reagir com maior intensidade a pesquisas eleitorais, programas econômicos e declarações dos candidatos.
Mesmo companhias prontas podem decidir esperar. O custo de adiar um IPO pode ser menor do que o risco de lançar a oferta durante uma mudança abrupta na curva de juros, no câmbio ou no fluxo estrangeiro.
A projeção para 2027 parte da expectativa de que o resultado eleitoral permita maior clareza sobre a condução econômica. Empresas e investidores poderão avaliar o Orçamento, a trajetória fiscal, a política monetária e as regras setoriais com um horizonte mais definido.
Essa visibilidade não garante a abertura da janela. Uma deterioração fiscal ou nova alta dos juros poderia provocar outro adiamento. O ano de 2027 representa uma hipótese condicionada, e não uma data assegurada para as operações.
PicPay e Agibank encontraram liquidez nos Estados Unidos
Enquanto a B3 permaneceu praticamente fechada para novas empresas, companhias brasileiras buscaram o mercado norte-americano.
O PicPay (PICS) estreou na Nasdaq em janeiro. A fintech vendeu 22,86 milhões de ações por US$ 19 cada, levantando aproximadamente US$ 434,3 milhões antes de comissões e despesas.
A operação mostrou que empresas brasileiras com escala, marca conhecida e resultados em expansão ainda conseguem acessar investidores internacionais. O preço foi fixado no topo da faixa indicada no prospecto.
Poucas semanas depois, o Agibank (AGBK) chegou à Bolsa de Nova York. A instituição vendeu 20 milhões de ações por US$ 12, captando US$ 240 milhões na oferta-base. Com o exercício integral da opção de 3 milhões de papéis adicionais, o montante poderia alcançar US$ 276 milhões.
O processo, entretanto, expôs a mesma seletividade observada no Brasil. O Agibank havia projetado inicialmente uma operação significativamente maior, com mais ações e uma faixa de preço superior. Antes da precificação, reduziu o tamanho da oferta em mais de 50% e diminuiu o valor esperado por papel.
Os dois casos mostram que Wall Street oferece uma alternativa, mas não elimina a pressão sobre preços. Empresas precisam aceitar a avaliação determinada pelo mercado, apresentar resultados consistentes e conviver com a possibilidade de queda das ações depois da estreia.
A listagem no exterior também não é viável para qualquer companhia. A operação exige demonstrações em padrões internacionais, documentos submetidos à Securities and Exchange Commission, estrutura de governança compatível e capacidade de comunicação permanente com investidores globais.
Follow-ons mantêm mercado primário em funcionamento
A ausência de IPOs em sequência não significa que o mercado de ações esteja completamente paralisado. Empresas já listadas continuam recorrendo a ofertas subsequentes, conhecidas como follow-ons.
A B3 registrou seis follow-ons apenas no primeiro trimestre de 2026. Essas operações são mais fáceis de executar porque a companhia já possui ações negociadas, histórico público, cobertura de analistas e uma base de investidores familiarizada com seus resultados.
O risco de precificação é menor. O mercado dispõe de uma cotação de referência e consegue comparar o preço da oferta com o valor negociado diariamente.
Os follow-ons podem ser primários, quando o dinheiro entra na companhia, ou secundários, quando acionistas vendem participações. Em alguns casos, os dois formatos são combinados.
Essas ofertas ajudam empresas a financiar expansão, reforçar capital ou reduzir dívida. Também permitem que governos, fundos e controladores diminuam participações sem retirar a companhia da Bolsa.
O avanço dos follow-ons confirma que existe liquidez para negócios conhecidos. O problema está na entrada de empresas sem histórico no mercado público, cuja avaliação depende de projeções e de uma tese ainda não testada pela negociação diária.
A renda variável brasileira também recebeu forte fluxo estrangeiro no início do ano. No primeiro trimestre, investidores externos ingressaram com R$ 53,8 bilhões, segundo os dados operacionais da B3.
Esse capital ajudou a elevar o volume negociado e a sustentar ofertas. O movimento, contudo, não se transformou automaticamente em demanda por IPOs. Investidores podem preferir comprar companhias líquidas, descontadas e já incluídas nos principais índices.
Dívida e M&A ocupam espaço deixado pelos IPOs
Sem acesso ao mercado acionário, empresas privadas precisam recorrer a outras fontes de financiamento. A principal é a dívida, por meio de empréstimos bancários, debêntures, notas comerciais e instrumentos estruturados.
O mercado brasileiro de renda fixa corporativa permaneceu ativo mesmo durante o jejum de IPOs. A demanda de investidores por papéis indexados ao CDI ou à inflação permitiu que companhias conhecidas continuassem emitindo dívida.
O custo, porém, é elevado. Empresas precisam pagar taxas capazes de competir com os títulos públicos e incorporar riscos de crédito, prazo e liquidez.
Para grupos já endividados, a alternativa tem sido a venda de ativos. Fusões, aquisições e desinvestimentos passaram a ser usados não apenas para executar estratégias de crescimento, mas para reduzir alavancagem e liberar recursos.
Esse ambiente favorece compradores capitalizados. Fundos de infraestrutura, investidores estratégicos e companhias com balanços mais fortes conseguem adquirir ativos de empresas pressionadas pelo custo financeiro.
A ausência de IPOs também fortalece o private equity. Companhias que não conseguem acessar a Bolsa podem buscar fundos privados, embora normalmente tenham de aceitar maior participação do investidor na governança e nas decisões estratégicas.
Nenhuma dessas alternativas substitui integralmente o IPO. A oferta pública permite captar grandes volumes de capital permanente, diversificar acionistas e criar uma moeda própria para aquisições e remuneração de executivos.
Próxima janela será mais seletiva que a de 2021
A retomada projetada para 2027 não deve repetir a quantidade de operações vista no último grande ciclo. O cenário apontado pelo Bradesco BBI sugere uma abertura inicial concentrada em aproximadamente dez empresas de maior porte.
Essas companhias deverão funcionar como teste. Se as ofertas forem bem precificadas e as ações apresentarem desempenho estável no mercado secundário, outras candidatas poderão avançar.
Uma estreia malsucedida produz o efeito contrário. Quedas intensas depois do IPO reduzem o apetite por novas operações e levam investidores a exigir descontos maiores.
Por isso, bancos e empresas tendem a priorizar negócios com geração de caixa comprovada, governança madura e uso claro dos recursos. Companhias que pretendem financiar apenas prejuízos ou sustentar avaliações baseadas em crescimento distante encontrarão maior resistência.
O desempenho da Compass (PASS3) será uma das referências locais. Embora a oferta tenha sido secundária, a trajetória das ações ajudará a medir o interesse por uma nova empresa de grande porte na B3.
PicPay (PICS) e Agibank (AGBK) também serão acompanhados. As duas fintechs fornecem uma comparação sobre a recepção de empresas brasileiras em mercados internacionais e sobre a capacidade de manter o preço depois da estreia.
Queda dos juros definirá se fila sairá do papel
O mercado brasileiro chega ao segundo semestre com uma contradição. Há empresas preparadas, bancos organizando operações e investidores estrangeiros ativos. Ainda assim, a relação entre risco e preço permanece insuficiente para uma retomada generalizada.
A Selic de 14,25% mantém a renda fixa competitiva e limita as avaliações. O ano eleitoral reduz a visibilidade. O cenário internacional adiciona volatilidade aos fluxos de capital.
A Compass provou que uma oferta grande pode ser concluída. Também mostrou que o mercado exige companhias consolidadas e preços disciplinados.
Para 2027, a fila já existe. O Bradesco BBI identifica 30 empresas prontas e uma primeira onda potencial de dez estreias. O avanço dependerá de juros futuros em queda, estabilidade fiscal, fluxo estrangeiro e desempenho das ofertas que já chegaram ao mercado.
Até lá, follow-ons, dívida e fusões e aquisições continuarão ocupando o espaço deixado pelos IPOs. A reabertura definitiva da Bolsa não será determinada pelo número de empresas inscritas para vender ações, mas pela disposição dos investidores de financiar crescimento sem exigir descontos que inviabilizem as operações.










