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IPOs no Brasil devem voltar em 2027, diz Bradesco BBI; 10 empresas lideram fila

Compass encerrou o jejum da B3, mas oferta secundária, Selic de 14,25% e incerteza eleitoral mantêm a retomada ampla distante.

por Camila Braga
13/07/2026 às 15h37
em Mercados
Bradesco Bbi Trava Janela De Ipos Até 2027 E Mantém B3 Em Seca Histórica De Quase Cinco Anos-Gazeta Mercantil

A próxima rodada consistente de ofertas públicas iniciais de ações no Brasil deverá ocorrer apenas em 2027, segundo a avaliação do Bradesco BBI. O banco de investimento trabalha com uma primeira onda formada por dez grandes companhias, dentro de um grupo de cerca de 30 empresas consideradas preparadas para acessar a Bolsa, principalmente nos setores de infraestrutura, saúde, tecnologia, consumo e varejo.

A projeção mostra que o IPO da Compass Gás e Energia (PASS3), realizado em maio, encerrou formalmente o jejum de estreias na B3, mas não foi suficiente para abrir uma janela ampla de captação. A operação movimentou até R$ 3,2 bilhões, porém foi composta exclusivamente pela venda de ações pertencentes a acionistas existentes. Nenhum recurso novo entrou no caixa da companhia.

Esse detalhe separa uma listagem bem-sucedida de uma retomada efetiva do mercado primário. A Compass ganhou uma base pública de investidores e passou a negociar suas ações na B3, enquanto os acionistas vendedores obtiveram liquidez. A empresa, entretanto, não captou capital para financiar expansão, aquisições ou novos projetos.

O preço também revelou a seletividade dos investidores. As ações foram precificadas a R$ 28, na parte mais baixa das expectativas trabalhadas durante a oferta. A colocação foi concluída, mas exigiu uma avaliação considerada compatível com um ambiente de juros elevados e menor tolerância a risco.

A leitura do Bradesco BBI é que o mercado brasileiro ainda precisa de uma combinação mais favorável de inflação, juros, cenário externo e previsibilidade econômica para absorver uma sequência de novas empresas. O IPO isolado da Compass mostrou que existe demanda por ativos de grande porte, com receitas previsíveis e posição consolidada. Não demonstrou, porém, que o investidor esteja disposto a financiar indiscriminadamente companhias em diferentes setores e estágios de maturidade.

Compass rompe jejum, mas não inaugura novo ciclo

A Compass (PASS3) iniciou as negociações na B3 em 11 de maio, tornando-se a primeira companhia a realizar um IPO no mercado brasileiro desde 2021.

A oferta alcançou 114,29 milhões de ações, considerando os lotes adicional e suplementar, ao preço de R$ 28 por papel. O montante bruto chegou a aproximadamente R$ 3,2 bilhões.

Todas as ações foram vendidas por acionistas da companhia. A Cosan (CSAN3), controladora da Compass, esteve entre os ofertantes, ao lado de fundos e outros investidores que já integravam a estrutura societária.

Como a operação foi secundária, a listagem funcionou principalmente como instrumento de liquidez e reorganização acionária. O dinheiro pago pelos novos investidores foi destinado aos antigos proprietários dos papéis, descontadas as despesas e comissões da oferta.

Esse formato reduz o efeito econômico direto do IPO. Em uma emissão primária, novas ações são criadas, e os recursos entram no caixa da companhia para financiar investimentos, reforçar capital ou diminuir dívida. Na oferta secundária, há apenas transferência de propriedade.

A Compass ainda produziu um sinal importante. A demanda confirmou que investidores estão dispostos a avaliar empresas brasileiras quando encontram escala, governança, geração de caixa e ativos capazes de atravessar ciclos econômicos adversos.

O grupo opera negócios de distribuição, comercialização e infraestrutura de gás natural. Parte relevante de suas receitas está ligada a atividades reguladas e contratos de longo prazo, perfil que oferece maior previsibilidade do que empresas dependentes de crescimento acelerado ou consumo discricionário.

A conclusão do IPO, portanto, não contradiz a projeção de uma retomada mais ampla apenas em 2027. A oferta mostrou que operações específicas podem avançar em 2026. O que ainda não existe é uma janela capaz de receber companhias de perfis variados em sequência.

Bradesco BBI vê 30 empresas prontas para a Bolsa

O Bradesco BBI afirma que cerca de 30 empresas já possuem condições de avançar em processos de abertura de capital. A primeira onda poderia reunir dez companhias de maior porte.

Infraestrutura aparece entre os setores mais bem posicionados. Empresas com ativos de energia, saneamento, transportes, telecomunicações e logística costumam apresentar contratos longos, barreiras de entrada e receitas menos sensíveis às oscilações imediatas da economia.

Saúde também integra a lista. Hospitais, laboratórios, empresas de diagnóstico e prestadores de serviços especializados combinam demanda estrutural com oportunidades de consolidação em um mercado ainda fragmentado.

Tecnologia, consumo e varejo completam o grupo indicado pelo banco. Nesses segmentos, entretanto, a análise tende a ser mais rigorosa. Investidores deverão exigir crescimento acompanhado de geração de caixa, governança e controle de endividamento.

O próximo ciclo deverá ser diferente do observado em 2020 e 2021, quando dezenas de empresas chegaram à Bolsa em curto intervalo. Naquela janela, a combinação entre juros baixos, liquidez global e valorização das ações permitiu a listagem de negócios ainda em fase de expansão acelerada.

Em 2026, a referência mudou. O mercado passou a penalizar companhias que dependem de capital recorrente, apresentam margens instáveis ou não conseguem demonstrar uma trajetória clara de rentabilidade.

Não basta estar juridicamente preparado para protocolar uma oferta. A empresa precisa sustentar a avaliação pretendida diante de investidores que podem obter retornos elevados em renda fixa sem assumir riscos operacionais e de mercado.

Selic de 14,25% eleva a régua das ofertas

A taxa Selic está em 14,25% ao ano depois de o Banco Central reduzir os juros em junho. Mesmo após o início da flexibilização monetária, a política continua em nível fortemente restritivo.

Para uma empresa que pretende abrir capital, o efeito ocorre por diferentes canais. O primeiro é a concorrência com a renda fixa. Quanto maior o retorno disponível em títulos públicos e privados, maior precisa ser o potencial de valorização oferecido pelas ações.

O segundo efeito aparece no valor das companhias. Analistas calculam o preço de uma empresa trazendo para o presente os fluxos de caixa esperados para o futuro. Juros maiores aumentam a taxa usada nesse cálculo e reduzem o valor atual dos resultados projetados.

Negócios de crescimento são particularmente afetados. Quanto mais distante estiver a geração de caixa relevante, maior será o impacto da taxa de desconto sobre o valuation.

O terceiro canal está dentro das próprias empresas. Juros altos encarecem dívidas, capital de giro e investimentos. Companhias que chegam à Bolsa para reduzir alavancagem podem ser obrigadas a aceitar preços inferiores aos desejados porque os investidores já incorporam o custo financeiro ao risco da operação.

A redução da Selic cria uma direção mais favorável, mas o Banco Central continua sinalizando cautela. A trajetória dependerá da inflação, das expectativas, do cenário fiscal e dos efeitos econômicos das tensões internacionais.

Para que os IPOs no Brasil voltem em escala, não será suficiente uma diminuição isolada da taxa básica. O mercado precisará enxergar uma queda sustentável dos juros futuros, que incorporam riscos para períodos mais longos.

Ano eleitoral encurta a janela de 2026

O calendário político também reduz a possibilidade de uma retomada ampla ainda em 2026. As eleições presidenciais e estaduais aumentam a incerteza sobre política fiscal, regulação, tributação e prioridades de investimento público.

Ofertas iniciais exigem meses de preparação. A companhia precisa atualizar demonstrações financeiras, concluir auditorias, estruturar governança, preparar o prospecto e realizar apresentações a investidores.

Quando a visibilidade econômica diminui, compradores exigem desconto maior para participar. Os controladores, por sua vez, podem preferir adiar a operação a aceitar uma avaliação que considerem baixa.

A aproximação da eleição também reduz o espaço disponível no calendário. Depois das convenções partidárias e do início da campanha formal, o mercado passa a reagir com maior intensidade a pesquisas eleitorais, programas econômicos e declarações dos candidatos.

Mesmo companhias prontas podem decidir esperar. O custo de adiar um IPO pode ser menor do que o risco de lançar a oferta durante uma mudança abrupta na curva de juros, no câmbio ou no fluxo estrangeiro.

A projeção para 2027 parte da expectativa de que o resultado eleitoral permita maior clareza sobre a condução econômica. Empresas e investidores poderão avaliar o Orçamento, a trajetória fiscal, a política monetária e as regras setoriais com um horizonte mais definido.

Essa visibilidade não garante a abertura da janela. Uma deterioração fiscal ou nova alta dos juros poderia provocar outro adiamento. O ano de 2027 representa uma hipótese condicionada, e não uma data assegurada para as operações.

PicPay e Agibank encontraram liquidez nos Estados Unidos

Enquanto a B3 permaneceu praticamente fechada para novas empresas, companhias brasileiras buscaram o mercado norte-americano.

O PicPay (PICS) estreou na Nasdaq em janeiro. A fintech vendeu 22,86 milhões de ações por US$ 19 cada, levantando aproximadamente US$ 434,3 milhões antes de comissões e despesas.

A operação mostrou que empresas brasileiras com escala, marca conhecida e resultados em expansão ainda conseguem acessar investidores internacionais. O preço foi fixado no topo da faixa indicada no prospecto.

Poucas semanas depois, o Agibank (AGBK) chegou à Bolsa de Nova York. A instituição vendeu 20 milhões de ações por US$ 12, captando US$ 240 milhões na oferta-base. Com o exercício integral da opção de 3 milhões de papéis adicionais, o montante poderia alcançar US$ 276 milhões.

O processo, entretanto, expôs a mesma seletividade observada no Brasil. O Agibank havia projetado inicialmente uma operação significativamente maior, com mais ações e uma faixa de preço superior. Antes da precificação, reduziu o tamanho da oferta em mais de 50% e diminuiu o valor esperado por papel.

Os dois casos mostram que Wall Street oferece uma alternativa, mas não elimina a pressão sobre preços. Empresas precisam aceitar a avaliação determinada pelo mercado, apresentar resultados consistentes e conviver com a possibilidade de queda das ações depois da estreia.

A listagem no exterior também não é viável para qualquer companhia. A operação exige demonstrações em padrões internacionais, documentos submetidos à Securities and Exchange Commission, estrutura de governança compatível e capacidade de comunicação permanente com investidores globais.

Follow-ons mantêm mercado primário em funcionamento

A ausência de IPOs em sequência não significa que o mercado de ações esteja completamente paralisado. Empresas já listadas continuam recorrendo a ofertas subsequentes, conhecidas como follow-ons.

A B3 registrou seis follow-ons apenas no primeiro trimestre de 2026. Essas operações são mais fáceis de executar porque a companhia já possui ações negociadas, histórico público, cobertura de analistas e uma base de investidores familiarizada com seus resultados.

O risco de precificação é menor. O mercado dispõe de uma cotação de referência e consegue comparar o preço da oferta com o valor negociado diariamente.

Os follow-ons podem ser primários, quando o dinheiro entra na companhia, ou secundários, quando acionistas vendem participações. Em alguns casos, os dois formatos são combinados.

Essas ofertas ajudam empresas a financiar expansão, reforçar capital ou reduzir dívida. Também permitem que governos, fundos e controladores diminuam participações sem retirar a companhia da Bolsa.

O avanço dos follow-ons confirma que existe liquidez para negócios conhecidos. O problema está na entrada de empresas sem histórico no mercado público, cuja avaliação depende de projeções e de uma tese ainda não testada pela negociação diária.

A renda variável brasileira também recebeu forte fluxo estrangeiro no início do ano. No primeiro trimestre, investidores externos ingressaram com R$ 53,8 bilhões, segundo os dados operacionais da B3.

Esse capital ajudou a elevar o volume negociado e a sustentar ofertas. O movimento, contudo, não se transformou automaticamente em demanda por IPOs. Investidores podem preferir comprar companhias líquidas, descontadas e já incluídas nos principais índices.

Dívida e M&A ocupam espaço deixado pelos IPOs

Sem acesso ao mercado acionário, empresas privadas precisam recorrer a outras fontes de financiamento. A principal é a dívida, por meio de empréstimos bancários, debêntures, notas comerciais e instrumentos estruturados.

O mercado brasileiro de renda fixa corporativa permaneceu ativo mesmo durante o jejum de IPOs. A demanda de investidores por papéis indexados ao CDI ou à inflação permitiu que companhias conhecidas continuassem emitindo dívida.

O custo, porém, é elevado. Empresas precisam pagar taxas capazes de competir com os títulos públicos e incorporar riscos de crédito, prazo e liquidez.

Para grupos já endividados, a alternativa tem sido a venda de ativos. Fusões, aquisições e desinvestimentos passaram a ser usados não apenas para executar estratégias de crescimento, mas para reduzir alavancagem e liberar recursos.

Esse ambiente favorece compradores capitalizados. Fundos de infraestrutura, investidores estratégicos e companhias com balanços mais fortes conseguem adquirir ativos de empresas pressionadas pelo custo financeiro.

A ausência de IPOs também fortalece o private equity. Companhias que não conseguem acessar a Bolsa podem buscar fundos privados, embora normalmente tenham de aceitar maior participação do investidor na governança e nas decisões estratégicas.

Nenhuma dessas alternativas substitui integralmente o IPO. A oferta pública permite captar grandes volumes de capital permanente, diversificar acionistas e criar uma moeda própria para aquisições e remuneração de executivos.

Próxima janela será mais seletiva que a de 2021

A retomada projetada para 2027 não deve repetir a quantidade de operações vista no último grande ciclo. O cenário apontado pelo Bradesco BBI sugere uma abertura inicial concentrada em aproximadamente dez empresas de maior porte.

Essas companhias deverão funcionar como teste. Se as ofertas forem bem precificadas e as ações apresentarem desempenho estável no mercado secundário, outras candidatas poderão avançar.

Uma estreia malsucedida produz o efeito contrário. Quedas intensas depois do IPO reduzem o apetite por novas operações e levam investidores a exigir descontos maiores.

Por isso, bancos e empresas tendem a priorizar negócios com geração de caixa comprovada, governança madura e uso claro dos recursos. Companhias que pretendem financiar apenas prejuízos ou sustentar avaliações baseadas em crescimento distante encontrarão maior resistência.

O desempenho da Compass (PASS3) será uma das referências locais. Embora a oferta tenha sido secundária, a trajetória das ações ajudará a medir o interesse por uma nova empresa de grande porte na B3.

PicPay (PICS) e Agibank (AGBK) também serão acompanhados. As duas fintechs fornecem uma comparação sobre a recepção de empresas brasileiras em mercados internacionais e sobre a capacidade de manter o preço depois da estreia.

Queda dos juros definirá se fila sairá do papel

O mercado brasileiro chega ao segundo semestre com uma contradição. Há empresas preparadas, bancos organizando operações e investidores estrangeiros ativos. Ainda assim, a relação entre risco e preço permanece insuficiente para uma retomada generalizada.

A Selic de 14,25% mantém a renda fixa competitiva e limita as avaliações. O ano eleitoral reduz a visibilidade. O cenário internacional adiciona volatilidade aos fluxos de capital.

A Compass provou que uma oferta grande pode ser concluída. Também mostrou que o mercado exige companhias consolidadas e preços disciplinados.

Para 2027, a fila já existe. O Bradesco BBI identifica 30 empresas prontas e uma primeira onda potencial de dez estreias. O avanço dependerá de juros futuros em queda, estabilidade fiscal, fluxo estrangeiro e desempenho das ofertas que já chegaram ao mercado.

Até lá, follow-ons, dívida e fusões e aquisições continuarão ocupando o espaço deixado pelos IPOs. A reabertura definitiva da Bolsa não será determinada pelo número de empresas inscritas para vender ações, mas pela disposição dos investidores de financiar crescimento sem exigir descontos que inviabilizem as operações.

Tags: AgibankB3Bradesco BBICompassIPOs no Brasilmercado de capitaismercadosofertas públicasPASS3PicPaySelic

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