A Enel encerrou o primeiro semestre de 2026 com lucro líquido ordinário de 3,93 bilhões de euros, alta de 2,8% na comparação com igual período de 2025, segundo balanço divulgado pela companhia em 30 de julho. O resultado foi sustentado pelas operações de redes e de mercado final na Espanha e na América Latina, que compensaram a retração de margens na Itália provocada por menor geração hidrelétrica, preços mais fracos no varejo e menor contribuição da atividade de trading.
O lucro ordinário por ação atingiu 0,40 euro no semestre, no topo da faixa projetada internamente, com crescimento de 5% ante os 0,38 euro registrados no primeiro semestre do ano passado. O Ebitda ordinário, que exclui efeitos extraordinários, somou 11,8 bilhões de euros, acima do consenso de analistas compilado pela companhia, de 11,7 bilhões de euros. A receita ficou praticamente estável, passando de 40,82 bilhões de euros para 40,92 bilhões de euros.
De acordo com o balanço, o desempenho ordinário difere do lucro contábil divulgado sob normas internacionais, que inclui efeitos de desinvestimentos e reestruturações. No primeiro semestre de 2025, por exemplo, o Ebitda contábil havia sido de 11,09 bilhões de euros, impactado por operações extraordinárias ligadas ao plano de vendas de ativos iniciado em 2022. A distinção é relevante porque o grupo utiliza o conceito ordinário para ancorar sua política de dividendos e suas metas financeiras.
Receita quase estável esconde queda na Itália e expansão de redes e vendas internacionais
A receita de 40,92 bilhões de euros no primeiro semestre de 2026 representa avanço de apenas 0,2% sobre a base de 40,82 bilhões de euros do mesmo intervalo de 2025. A estabilidade reflete movimentos opostos entre geografias e negócios.
Conforme as demonstrações financeiras, as vendas caíram na Itália em função de preços médios menores e de volumes mais baixos nos mercados atacadista e de contratos com preços indexados. O mercado final italiano registrou retração de receita em razão da estratégia de retenção de clientes com preços mais competitivos e da redução de consumo em alguns segmentos. Já as receitas de distribuição e de geração cresceram na Espanha e na América Latina, impulsionadas por reajustes tarifários e por maior energia distribuída.
Na divisão por segmento observada nos últimos balanços, o braço de geração térmica e trading havia somado 15,1 bilhões de euros no primeiro semestre de 2025, com alta de 37% naquele período por vendas de commodities no atacado. A área de redes, Enel Grids, havia registrado 11,1 bilhões de euros, enquanto o mercado final, End-User Markets, havia alcançado 17,7 bilhões de euros. A composição de 2026 mantém a mesma lógica, com maior peso de redes e de comercialização na Península Ibérica e na América Latina para compensar a Itália.
Hidrologia fraca na Itália derruba margens e reduz contribuição do trading
A Enel informou que a rentabilidade na Itália foi afetada por queda da geração hidrelétrica, por preços mais suaves no varejo e por menor contribuição do trading. Segundo o comunicado divulgado pela companhia, a menor disponibilidade hídrica no país reduziu a geração renovável local e obrigou maior exposição a outras fontes, em um contexto de preços de energia menos favorável que em 2024.
O efeito hidrológico já havia sido apontado no primeiro semestre de 2025, quando o Ebitda ordinário ficou em 11,46 bilhões de euros, com queda de 1,8% em base reportada, mas alta de 0,9% em base comparável excluindo o Peru. Naquele semestre, a companhia havia destacado que a redução de margens no varejo italiano e em renováveis por menor disponibilidade hídrica foi compensada por redes na Itália, Espanha e Argentina e por negócios integrados na Espanha. O mesmo padrão se repetiu em 2026, com impacto cambial negativo na América Latina estimado em cerca de 270 milhões de euros no primeiro semestre de 2025, referência que ajuda a dimensionar a volatilidade cambial sobre o resultado regional.
O Ebitda ordinário de 11,8 bilhões de euros no primeiro semestre de 2026 indica melhora operacional quando isolados os efeitos não recorrentes. O Ebitda contábil, que inclui resultados de fusões, aquisições e reestruturações, tende a oscilar mais por provisões e ganhos de desinvestimento. Em 2025, o grupo havia registrado 341 milhões de euros em efeitos negativos de transações de fusão e aquisição no Ebitda ordinário para contábil.
Espanha e Américas sustentam resultado e compensam pressão doméstica
O desempenho da Espanha e da América Latina foi o principal suporte para o semestre. De acordo com o balanço, a Espanha beneficiou-se de maior margem no mercado final e de melhor performance nas redes, enquanto na América Latina houve contribuição positiva de reajustes tarifários em Argentina e no Brasil, além de maior volume distribuído.
Na Enel Américas, que concentra ativos de distribuição e geração em países como Brasil, Chile e Colômbia, o primeiro semestre de 2026 manteve a tendência de crescimento de Ebitda em base anual, ainda que com pressão cambial. A Enel Chile, por exemplo, reportou Ebitda de 685 milhões de dólares no primeiro semestre de 2026, com alta de 4% ano a ano. O resultado reforça a estratégia do grupo de priorizar geografias com maior retorno regulatório e menor exposição à volatilidade de preços de energia na Europa.
No Brasil, a Enel Brasil elevou em 31% os investimentos em distribuição no primeiro trimestre de 2026, aplicando 1,5 bilhão de reais na modernização e no aumento da resiliência da infraestrutura, sendo 690,3 milhões de reais destinados exclusivamente à rede de São Paulo. O número consta de comunicado divulgado pela companhia e indica a tentativa de responder a eventos climáticos extremos que afetaram a qualidade do serviço nos últimos anos.
Lucro ordinário avança menos que receita e programa de recompra reforça remuneração
O lucro líquido ordinário de 3,93 bilhões de euros no primeiro semestre representa cerca de 54% da meta anual de 7,1 a 7,3 bilhões de euros para 2026. O avanço de 2,8% no lucro ordinário na comparação anual reflete, além do desempenho operacional, menores despesas financeiras associadas à redução da dívida líquida.
Segundo as demonstrações financeiras do primeiro semestre de 2025, a dívida financeira líquida era de 55,4 bilhões de euros, com queda de 0,6% em relação ao fim de 2024, sustentada por fluxo de caixa operacional positivo e por efeitos cambiais. A companhia informou que a redução de despesas financeiras em cerca de 300 milhões de euros no primeiro semestre de 2025 ajudou a compensar menor resultado de participações avaliadas por equivalência patrimonial. A dinâmica se manteve relevante em 2026, em ambiente de juros ainda elevados na zona do euro.
A Enel também avançou na remuneração a acionistas. Conforme fato relevante divulgado pela companhia, o conselho de administração aprovou em 22 de fevereiro de 2026 o lançamento de um novo programa de recompra de ações de até 1 bilhão de euros, com limite de 150 milhões de ações, equivalente a aproximadamente 1,48% do capital. O programa, com execução entre 23 de fevereiro e 31 de julho de 2026, tem como objetivo proporcionar remuneração adicional além de dividendos, mediante cancelamento das ações adquiridas. O movimento sucede outro programa de cerca de 1 bilhão de euros encerrado em meados de dezembro de 2025 e ocorre após autorização dos acionistas para recompras de até 3,5 bilhões de euros.
Meta para 2026 é mantida com Ebitda de até 23,6 bilhões de euros
A Enel confirmou suas projeções para o ano. Segundo apresentação a investidores e comunicados do grupo, a meta para 2026 prevê Ebitda ordinário entre 23,1 bilhões e 23,6 bilhões de euros e lucro líquido ordinário entre 7,1 bilhões e 7,3 bilhões de euros, em linha com o plano estratégico 2026-2028 divulgado em fevereiro de 2026. O plano prevê 53 bilhões de euros em investimentos no triênio, com aumento de 10 bilhões de euros sobre o plano anterior, com foco em redes.
No primeiro trimestre de 2026, o Ebitda havia ficado estável em torno de 6 bilhões de euros e o lucro líquido em 1,94 bilhão de euros, com queda de 3%, em linha com o consenso. O resultado do primeiro semestre, portanto, coloca a companhia em trajetória para atingir o intervalo superior do guidance, como já havia ocorrido em 2025, quando a administração indicou expectativa de alcançar o topo da faixa ao final do ano.
A confirmação do guidance ocorre mesmo com geração hidrelétrica abaixo do esperado na Itália e com volatilidade cambial na América Latina. A empresa avalia que a alocação de capital em redes e a otimização de portfólio, com desinvestimentos no Peru concluídos em 2024, aumentaram a visibilidade dos fluxos de caixa e reduziram a exposição à volatilidade de commodities.
Operação no Brasil cresce em investimento mas enfrenta processo de caducidade em São Paulo
No Brasil, a Enel Distribuição São Paulo atende mais de 8 milhões de unidades consumidoras em 24 municípios da região metropolitana, em área de concessão de 4.526 quilômetros quadrados, com população estimada em cerca de 18 milhões de habitantes. A distribuidora é a maior do país em volume de energia vendida.
O balanço da subsidiária ainda não havia sido divulgado integralmente para o primeiro semestre de 2026 até a data de publicação do resultado global. No primeiro semestre de 2025, a companhia havia registrado lucro líquido de 439,9 milhões de reais, retração de 8,4% ante o mesmo período de 2024, com Ebitda de 1,95 bilhão de reais e margem de 18,7%. No segundo trimestre de 2025 isoladamente, o lucro havia sido de 72,7 milhões de reais, com queda de 66,9%, pressionado por menor Ebitda e maior depreciação. Esses números ajudam a contextualizar a base de comparação citada no mercado para 2026 e mostram que variações trimestrais elevadas são comuns por efeitos regulatórios e climáticos.
O ponto central para a operação brasileira é regulatório. De acordo com a Agência Nacional de Energia Elétrica, a diretoria colegiada decidiu instaurar processo administrativo de caducidade contra a Enel SP por falhas na prestação de serviços, com elevado tempo de atendimento emergencial, aumento de interrupções superiores a 24 horas e falhas no planejamento e execução de planos de contingência. A decisão, tomada em reunião pública ordinária, concluiu que as falhas continuaram mesmo após apresentação de plano de recuperação e que os indicadores permaneceram abaixo da média de outras distribuidoras em eventos climáticos extremos semelhantes ocorridos em 2023, 2024 e 2025.
Segundo a Aneel, a concessionária pode apresentar defesa em 30 dias e, somente após análise de eventual recurso, a agência poderá recomendar ou não ao Ministério de Minas e Energia a caducidade do contrato. Além disso, foi determinada a suspensão da análise de renovação do contrato de concessão, prevista no Decreto nº 12.068 de 2024. O contrato da Enel SP vence em 2028 e, com a instauração do processo punitivo, fica impedida a renovação automática, o que complica eventual venda da concessão, alternativa utilizada por empresas em situações semelhantes no setor elétrico.
Risco regulatório eleva atenção sobre ativos e custo financeiro no Brasil
A discussão sobre a concessão paulista tem impacto financeiro relevante. Segundo relatório anual da Enel auditado pela KPMG, ativos financeiros e intangíveis no valor de 3,34 bilhões de euros, cerca de 3,9 bilhões de dólares, além de 595 milhões de euros em ágio, estão em risco em caso de perda da concessão em São Paulo. A auditoria apontou a recuperabilidade desses valores e a possível renovação como questão fundamental na análise das contas do grupo.
Em abril de 2026, a Fitch rebaixou a classificação da Enel Brasil citando maior risco de não renovação da concessão da Enel SP, principal ativo do grupo no país, que responde por cerca de 34% do Ebitda consolidado da Enel Brasil, estimado em 10,6 bilhões de reais para 2026. A agência destacou que, se a caducidade for declarada, dívidas da distribuidora paulista poderiam ser aceleradas, e mencionou a abertura de linha de crédito de 2 bilhões de dólares pela controladora Enel Américas à Enel Brasil para mitigar liquidez.
No campo judicial, a Enel SP entrou na Justiça Federal do Distrito Federal e obteve medida liminar que suspendeu a tramitação do processo de caducidade na Aneel, sob argumento de nulidade de voto do diretor-geral. A empresa também solicitou perícia técnica e apresentou defesa pedindo anulação e arquivamento do processo, sustentando ausência de métricas específicas no contrato para avaliação de restabelecimento de serviço em eventos climáticos extremos. A Aneel informou que analisa o recurso e que ainda decidirá sobre eventual recomendação de caducidade ao ministério.
Para consumidores, o processo não altera imediatamente tarifas ou atendimento, mas mantém pressão por melhoria de indicadores como DEC, duração equivalente de interrupção, e FEC, frequência equivalente, que no primeiro semestre de 2025 ficaram em 6,73 horas e 3,32 vezes, respectivamente, dentro dos limites regulatórios estabelecidos na revisão tarifária, de 6,98 horas e 4,76 vezes. Para investidores, o risco regulatório no Brasil adiciona volatilidade ao fluxo de caixa futuro, em momento no qual o grupo busca reduzir alavancagem e financiar o plano de 53 bilhões de euros até 2028.
Próximos passos incluem decisão da Aneel e atualização de projeções no segundo semestre
A agenda dos próximos meses inclui a conclusão da defesa da Enel SP na Aneel, a análise de perícia solicitada pela companhia e a deliberação final da diretoria sobre recomendação de caducidade ao Ministério de Minas e Energia. Em paralelo, a Enel deve apresentar os resultados do terceiro trimestre de 2026 e atualizar o plano de investimentos, com atenção à execução do programa de recompra e à evolução da geração hidrelétrica na Itália.
No cenário internacional, a companhia monitora a evolução de preços de energia na Europa, a volatilidade cambial na América Latina e o cronograma de reajustes tarifários em distribuição. A manutenção do guidance para 2026 dependerá da estabilidade desses fatores e da capacidade de manter o crescimento de redes na Espanha e na América Latina para compensar a pressão na Itália. A próxima divulgação relevante será o balanço do terceiro trimestre, quando o grupo costuma revisar projeções de dívida e de dividendos.










