A maior rede varejista do Paraná não quebrou por falta de cliente. Quebrou por falta de caixa. Em 18 de dezembro de 2008, a Dudony, nascida como distribuidora em 1988 e transformada em império de 110 lojas, entrou com pedido de recuperação judicial na 1ª Vara Cível de Maringá. Seis meses depois, foi vendida por R$ 25,6 milhões, exatos 25% do que devia, para o único comprador que apareceu na assembleia: o Grupo Silvio Santos.
A história cabe em três números, mas explica uma década inteira do varejo brasileiro. R$ 104.919.331,00 era o valor da dívida com bancos e fornecedores de linha branca e marrom. R$ 5 milhões era o que restava de estoque nas gôndolas na véspera da venda. E 1.168 era o número de funcionários que o novo dono teria que decidir se mantinha.
O império de 111 lojas que nasceu no balcão
A Dudony não era uma aventureira. Era a Dismar e a Markoeletro no nome fantasia, empresas construídas ao longo de 21 anos em Maringá. A primeira loja, aberta em 1992, transformou uma distribuidora de eletrodomésticos em rede.
No auge, em 2008, os números variam conforme a fonte judicial, mas convergem no tamanho. A empresa contava com 111 lojas no Brasil segundo a CPI das Falências da Assembleia Legislativa do Paraná. Na assembleia de credores de junho de 2009, o número oficial era de 110 lojas, incluindo 17 virtuais que vendiam por catálogo, sendo 101 no Paraná e 9 em São Paulo, além de cerca de 1.000 funcionários ainda ativos. Outra ata da época registra 99 das 110 lojas no Paraná, o que a confirmava como a maior empresa do setor no estado.
Era um varejo de interior, pulverizado, dependente de crediário próprio e de fornecedores de geladeira, fogão e móveis. Um modelo que funcionou enquanto o crédito estava barato.
Veio 2008. A crise financeira global secou o crédito no atacado. Os fornecedores encurtaram prazo. Os bancos encareceram o capital de giro. A Dudony, alavancada em estoque e em lojas alugadas, não teve como girar.
A assembleia que decidiu entre a venda e a falência
O pedido de recuperação judicial em dezembro de 2008 foi uma tentativa de ganhar tempo para negociar. Não funcionou no início.
No final de fevereiro de 2009, a rede colocou à venda as lojas do grupo no estado de São Paulo, mas não encontrou interessados. O varejo paulista já olhava para redes maiores.
O ponto de virada foi 16 de junho de 2009. Numa assembleia em Maringá com 150 dos 235 credores presentes, a venda foi colocada em votação. O Baú Crediário, do Grupo Silvio Santos, apresentou a única proposta.
O plano foi aprovado por 75,7% dos presentes, 13,6% votaram contra e o restante se absteve. Tinham direito a voto 240 pessoas físicas e jurídicas. Do total, 85 credores com dívidas de até R$ 20 mil receberiam integralmente e de imediato. Os grandes teriam deságio.
Quem votou contra? Os bancos. HSBC, Bradesco e Itaú Unibanco, mesmo em minoria, rejeitaram a proposta. Só o Itaú tinha cerca de R$ 5 milhões a receber. A dívida total de R$ 104 milhões era justamente com instituições financeiras e fornecedores de linha branca e linha marrom.
Do lado de fora, um grupo de funcionários fazia vigília. Se o plano não fosse aprovado, a alternativa era a falência e demissão em massa. Foi o que resumiu o diretor jurídico da época, Cleverson Colombo: “A outra solução seria a falência. A aprovação do plano era uma questão social”. O estoque, que seis meses antes valia R$ 27 milhões, havia caído para R$ 5 milhões. As lojas estavam vazias, só com parte do mostruário.
Silvio Santos contra Ratinho: a disputa pela Dudony
A venda não foi discreta. A Dudony foi disputada por dois homens de televisão. De um lado, Silvio Santos, então com 78 anos, dono do SBT, de instituições financeiras e de hotéis. Do outro, Carlos Roberto Massa, o Ratinho, que tem programa na mesma emissora e comanda a Rede Massa no Paraná.
O Grupo Silvio Santos pagou R$ 25,6 milhões por 110 lojas, sendo 11 no interior de São Paulo, com pagamento escalonado até 2014. Na prática, a operação foi estruturada como R$ 33 milhões, sendo R$ 25 milhões para pagar dívidas com credores e R$ 8 milhões para saldar contas administrativas firmadas antes da venda. Outra ata registra o valor final de R$ 33,5 milhões, com a mesma divisão de R$ 25 milhões para credores e R$ 8 milhões para despesas administrativas.
Para Silvio Santos, a Dudony era um atalho. O Baú Crediário tinha apenas 20 lojas em 2009, 19 em São Paulo e uma em Minas Gerais. Com a compra, saltaria de uma só vez para 130 lojas. O plano anunciado na época era ambicioso: chegar a 224 pontos de venda até 2014 e multiplicar por dez a rede até 2014, para competir com Casas Bahia e Ponto Frio. O grupo também avaliava comprar o Ponto Frio, com 458 lojas, para cumprir a meta.
O desafio imediato, porém, era operacional. “Reabastecer as 110 lojas, que estão apenas com parte do mostruário, os pontos de venda ficaram quase vazios”, dizia o diretor de varejo Décio Pedro Thomé na época. A administração continuaria no Paraná, separada das outras lojas do Baú, e a troca de bandeira seria gradual. A estimativa interna era de 60 dias para organizar a operação.
O rombo fiscal que a conta não fechava
Foi aí que a história saiu da esfera econômica e entrou na judicial. O que parecia ser uma dívida de R$ 104 milhões com bancos e fornecedores escondia um passivo tributário muito maior.
O Tribunal de Justiça do Paraná suspendeu a venda dias depois da assembleia. O motivo: a Procuradoria Geral do Estado entrou com agravo alegando que a Dudony tinha uma dívida tributária de R$ 254,7 milhões cujo pagamento não estava previsto no plano de recuperação.
A defesa da Dudony contestou o número. Alegou que a dívida tributária era de R$ 155 milhões, sendo R$ 109 milhões já parcelados e o restante com garantia, e que a empresa ainda tinha R$ 65 milhões em precatórios a receber do Estado. Para o desembargador Lauri Caetano da Silva, o plano “não apresenta um mínimo de consistência por falta de um adequado diagnóstico da natureza da crise”.
A discussão revelou a engenharia societária. As proprietárias formais eram a Distribuidora Maringá de Eletrodomésticos (Dismar) e a Markoeletro Comércio de Eletrodomésticos, que incluía a venda das lojas mas não mencionava como seriam pagos os créditos tributários. Uma cláusula determinava que a adquirente, a BF Utilidades Domésticas ligada ao Baú, não seria responsável pela dívida.
O caso acabou na CPI das Falências da Assembleia Legislativa. Em depoimento em Maringá, o administrador judicial Paulo Hiroshi confirmou que a empresa contava com 111 lojas e havia deixado um rombo fiscal de aproximadamente R$ 250 milhões aos cofres públicos e dívidas que superam R$ 200 milhões. Os credores haviam aprovado há menos de dois anos a venda dos ativos para o Baú por R$ 33 milhões, mas o fisco, que ficaria por último na fila depois das dívidas trabalhistas e dos credores, questionava quando receberia.
O fim do Baú e a revenda para o Magazine Luiza
A compra da Dudony nunca se pagou como o Grupo Silvio Santos imaginou. O Baú Crediário chegou a 127 lojas em 2011, 100 no Paraná, 26 em São Paulo e uma em Minas, mas carregava mais de 70% de sua dívida vinda da operação Dudony.
Em 2010, o grupo revelou um rombo de R$ 4 bilhões no banco Panamericano. Precisou vender ativos. As Lojas do Baú Crediário foram negociadas com o Magazine Luiza por R$ 83 milhões, valor que incluía 121 lojas alugadas, mas deixava de fora os dois centros de distribuição em São Paulo e Maringá e todo o passivo fiscal de R$ 237 milhões e outros R$ 35 milhões com bancos, fornecedores e trabalhistas.
Foi o fim de um ciclo de consolidação do varejo brasileiro entre 2008 e 2011, em que Ponto Frio, Casas Bahia, Baú e Dudony mudaram de mãos. A Dudony, que começou como distribuidora num galpão de 11 mil metros quadrados em Maringá, virou estudo de caso sobre o risco de crescer via lojas alugadas sem colchão tributário.
Hoje, o nome Dudony só sobrevive em processos judiciais e em depoimentos na Assembleia. O que era ponto de venda virou Magazine Luiza. O que era dívida de fornecedor virou precatório. E o que era a maior rede do Paraná virou um alerta: no varejo, faturamento sem margem é apenas contagem regressiva para a recuperação judicial.










