A ausência de Sergio Moro (PL) tornou-se um dos principais assuntos do primeiro debate televisivo da disputa pelo governo do Paraná em 2026. O senador desistiu de participar do confronto promovido pela Band neste domingo, 9 de agosto, poucas horas antes do início da transmissão, alegando que seus adversários teriam organizado um “jogo combinado” para atacá-lo.
Moro não apresentou publicamente documentos, mensagens ou outros elementos que demonstrassem a existência do acordo mencionado. A decisão abriu espaço para que Requião Filho (PDT) e Sandro Alex (PSD), presentes no estúdio em Curitiba, transformassem a ausência do candidato do PL em argumento eleitoral.
Requião Filho classificou Moro como “fujão”. Sandro Alex afirmou que, para governar o Paraná, um candidato não poderia ser “covarde”. As expressões foram utilizadas pelos dois concorrentes como ataques políticos e não constituem avaliações factuais sobre o senador.
O episódio ganhou peso adicional porque a campanha de Moro havia participado da preparação do debate. Segundo a Band, representantes do candidato estiveram nas reuniões realizadas pela emissora e assinaram os termos de compromisso e as regras estabelecidas para o confronto.
Campanha de Moro participou da preparação do debate
A organização do programa começou semanas antes da transmissão. Em 20 de julho, a Band Paraná reuniu representantes de partidos e integrantes das áreas de Jornalismo, Programação e Jurídico da emissora para definir o regulamento do primeiro debate estadual das eleições de 2026.
Naquele momento, estavam previstos Sergio Moro, Sandro Alex, Requião Filho e Rafael Greca. Representantes de PL, PSD, PDT e MDB participaram da reunião. A composição ainda dependia das convenções partidárias e da configuração definitiva das candidaturas.
As regras estabeleciam três blocos, confrontos diretos, perguntas entre os participantes, réplicas, tréplicas e considerações finais. Também havia previsão de direito de resposta para declarações que se enquadrassem nos critérios definidos pela organização. Até a manhã de domingo, a própria Band anunciava o programa com Moro, Requião Filho e Sandro Alex. A emissora informou posteriormente que representantes de Moro haviam participado das reuniões em Curitiba e assinado os termos de compromisso. O regulamento previa que o debate seria realizado mesmo se um dos convidados decidisse não comparecer.
Foi esse dispositivo que permitiu a manutenção do confronto após a desistência do senador.
Moro alega “jogo combinado”
A decisão de não comparecer foi anunciada no fim da tarde de domingo. Em vídeo divulgado nas redes sociais, Moro afirmou: “Eu não vou ao debate porque me recuso a entrar nesse jogo combinado.”
O senador disse não ter medo de debates e argumentou que o confronto estaria sendo transformado em uma disputa de ataques pessoais, em vez de uma discussão sobre projetos para o Paraná.
Moro também vinculou sua decisão a uma suposta articulação envolvendo PT e PSD e sustentou que seus adversários pretendiam concentrar esforços para desgastá-lo durante o programa.
A acusação, contudo, não veio acompanhada de evidências públicas capazes de demonstrar que Requião Filho e Sandro Alex haviam combinado previamente uma estratégia conjunta no debate.
A distinção é relevante: a existência de uma articulação foi apresentada por Moro como argumento político para justificar sua ausência, mas não foi demonstrada documentalmente.
A aproximação política de Requião Filho com partidos do campo progressista é pública. O PDT vinha construindo desde 2025 uma frente eleitoral no Paraná que envolve legendas como PT, PV e PCdoB. Isso, isoladamente, não comprova a existência de qualquer acordo entre Requião e Sandro Alex para atuar conjuntamente contra Moro no debate.
Sandro Alex, por sua vez, procurou justamente se apresentar como representante da direita paranaense e declarou ter feito oposição ao PT.
Requião Filho transforma ausência em argumento de campanha
Requião Filho reagiu antes mesmo do início do programa. Depois que Moro anunciou a desistência, o candidato do PDT afirmou que o senador havia fugido do debate e classificou a decisão como desrespeitosa aos participantes e aos eleitores. A crítica continuou durante o programa. Em uma das referências ao adversário ausente, Requião utilizou a expressão “Sergio, o fujão” ao mencionar uma pergunta que pretendia fazer ao candidato do PL.
O pedetista também explorou o fato de que representantes de Moro haviam participado da preparação do evento. A estratégia foi associar a mudança de decisão à capacidade do senador de cumprir compromissos assumidos durante a campanha.
Sem Moro no estúdio para apresentar sua versão diretamente ou rebater as acusações, Requião e Sandro tiveram maior liberdade para explorar politicamente a desistência.
Sandro Alex disputa espaço com Moro na direita
Sandro Alex adotou uma estratégia diferente. Enquanto Requião concentrou as críticas na decisão de não comparecer, o candidato do PSD tentou colocar em disputa atributos tradicionalmente associados à imagem política de Moro, especialmente coragem, enfrentamento e identidade com a direita. Durante a repercussão da desistência, Sandro afirmou que sempre fez oposição ao PT, declarou representar a direita no Paraná e atacou diretamente o adversário.
“Para ser governador do Paraná não pode ser covarde”, afirmou.
A declaração deve ser compreendida como um ataque eleitoral do candidato do PSD contra o concorrente do PL. Politicamente, porém, revela uma das disputas importantes abertas pela ausência de Moro: a tentativa de Sandro Alex de conquistar eleitores identificados com o campo conservador.
Moro construiu parte significativa de sua trajetória nacional com uma imagem ligada ao combate à corrupção e ao crime organizado. Sandro procurou utilizar a ausência justamente para questionar o atributo de enfrentamento associado ao senador.
Moro liderava pesquisa antes do debate
A decisão também precisa ser analisada dentro do cenário eleitoral do Paraná. Pesquisa Genial/Quaest realizada entre 21 e 25 de julho mostrava Moro isolado na liderança da disputa estadual, com 39% a 40% das intenções de voto, dependendo do cenário testado.
No principal cenário divulgado pelo instituto naquele momento, Requião Filho aparecia com 18%, Rafael Greca com 12% e Sandro Alex com 7%. O levantamento ouviu 1.104 eleitores paranaenses e apresentou margem de erro de três pontos percentuais, com nível de confiança de 95%. Os registros informados foram PR-04818/2026 e BR-01656/2026.
Outro dado ajuda a dimensionar o grau de incerteza da eleição: 64% dos entrevistados disseram que ainda poderiam mudar o voto, enquanto 35% declararam decisão definitiva.
A liderança de Moro ajuda a explicar por que sua ausência se tornou imediatamente um ativo político para os adversários. O candidato à frente da corrida era justamente o nome que não estava disponível para responder aos ataques durante o primeiro grande confronto televisivo.
Ausência muda dinâmica do primeiro debate
Sem Moro, o programa foi realizado com Requião Filho e Sandro Alex sob mediação da jornalista Alessandra Consoli. O formato originalmente desenvolvido para permitir confrontos entre três participantes teve de funcionar com apenas dois candidatos no estúdio. A ausência criou uma situação eleitoral assimétrica.
Requião e Sandro ganharam mais espaço para apresentar propostas, confrontar um ao outro e, ao mesmo tempo, criticar Moro. O senador, por outro lado, evitou participar de um debate de aproximadamente duas horas no qual seria questionado diretamente por seus concorrentes.
Não é possível concluir, apenas a partir do episódio, se a estratégia beneficiará ou prejudicará Moro eleitoralmente. O impacto dependerá da repercussão entre os eleitores, do comportamento das campanhas e, principalmente, das próximas pesquisas de intenção de voto.
O efeito imediato, porém, é verificável: a desistência alterou o foco do primeiro debate pelo governo do Paraná e entregou aos dois adversários presentes um tema que passou a ser explorado contra a candidatura do PL.
Próximos debates colocarão estratégia de Moro à prova
A principal questão agora é saber se a decisão tomada no domingo será um episódio isolado ou parte de uma estratégia mais ampla da campanha. Caso Moro participe dos próximos encontros, é provável que Requião Filho e Sandro Alex retomem a ausência na Band como argumento durante os confrontos.
Uma nova desistência, por outro lado, tende a ampliar a pressão para que a campanha explique por que o candidato evita participar dos principais debates televisivos. Moro sustenta uma interpretação diferente. Para ele, a recusa foi uma reação a um ambiente que considerava previamente montado para promover ataques contra sua candidatura.
Os adversários apresentam a situação de outra maneira: Requião tenta associá-la à fuga de um compromisso, enquanto Sandro procura convertê-la em uma discussão sobre coragem e capacidade de enfrentar pressão. A disputa política continuará em torno dessas interpretações.
O ponto objetivo permanece: a campanha de Moro participou da preparação do debate, seus representantes aceitaram as regras e o senador desistiu poucas horas antes da transmissão, justificando a decisão com uma acusação de “jogo combinado” que não foi acompanhada de provas públicas.
A forma como o eleitorado paranaense responderá ao episódio deverá começar a aparecer nas próximas rodadas de pesquisas.










