Oito em cada dez eleitores classificados como independentes estão pouco ou nada interessados nas eleições presidenciais de 2026, segundo dados da pesquisa Quaest realizada entre 10 e 13 de agosto. O grupo corresponde a 32% dos entrevistados e reúne pessoas que não se identificam com a esquerda, a direita, o lulismo ou o bolsonarismo, formando um contingente potencialmente decisivo em uma disputa nacional marcada pelo equilíbrio entre Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL).
Entre os independentes, apenas 20% afirmam estar muito interessados nas eleições. Outros 47% dizem ter pouco interesse e 33% não demonstram interesse algum. A soma dos dois últimos grupos chega a 80%, proporção 17 pontos percentuais superior à registrada no conjunto do eleitorado, no qual 63% se declaram pouco ou nada interessados.
O dado ganha relevância porque a pesquisa foi realizada antes do início oficial da campanha eleitoral. As entrevistas ocorreram de 10 a 13 de agosto, enquanto a propaganda nas ruas e na internet foi autorizada somente a partir de domingo, 16 de agosto. O primeiro turno será realizado em 4 de outubro.
Isso coloca os independentes no centro de uma das principais questões estratégicas da campanha: os candidatos não precisam apenas convencer esse eleitorado a escolher um nome, mas primeiro aumentar seu nível de atenção à própria disputa.
Independentes representam 32% e podem decidir eleição apertada
A Quaest ouviu 2.004 eleitores de 16 anos ou mais entre 10 e 13 de agosto. A pesquisa possui margem de erro máxima de dois pontos percentuais para o conjunto da amostra, nível de confiança de 95% e registro BR-06773/2026 na Justiça Eleitoral.
Dentro da classificação política utilizada pelo instituto, 32% se enquadram como independentes. Trata-se de um eleitor que não assume identificação com os dois campos que dominam a política nacional nos últimos anos e tampouco se posiciona simplesmente como integrante da esquerda ou da direita.
Esse perfil torna o segmento especialmente relevante em 2026.
Lula e Flávio Bolsonaro chegam ao período oficial de campanha concentrando a maior parte das intenções de voto no eleitorado geral. Na rodada da Quaest divulgada em agosto, Lula aparece com 38% no primeiro turno e Flávio com 31%. Em eventual segundo turno entre ambos, são 43% para Lula e 40% para Flávio, resultado caracterizado como empate técnico dentro da margem de erro.
Entre os independentes, contudo, a polarização é consideravelmente menor.
Lula tem 23% e Flávio Bolsonaro 16% entre independentes
No cenário estimulado de primeiro turno, Lula lidera entre os eleitores independentes com 23% das intenções de voto. Flávio Bolsonaro aparece com 16%.
A distância nominal entre ambos é de sete pontos percentuais, mas o aspecto mais significativo do recorte está fora das duas principais candidaturas.
Renan Santos (Missão) registra 8%, Ronaldo Caiado (PSD) tem 6%, Augusto Cury (Avante) aparece com 4%, Romeu Zema (Novo) tem 3%, enquanto Samara Martins (UP) e Edmilson Costa (PCB) registram 1% cada.
Outros 20% permanecem indecisos e 18% afirmam que pretendem votar em branco, anular ou não comparecer.
A soma desses dois últimos grupos chega a 38%.
O percentual é praticamente igual aos 39% obtidos conjuntamente por Lula e Flávio Bolsonaro entre os independentes.
Esse é um dos dados que melhor dimensionam a distância desse segmento em relação à polarização observada no conjunto do eleitorado. Nacionalmente, Lula e Flávio somam 69% das intenções de voto no primeiro turno. Entre os independentes, os dois chegam juntos a apenas 39%.
A diferença é de 30 pontos percentuais.
Quase quatro em cada dez independentes não escolhem candidato
O volume de indecisos, brancos e nulos torna o eleitor independente um espaço de disputa muito maior do que os percentuais individuais dos candidatos podem sugerir.
Se 38% desse grupo ainda não aponta uma candidatura válida no primeiro turno, existe uma parcela expressiva do eleitorado potencialmente disponível durante a campanha.
Isso não significa que todos esses votos migrarão para algum candidato. Uma parte pode permanecer no voto branco ou nulo até outubro, e outra pode efetivamente se abster.
O número mostra, porém, que a cristalização do voto é muito menor nesse segmento do que entre eleitores ideologicamente vinculados aos principais campos políticos.
A campanha que começou oficialmente em 16 de agosto oferece aos candidatos pouco mais de um mês e meio para tentar alterar essa configuração antes do primeiro turno. A propaganda eleitoral gratuita no rádio e na televisão começa em 28 de agosto e segue até 1º de outubro.
Flávio tem 35% e Lula 29% em eventual segundo turno
Quando o cenário é reduzido a Lula e Flávio Bolsonaro, a ordem numérica se inverte entre os independentes.
Flávio registra 35%, enquanto Lula aparece com 29%. A diferença é de seis pontos percentuais.
O resultado, entretanto, é considerado empate técnico, porque a margem de erro específica desse segmento é de quatro pontos percentuais para mais ou para menos.
Mais uma vez, o eleitor que não escolhe nenhuma das candidaturas ocupa parcela significativa do cenário.
Brancos, nulos e aqueles que afirmam não votar chegam a 27%. Outros 9% permanecem indecisos.
Somados, são 36% dos independentes sem voto em Lula ou Flávio Bolsonaro mesmo em uma disputa restrita aos dois candidatos.
Esse percentual é superior aos 35% registrados por Flávio e aos 29% de Lula individualmente.
A disputa pelo segmento, portanto, não está limitada à transferência de votos entre os dois principais candidatos. Uma parte importante do desafio será converter eleitores atualmente desmobilizados em votos válidos.
Rejeição de Lula e Flávio chega a cerca de 60%
Outro indicador reforça a resistência dos independentes à atual polarização.
Lula registra 60% de rejeição nesse grupo, enquanto Flávio Bolsonaro tem 59%. A diferença entre ambos é de apenas um ponto percentual.
Os demais candidatos aparecem muito abaixo. Ronaldo Caiado e Romeu Zema têm rejeição de 28% cada. Rui Costa Pimenta (PCO) registra 17%; Renan Santos, 13%; e Augusto Cury, 12%.
A combinação de rejeição próxima de 60% para os dois líderes nacionais e elevada proporção de eleitores sem candidato ajuda a explicar por que a disputa permanece aberta nesse segmento.
No conjunto do eleitorado, Flávio apresenta rejeição de 54% e Lula, de 52%. Entre os independentes, portanto, a resistência é maior para os dois.
A rejeição de Lula aumenta oito pontos percentuais quando se passa do eleitorado geral para os independentes. A de Flávio cresce cinco pontos.
85% manifestam algum medo de Lula, Bolsonaro ou dos dois
A Quaest também perguntou aos entrevistados qual cenário provoca mais medo: a reeleição de Lula ou a volta dos Bolsonaro ao poder.
Entre os independentes, 37% dizem ter mais medo da volta da família Bolsonaro, enquanto 35% apontam a reeleição de Lula.
Outros 13% respondem que têm medo dos dois.
Somadas, essas três respostas significam que 85% dos independentes manifestam algum grau de temor em relação a pelo menos um dos dois principais campos políticos.
Somente 6% afirmam não ter medo de nenhum deles. Outros 9% não souberam ou preferiram não responder.
O resultado ajuda a explicar a aparente contradição do segmento: os independentes podem decidir a eleição, mas demonstram pouco entusiasmo pela disputa e alta resistência aos dois candidatos mais competitivos.
Não se trata, portanto, apenas de um eleitorado moderado localizado entre dois polos. Os números mostram também um grupo que, em grande parte, rejeita aspectos de ambos.
Avaliação de Lula entre independentes é mais negativa
A percepção sobre o atual governo também ajuda a explicar as dificuldades de Lula nesse segmento.
Entre os independentes, 36% classificam a administração federal como negativa. Outros 34% consideram o governo regular e 26%, positivo. Os que não sabem ou não respondem representam 4%.
Isso significa que avaliações positivas são minoritárias e ficam dez pontos percentuais abaixo das negativas.
Ao mesmo tempo, a parcela que considera a administração regular é elevada. Esse grupo pode adquirir importância durante a campanha porque não expressa nem aprovação clara nem rejeição plena ao governo.
Para Lula, a estratégia passa por transformar parte desse eleitorado intermediário em avaliação positiva e voto.
Para Flávio Bolsonaro, o desafio é diferente: captar insatisfação com o governo sem esbarrar na rejeição de 59% que ele próprio enfrenta entre os independentes.
Com campanha aberta, independentes tornam-se alvo central
Os números foram coletados antes de candidatos poderem pedir votos oficialmente nas ruas e na internet. Desde domingo, 16 de agosto, a campanha entrou em uma nova fase, autorizada pela legislação eleitoral.
Isso torna particularmente importante acompanhar as próximas rodadas da Quaest.
Se o nível de interesse dos independentes aumentar com propaganda, debates, horário eleitoral e exposição das propostas, a atual parcela de 38% formada por indecisos, brancos, nulos e abstenção potencial no primeiro turno poderá diminuir.
A direção desse movimento pode ser mais importante para o resultado da eleição do que pequenas oscilações dentro dos eleitorados já identificados com Lula ou Bolsonaro.
Há uma razão matemática para isso: o segmento representa praticamente um terço do eleitorado pesquisado, apresenta baixa identificação ideológica e concentra muito mais votos em aberto que o conjunto da população.
O retrato da Quaest mostra, portanto, um paradoxo que deve acompanhar a eleição até outubro. Os eleitores com maior potencial para desequilibrar uma disputa apertada são também aqueles que demonstram menos interesse por ela.
Lula aparece numericamente na frente de Flávio Bolsonaro entre os independentes no primeiro turno, enquanto Flávio fica numericamente à frente em uma simulação direta de segundo turno. Nenhuma dessas vantagens, porém, elimina o dado mais estrutural: uma parcela expressiva desse eleitorado ainda não foi capturada pelos dois polos.
Com o primeiro turno marcado para 4 de outubro, converter desinteresse em participação e rejeição em escolha deve se transformar em uma das principais batalhas da campanha presidencial de 2026.
Fontes:
Quaest — levantamento nacional sobre intenção de voto, perfil político, rejeição e comportamento dos eleitores nas Eleições 2026.
Tribunal Superior Eleitoral — calendário oficial e regras para propaganda nas Eleições 2026.







