Os preços do petróleo encerraram esta terça-feira (11) novamente em alta, embora com avanço bem mais moderado do que o observado no pregão anterior, enquanto investidores acompanharam as negociações em torno da normalização do tráfego pelo Estreito de Ormuz, uma das rotas mais importantes para o abastecimento mundial de energia.
O contrato do Brent para outubro avançou 1,36%, para US$ 88,91 por barril, enquanto o WTI para setembro subiu 1,3%, a US$ 83,20. O movimento ocorreu depois de uma valorização próxima de 5% na segunda-feira, quando a redução das expectativas de uma solução rápida para o impasse envolvendo Estados Unidos e Irã devolveu força ao prêmio geopolítico incorporado às cotações.
A sessão desta terça foi marcada por oscilações. O petróleo chegou a perder força diante de sinais de que as negociações poderiam avançar, mas voltou a subir à medida que permaneceram dúvidas sobre as condições necessárias para que o fluxo marítimo pela região retorne aos níveis considerados normais.
Mais do que o movimento diário dos contratos futuros, o mercado procura medir quanto tempo a instabilidade poderá afetar o transporte de petróleo produzido no Golfo Pérsico. O Estreito de Ormuz movimentou, no primeiro semestre de 2025, cerca de 20,9 milhões de barris de petróleo e outros líquidos por dia, volume equivalente a aproximadamente 20% do consumo mundial e a um quarto do comércio marítimo global da commodity, segundo a Administração de Informação de Energia dos Estados Unidos, a EIA.
Ormuz mantém prêmio de risco no petróleo
A importância do estreito explica por que qualquer alteração no fluxo de navios produz respostas rápidas nas cotações internacionais.
Localizado entre o Irã e Omã, Ormuz conecta o Golfo Pérsico ao Golfo de Omã e ao Mar Arábico, funcionando como saída marítima para grandes produtores da região. Embora existam oleodutos capazes de contornar parcialmente a passagem, sua capacidade é muito inferior ao volume normalmente transportado pelo estreito.
A EIA calcula que oleodutos da Arábia Saudita e dos Emirados Árabes Unidos poderiam fornecer aproximadamente 4,7 milhões de barris por dia de capacidade de desvio, uma fração do fluxo normalmente realizado por Ormuz. Isso significa que uma interrupção prolongada não poderia ser integralmente compensada por rotas terrestres.
A situação tornou-se ainda mais complexa ao longo de 2026. Omã, que divide com o Irã as águas territoriais do estreito, vem conduzindo esforços diplomáticos para restabelecer a liberdade de navegação e chegou a trabalhar com a Organização Marítima Internacional na criação de um corredor marítimo temporário para embarcações. Em julho, o governo omanense afirmou que continuava cooperando com as partes envolvidas para restaurar plenamente a navegação.
Paralelamente, o governo americano mantém uma postura de forte pressão sobre Teerã. No fim de julho, a Casa Branca informou que o presidente Donald Trump considerava o bloqueio naval uma ferramenta central da estratégia americana e afirmou que os Estados Unidos mantinham controle militar relevante sobre a passagem de embarcações ligadas ao Irã.
Esse ambiente ajuda a explicar por que as cotações permanecem extremamente sensíveis a notícias relacionadas às negociações diplomáticas, sanções, segurança marítima e fluxo de navios.
Mercado oscila entre acordo e risco de nova escalada
A volatilidade desta terça-feira mostrou o grau de dependência do petróleo em relação às notícias vindas do Oriente Médio.
Quando surgem sinais de aproximação diplomática, os contratos tendem a recuar porque investidores passam a incorporar a possibilidade de maior oferta disponível no mercado. Quando as negociações aparentam estagnar ou surgem novas ameaças à navegação, o prêmio de risco volta rapidamente para os preços.
O comportamento também explica a diferença entre a forte valorização da segunda-feira e o avanço mais contido desta terça. Depois de uma disparada próxima de 5%, parte do risco geopolítico já havia sido incorporada, tornando necessárias novas informações para sustentar movimentos da mesma magnitude.
A questão central, entretanto, permanece sem solução definitiva: o mercado precisa saber quando o transporte marítimo pelo estreito poderá voltar a funcionar em condições próximas das observadas antes da crise e quais garantias existirão para evitar novas interrupções.
Omã e Irã já haviam divulgado um comunicado conjunto defendendo a passagem segura pelo Estreito de Ormuz e a continuidade do diálogo sobre a administração da navegação. Os dois países também concordaram em manter um grupo de trabalho entre seus ministérios das Relações Exteriores para discutir uma estrutura mais duradoura para o tráfego na região.
Enquanto essas negociações não produzirem estabilidade suficiente, o risco de oferta continuará fazendo parte da formação dos preços.
Petróleo caro volta a preocupar mercados com inflação
A recuperação das cotações também recolocou a energia no centro das discussões sobre inflação internacional.
Uma alta persistente do petróleo tende a atingir inicialmente combustíveis e custos de transporte, mas seus efeitos podem se disseminar por diferentes partes da economia. Fretes, aviação, logística, produtos petroquímicos e cadeias industriais dependentes de energia podem sofrer aumento de custos caso os preços permaneçam elevados por um período prolongado.
Esse mecanismo preocupa especialmente os investidores americanos porque nesta quarta-feira (12) será divulgado o Índice de Preços ao Consumidor dos Estados Unidos referente a julho, o CPI, uma das principais referências utilizadas pelo mercado para projetar os próximos movimentos do Federal Reserve.
O calendário oficial do Bureau of Labor Statistics confirma que o CPI de julho será divulgado às 8h30 no horário da Costa Leste dos Estados Unidos nesta quarta-feira.
O dado ganhou importância adicional porque o mercado de trabalho americano apresentou um resultado significativamente mais fraco em julho.
Segundo o relatório oficial do Departamento do Trabalho, os Estados Unidos eliminaram 23 mil empregos fora do setor agrícola em julho, enquanto a taxa de desemprego ficou em 4,1%. O resultado veio acompanhado de revisões negativas expressivas para os dois meses anteriores.
Payroll perdeu 23 mil vagas em julho
Os números oficiais do mercado de trabalho ampliaram a percepção de desaceleração da economia americana.
A criação de empregos de maio foi revisada de 129 mil para 63 mil, enquanto a variação de junho passou de 57 mil para apenas 20 mil vagas. Somadas, as revisões retiraram 103 mil empregos anteriormente contabilizados nesses dois meses.
Em julho, além da perda líquida de 23 mil postos, houve retração de 50 mil empregos na educação dos governos locais e redução de 19 mil vagas no varejo. O setor financeiro perdeu 14 mil postos, enquanto a área de saúde continuou contratando e acrescentou aproximadamente 22 mil trabalhadores.
Esse enfraquecimento normalmente ampliaria o espaço para uma política monetária menos restritiva, porque reduz parte da pressão causada pelo mercado de trabalho sobre salários e preços.
O petróleo, entretanto, introduz uma variável adicional. Caso a commodity permaneça elevada por causa do conflito e das dificuldades de navegação, a inflação de energia pode voltar a pressionar os índices de preços justamente em um momento no qual o Federal Reserve precisa equilibrar sinais de desaceleração econômica com os riscos inflacionários.
Essa combinação ajuda a explicar por que os mercados de juros também acompanham cada movimento dos contratos de petróleo.
Ormuz afeta muito mais do que petróleo
O impacto potencial de uma interrupção prolongada no Estreito de Ormuz não se limita ao petróleo bruto.
A região também possui importância fundamental para o comércio mundial de gás natural liquefeito. Dados da EIA mostram que mais de 20% do comércio global de GNL passou pelo estreito no primeiro semestre de 2025, principalmente a partir do Catar.
Isso significa que uma deterioração das condições de navegação pode afetar simultaneamente diferentes mercados de energia, aumentando a pressão sobre preços de petróleo, derivados e gás.
A Ásia é particularmente exposta. Segundo a EIA, aproximadamente 89% do petróleo bruto e condensado transportado por Ormuz no primeiro semestre de 2025 tinha como destino mercados asiáticos, sendo China, Índia, Japão e Coreia do Sul os principais compradores.
A dependência explica por que uma eventual interrupção prolongada pode gerar impactos econômicos muito além dos países diretamente envolvidos na disputa. Refinarias asiáticas precisam reorganizar compras, rotas marítimas tornam-se mais longas ou caras e consumidores finais podem enfrentar aumento nos preços de combustíveis.
Alternativas a Ormuz são limitadas
A geografia do Golfo Pérsico torna a situação especialmente delicada.
Diferentemente de outras rotas comerciais, em que embarcações podem simplesmente contornar uma área problemática, produtores localizados dentro do Golfo têm alternativas restritas para transportar grandes quantidades de petróleo sem utilizar Ormuz.
A Arábia Saudita possui o oleoduto East-West, que leva petróleo até o Mar Vermelho, enquanto os Emirados Árabes Unidos dispõem de uma conexão até o porto de Fujairah, fora do estreito. Ainda assim, a capacidade combinada dessas estruturas não chega perto dos mais de 20 milhões de barris por dia que historicamente atravessam Ormuz.
Essa limitação transforma qualquer interrupção relevante em um potencial choque de oferta, mesmo quando a produção física dos países do Golfo continua funcionando.
O risco não se resume, portanto, a quantos barris estão sendo produzidos. O mercado também precisa avaliar quantos desses barris conseguem efetivamente alcançar consumidores internacionais.
Brent acumula cinco sessões de avanço
Com o fechamento desta terça-feira, o Brent completou sua quinta sessão consecutiva de valorização, mostrando que o mercado ainda atribui um prêmio significativo à incerteza no Oriente Médio.
O contrato de outubro terminou a US$ 88,91 por barril, depois de chegar a negociar próximo dos US$ 90 ao longo da sessão. O WTI, referência americana, encerrou a US$ 83,20.
Os preços permanecem abaixo dos picos observados durante os momentos mais críticos da crise de 2026, mas estão suficientemente elevados para alterar expectativas de inflação, custos empresariais e projeções de crescimento mundial.
Antes da renovação recente das tensões, a própria EIA vinha trabalhando com a hipótese de recomposição gradual dos fluxos de petróleo e aumento dos estoques globais no fim de 2026. Em julho, a agência projetava que o mercado poderia voltar a uma situação de oferta excedente após a normalização do transporte, o que exerceria pressão baixista sobre os preços.
O comportamento das últimas sessões mostra, porém, que essa trajetória depende diretamente da situação no Estreito de Ormuz. Enquanto houver dúvidas sobre a circulação de navios e sobre as condições de um entendimento entre Estados Unidos e Irã, a commodity continuará vulnerável a fortes oscilações.
Para os mercados nesta quarta-feira, a combinação entre petróleo próximo de US$ 90 e a divulgação da inflação americana deverá ser decisiva. Um CPI acima do esperado pode reforçar a preocupação de que a energia volte a dificultar a redução da inflação, enquanto sinais de moderação dos preços podem devolver maior peso à desaceleração observada no mercado de trabalho.










