A SpaceX e a Tesla confirmaram em 6 de agosto de 2026 a construção da TeraFab, complexo de fabricação de semicondutores em Grimes County, no Texas, com investimento inicial de 16,8 bilhões de dólares. O projeto, estruturado como joint venture entre as duas empresas controladas por Elon Musk com participação da xAI e apoio tecnológico da Intel, prevê mais de 100 milhões de pés quadrados de área fabril em capacidade total, produção verticalizada de chips de lógica avançada e memória, encapsulamento e testes, para atender a demanda combinada das companhias por mais de 1 terawatt de computação. O anúncio, feito no site oficial da SpaceX e corroborado pelo governador do Texas, Greg Abbott, consolida a maior aposta industrial privada em semicondutores já anunciada no estado.
A primeira fase, orçada em 16,8 bilhões de dólares, será instalada nas proximidades do Reservatório Gibbons Creek, antiga área da usina termelétrica Gibbons Creek Steam Electric Station, a cerca de uma hora a noroeste de Houston. Segundo a SpaceX, a fábrica em escala total se tornará a maior instalação de fabricação de chips do planeta e, nas palavras de Musk na rede X, o maior e mais valioso edifício da Terra. A empresa afirmou que o complexo empregará pelo menos 3 mil trabalhadores, com recrutamento prioritário nos condados de Grimes e Brazos, vizinhos à obra.
A confirmação encerra um ciclo de especulação iniciado em novembro de 2025, quando a Tesla mencionou publicamente a necessidade de uma Gigafactory ampliada para semicondutores, e avançado em março de 2026, com o anúncio de uma planta piloto adjacente à sede da Tesla em Austin. Em abril, a Tesla iniciou as obras desse centro de pesquisa, tratado internamente como precursor da TeraFab. Em maio, um aviso público indicou investimento inicial de 55 bilhões de dólares para a TeraFab, com potencial de expansão para até 119 bilhões de dólares caso fases adicionais sejam executadas. O valor de 16,8 bilhões divulgado em agosto corresponde à primeira etapa de capitalização conjunta.
Escala de 100 milhões de pés quadrados supera Pentágono e redefine parâmetro fabril
A SpaceX informou que a TeraFab cobrirá mais de 100 milhões de pés quadrados, equivalentes a 9,3 milhões de metros quadrados, de espaço manufatureiro quando totalmente construída. O número coloca o empreendimento acima de qualquer edifício existente. O Pentágono, maior prédio de escritórios do mundo em área útil, possui 6,6 milhões de pés quadrados. A comparação feita por Musk de que a TeraFab terá 50 vezes o tamanho do Pentágono implicaria área final próxima a 330 milhões de pés quadrados, cifra não confirmada nos registros protocolados. Mesmo considerando apenas os 100 milhões de pés quadrados confirmados, o complexo já seria cerca de quatro vezes a soma das áreas do Pentágono, do Apple Park, do Mall of America e da Giga Texas, que juntos totalizam 25,04 milhões de pés quadrados.
A empresa descreve a instalação como verticalmente integrada, com mais de 100 milhões de pés quadrados de espaço de fabricação planejado, abrigando fabricação, encapsulamento e teste de dispositivos avançados de lógica e memória. A proposta difere do modelo tradicional de foundry dividido entre fábricas de front-end e back-end, ao concentrar sob o mesmo teto etapas que normalmente ocorrem em cadeias distintas. A SpaceX argumenta que essa integração reduz tempo de ciclo, custo logístico e dependência de fornecedores externos em um momento de estrangulamento global de capacidade para chips de inteligência artificial.
Processo Intel 14A e foco em robótica, veículos autônomos e data centers orbitais
A definição tecnológica central foi detalhada durante teleconferências de resultados da Tesla. A companhia informou que utilizará o processo de fabricação 14A da Intel para produzir chips na TeraFab. O 14A é a geração seguinte ao 18A da Intel e vem sendo apresentada pela fabricante americana como plataforma para clientes externos de alto volume. A Intel confirmou que está em discussões com grandes clientes sobre o 14A e que a colaboração com a TeraFab progrediu, com o presidente-executivo Lip-Bu Tan citando o projeto como engajamento relevante.
Segundo a SpaceX e a Tesla, a TeraFab abrigará duas fábricas avançadas. Uma será dedicada a processadores para veículos, com ênfase em sistemas de condução autônoma, e para robôs humanoides Optimus, incluindo o chip AI5 de quinta geração da Tesla, com produção em pequenos lotes prevista para 2026 e volume em 2027. A segunda fábrica será voltada a chips de alta potência para data centers, incluindo os data centers espaciais que a SpaceX planeja operar em órbita baixa. A empresa afirmou que a demanda combinada de SpaceX e Tesla por chips deve ultrapassar 1 terawatt de computação, patamar bem além da produção global atual.
A escolha do 14A ocorre após a contratação de quadros com experiência em fabricação avançada. Gary Jiang, ex-gerente de fábrica da Intel responsável por transferência de tecnologia 18A e rampa de produção em alto volume, foi recrutado para liderança da TeraFab. A Intel, que inicialmente havia confirmado participação de forma reservada, passou a ser citada nos comunicados como fornecedora de expertise em design e manufatura, embora o grau de aporte financeiro direto não tenha sido divulgado.
Isenção fiscal de 100% em Grimes County foi aprovada por 4 a 1 apesar de oposição local
O enquadramento fiscal do projeto foi formalizado em uma zona de reinvestimento criada especificamente para o empreendimento em Grimes County. Em 3 de junho de 2026, a Corte de Comissários do condado convocou audiência para analisar acordo de abatimento de imposto sobre propriedade para o que foi descrito no aviso como instalação multifásica, de próxima geração, verticalmente integrada de fabricação de semicondutores e computação avançada. O documento estimava investimento total de até 119 bilhões de dólares em caso de expansão completa.
Em 4 de junho, os comissários aprovaram por 4 votos a 1 três propostas que concedem isenção de 100% de imposto sobre propriedade para a TeraFab. A deliberação ocorreu apesar de oposição de moradores que alertaram para pressão sobre recursos hídricos, energéticos e impacto sobre fauna local. Relatos da imprensa local indicaram que a votação ocorreu após debate sobre uso de água do Reservatório Gibbons Creek, em vez de aquíferos subterrâneos, além de compromissos de tratamento de águas residuais, reuso e conformidade ambiental para manuseio de materiais perigosos, produtos químicos e subprodutos industriais típicos de fabricação de semicondutores.
A concessão do incentivo antecede a oferta pública inicial da SpaceX, prevista para junho de 2026, e foi vista por analistas como fator de redução de custo de capital para as fases iniciais. A SpaceX declarou que construirá suas próprias usinas a gás natural e sistemas de baterias de grande porte para alimentar a TeraFab, estratégia destinada a garantir autonomia energética diante da demanda projetada. A empresa não detalhou capacidade instalada, mas associou a geração própria à necessidade de estabilidade para processos de litografia e testes que não toleram interrupções.
Gargalo de oferta e verticalização explicam aposta bilionária no Texas
A motivação econômica do projeto está ligada à avaliação de Musk de que fornecedores existentes não conseguirão atender aos requisitos futuros de computação da Tesla e da SpaceX. Em declarações ao longo de 2025 e 2026, o executivo afirmou que, mesmo no melhor cenário de extrapolação de produção dos fornecedores, haveria déficit de chips para veículos autônomos, Cybercabs, robôs e infraestrutura orbital. A frase atribuída à SpaceX em seu site sintetiza a tese: ou construímos a TeraFab ou não teremos os chips.
A verticalização proposta contrasta com o modelo fabless adotado pela maior parte da indústria de IA, que terceiriza produção para foundries na Ásia. Ao internalizar fabricação, encapsulamento e testes, Tesla e SpaceX buscam controlar custo por watt de computação, proteger propriedade intelectual de arquiteturas próprias e garantir reserva de capacidade para picos de demanda. O Texas foi escolhido por combinação de disponibilidade de terreno, custo energético, proximidade com a sede da Tesla em Austin, incentivos fiscais e base logística para escoamento de equipamentos para o centro de lançamentos da SpaceX em Starbase.
O cronograma ainda está sujeito a licenciamento ambiental, autorizações de uso de água e energia e aprovações federais para equipamentos de fabricação avançada. A primeira fase de 16,8 bilhões de dólares cobre terraplanagem, infraestrutura civil, subestações e instalação inicial de ferramentas, enquanto as fases subsequentes, que elevariam o total para 55 bilhões e depois para 119 bilhões, dependem de marcos de produção e de captação de recursos adicionais. A empresa manteve a meta de iniciar produção piloto de chips de lógica em 2026 e escalar para volume em 2027, em linha com a janela de lançamento de novas plataformas de veículos e de satélites de data center.










