A Suzano (SUZB3) registrou lucro líquido de R$ 1,807 bilhão no segundo trimestre de 2026, queda de 64% em relação aos R$ 5,012 bilhões apurados no mesmo período de 2025. O resultado veio em um trimestre de menor receita, compressão da margem operacional e forte mudança no resultado financeiro, em meio a preços de celulose ainda resilientes, mas com efeito cambial menos favorável e custos de produção mais pressionados.
Entre abril e junho, a receita líquida somou R$ 11,59 bilhões, recuo de 13% na comparação anual, ante R$ 13,296 bilhões no segundo trimestre do ano passado. A companhia atribuiu a variação principalmente à apreciação do real frente ao dólar, ao menor volume vendido e ao aumento do custo caixa, fatores que compensaram parcialmente a melhora dos preços médios realizados em moeda norte-americana.
O Ebitda ajustado alcançou R$ 4,705 bilhões, queda de 23% em doze meses, enquanto a margem Ebitda recuou de 46% para 41%. No segundo trimestre de 2025, o indicador havia atingido R$ 6,087 bilhões. Apesar da retração anual, a companhia apontou melhora operacional frente ao primeiro trimestre de 2026, apoiada por aumento de preços e maior volume de vendas de celulose, ainda que parcialmente neutralizada pelo avanço do custo caixa e pelo enfraquecimento do dólar médio diante do real.
Receita menor e margem pressionada marcam o trimestre
A redução da receita consolidada refletiu uma combinação de fatores operacionais e cambiais. A Suzano possui exposição elevada ao mercado externo, o que faz com que a conversão das vendas em moeda estrangeira tenha peso relevante sobre os números apresentados em reais. Em 2025, 83% da receita líquida do segundo trimestre havia sido gerada fora do Brasil, evidenciando a sensibilidade do resultado à oscilação cambial.
Quando o real se aprecia frente ao dólar, a conversão das receitas obtidas no exterior tende a resultar em valores menores em moeda local. No segundo trimestre de 2026, esse efeito se somou ao recuo do volume comercializado e à elevação de custos, limitando a capacidade de expansão da receita mesmo com preços médios realizados em dólar mais favoráveis.
A pressão também apareceu nas margens. O Ebitda ajustado de R$ 4,705 bilhões ficou R$ 1,382 bilhão abaixo do registrado um ano antes. A queda da margem de 46% para 41% mostra que a retração do resultado operacional foi proporcionalmente maior do que a redução da receita, sinal de que os custos tiveram papel relevante na deterioração da rentabilidade anual.
Resultado financeiro ajuda a explicar queda do lucro
Uma das principais diferenças entre os dois períodos apareceu no resultado financeiro. No segundo trimestre de 2025, a Suzano havia registrado resultado financeiro positivo de R$ 4,425 bilhões. Entre abril e junho de 2026, essa linha passou a apresentar despesa de R$ 10 milhões, mudança que teve efeito relevante sobre a comparação do lucro líquido.
A companhia mantém dívida denominada em moeda estrangeira e utiliza instrumentos derivativos dentro de sua política de hedge cambial e gestão de passivos. As oscilações do câmbio podem provocar efeitos contábeis significativos no resultado financeiro trimestral, especialmente por meio de marcações a mercado de dívidas e derivativos, mesmo quando esses movimentos não representam saída imediata de caixa.
Essa característica ajuda a explicar por que o lucro líquido pode apresentar variações mais intensas do que o desempenho operacional. No segundo trimestre deste ano, além da redução do Ebitda, a ausência do forte resultado financeiro positivo observado na base de comparação ampliou a diferença entre os lucros dos dois períodos.
No primeiro trimestre de 2026, a Suzano já havia reportado lucro líquido de R$ 4,31 bilhões, queda de 32% em relação ao mesmo período do ano anterior. O resultado também havia sido afetado pela movimentação do dólar frente ao real, reforçando a influência da estrutura cambial sobre os números contábeis.
Geração de caixa recua e alavancagem avança
A geração de caixa operacional atingiu R$ 2,885 bilhões no segundo trimestre de 2026, redução de 30% frente aos R$ 4,149 bilhões apurados um ano antes. O indicador é calculado a partir do Ebitda ajustado menos o capex de manutenção em regime caixa e oferece uma medida da capacidade de conversão do resultado operacional em recursos disponíveis.
A retração acompanhou a queda do Ebitda e o maior desembolso com manutenção programada. No segundo trimestre de 2025, a geração de caixa havia sido beneficiada por maior volume de celulose vendido e redução do custo caixa, formando uma base comparativa mais forte.
No endividamento, a relação entre dívida líquida e Ebitda ajustado encerrou junho de 2026 em 3,3 vezes quando calculada em reais, acima das 3,0 vezes registradas em junho de 2025. Em dólares, o indicador passou de 3,1 vezes para 3,4 vezes no mesmo intervalo.
A Suzano trabalha com metas de dívida líquida de US$ 11 bilhões e alavancagem inferior a 2,5 vezes, com expectativa de atingimento ao longo de 2027 e 2028. Essa referência coloca a trajetória de desalavancagem entre os principais pontos a serem acompanhados nos próximos resultados.
Custo caixa permanece no centro da estratégia
O custo caixa de produção de celulose sem paradas programadas foi projetado pela administração entre R$ 830 e R$ 840 por tonelada para o segundo trimestre de 2026, faixa que representava alta de 3% a 5% em relação ao primeiro trimestre. Para a média anual de 2026, a companhia indicou referência de aproximadamente R$ 800 por tonelada, considerando premissas de câmbio e petróleo divulgadas anteriormente.
O indicador reúne despesas com madeira, produtos químicos, energia e logística, entre outros componentes diretamente ligados à produção, e exclui efeitos de depreciação e de paradas programadas. Sua evolução é central para avaliar a competitividade da companhia, especialmente em períodos de maior volatilidade cambial e pressão sobre custos de insumos.
A Suzano possui ativos florestais e industriais distribuídos por São Paulo, Bahia, Maranhão, Mato Grosso do Sul e Espírito Santo, além de operações nos Estados Unidos. A integração entre floresta e indústria influencia produtividade, distância média de transporte da madeira e eficiência industrial, fatores que afetam diretamente o custo final da celulose.
Produção abaixo da capacidade e disciplina de oferta
Para 2026, a Suzano informou que pretende manter a produção de celulose aproximadamente 3,5% abaixo da capacidade nominal. A estratégia tem como objetivo preservar disciplina operacional e rentabilidade em um ambiente de entrada de nova capacidade produtiva no mercado global.
A decisão mostra que a companhia não busca necessariamente maximizar volumes em qualquer cenário de preços. Ao reduzir a utilização da capacidade quando considera necessário, a empresa tenta equilibrar produção, demanda e retorno, evitando pressionar ainda mais um mercado dependente do comportamento de compradores na China, Europa e outras regiões relevantes.
A Suzano opera com capacidade instalada superior a 13 milhões de toneladas anuais de celulose e papel. A companhia também mantém negócios em papel para imprimir e escrever, papelcartão, bens de consumo e embalagens, além da operação norte-americana incorporada após aquisição concluída em 2024.
Na divisão de papel, a sazonalidade do segundo trimestre costuma favorecer maior volume de vendas no mercado interno. A comparação anual, porém, parte de uma base que já incorporava os efeitos da operação adquirida nos Estados Unidos, o que torna a leitura das variações consolidadas mais complexa do que a simples comparação entre receitas totais.
Estrutura de capital continua como prioridade
A política financeira da companhia combina investimentos, gestão do endividamento e mecanismos de remuneração aos acionistas. Em 2025, o conselho aprovou R$ 1,38 bilhão em dividendos intercalares, além de parcela remanescente paga em fevereiro de 2026. No quarto trimestre do ano passado, a Suzano também anunciou programa de recompra correspondente a até 6,5% das ações em circulação.
Essas decisões ocorrem ao mesmo tempo em que a empresa mantém investimentos relevantes para sustentar sua competitividade de longo prazo. Entre os movimentos recentes está a transação envolvendo cessão de volume de madeira em pé no Mato Grosso do Sul, com pagamento de R$ 1,317 bilhão, dentro de uma estratégia voltada à garantia de abastecimento florestal.
A companhia também mantém em curso uma joint venture em tissue com a Kimberly-Clark, anunciada em 2025 pelo valor de US$ 1,734 bilhão e ainda sujeita às aprovações necessárias para conclusão. A operação integra a estratégia de diversificação para além da celulose de mercado.
O equilíbrio entre crescimento, investimento, alavancagem e retorno ao acionista tende a ganhar importância à medida que a empresa avança em direção às metas financeiras estabelecidas para 2027 e 2028. Com a relação dívida líquida sobre Ebitda ainda acima do objetivo indicado pela administração, a geração de caixa dos próximos trimestres será determinante para avaliar o ritmo dessa trajetória.
Câmbio e preços externos seguem como variáveis decisivas
Para o segundo semestre de 2026, o desempenho da Suzano continuará fortemente condicionado à evolução do custo caixa, aos preços da celulose nos mercados internacionais e ao comportamento do câmbio. A exposição elevada às exportações faz com que a relação entre real e dólar tenha efeito simultâneo sobre receita, dívida e resultado financeiro.
A China e a Europa permanecem entre os mercados relevantes para a formação de preços da celulose, enquanto a companhia também precisa administrar os efeitos de paradas programadas de manutenção sobre volumes e custos. Esses fatores podem produzir oscilações trimestrais mesmo quando a tendência operacional de longo prazo permanece inalterada.
A divulgação do segundo trimestre ocorreu após o fechamento do pregão de 12 de agosto de 2026. O próximo compromisso corporativo previsto é a teleconferência com analistas para detalhamento dos resultados, quando a administração deverá aprofundar a leitura sobre custos, preços, alavancagem e desempenho operacional no início do segundo semestre.










