A Agência MiThi, empresa de comunicação e gestão de reputação fundada pelo publicitário Thiago Miranda, anunciou nesta segunda-feira, 13 de julho, o encerramento de suas atividades após dez anos de operação. A decisão foi divulgada quatro dias depois de Miranda ser alvo de mandados de busca e apreensão cumpridos em Brasília na décima fase da Operação Compliance Zero, que investiga suspeitas de atuação coordenada em favor dos interesses do Banco Master. A empresa atribuiu o fechamento a uma reorganização estratégica, informou que realizará a transição dos contratos em andamento e não relacionou a medida à investigação da Polícia Federal.
Em publicação nas redes sociais, Miranda afirmou que decidiu concluir o ciclo da Agência MiThi depois de uma década dedicada ao negócio. O empresário agradeceu a clientes, parceiros e profissionais que participaram da trajetória da companhia e disse que pretende iniciar uma nova etapa profissional.
O comunicado foi acompanhado por uma nota institucional segundo a qual a agência cumprirá as obrigações assumidas durante o período de transição. Miranda também informou que pretende tirar um ano sabático antes de avaliar um novo empreendimento.
O anúncio não menciona a Operação Compliance Zero. Até o momento, também não há decisão judicial determinando a dissolução ou a suspensão das atividades da Agência MiThi. A proximidade entre o fechamento e a operação policial estabelece uma conexão temporal entre os fatos, mas não comprova que a investigação tenha causado o encerramento da empresa.
A manifestação pública do fundador confirma o fim das operações, enquanto a nota empresarial apresenta a decisão como parte de uma mudança planejada na trajetória profissional de Miranda.
Encerramento prevê transição de contratos e obrigações
A Agência MiThi atuava nos segmentos de comunicação corporativa, branding, gerenciamento de reputação e gestão de crises. O encerramento exige a conclusão ou transferência dos serviços contratados, o acerto com fornecedores e colaboradores e a entrega de materiais produzidos para os clientes.
A nota divulgada pela empresa indica que essas obrigações serão mantidas durante a transição. Não foram informados o número de clientes atendidos, o tamanho da equipe, o faturamento da companhia ou o prazo estimado para a conclusão do processo.
Também não foi esclarecido se a pessoa jurídica será imediatamente baixada, se permanecerá ativa para cumprir obrigações contratuais e tributárias ou se parte das operações será transferida para outra estrutura empresarial.
Esses procedimentos são distintos do anúncio comercial de encerramento. A paralisação da prestação de serviços pode ocorrer antes da baixa definitiva da empresa nos registros públicos, especialmente quando existem contratos, créditos, dívidas ou responsabilidades trabalhistas ainda pendentes.
Para clientes da Agência MiThi, o principal efeito imediato está na continuidade dos projetos e na preservação de documentos, campanhas, acessos digitais e informações estratégicas. Empresas de comunicação e gestão de reputação costumam operar com dados sensíveis sobre executivos, marcas e situações de crise, o que amplia a importância de protocolos formais na desmobilização.
STF autorizou buscas para preservar documentos e dados digitais
Thiago Miranda foi alvo, em 9 de julho, de mandados de busca e apreensão pessoal e domiciliar autorizados pelo ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), na Petição 16.346.
A decisão permitiu à Polícia Federal apreender celulares, computadores, documentos, contratos, comprovantes de transferência, registros contábeis e outros materiais que possam contribuir para a investigação. Também autorizou a extração de dados armazenados nos aparelhos e em serviços de nuvem.
André Mendonça considerou a medida adequada para preservar provas, reconstruir fluxos financeiros e de comunicação e reduzir o risco de destruição ou ocultação de documentos. A Procuradoria-Geral da República manifestou-se favoravelmente às buscas.
A autorização judicial não representa condenação nem uma conclusão definitiva sobre a participação do publicitário nos fatos investigados. A busca e apreensão é uma medida de obtenção de provas adotada durante a fase de apuração.
A Polícia Federal busca esclarecer se Miranda teria atuado com Daniel Vorcaro e outros investigados em uma estrutura voltada a defender o antigo núcleo dirigente do Banco Master, influenciar o debate público e pressionar pessoas consideradas contrárias aos interesses do grupo.
O Banco Master está em liquidação extrajudicial, regime decretado pelo Banco Central. A autoridade monetária mantém uma página específica sobre o procedimento e classifica a instituição como integrante do Sistema Financeiro Nacional sob liquidação.
Investigação atribui à MiThi participação no “Projeto DV”
A decisão do STF reproduz informações apresentadas pela Polícia Federal sobre o chamado “Projeto DV”, denominação que faria referência às iniciais de Daniel Vorcaro.
Segundo a investigação, influenciadores e profissionais de comunicação teriam sido abordados para produzir conteúdos favoráveis ao Banco Master e questionar a atuação do Banco Central durante a crise e a liquidação da instituição.
Um dos documentos citados no processo é um acordo de confidencialidade que mencionava expressamente o “Projeto DV”. O compromisso deveria ser assinado antes da apresentação integral do trabalho e previa multa de R$ 800 mil em caso de quebra de sigilo, segundo os elementos reunidos pela PF.
A investigação também menciona propostas de pagamento que teriam chegado a R$ 2 milhões. Para a Polícia Federal, os contratos não se limitariam a uma estratégia convencional de recuperação de imagem, mas integrariam uma estrutura destinada a desacreditar instituições públicas e influenciar a opinião pública.
Em depoimento citado na decisão, Thiago Miranda afirmou que conheceu Daniel Vorcaro durante tratativas envolvendo a venda de uma participação no Portal LeoDias, operação estimada em R$ 3,5 milhões.
O publicitário também declarou que, após uma das solturas de Vorcaro, apresentou um plano de reestruturação de imagem e gerenciamento de crise. Segundo o relato reproduzido pelo STF, o “Projeto DV” teria sido estruturado dentro da Agência MiThi e incluía conteúdos sobre a prisão do banqueiro e as investigações relacionadas ao Master.
Miranda confirmou no depoimento que realizava pagamentos a influenciadores. De acordo com a decisão, ele afirmou que os recursos utilizados tinham relação com valores recebidos na negociação da participação no portal e eram repassados por uma empresa ligada a Vorcaro. A PF sustenta, entretanto, que o publicitário teria exercido papel central na articulação do projeto.
PF apura possível obtenção de dados sobre jornalistas e executivos
A décima fase da Operação Compliance Zero não se restringe à contratação de influenciadores. A Polícia Federal também investiga a suposta obtenção de informações pessoais, financeiras e patrimoniais de jornalistas, executivos e outras pessoas vistas como obstáculos aos interesses do grupo.
A decisão de André Mendonça registra que diálogos analisados pela PF indicariam levantamentos sobre a jornalista Malu Gaspar, incluindo dados profissionais, familiares, patrimoniais e financeiros.
Segundo a apuração, teriam sido pesquisadas informações sobre renda, movimentações, cartões de crédito, familiares e veículos. A PF afirma que parte desses dados pode ter sido obtida por meio de plataformas suspeitas de comercializar informações pessoais sem autorização.
O documento judicial adota linguagem cautelar e apresenta essas condutas como hipóteses sob investigação. Ainda será necessário determinar a origem dos dados, quem realizou cada consulta, como as informações foram utilizadas e se houve violação de sigilo ou de outras normas legais.
A investigação também menciona o presidente do Itaú Unibanco (ITUB4), Milton Maluhy Filho, e sua mulher, Camila Moretti Maluhy. De acordo com a decisão, mensagens atribuídas a Vorcaro e Miranda tratavam da preparação de um levantamento sobre o executivo.
A PF encontrou referência a um documento com informações pessoais e patrimoniais do casal que continha a identidade visual da Agência MiThi. Para a investigação, essa característica sugere que o arquivo teria sido produzido, editado ou ao menos circulado na estrutura da empresa.
A presença da marca no material não estabelece, isoladamente, a responsabilidade criminal do fundador ou de outros profissionais da agência. A perícia deverá examinar autoria, histórico de edição, circulação e eventual utilização do documento.
Defesa nega crimes e afirma que trabalho era de gestão de crise
A defesa de Thiago Miranda nega que o empresário tenha praticado qualquer ilegalidade. Em nota divulgada após a operação, os advogados afirmaram que o publicitário sempre atuou dentro da lei e não participou de atos destinados a intimidar, coagir ou violar direitos de terceiros.
A manifestação sustenta que a existência de uma investigação não permite antecipar um juízo de culpa e que devem ser preservados o contraditório, a ampla defesa, o devido processo legal e a presunção de inocência.
Os advogados também informaram que Miranda está à disposição das autoridades para prestar esclarecimentos e demonstrar a regularidade de sua conduta.
Miranda reconheceu a prestação de serviços de gerenciamento de imagem e crise, mas contesta a interpretação criminal atribuída a esse trabalho. A diferença entre uma estratégia legítima de comunicação e uma eventual ação ilícita dependerá da análise dos contratos, pagamentos, orientações transmitidas aos influenciadores e métodos empregados para obter informações.
A contratação de profissionais para defender uma empresa ou questionar decisões públicas, por si só, não configura crime. A apuração busca verificar se houve ocultação da origem dos conteúdos, emprego de recursos relacionados ao suposto esquema financeiro, ameaças, coação ou acesso irregular a dados pessoais.
Fechamento amplia impacto reputacional da Operação Compliance Zero
O encerramento da Agência MiThi acrescenta uma consequência empresarial à investigação do caso Master. A companhia estava diretamente associada ao nome de seu fundador e atuava justamente em áreas nas quais credibilidade, confidencialidade e confiança dos clientes constituem ativos centrais.
Crises envolvendo empresas desse setor podem produzir impactos rápidos sobre contratos e relacionamentos comerciais, mesmo antes de uma definição judicial. Clientes tendem a avaliar riscos de exposição, continuidade operacional, proteção de dados e possíveis efeitos sobre suas próprias marcas.
Isso não significa que a investigação tenha comprovado irregularidades ou que todos os trabalhos realizados pela Agência MiThi estejam relacionados ao Banco Master. O processo analisado pelo STF trata de condutas específicas que teriam ocorrido em determinado período e que ainda estão sob apuração.
A análise dos equipamentos apreendidos poderá mostrar quais profissionais participaram dos projetos, como as ordens eram transmitidas, quais pagamentos foram realizados e se os materiais investigados permaneceram limitados à gestão de crise ou integraram uma estrutura mais ampla.
Também será necessário separar decisões pessoais de Thiago Miranda, atividades executadas pela Agência MiThi e eventuais atos atribuídos a terceiros contratados. Essa individualização é indispensável para estabelecer responsabilidades jurídicas.
Caso Master avança sobre comunicação, influência e reputação
A Operação Compliance Zero começou concentrada nas suspeitas de fraudes financeiras relacionadas ao Banco Master e avançou para núcleos que, segundo a investigação, teriam sido mobilizados para proteger os envolvidos e reagir à atuação dos órgãos de controle.
A frente envolvendo a Agência MiThi coloca no centro da apuração o mercado de influência digital e de gestão de reputação. O caso deverá ajudar a definir até que ponto campanhas contratadas para defender interesses privados podem ultrapassar os limites da comunicação profissional quando envolvem ocultação do contratante, pressão sobre jornalistas ou obtenção indevida de dados.
O STF afirmou que a Federação Brasileira de Bancos também detectou ataques aparentemente coordenados contra o Banco Central nas redes sociais. A investigação procura estabelecer se essas publicações estavam ligadas aos contratos e pagamentos citados na Petição 16.346.
A décima fase ainda se encontra na etapa de coleta e exame de provas. Os investigados têm direito à defesa, e as suspeitas apresentadas pela Polícia Federal dependerão de confirmação por perícias, depoimentos e outras diligências.
Enquanto a investigação segue no STF, a Agência MiThi inicia a desmobilização anunciada por seu fundador. A companhia encerra uma trajetória de dez anos em meio ao episódio de maior exposição de sua história, sem reconhecer relação entre a decisão empresarial e a operação policial que passou a examinar parte de seus projetos, documentos e fluxos financeiros.









