O agronegócio brasileiro atravessa em 2026 uma combinação pouco usual. De um lado, a produção permanece elevada e a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) estima uma safra de grãos de aproximadamente 360 milhões de toneladas no ciclo 2025/2026, acima do volume registrado na temporada anterior. Do outro, produtores e empresas ainda carregam os efeitos de anos de expansão financiada por crédito, juros elevados, margens menores e dificuldades para reorganizar dívidas.
A situação ganhou uma variável adicional neste segundo semestre: o El Niño. O aquecimento do Pacífico Equatorial voltou a integrar as projeções climáticas e pode alterar a distribuição das chuvas, a produtividade agrícola e, consequentemente, os preços de algumas commodities. Para quem investe no agronegócio, isso torna a leitura do setor mais complexa. Uma safra grande não significa necessariamente empresas saudáveis, enquanto um balanço pressionado também não significa que todos os ativos relacionados ao campo tenham perdido atratividade.
O resultado é um ambiente em que a seleção ganha importância. Commodities como milho, açúcar, trigo e boi gordo podem reagir a mudanças na oferta global e às condições climáticas. Empresas listadas na B3 podem carregar descontos relevantes, mas exigem avaliação da dívida e da geração de caixa. Já fundos negociados em Bolsa permitem exposição ao segmento de maneira diversificada ou diretamente vinculada a determinados produtos agrícolas.
Safra elevada convive com uma crise de crédito no campo
A dimensão do financiamento necessário para manter o agronegócio brasileiro em funcionamento ajuda a explicar por que o crédito se tornou uma das variáveis centrais para o setor. Na safra 2025/2026, o crédito rural destinado à agricultura empresarial, sem considerar o Pronaf, movimentou R$ 477,2 bilhões. As Cédulas de Produto Rural, conhecidas como CPRs, responderam por 43% desse volume.
O tamanho do mercado, entretanto, não eliminou as dificuldades financeiras acumuladas nos últimos ciclos. Parte dos produtores aumentou a alavancagem durante o período de preços elevados das commodities, quando a rentabilidade favorecia aquisições de terras, arrendamentos, máquinas e expansão de área. Quando os preços agrícolas perderam força e o custo financeiro permaneceu alto, a capacidade de pagamento de uma parcela desses produtores começou a deteriorar.
A gravidade do problema levou o governo federal a criar, em julho, uma linha específica para composição de dívidas rurais. A regulamentação permite atender produtores e cooperativas enquadrados em determinados critérios de perdas de safras e redução de renda. A medida mostra que o problema deixou de ser apenas pontual e passou a exigir instrumentos específicos de reorganização financeira.
Esse processo também atingiu empresas ligadas à cadeia agrícola. Distribuidores de insumos, produtores, tradings, companhias sucroenergéticas e instituições financeiras passaram a sentir diferentes graus de pressão. O investidor que pretende entrar no setor, portanto, precisa separar uma crise de liquidez temporária de um problema estrutural de endividamento.
El Niño adiciona volatilidade aos preços agrícolas
Enquanto o crédito pressiona os balanços, o clima voltou ao centro das decisões. O CPTEC/Inpe identifica condições oceânicas e atmosféricas compatíveis com El Niño e projeta continuidade do aquecimento das águas do Pacífico Equatorial durante o trimestre de agosto a outubro.
Nos Estados Unidos, o Climate Prediction Center da NOAA também aponta continuidade e fortalecimento do fenômeno ao longo de 2026. A importância dessa mudança para os mercados agrícolas está na capacidade do El Niño de alterar regimes de precipitação e temperatura em importantes regiões produtoras.
Isso não significa que todas as commodities necessariamente subirão. Os preços agrícolas dependem de uma combinação de estoques, produtividade, área plantada, demanda internacional, câmbio, política comercial, custos logísticos e condições climáticas em diferentes países.
Ainda assim, a possibilidade de quebra de produção ou redução de produtividade tende a elevar o chamado prêmio climático incorporado aos contratos futuros. É justamente nesse ambiente que algumas gestoras passaram a enxergar oportunidades em produtos como milho, açúcar e trigo.
A tese é relativamente simples: quando os preços estão comprimidos e o mercado trabalha com expectativa de oferta confortável, qualquer deterioração relevante das condições climáticas pode provocar uma reprecificação rápida.
Commodities eliminam o risco da empresa, mas não o risco do mercado
A exposição direta a commodities possui uma característica importante para quem pretende investir no agronegócio: ela permite participar do movimento de determinado produto sem assumir diretamente o risco financeiro de uma companhia.
Ao investir em uma empresa agrícola, o acionista precisa acompanhar dívida, vencimentos, geração de caixa, custo de capital, eficiência operacional, governança e eventuais cláusulas financeiras. Uma alta do milho ou da soja não garante automaticamente melhora do resultado de uma companhia excessivamente alavancada.
Na commodity, essa camada de risco empresarial desaparece. O investidor fica essencialmente exposto à dinâmica de preço do produto, embora passe a assumir riscos próprios dos mercados futuros, que podem apresentar elevada volatilidade.
A Terra Investimentos considera essa característica relevante no atual ciclo. A exposição a milho, boi gordo, açúcar ou outros produtos permite capturar de maneira mais direta uma mudança no ciclo agrícola, sem depender da capacidade de determinada companhia de refinanciar suas obrigações.
Isso não transforma commodities em ativos defensivos. Mudanças de safra, câmbio, estoques, políticas comerciais e demanda externa podem alterar rapidamente as cotações.
O mercado de carne bovina é um exemplo. A China estabeleceu uma cota para a carne brasileira a partir da qual incide tarifa adicional. Embora avaliações de mercado tenham apontado aproximação do limite ao longo do ano, o Ministério da Agricultura informou em julho que a condição necessária para a cobrança adicional ainda não havia sido atingida naquele momento. Para o investidor, a divergência mostra a necessidade de acompanhar dados oficiais antes de montar posições baseadas exclusivamente em expectativas.
Bolsa exige separar empresas fragilizadas de ativos descontados
Nas ações, o cenário é ainda mais seletivo. A deterioração do crédito no agronegócio deixou exemplos claros de como dificuldades operacionais e financeiras podem destruir valor mesmo em um setor estruturalmente relevante para a economia brasileira.
A AgroGalaxy (AGXY3), distribuidora de insumos agrícolas, permanece em processo de recuperação judicial. Já a Raízen (RAIZ4), uma das maiores companhias do setor sucroenergético, avançou em 2026 em seu processo de recuperação extrajudicial e teve o plano homologado no fim de julho.
Os dois casos reforçam um ponto importante: tamanho e importância estratégica não eliminam risco financeiro.
Ao mesmo tempo, períodos de estresse podem produzir descontos em empresas com ativos de qualidade e capacidade de atravessar o ciclo. É nessa diferença que algumas casas de análise enxergam oportunidades.
Entre os nomes mencionados está a SLC Agrícola (SLCE3). Uma das teses envolve não apenas a geração de resultado com grãos e algodão, mas também o valor econômico de seu portfólio de terras. A avaliação é que a companhia deve ser analisada com horizonte mais longo, considerando produtividade, valor dos ativos agrícolas e normalização do ciclo.
O investidor precisa, contudo, observar o calendário. Até 11 de agosto, a SLC Agrícola ainda não havia divulgado seu balanço referente ao segundo trimestre de 2026. A publicação estava prevista para 12 de agosto, depois do fechamento do mercado. Qualquer avaliação baseada no 2T26 antes dessa data seria prematura.
3tentos aparece entre as teses de diversificação
Outro ativo acompanhado por analistas é a 3tentos (TTEN3). A companhia possui uma estrutura que combina distribuição de insumos, originação e comercialização de grãos, indústria e serviços financeiros relacionados ao produtor.
Essa diversificação pode reduzir a dependência de uma única fonte de receita, mas também faz com que o investidor precise entender como cada divisão responde ao ciclo agrícola.
A Nord Investimentos mantém uma leitura favorável sobre a companhia pela combinação entre crescimento, rentabilidade e diversificação das atividades. Ainda assim, assim como ocorre com outras ações do setor, os juros elevados e a volatilidade dos preços agrícolas aumentam a necessidade de seletividade.
Também nesse caso, é necessário respeitar o calendário de informações. A divulgação dos resultados do segundo trimestre da 3tentos estava prevista para 13 de agosto. Até então, a análise disponível ao mercado deveria continuar baseada nos números oficialmente divulgados anteriormente.
ETFs oferecem caminho mais simples para acessar o agronegócio
Para investidores que não pretendem acompanhar individualmente cada empresa ou operar contratos futuros diretamente, os ETFs surgem como uma terceira alternativa.
A BB Asset mantém produtos com diferentes formas de exposição ao setor. O BBOI11 acompanha uma estratégia relacionada ao mercado futuro de boi gordo, enquanto o CORN11 oferece exposição ao milho. O AGRI11, por sua vez, está ligado a uma carteira de empresas do agronegócio.
A estrutura permite que o investidor negocie os fundos em Bolsa da mesma maneira que negocia uma ação, sem precisar administrar diretamente contratos futuros.
A facilidade operacional, porém, não elimina o risco econômico. Um ETF de milho continuará sujeito à volatilidade do milho. Um fundo ligado a empresas agrícolas continuará refletindo as oscilações das companhias presentes no índice.
Existe ainda uma discussão sobre a eficiência dos ETFs de ações do agronegócio brasileiro. Como o universo de companhias listadas diretamente relacionadas ao campo é relativamente limitado, investidores dispostos a realizar análise fundamentalista podem preferir selecionar ações individualmente.
Onde estão as oportunidades no agronegócio em 2026
O atual ciclo não permite tratar o agronegócio como uma única tese de investimento. Existem, na prática, diferentes formas de exposição, cada uma sujeita a riscos específicos.
| Canal de investimento | Exemplos | Principal característica | Risco predominante | Horizonte |
|---|---|---|---|---|
| Commodities | Milho, açúcar, trigo e boi gordo | Exposição direta ao ciclo de preços | Clima, oferta, demanda e volatilidade | Curto e médio prazo |
| Ações | SLCE3, TTEN3, RAIZ4 e outras | Participação no resultado das empresas | Dívida, execução e geração de caixa | Médio e longo prazo |
| ETFs de commodities | BBOI11 e CORN11 | Acesso simplificado a estratégias com futuros | Oscilação da commodity | Médio prazo |
| ETFs de ações | AGRI11 | Diversificação entre companhias do setor | Desempenho das empresas do índice | Médio e longo prazo |
Para o investidor mais agressivo, commodities podem proporcionar exposição direta às mudanças provocadas pelo clima e pela oferta global. Para horizontes mais longos, empresas com ativos relevantes, estrutura financeira administrável e capacidade de geração de caixa podem oferecer maior potencial de valorização.
ETFs ocupam uma posição intermediária, reduzindo a necessidade de escolher individualmente contratos ou empresas, mas sem eliminar os riscos do segmento.
A principal mudança de 2026 é que o agronegócio deixou de permitir análises simplificadas. Uma safra recorde pode coexistir com produtores endividados. Um cenário climático adverso pode favorecer determinada commodity e, simultaneamente, prejudicar empresas produtoras. Companhias pressionadas financeiramente podem continuar perdendo valor, enquanto empresas com balanços mais resistentes podem atravessar o mesmo ciclo e ganhar participação de mercado.
O El Niño amplia essa dispersão. O crédito caro amplia ainda mais.
Para quem investe, a oportunidade pode estar justamente nessa diferença entre empresas, produtos e estruturas de capital. O agronegócio continua sendo uma das maiores engrenagens da economia brasileira, mas em 2026 o retorno potencial deixou de depender apenas de acertar a direção das commodities. Passou a depender, sobretudo, de escolher corretamente como participar do ciclo.
Atenção: os ativos citados têm caráter informativo e não representam recomendação de compra ou venda.
Fontes:
- Companhia Nacional de Abastecimento — acompanhamento da safra brasileira de grãos
- Ministério da Agricultura e Pecuária — dados de crédito rural e informações sobre comércio de carne bovina com a China
- Banco Central do Brasil e Conselho Monetário Nacional — regulamentação para composição de dívidas rurais
- Presidência da República — Medida Provisória nº 1.376/2026
- CPTEC/Inpe — monitoramento do El Niño
- NOAA Climate Prediction Center — diagnóstico do fenômeno ENSO
- BB Asset — documentação dos ETFs AGRI11, BBOI11 e CORN11
- AgroGalaxy — Relações com Investidores
- Raízen — Relações com Investidores
- SLC Agrícola — Relações com Investidores
- 3tentos — Relações com Investidores










