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Alemanha evita recessão com gastos em defesa, mas Bundesbank corta projeções de crescimento

Banco central alemão alerta para inflação persistente, energia cara e impactos da guerra no Oriente Médio sobre a maior economia da Europa.

por Eduardo Toscano
12/06/2026 às 20h37
em Mundo
Alemanha Evita Recessão Com Gastos Em Defesa, Mas Bundesbank Corta Projeções De Crescimento-Gazeta Mercantil

A Alemanha deve evitar uma recessão em 2026 graças ao aumento dos gastos públicos em defesa e infraestrutura, mas a guerra entre Irã e Israel continua pressionando a atividade econômica, elevando a inflação e reduzindo as perspectivas de crescimento da maior economia da Europa. A avaliação foi divulgada nesta sexta-feira (12) pelo Bundesbank, o banco central alemão, que revisou para baixo suas projeções para os próximos anos e reforçou os alertas sobre os efeitos econômicos da escalada geopolítica no Oriente Médio.

Segundo o novo relatório da instituição, o Produto Interno Bruto (PIB) da Alemanha deverá crescer apenas 0,5% em 2026, abaixo da estimativa anterior de 0,6%. Para 2027, a projeção foi reduzida de 1,3% para 0,8%. O documento destaca que a expansão fiscal promovida pelo governo será determinante para impedir que a economia entre novamente em contração.

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A avaliação ocorre em um momento de forte deterioração do ambiente internacional. O conflito no Oriente Médio elevou os preços globais da energia, aumentou as pressões inflacionárias e ampliou os custos de financiamento em diversas economias desenvolvidas. Para a Alemanha, que depende fortemente do setor industrial e possui elevada exposição ao comércio internacional, os efeitos já começam a aparecer nos indicadores econômicos.

A análise do Bundesbank acompanha um movimento semelhante realizado pelo Banco Central Europeu (BCE), que também revisou para baixo suas projeções para a zona do euro diante do agravamento do cenário internacional.

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A Gazeta Mercantil apurou que as novas projeções reforçam a percepção de que a recuperação econômica alemã será mais lenta do que o esperado anteriormente, mesmo diante do maior programa de investimentos públicos adotado pelo país nas últimas décadas.

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Gastos com defesa tornam-se principal motor da economia alemã

O Bundesbank afirma que a política fiscal expansionista será o principal fator de sustentação da atividade econômica nos próximos anos.

Após anos de disciplina orçamentária, o governo alemão ampliou significativamente seus investimentos em infraestrutura, modernização industrial e, principalmente, defesa nacional, em resposta ao novo ambiente geopolítico global.

Segundo a instituição, esses gastos deverão adicionar aproximadamente 1,3 ponto percentual ao crescimento acumulado da economia até 2028.

Em seu comunicado, o banco central destacou que os investimentos públicos serão capazes de compensar grande parte dos impactos negativos provocados pela guerra no Oriente Médio.

“A política fiscal expansionista será a única coisa que impedirá uma queda no Produto Interno Bruto durante o semestre de verão”, afirmou o Bundesbank.

O diagnóstico evidencia uma mudança estrutural importante na condução econômica alemã. Tradicionalmente conhecida por seu rigor fiscal e pelo controle rigoroso das contas públicas, a Alemanha passou a utilizar o orçamento como instrumento de estímulo econômico diante das novas ameaças globais.

Analistas apontam que a combinação entre investimentos militares, obras de infraestrutura e modernização energética deverá gerar efeitos positivos sobre emprego, renda e produção industrial nos próximos anos.

Guerra no Irã amplia crise energética e reduz poder de compra

Apesar dos estímulos fiscais, o Bundesbank alerta que os efeitos da guerra no Irã continuam representando um dos principais riscos para a economia alemã.

A escalada militar no Oriente Médio provocou uma forte valorização dos preços internacionais do petróleo e do gás natural, elevando custos para empresas e consumidores.

A Alemanha permanece particularmente vulnerável a choques energéticos desde a crise iniciada após a guerra entre Rússia e Ucrânia, que alterou profundamente o mercado energético europeu.

Segundo o banco central, o aumento dos preços da energia deverá reduzir o poder de compra das famílias ao longo dos próximos meses, limitando o crescimento do consumo interno.

Além disso, diversos setores industriais enfrentam aumento dos custos operacionais, pressionando margens de lucro e reduzindo a competitividade das exportações.

O Ministério da Economia da Alemanha também divulgou avaliação semelhante nesta sexta-feira, afirmando que os preços elevados da energia continuam atuando como um fator moderador da demanda doméstica.

O cenário é especialmente sensível para segmentos intensivos em energia, como siderurgia, química, metalurgia, papel e produção automotiva.

Investimento privado enfrenta ambiente mais desafiador

Outro ponto de preocupação destacado pelo Bundesbank envolve o comportamento do investimento privado.

A combinação entre inflação elevada, juros altos e incerteza geopolítica continua reduzindo o apetite empresarial por novos projetos.

Segundo o relatório, muitas empresas permanecem cautelosas diante das dificuldades para prever custos de produção, condições de financiamento e demanda futura.

Além disso, gargalos logísticos e potenciais interrupções nas cadeias globais de suprimentos continuam representando ameaças para diversos setores produtivos.

O banco central alemão afirma que, mesmo que os efeitos mais severos da guerra diminuam nos próximos anos, o ambiente econômico continuará marcado por elevada volatilidade.

A desaceleração dos investimentos privados é considerada um dos principais obstáculos para uma recuperação mais robusta da economia.

Especialistas observam que o setor corporativo europeu enfrenta atualmente um dos cenários mais complexos desde a pandemia, reunindo desafios simultâneos ligados à inflação, geopolítica, custos financeiros e transformação tecnológica.

Mercado de trabalho ainda não apresenta sinais consistentes de recuperação

Embora a economia alemã deva permanecer em território positivo, o mercado de trabalho continua gerando preocupações.

O Ministério da Economia alertou que não há sinais claros de aceleração das contratações nos próximos meses.

Após três anos de crescimento econômico praticamente estagnado, diversos setores ainda operam abaixo de seu potencial.

Empresas industriais, especialmente aquelas voltadas para exportação, seguem adotando uma postura mais conservadora diante das incertezas internacionais.

O Bundesbank destaca que a recuperação do emprego deverá ocorrer de forma gradual e limitada, acompanhando o ritmo moderado da atividade econômica.

A desaceleração econômica global também reduz a demanda por produtos alemães em mercados importantes, como China, Estados Unidos e outras economias europeias.

Esse contexto dificulta uma retomada mais rápida da produção industrial, tradicional motor da economia alemã.

Inflação permanece acima da meta e mantém pressão sobre BCE

Além das preocupações com o crescimento econômico, o Bundesbank também reforçou os alertas relacionados à inflação.

A instituição prevê que o índice geral de preços alcance 2,9% em 2026 e 2,7% em 2027.

Os números permanecem significativamente acima da meta de 2% perseguida pelo Banco Central Europeu.

Mais preocupante para os formuladores de política monetária é o comportamento da chamada inflação subjacente, que exclui componentes mais voláteis como alimentos e energia.

Segundo as projeções, a inflação subjacente deverá atingir 2,6% neste ano, recuar para 2,5% em 2027 e chegar a 2,3% em 2028.

Os números indicam que a convergência para a meta oficial será mais lenta do que o esperado anteriormente.

O presidente do Bundesbank, Joachim Nagel, já havia sinalizado recentemente que o BCE poderá voltar a elevar juros caso as pressões inflacionárias persistam.

A perspectiva reforça a possibilidade de manutenção de condições financeiras restritivas na zona do euro por um período mais prolongado.

Decisões do BCE ganham peso para mercados globais

As novas projeções da Alemanha possuem relevância que vai além das fronteiras europeias.

Como maior economia da zona do euro e terceira maior do mundo, o desempenho alemão influencia decisões de política monetária, fluxo de capitais, comércio internacional e estratégias de investimento em diversas regiões.

Para investidores globais, a combinação entre crescimento fraco e inflação persistente aumenta a complexidade das decisões dos bancos centrais.

O cenário também afeta diretamente mercados emergentes, incluindo o Brasil, que mantêm importantes relações comerciais com a Europa.

Uma recuperação mais lenta da economia alemã pode reduzir a demanda por produtos industriais, commodities e bens exportados por diversos países.

Ao mesmo tempo, a manutenção de juros elevados na Europa tende a influenciar fluxos internacionais de capital, impactando moedas, bolsas e mercados de dívida ao redor do mundo.

Guerra no Oriente Médio mantém economia europeia sob pressão

O relatório do Bundesbank reforça que a guerra no Oriente Médio se consolidou como um dos principais fatores de risco para a economia global em 2026.

Embora os gastos públicos estejam evitando uma recessão na Alemanha, a combinação entre energia cara, inflação persistente e crescimento modesto continua limitando o potencial de expansão da maior economia europeia.

O banco central alemão avalia que os riscos permanecem inclinados para uma inflação mais alta e para uma atividade econômica mais fraca do que o previsto atualmente.

Nesse ambiente, as decisões do BCE, a evolução dos conflitos geopolíticos e a capacidade dos governos europeus de sustentar programas de investimento continuarão sendo determinantes para o desempenho econômico do continente nos próximos anos.

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