A Raízen (RAIZ4) concluiu nesta terça-feira, 1º de setembro, a venda de suas operações na Argentina para empresas controladas pela Mercuria Energy Group por valor econômico total de US$ 1,42 bilhão. O fechamento transforma em dinheiro e transferência de passivos uma das principais medidas de simplificação de portfólio anunciadas pela companhia durante sua reestruturação financeira.
A transação foi realizada pela subsidiária Raízen Energia e transfere as operações argentinas para Latam Downstream Holdings e Silver Projects I S.A.U., ambas ligadas à Mercuria. O negócio abrange as atividades de downstream da companhia no país, incluindo refino, distribuição de combustíveis e infraestrutura relacionada.
O preço de US$ 1,42 bilhão, porém, não corresponde integralmente a recursos que entrarão no caixa da Raízen. O valor econômico combina uma parcela paga em dinheiro com a assunção, pelo comprador, do endividamento da Raízen Argentina.
Além disso, ainda haverá ajustes pós-fechamento calculados a partir das demonstrações financeiras da operação. Somente depois dessa etapa será possível determinar quanto a Raízen efetivamente receberá em caixa.
Essa distinção ganha importância diante do tamanho da reestruturação financeira da companhia. Em 30 de julho, a Justiça de São Paulo homologou o plano de recuperação extrajudicial da Raízen, tornando efetivo o reperfilamento de aproximadamente R$ 61,4 bilhões em dívidas financeiras quirografárias.
O valor econômico da venda argentina, convertido à ordem de grandeza do câmbio atual, equivale a aproximadamente R$ 7,4 bilhões. Isso corresponde a cerca de 12% dos R$ 61,4 bilhões de dívida financeira abrangidos pela recuperação extrajudicial. A comparação serve para mostrar a dimensão do negócio, mas não significa que a dívida da Raízen cairá automaticamente nesse mesmo montante, uma vez que parte do preço é formada por passivos assumidos pela compradora e o caixa líquido ainda depende dos ajustes da operação.
Venda encerra ciclo iniciado há oito anos
A saída da Argentina encerra uma expansão internacional iniciada em 2018, quando a Raízen comprou da própria Shell seu negócio de downstream no país.
Naquele momento, a operação foi anunciada por US$ 950 milhões em dinheiro e incluía a refinaria de Buenos Aires, aproximadamente 645 postos de combustíveis, negócios de gás liquefeito de petróleo, combustíveis marítimos e de aviação, asfaltos, químicos, lubrificantes, além de atividades de abastecimento e distribuição.
A aquisição era parte da estratégia de levar à Argentina o modelo de distribuição que Raízen já operava no Brasil. A companhia passou a administrar uma rede que tinha participação relevante no mercado argentino e manteve o uso da marca Shell por meio de acordos comerciais.
O valor econômico de US$ 1,42 bilhão anunciado agora é US$ 470 milhões superior aos US$ 950 milhões informados na aquisição de 2018, diferença nominal de aproximadamente 49,5%.
Os valores, entretanto, não permitem concluir que a Raízen obteve retorno de 49,5% sobre o investimento. As bases das duas operações não são diretamente comparáveis. O negócio de 2018 foi apresentado como pagamento em dinheiro e partia de determinadas premissas de endividamento, enquanto a transação de 2026 inclui explicitamente a assunção de dívida da subsidiária argentina e está sujeita a ajustes de fechamento.
Também houve oito anos de investimentos, geração de resultados, alterações patrimoniais e mudanças cambiais entre as duas transações.
Mercuria passa a controlar refino e distribuição
A Mercuria havia anunciado em 4 de junho a assinatura do acordo vinculante para comprar 100% das operações de downstream e atividades relacionadas da Raízen na Argentina.
Na ocasião, o grupo suíço informou que a aquisição compreendia refino, distribuição de combustíveis e infraestrutura associada e afirmou considerar a Argentina um mercado estratégico para seus investimentos de longo prazo em energia.
O fechamento dependia de condições precedentes e autorizações regulatórias. A conclusão comunicada nesta terça-feira confirma que essas etapas foram cumpridas.
Para a Mercuria, a aquisição aumenta sua presença em um mercado onde o grupo já mantém outras posições no setor energético. Em agosto, a companhia anunciou, juntamente com a Continental Resources, uma operação envolvendo a Phoenix Global Resources e ativos de exploração na formação de Vaca Muerta.
Isso cria uma presença argentina que combina atividades de produção e investimentos no upstream com a plataforma de downstream adquirida da Raízen.
A Mercuria atua globalmente em petróleo e derivados, gás natural, gás natural liquefeito, eletricidade, metais e outros mercados de commodities. Em 2025, o grupo informou receita bruta de US$ 128 bilhões e patrimônio total de US$ 6,3 bilhões.
Recursos entram no plano de reorganização financeira
Para a Raízen, o principal significado da venda é financeiro.
A empresa afirmou que os recursos líquidos obtidos com a transação serão destinados à gestão de sua estrutura de capital. O desinvestimento faz parte de um programa mais amplo que combina redução de investimentos, venda de ativos, simplificação societária e renegociação do endividamento.
A pressão financeira tornou-se um dos maiores problemas da companhia nos últimos exercícios.
Quando pediu a recuperação extrajudicial, o grupo informou dívida bruta consolidada de R$ 65,14 bilhões na data de ajuizamento. A recuperação abrangeu os créditos financeiros quirografários, enquanto obrigações comerciais com clientes, fornecedores, revendedores e outros parceiros ficaram fora do plano.
A Justiça homologou a recuperação em julho depois de a companhia alcançar adesão de 81,6% dos credores financeiros sujeitos ao plano. Nenhum desses credores apresentou impugnação.
Com a decisão, aproximadamente R$ 61,4 bilhões em dívidas financeiras contratadas com instituições e emitidas nos mercados de capitais brasileiro e internacional passaram a estar submetidos ao novo perfil de pagamento.
O plano também prevê medidas de capitalização e reorganização societária. A estratégia vai além do simples alongamento de vencimentos: busca alterar simultaneamente a estrutura de dívida, o capital e o conjunto de ativos mantidos pela companhia.
Resultado financeiro ainda consome melhora operacional
Os números mais recentes mostram por que a redução do passivo permanece central para a Raízen.
No primeiro trimestre da safra 2026/27, período entre abril e junho, a companhia registrou prejuízo líquido de aproximadamente R$ 1,64 bilhão. O resultado negativo caiu cerca de 11% frente ao mesmo intervalo do exercício anterior, mas continuou elevado.
Ao mesmo tempo, indicadores operacionais melhoraram.
A receita líquida cresceu aproximadamente 4%, para R$ 51,46 bilhões, enquanto o Ebitda ajustado mais que dobrou e alcançou cerca de R$ 3,85 bilhões.
O problema aparece principalmente abaixo do resultado operacional. O resultado financeiro foi negativo em aproximadamente R$ 2,97 bilhões, deterioração de mais de 40% em relação ao mesmo trimestre do ano anterior.
Em outras palavras, mesmo com forte avanço do Ebitda, o peso financeiro continuou impedindo que a melhora operacional fosse convertida em lucro.
Esse contraste explica a prioridade atribuída à reestruturação do balanço.
A companhia também cortou investimentos. O capex total ficou em aproximadamente R$ 1,05 bilhão entre abril e junho, queda de 32,6% na comparação anual.
A dívida líquida encerrou junho em cerca de R$ 56,9 bilhões, ainda muito elevada em relação à geração de resultados da empresa.
Distribuição brasileira ganhou força
Enquanto deixa a Argentina, a Raízen preserva como uma de suas principais operações a distribuição de combustíveis no Brasil.
No primeiro trimestre do ano-safra, o volume comercializado pela divisão brasileira cresceu 6,6%, alcançando aproximadamente 7,18 bilhões de litros.
O desempenho ajudou a ampliar o resultado operacional justamente no momento em que a administração está redefinindo os ativos que permanecerão no grupo.
A concentração no Brasil reduz a dispersão geográfica e elimina uma estrutura internacional que exigia capital próprio, administração e financiamento.
Por outro lado, a venda também retira do grupo uma operação integrada relevante, com refino e distribuição no segundo maior mercado da América do Sul.
A decisão evidencia a mudança de prioridade. O crescimento internacional deixou de ser central diante da necessidade de preservar liquidez, reduzir complexidade e reorganizar o balanço.
Venda argentina não resolve sozinha o endividamento
Apesar do tamanho da transação, o desinvestimento argentino isoladamente não encerra a reestruturação financeira.
A principal razão é a diferença entre o valor econômico divulgado e o dinheiro efetivamente disponível para amortização ou gestão de passivos.
Dos US$ 1,42 bilhão, uma parcela corresponde à dívida argentina assumida pela Mercuria. Outra parcela será paga em dinheiro. O preço ainda sofrerá ajustes derivados das demonstrações financeiras de fechamento.
A companhia não informou nesta terça-feira qual é exatamente a parcela em caixa, quanto da dívida argentina será transferida ou qual será o valor líquido final depois dos ajustes.
Esses números serão necessários para medir com precisão o efeito da operação sobre liquidez, dívida líquida e alavancagem.
Também serão relevantes os próximos balanços, que mostrarão como a retirada dos ativos argentinos altera receita, Ebitda, dívida e despesas financeiras consolidadas.
Próximas etapas passam pelo restante da reestruturação
Com a venda argentina concluída, a atenção se volta para a execução das demais medidas previstas no plano financeiro da Raízen.
A empresa ainda precisa avançar no reperfilamento dos passivos, nas etapas de capitalização e nas reorganizações societárias previstas na recuperação extrajudicial, além de continuar avaliando ativos que não são considerados prioritários.
A homologação judicial em julho encerrou a etapa de aprovação do plano pelos credores, mas abriu uma fase operacional mais complexa: transformar os novos termos financeiros e os desinvestimentos em redução efetiva de alavancagem.
A venda para a Mercuria representa um dos maiores ativos já movimentados nessa estratégia. Ela também marca uma mudança relevante em relação ao ciclo iniciado em 2018, quando a entrada na Argentina era apresentada como expansão internacional.
O balanço financeiro da operação só poderá ser medido integralmente quando a Raízen divulgar o valor líquido recebido e os efeitos contábeis do fechamento. Até lá, o dado objetivo é que a companhia transferiu uma operação avaliada economicamente em US$ 1,42 bilhão enquanto executa a reestruturação de R$ 61,4 bilhões em dívida financeira — duas dimensões que mostram, ao mesmo tempo, o tamanho do desinvestimento e a escala do desafio ainda existente.
Fontes:
Raízen – fato relevante sobre a conclusão da venda das operações de downstream na Argentina e destinação dos recursos líquidos
Mercuria Energy Group – comunicado sobre a aquisição das operações de refino, distribuição e infraestrutura da Raízen Argentina
Tribunal de Justiça de São Paulo e documentos regulatórios – processo e homologação do Plano de Recuperação Extrajudicial da Raízen, com reperfilamento de aproximadamente R$ 61,4 bilhões
Raízen – informações financeiras do primeiro trimestre da safra 2026/27 sobre receita, Ebitda, prejuízo, investimentos e endividamento
Shell Argentina – comunicado de 2018 sobre a venda do negócio de downstream argentino à Raízen por US$ 950 milhões
Mercuria Energy Group – informações institucionais e investimentos recentes na Argentina







